O Livro Negro Do Comunismo

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Stéphane Courtois, Nicolas Werth, 
Jean-Louis Panné, Andrzej Paczkowski, 
Karel Bartosek, Jean-Louis Margolin 
COMUNISMO 


CRIMES, TERROR E REPRESSÃO


BERTRAND BRASIL

Stéphane Courtois, Nicolas Werth, 
Jean-Louis Panné, Andrzej Paczkowski, 
Karel Bartosek, Jean-Louis Margolin 


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COMUNISMO 


CRIMES, TERROR E REPRESSÃO 


BERTRAND BRASIL 





Stéphane Courtois e outros - O Livro Negro do Comunismo - Crimes, Terror e Repressão — by PapaiNoel 


O LIVRO NEGRO DO COMUNISMO 
Crimes, terror e repressão 


JEAN-LOUIS PANNÉ, ANDRZEJ PACZKOWSKI, KAREL BARTOSEK, JEAN-LOUIS MARGOLIN 
com a colaboração de Remi Kauffer, Pierre Rigoulot, Pascal Fontaine, Yves Santamaria e Sylvain Boulougque 
Tradução CAIO MEIRA 

BERTRAND BRASIL 


Título original: Lê livre noirdu communisme Obra publicada sob a direção de Charles Ronsac Capa: Raul 
Fernandes Editoração: Art Line 1999 

Impresso no Brasil 

Printed in Brazil 

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte 

Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ 

L762 O livro negro do comunismo: crimes, terror e repressão / Stéphane 

Courtois... [et ai.]; com a colaboração de Remi Kauffér... [et ai.]; tradução Caio Meira. - Rio de Janeiro: 
Bertrand Brasil, 1999. 924p., [32] p. de estampas: il. 

Tradução de: Lê livre noir du communisme ISBN 85-286-0732-1 

1. Comunismo - História - Século XX. 2. Perseguição política. 3. Terrorismo. I. Courtois, Stéphane, 1947-. 

CDD - 320.299-1236 CDU-321. 

Todos os direitos reservados pela: 

BCD UNIÃO DE EDITORAS S.A. 

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Não é permitida a reprodução total ou parcial desta obra, por quaisquer meios, sem a prévia autorização por 
escrito da Editora. 

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Contracapa e orelha: 


Outubro de 1917: o golpe de estado bolchevique significou bem mais do que a queda do czarismo e a subida 
ao poder de um grupo de políticos idealistas. A revolução liderada por Lenin tornou-se o ícone que representaria o 
começo de uma nova era para a humanidade, anunciando uma sociedade mais justa e um homem mais consciente de 
sua relação com seu semelhante. 

Novembro de 1989: a queda do Muro de Berlim e a conseqiiente abertura dos arquivos dos países comunistas 
apareceram para o mundo como a derrocada final do sonho comunista. 

O LIVRO NEGRO DO COMUNISMO traz a público o saldo estarrecedor de mais de sete décadas de 
história de regimes comunistas: massacres em larga escala, deportações de populações inteiras para regiões sem a 
mínima condição de sobrevivência, expurgos assassinos liquidando o menor esboço de oposição, fome e miséria 
provocadas que dizimaram indistintamente milhões de pessoas, enfim, a aniquilação de homens, mulheres, crianças, 
soldados, camponeses, religiosos, presos políticos e todos aqueles que, pelas mais diversas razões, se encontraram no 
caminho de implantação do que, paradoxalmente, nascera como promessa de redenção e esperança. 

Os autores, historiadores que permanecem ou estiveram ligados à esquerda, não hesitam em usar a palavra 
genocídio, pois foram cerca de 100 milhões de mortos! Esse número assustador ultrapassa amplamente, por exemplo, o 
número de vítimas do nazismo e até mesmo o das duas guerras mundiais somadas. Genocídio, holocausto, portanto, 
confirmado pelos vários relatos de sobreviventes e, principalmente, pelas revelações dos arquivos hoje acessíveis. 

O terror - o Terror Vermelho - foi o principal instrumento utilizado por comunistas tanto para a tomada do 
poder quanto para a sua manutenção, e também por grupos de oposição que jamais chegaram ao governo. Os fatos 
demonstram: o terrorismo de oposição e o terrorismo de Estado, com frequência praticados contra o seu próprio povo, 
são as grandes características do comunismo no século XX. 


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Obstinados, pragmáticos, carismáticos, os líderes comunistas, que guiariam o mundo a seu destino inelutável, 
têm revelada a sua face sombria: Lenin, Stalin, Mao Zedong, Pol Pot, Ho Chi Minh, Fidel Castro e muitos outros 
tornam-se os responsáveis diretos pelas atrocidades cometidas em nome do ideal comunista. Sob seus olhares zelosos, 
os "obstáculos" - qualquer homem, cidade ou povo - foram sendo exterminados com violência e brutalidade. 


O LIVRO NEGRO DO COMUNISMO não quer justificar nem encontrar causas para tais atrocidades. 
Tampouco pretende ser mais um capítulo na polêmica entre esquerda e direita, discutindo fundamentos ou teorias 
marxistas. Trata-se, sobretudo, de dar nome e voz às vítimas e a seus algozes. Vítimas ocultas por demasiado tempo 
sob a máquina de propaganda dos PCs espalhados pelo mundo. Algozes muitas vezes festejados e recebidos com toda a 
pompa pelas democracias ocidentais. 

Todos que de algum modo tomaram parte na aventura comunista neste século estão, doravante, obrigados a rever as 
suas certezas e convicções. 

Encontra-se, assim, uma das principais virtudes deste livro: à luz dos fatos aqui revelados, o Terror Vermelho 
deve estar presente na consciência dos que ainda crêem num futuro para o comunismo. 

Como um ideal de emancipação e de fraternidade universal pode ter-se transformado, na manhã seguinte ao 
Outubro de 1917, numa doutrina de onipotência do Estado, praticando a disseminação sistemática de grupos inteiros, 
sociais ou nacionais, recorrendo às deportações em massa e, com demasiada fregiência, aos massacres gigantescos? O 
véu da denegação pode enfim ser completamente destruído. A rejeição do comunismo pela maioria dos povos em 
questão, a abertura de inúmeros arquivos que ainda ontem eram secretos, a multiplicação de testemunhos e contatos 
trazem o foco para o que amanhã será uma evidência: os países comunistas tiveram maior êxito no cultivo de 
arquipélagos de campos de concentração do que nos do trigo; eles produziram mais cadáveres do que bens de consumo. 

Uma equipe de historiadores e de universitários assumiu o empreendimento - - em cada um dos continentes e 
dos países envolvidos - - de fazer um balanço o mais completo possível dos crimes cometidos sob a bandeira do 
comunismo: os locais, as datas, os fatos, os carrascos, as vítimas contadas às dezenas de milhões na URSS e na China, 
e aos milhões em pequenos países como a Coreia do Norte e o Camboja. 


80 ANOS APÓS O GOLPE DE ESTADO BOLCHEVIQUE, O PRIMEIRO LIVRO DE REFERÊNCIA 
SOBRE UMA TRAGÉDIA DE DIMENSÃO PLANETÁRIA. 

NUMEROSOS TESTEMUNHOS, MAPAS DOS "GULAGS" E DAS DEPORTAÇÕES, 32 PÁGINAS DE 
FOTOGRAFIAS. 


Os autores: 

Pesquisador-chefe do CNRS, o Centro Nacional de Pesquisa Científica francês, Stéphane Courtois dirige a 
revista Communisme e é co-autor do livro Histoire du parti communiste français. Professor agrégé de história, 
pesquisador do CNRS, Nicolas Werth, especialista em URSS, é principalmente o autor de uma Histoire de L'Union 
Soviétique. Jean-Louis Panné é o autor da biografia Boris Souvorine. Pesquisador do CNRS, diretor da revista La 
Nouvelle Alternative, Karel Bartosek é o autor de Aveux des Archives. Praga-Paris-Praga. Professor agrégé de história, 
Jean-Louis Margolin é maitre de conférences da Universidade de Provence. Professor do Instituto de Estudos Políticos 
de Varsóvia, Andrzej Paczkowski é membro do Conselho dos Arquivos do Ministério do Interior. Com a colaboração 
de Remi Kauffer, Pierre Rigoulot, Pascal Fontaine, Yves Santamaria e Sylvain Boulouque. 

BERTRAND BRASIL 


O editor e os autores dedicam este livro 
à memória de François Furet, que havia concordado em redigir o seu prefácio. 


SUMÁRIO 

OS CRIMES DO COMUNISMO 

PRIMEIRA PARTE - UM ESTADO CONTRA O POVO 
1. Paradoxos e equívocos de Outubro 

2. O “braço armado da ditadura do proletariado” 


3. O Terror Vermelho 
4. A “guerra suja” 


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5. De Tambov à grande fome 

6. Da trégua à “grande virada” 

7. Coletivização forçada e deskulakização 
8. A grande fome 

9. “Elementos estranhos à sociedade” e ciclos repressivos 
10. O Grande Terror (1936-1938) 

11. O império dos campos de concentração 
12. O avesso de uma vitória 

13. Apogeu e crise do Gulag 

14. O último complô 

15. A saída do Stalinismo 

À guisa de conclusão 


SEGUNDA PARTE - REVOLUÇÃO MUNDIAL, GUERRA CIVIL E TERROR 


1. O Komintern em ação 

A revolução na Europa 

Komintern e guerra civil 

Ditadura, incriminação dos opositores e repressão no interior do Komintern 
O grande terror atinge o Komintern 

Terror no interior dos partidos comunistas 

A caça aos “trotskistas” 

Antifascistas e revolucionários estrangeiros vítimas do terror na URSS 
Guerra civil e guerra de libertação nacional 

2. A sombra do NKVD sobre a Espanha 

A linha geral dos comunistas 

“Conselheiros” e agentes 

“Depois das calúnias... as balas na nuca” 

Maio de 1937 e a liquidação do POUM 

O NKVD em ação 

Um “julgamento de Moscou” em Barcelona 

Dentro das Brigadas Internacionais 

Exílio e morte na “pátria dos proletários” 

3. Comunismo e terrorismo 


TERCEIRA PARTE - A OUTRA EUROPA VÍTIMA DO COMUNISMO 


1. Polônia, a “nação inimiga” 

O caso do POW (Organização Militar Polonesa) e a “operação polonesa” do NKVD (1933-1938) 
Katyn, prisões e deportações (1939-1941) 

O NKVD contra a Armia Krajowa (Exército Nacional) 

Bibliografia 

Polônia 1944-1989: o sistema de repressão 

À conquista do Estado ou o terror de massa (1944-1947) 

A sociedade como objetivo de conquista ou o terror generalizado (1948-1956) 


O socialismo real ou o sistema de repressão seletiva (1956-1981) 
O estado de guerra, uma tentativa de repressão generalizada 

Do cessar-fogo à capitulação, ou a confusão do poder (1986-1989) 
Bibliografia 

2. Europa Central e do Sudeste 

Terror “importado”? 

Os processos políticos contra os aliados não comunistas 

A destruição da sociedade civil 

O sistema concentracionário e a “gente do povo” 

Os processos dos dirigentes comunistas 


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Do “pós-terror” ao pós-comunismo 
Uma gestão complexa do passado 
Bibliografia selecionada 


QUARTA PARTE - COMUNISMOS DA ÁSIA: ENTRE “REEDUCAÇÃO” E MASSACRE 


1. China: uma longa marcha na noite 

Uma tradição de violência”? 

Uma revolução inseparável do terror (1927-1946) 
Reforma agrária e expurgos urbanos (1946-1957) 
Os campos: submissão e engenharia social 

As cidades: “tática do salame” e expropriações 

A maior fome da história (1959-1961) 

Um “Gulag” escondido: o laogai 

A Revolução Cultural: um totalitarismo anárquico (1966-1976) 
A era Deng: desagregação do terror (depois de 1976) 
Tibet: um genocídio no teto do mundo? 

2. Coreia do Norte, Vietnã e Laos: a semente do Dragão 
Crimes, terror e segredo na Coreia do Norte 

Antes da constituição do Estado comunista 

Vítimas da luta armada 

Vítimas comunistas do Partido-Estado norte-coreano 
As execuções 

Prisões e campos 

O controle da população 

Tentativa de genocídio intelectual? 

Uma hierarquia estrita 

A fuga 

Atividades no exterior 

Fome e miséria 

Balanço final 

Vietnã: os impasses de um comunismo de guerra 
Laos: populações em fuga 

3. Camboja: no país do crime desconcertante 

A espiral do horror 

Variações em torno de um martirológio 

A morte cotidiana no tempo de Pol Pot 

As razões da loucura 

Um genocídio? 

Conclusão 


Seleção bibliográfica Ásia 


QUINTA PARTE - O TERCEIRO MUNDO 

1. A América Latina e a experiência comunista 
Cuba. O interminável totalitarismo tropical 
Nicarágua: o fracasso de um projeto totalitário 
Peru: a “longa marcha” sangrenta do Sendero Luminoso 
Orientações bibliográficas 

2. Afrocomunismos: Etiópia, Angola, Moçambique 
O comunismo de cores africanas 

O Império Vermelho: a Etiópia 

Violências lusófonas: Angola, Moçambique 

A República Popular de Angola 

Moçambique 

3. O comunismo no Afeganistão 


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O Afeganistão e a URSS de 1917 a 1973 

Os comunistas afeganes 

O golpe de Estado de Mohammed Daud 

O golpe de Estado de abril de 1978 ou a “Revolução de Saur 
A intervenção soviética 

A amplitude da repressão 


, 


PORQUÊ? 
OS AUTORES 
ÍNDICE ONOMÁSTICO 


OS CRIMES DO COMUNISMO 
[por Stéphane Courtois | 


“A vida perdeu para a morte, 
mas a memória ganha 
seu combate contra o nada.” 


Tzvetan Todorov 

Os abusos da memória 

Já se escreveu que “a história é a ciência da infelicidade dos homens”; nosso século de violência parece 
confirmar essa fórmula de maneira eloquente. É verdade que nos séculos precedentes poucos povos e poucos Estados 
estiveram isentos da violência de massa. As principais potências européias estiveram implicadas no tráfico de negros; a 
república francesa praticou uma colonização que, apesar de algumas contribuições, foi marcada por numerosos 
episódios repugnantes, e isso até o seu término. Os Estados Unidos permanecem impregnados de uma certa cultura da 
violência que se enraíza em dois dos mais terríveis crimes: a escravidão dos negros e o extermínio dos índios. 

Não resta dúvida de que, a esse respeito, nosso século deve ter ultrapassado seus predecessores. Um olhar 
retrospectivo impõe uma conclusão incômoda: este foi o século das grandes catástrofes humanas - duas guerras 
mundiais, o nazismo, sem falar das tragédias mais circunscritas, como as da Arménia, Biafra, Ruanda e outros países. 
Com efeito, o Império Otomano entregou-se ao genocídio dos arménios, e a Alemanha ao dos judeus e dos ciganos. A 
Itália de Mussolini massacrou os etíopes. Os tchecos têm dificuldades em admitir que seu comportamento em relação 
aos alemães dos Sudetos, em 1945-1946, não esteve acima de qualquer suspeita. A própria Suíça é hoje alcançada por 
seu passado como o país que gerenciava o ouro roubado pelos nazistas dos judeus exterminados, apesar desse 
comportamento não ser em nenhuma medida tão atroz quanto o do genocídio. 

O comunismo insere-se nessa faixa de tempo histórico transbordante de tragédias, chegando mesmo a 
constituir um de seus momentos mais intensos e mais significativos. O comunismo, um dos fenómenos mais 
importantes deste curto século XX - que começa em 1914 e termina em Moscou em 1991 -, encontra-se no centro desse 
quadro. Um comunismo que preexistia ao fascismo e ao nazismo, e que sobreviveu a eles, atingindo os quatro grandes 
continentes. 

O que designamos precisamente com a denominação “comunismo”? 

Devemos, desde já, introduzir uma distinção entre a doutrina e a prática. Como filosofia política, o comunismo 
existe há séculos, e quem sabe, há milénios. Pois não foi Platão quem, em A República, fundou a idéia de uma cidade 
ideal na qual os homens não seriam corrompidos pelo dinheiro e pelo poder, na qual a sabedoria, a razão e a justiça 
comandariam? Não foi um pensador e estadista tão eminente quanto Sir Thomas More, chanceler da Inglaterra em 
1530, autor da famosa Utopia e morto sob o machado do carrasco de Henrique VIII, um outro precursor da idéia dessa 
cidade ideal? O método utópico parece perfeitamente legítimo como instrumento crítico da sociedade. Ele participa do 
debate das idéias - oxigénio de nossas democracias. Entretanto, o comunismo aqui abordado não se situa no céu das 
idéias. É um comunismo bem real, que existiu numa determinada época, em determinados países, encarnado por líderes 
célebres - Lenin, Stalin, Mão, Ho Chi Minh, Castro, e te., e, mais próximos da história política francesa, Maurice 
Thorez, Jacques Duelos, Georges Marchais. 

Qualquer que seja o grau de envolvimento da doutrina comunista anterior a 1917 na prática do comunismo real 
- retornaremos a esse ponto -, foi este quem pôs em prática uma repressão metódica, chegando a instituir, em momentos 
de grande paroxismo, o terror como modo de governo. Isso faz com que a ideologia seja inocente? Os espíritos 
ressentidos ou escolásticos sempre poderão sustentar que o comunismo real não tem nada a ver com o comunismo 
ideal. Evidentemente, seria absurdo imputar a teorias elaboradas antes de Cristo, durante a Renascença ou mesmo o 


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século XDC, eventos que surgiram no decorrer do século XX. Entretanto, como escreve Ignazio Silone, “na verdade, as 
revoluções são como as árvores, elas são reconhecidas através de seus frutos”. Não foi sem razão que os social- 
democratas russos, conhecidos como “bolcheviques”, decidiram, em novembro de 1917, chamar a si próprios de 
“comunistas”. Tampouco foi por acaso que erigiram junto ao Kremlin um monumento em glória daqueles que eles 
consideravam seus precursores: More ou Campanella. 

Excedendo os crimes individuais, os massacres pontuais, circunstanciais, os regimes comunistas erigiram, para 
assegurar o poder, o crime de massa como verdadeiro sistema de governo. É certo que no fim de um período de tempo 
variável - alguns anos no Leste Europeu ou várias décadas na URSS ou na China - o terror perdeu seu vigor, os regimes 
estabilizaram-se na gestão da repressão cotidiana, censurando todos os meios de comunicação, controlando as 
fronteiras, expulsando os dissidentes. Mas a “memória do terror” continuou a assegurar a credibilidade e, 
consequentemente, a eficácia da ameaça repressiva. Nenhuma das experiências comunistas, populares durante algum 
tempo no Ocidente, escapou a essa lei: nem a China do “Grande Timoneiro”, nem a Coreia de Kim II Sung, nem 
mesmo o Vietnã do “gentil Tio Ho” ou a Cuba do flamejante Fidel, ladeado pela pureza de um Che Guevara, não se 
esquecendo da Etiópia de Mengistu, da Angola de Neto e do Afeganistão de Najibullah. 

Ora, os crimes do comunismo não foram submetidos a uma avaliação legítima e normal, tanto do ponto de 
vista histórico quanto do ponto de vista moral. Sem dúvida, trata-se aqui de uma das primeiras vezes que se tenta uma 
aproximação do comunismo, perguntando-se sobre esta dimensão criminosa como uma questão ao mesmo tempo 
global e central. Poderão retorquir-nos que a maioria dos crimes respondia a uma “legalidade”, ela própria sustentada 
por instituições pertencentes aos regimes vigentes, reconhecidos no plano internacional e cujos chefes eram recebidos 
com grande pompa por nossos próprios dirigentes. Mas não ocorreu o mesmo com o nazismo? Os crimes que expomos 
neste livro não se definem em relação à jurisdição dos regimes comunistas, mas ao código não escrito dos direitos 
naturais da humanidade. 

A história dos regimes e dos partidos comunistas, de sua política, de suas relações com as sociedades nacionais 
e com a comunidade internacional não se resume a essa dimensão criminosa, ou mesmo a uma dimensão de terror e de 
repressão. Na URSS e nas “democracias populares” depois da morte de Stalin, na China após a morte de Mão, o terror 
atenuou-se, a sociedade começou a retomar suas cores, a “coexistência pacífica” - mesmo sendo ainda “uma 
continuação da luta de classes sob outras formas” - tornou-se um dado permanente da vida internacional. Entretanto, os 
arquivos e os testemunhos abundantes mostram que o terror foi, desde sua origem, uma das dimensões fundamentais do 
comunismo moderno. Abandonemos a idéia de que tal execução de reféns, tal massacre de trabalhadores revoltados, tal 
hecatombe de camponeses mortos de fome, foram somente “acidentes” conjunturais, próprios a tais países ou a tal 
época. O nosso método ultrapassa a especificidade de cada terreno e considera a dimensão criminosa como uma das 
dimensões próprias ao conjunto do sistema comunista, durante todo o seu período de existência. 

Do que falaremos, de quais crimes? O comunismo cometeu inúmeros: inicialmente, crimes contra o espírito, 
mas também crimes contra a cultura universal e contra as culturas nacionais. Stalin ordenou a demolição de centenas de 
igrejas em Moscou; Ceaucescu destruiu o coração histórico de Bucareste para construir edifícios e traçar perspectivas 
megalomaníacas; Pol Pot fez com que fosse desmontada pedra por pedra a Catedral de Phnom Penh e abandonou à 
selva os templos de Angkor; durante a revolução cultural maoísta, tesouros inestimáveis foram quebrados ou 
queimados pelas Guardas Vermelhas. Entretanto, por mais graves que tenham sido essas destruições, a longo prazo, 
para as nações envolvidas e para a humanidade inteira, em que medida elas pesam em face do assassinato em massa de 
pessoas, de homens, de mulheres, de crianças? 

Portanto, consideramos apenas os crimes contra as pessoas, os que constituem a essência do fenómeno do 
terror. Esses respondem a uma nomenclatura comum, mesmo que tal prática seja mais acentuada neste ou naquele 
regime: execução por meios diversos - fuzilamento, enforcamento, afogamento, espancamento e, em alguns casos, gás 
de combate, veneno ou acidente de automóvel; destruição pela fome - indigência provocada e/ou não socorrida; 
deportação - a morte podendo ocorrer no curso do transporte (em caminhadas a pé ou em vagões para animais) ou nos 
locais de residência e/ou de trabalhos forçados (esgotamento, doença, fome, frio). O caso dos períodos ditos de “guerra 
civil” é mais complexo: não é fácil distinguir o que decorre do combate entre poder e rebeldes e o que é massacre da 
população civil. 

Contudo, podemos estabelecer os números de um primeiro balanço que pretende ser somente uma 
aproximação mínima e que necessitaria ainda de uma maior precisão, mas que, de acordo com estimativas pessoais, dá 
uma dimensão da grandeza e permite sentir a gravidade do assunto: 

- URSS, 20 milhões de mortos, 

- China, 65 milhões de mortos, 

- Vietnã, 1 milhão de mortos, 

- Coreia do Norte, 2 milhões de mortos, 

- Camboja, 2 milhões de mortos, 


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- Leste Europeu, 1 milhão de mortos, 

- América Latina, 150.000 mortos, 

- África, 1,7 milhão de mortos, 

- Afeganistão, 1,5 milhão de mortos, 

- Movimento comunista internacional e partidos comunistas fora do poder, uma dezena de milhões de mortos. 

O total se aproxima da faixa dos cem milhões de mortos. 

Essa escala de grandeza recobre situações de grande disparidade. É incontestável que, em valor relativo, o 
“trofeu” vai para o Camboja, onde Pol Pot, em três anos e meio, conseguiu matar da maneira mais atroz - a fome, a 
tortura - aproximadamente um quarto da população total do país. Entretanto, a experiência maoísta choca pela 
amplitude das massas atingidas. Quanto à Rússia leninista ou stalinista, ela dá calafrios por seu lado experimental, 
porém perfeitamente refletido, lógico, político. 

Essa abordagem elementar não poderia esgotar a questão cujo aprofundamento implica a utilização de um 
método “qualitativo” que repouse na definição de crime. Tal definição deve apoiar-se em critérios “objetivos” e 
jurídicos. A questão do crime cometido por um Estado foi tratada pela primeira vez, do ponto de vista jurídico, em 
1945, no tribunal de Nuremberg instituído pelos Aliados para julgar os crimes nazistas. A natureza desses crimes foi 
definida pelo artigo 6 dos estatutos do tribunal, que designa três crimes maiores: os crimes contra a paz, os crimes de 
guerra, os crimes contra a humanidade. Ora, um exame do conjunto dos crimes cometidos sob o regime leninis- 
ta/stalinista, e também no mundo comunista em geral, conduz-nos ao reconhecimento de cada uma dessas três 
categorias. 

Os crimes contra a paz são definidos pelo artigo 6a e concernem “a dire-ção, a preparação, o início ou o 
prosseguimento de uma guerra de agressão, ou de uma guerra de violação de tratados, garantias ou acordos 
internacionais, ou a participação num plano concertado ou num complô para a consecução de qualquer um dos atos 
precedentes”. Stalin cometeu incontestavelmente esse tipo de crime, pelo menos quando negociou secretamente com 
Hitler, através dos tratados de 23 de agosto e de 28 de setembro de 1939, a partilha da Polônia e a anexação dos Países 
Bálticos, da Bucovina do Norte e da Bessarábia à URSS. O tratado de 23 de agosto, libertando a Alemanha do perigo 
de um combate em duas frentes, provocou diretamente o início da Segunda Guerra Mundial. Stalin perpetrou um novo 
crime contra a paz ao agredir a Finlândia em 30 de novembro de 1939. O ataque imprevisto da Coreia do Norte contra a 
Coreia do Sul em 25 de junho de 1950 e a intervenção maciça do exército da China comunista são atos da mesma 
ordem. Os métodos de subversão, assumidos durante um tempo pelos partidos comunistas comandados por Moscou, 
poderiam igualmente ser assimilados aos crimes contra a paz, pois sua ação desembocou em algumas guerras; assim, o 
golpe de Estado comunista no Afeganistão acarretou, em 27 de dezembro de 1979, uma intervenção militar maciça da 
URSS, inaugurando uma guerra que ainda não terminou. 

Os crimes de guerra são definidos no artigo 6b como “as violações das leis e costumes da guerra. Essas 
violações compreendem - sem estarem limitadas a isto, porém - o assassinato, maus-tratos ou deportação para trabalhos 
forcados, ou ainda com outro objetivo, das populações civis dos territórios ocupados, o assassinato ou maus-tratos de 
prisioneiros de guerra e de pessoas no mar, a execução de reféns, a pilhagem dos bens públicos ou privados, a 
destruição sem motivos de cidades e povoados ou a devastação não justificada por exigências militares”. As leis e 
costumes de guerra estão inscritos em convenções, sendo que a mais conhecida dentre elas é a Convenção de Haia de 
1907, que estipula: “Em tempos de guerra, as populações e os beligerantes permanecem sob o império dos princípios 
do direito internacional, tais como os que resultam dos usos estabelecidos pelas nações civilizadas, as leis da 
humanidade e as exigências da consciência pública.” 

Ora, Stalin ordenou ou autorizou numerosos crimes de guerra, sendo a execução da quase-totalidade dos 
oficiais poloneses aprisionados em 1939 -dos quais os 4.500 mortos de Katyn são apenas um episódio - o crime mais 
espetacular. Mas outros crimes de amplitude ainda maior passaram despercebidos, como o assassinato ou a morte no 
Gulagfreqiiência de centenas de milhares de militares alemães aprisionados entre 1943 e 1945; a isto acrescentam-se os 
estupros em massa de mulheres alemãs pelos soldados do Exército Vermelho na Alemanha ocupada; sem falar da 
pilhagem sistemática de todo o parque industrial dos países ocupados pelo Exército Vermelho. Incorrem no mesmo 
artigo 6b o aprisionamento, o fuzilamento ou a deportação das resistências organizadas que combatiam abertamente o 
poder comunista: por exemplo, os militares das organizações polonesas de resistência antinazista (POW, AK), os 
membros das organizações de partidários bálticos e ucranianos armados, as resistências afegãs, etc. 

A expressão “crimes contra a humanidade” apareceu pela primeira vez em 18 de maio de 1915, numa 
declaração dá França, da Inglaterra e da Rússia contra a Turquia, em razão do massacre dos arménios, qualificado como 
“novo crime da Turquia contra a humanidade e a civilização”. As extorsões nazistas levaram o tribunal de Nuremberg a 
redefinir a noção em seu artigo 6c: “O assassinato, o extermínio, a escravidão, a deportação e todo ato inumano 
cometido contra toda e qualquer população civil, antes ou durante a guerra, ou ainda perseguições por motivos 
políticos, raciais ou religiosos, quando estes atos ou perseguições forem cometidos na sequência de todo crime que 


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entre na competência do tribunal, ou que esteja ligado a este crime, quer violem ou não o direito interno do país onde 
foram perpetrados.” 

Em seu requisitório em Nuremberg, François de Menthon, procurador geral francês, destacava a dimensão 
ideológica dos crimes: 

“Proponho-me a demonstrar-lhes que toda criminalidade organizada e sistemática decorre do que me 
permitirei chamar de crime contra o espírito, quero dizer, de uma doutrina que, negando todos os valores espirituais, 
racionais ou morais, sob os quais os povos tentaram há milénios fazer progredir a condição humana, visa a devolver a 
Humanidade à barbárie, não mais a barbárie natural e espontânea dos povos primitivos, mas a barbárie demoníaca, já 
que consciente dela própria e utilizando para os seus fins todos os meios materiais postos à disposição dos homens pela 
ciência contemporânea. Esse pecado contra o espírito é a falta original do nacional-socialismo da qual todos os crimes 
decorrem. Essa doutrina monstruosa é a do racismo. [...] Que se trate de crime contra a Paz ou de crimes de guerra, não 
nos encontramos diante de uma criminalidade acidental, ocasional, que os eventos pudessem, talvez, não apenas 
justificar, mas explicar, encontramo-nos sim diante de uma criminalidade sistemática, que decorre direta e 
necessariamente de uma doutrina monstruosa, servida pela vontade deliberada dos dirigentes da Alemanha Nazista.” 

François de Menthon explicava também que as deportações destinadas a assegurar mão-de-obra suplementar 
para a máquina de guerra alemã e as que visavam a exterminar os oponentes eram apenas “consequência natural da 
doutrina nacional-socialista, segundo a qual o homem não tem nenhum valor em si quando não está a serviço da raça 
alemã”. Todas as declarações no tribunal de Nuremberg insistiam numa das características maiores do crime contra a 
humanidade: o fato de que a potência do Estado esteja a serviço de políticas e de práticas criminosas. Porém, a 
competência do tribunal estava limitada aos crimes cometidos durante a Segunda Guerra Mundial. Era então 
indispensável ampliar a noção jurídica a situações não implicadas nessa guerra. O novo Código Penal francês, adotado 
em 23 de julho de 1992, define assim o crime contra a humanidade: “a deportação, a escravidão, ou a prática maciça e 
sistemática de execuções sumárias, de sequestro de pessoas seguido de sua desaparição, da tortura ou de atos inumanos, 
inspirados por motivos políticos, filosóficos, raciais ou religiosos, e organizados em execução de um plano concertado 
que atinja um grupo de população civil” (grifo nosso). 

Ora, todas essas definições, em particular a recente definição francesa, aplicam-se a numerosos crimes 
cometidos no período de Lenin, e sobretudo no de Stalin, e também por todos os países de regime comunista, com 
exceção (sob reserva de verificação) de Cuba e da Nicarágua dos sandinistas. A condição principal parece 
incontestável: os regimes comunistas trabalharam “em nome de um Estado praticante de uma política de hegemonia 
ideológica”. É exatamente em nome de uma doutrina, fundamento lógico e necessário do sistema, que foram 
massacrados dezenas de milhões de inocentes sem que nenhum ato particular possa lhes ser censurado, a menos que se 
reconheça que era criminoso ser nobre, burguês, kulak, ucraniano, ou mesmo trabalhador ou... membro do Partido 
Comunista. A intolerância ativa fazia parte do programa posto em prática. É assim que Tomski, o grande líder dos 
sindicatos soviéticos, declarava em 13 de novembro de 1927, no Trud. “Em nosso país, outros partidos também podem 
existir. Mas eis o princípio fundamental que nos distingue do Ocidente; a situação imaginável é a seguinte: um partido 
reina, todos os outros estão na prisão.” 

A noção de crime contra a humanidade é complexa e recobre crimes designados formalmente. Um dos mais 
específicos é o genocídio. Após o genocídio dos judeus pelos nazistas, e a fim de tornar mais preciso o artigo 6c do 
tribunal de Nuremberg, a noção foi definida por uma convenção das Nações Unidas, de 9 de dezembro de 1948: “O 
genocídio é compreendido como um dos atos infracitados, cometidos na intenção de destruir, todo ou em parte, um 
grupo nacional, étnico, racial ou religioso, como tal: a) mortes de membros do grupo; b) atentado grave à integridade 
física ou mental de membros do grupo; c) submissão intencional do grupo às condições de existência que acarretem sua 
destruição física, total ou parcial; d) medidas que visem a impedir nascimentos no seio do grupo; e) transferências 
forçadas de crianças do grupo a um outro grupo.” 

O novo Código Penal francês dá ao genocídio uma definição ainda mais ampla: “O fato, a execução de um 
plano concertado que tenda à destruição total ou parcial de um grupo nacional, étnico racial ou religioso, ou de um 
grupo determinado a partir de qualquer outro critério arbitrário” (grifo nosso). Essa definição jurídica não contradiz a 
abordagem mais filosófica de André Frossard, para quem “há crime contra a humanidade quando se mata alguém sob o 
pretexto de que ele nasceu.” Em seu curto e magnífico relato intitulado Toutpasse, Vassili Grossman diz a respeito de 
Ivan Grigorievitch, seu herói oriundo do campo: “Ele permaneceu o que ele era em seu nascimento, um homem”. É 
precisamente esse o motivo de ele sucumbir ao golpe do terror. A definição francesa permite sublinhar que o genocídio 
não é sempre do mesmo tipo - racial, como no caso dos judeus - e que também pode visar grupos sociais. Em um livro 
publicado em Berlim, em 1924 - intitulado La terreur rouge en Russie-, o historiador e socialista russo Serguei 
Melgunov cita Latzis, um dos primeiros chefes da Tcheka (a polícia política soviética) que, em 19 de novembro de 
1918, deu as seguintes diretivas a seus esbirros: “Nós não fazemos uma guerra específica contra as pessoas. Nós 
exterminamos a burguesia enquanto classe. Não procurem, na investigação, documentos e provas do que o acusado fez, 


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em atos ou palavras, contra a autoridade soviética. A primeira questão que vocês devem colocar-lhe é a que classe ele 
pertence, qual é sua origem, sua educação, sua instrução, sua profissão.” 

Desde o início, Lenin e seus camaradas se situaram no contexto de uma “guerra de classes” sem perdão, na 
qual o adversário político, ideológico, ou mesmo a população recalcitrante eram considerados - e tratados - como 
inimigos e deveriam ser exterminados. Os bolcheviques decidiram eliminar legalmente, mas também fisicamente, toda 
oposição ou toda resistência - e mesmo a mais passiva - ao seu poder hegemónico, não somente quando esta era 
formada por grupos de adversários políticos, mas também por grupos sociais propriamente ditos - tais como a nobreza, 
a burguesia, a intelligentsia, a Igreja, etc., e também as categorias profissionais (os oficiais, os policiais...) - conferindo, 
por vezes, uma dimensão de genocídio a esses atos. Desde 1920, a “descossaquização” corresponde abertamente à 
definição de genocídio: o conjunto de uma população com implantação territorial fortemente determinada, os cossacos, 
era exterminado, os homens fuzilados, as mulheres, as crianças e os idosos deportados, os povoados destruídos ou 
entregues a novos habitantes não cossacos. Lenin assimilava os cossacos à Vendéia, frequência durante a revolução 
francesa, e desejava aplicar-lhes o tratamento que Gracchus Babeuf, o “inventor” do comunismo moderno, qualificava 
como “populicídio”. 

A “deskulakização” de 1930-1932 não foi senão a retomada, em grande escala, da “descossaquização”, com a 
novidade de a operação ser reivindicada por Stalin, para quem a palavra de ordem oficial, alardeada pela propaganda do 
regime, era “exterminar os kulaks enquanto classe”. Os kulaks que resistiam à coletivização eram fuzilados, os outros 
eram deportados junto com suas mulheres, crianças e os idosos. De fato, eles não foram todos diretamente 
exterminados, mas o trabalho forçado ao qual foram submetidos, nas zonas não desbravadas da Sibéria ou do Grande 
Norte, deixou-lhes pouca chance de sobrevivência. Várias centenas de milhares deixaram ali suas vidas, mas o número 
exato de vítimas permanece desconhecido. Quanto à grande fome ucraniana de 1932-1933, relacionada à resistência das 
populações rurais à coletivização forçada, ela em poucos meses provocou a morte de seis milhões de pessoas. 

Aqui, o genocídio “da classe” junta-se ao genocídio “da raça”: matar de fome uma criança kulak ucraniana 
deliberadamente coagida à indigência pelo regime stalinista “vale” o matar de fome uma criança judia do gueto de 
Varsóvia coagida à indigência pelo regime nazista. Essa constatação de modo algum repõe em causa a “singularidade 
de Auschwitz”: a mobilização dos mais modernos recursos técnicos e a implantação de um verdadeiro “processo 
industrial” - a construção de uma “usina de extermínio”, o uso de gases, a cremação. Mas destaca uma particularidade 
de muitos regimes comunistas: a utilização sistemática da “arma da fome”; o regime tende a controlar a totalidade do 
estoque de comida disponível e, por um sistema de racionamento por vezes bastante sofisticado, só o distribui em 
função do “mérito” e do “demérito” de uns e de outros. Este procedimento pode mesmo provocar gigantescas situações 
de indigência. Lembremo-nos de que, no período posterior a 1918, somente os países comunistas conheceram essa 
grande fome que levou à morte de centenas de milhares, ou quem sabe até de milhões de pessoas. Ainda nesta última 
década, dois países da África que se dizem marxistas-leninistas - Etiópia e Moçambique - sofreram dessas indigências 
assassinas. 

Um primeiro balanço global desses crimes pode ser esboçado: 

- fuzilamento de dezenas de milhares de reféns, ou de pessoas aprisionadas sem julgamento, e massacre de 
centenas de milhares de trabalhadores revoltados entre 1918 e 1922; 

- a fome de 1922, provocando a morte de cinco milhões de pessoas; 

- execução e deportação dos cossacos da região do Don em 1920; 

- assassinato de dezenas de milhares de pessoas em campos de concentração entre 1919 e 1930; 

- execução de cerca de 690.000 pessoas por ocasião do Grande Expurgo de 1937-1938; 

- deportação de dois milhões de kulaks (ou supostos kulaks) em 1930-1932; 

- destruição por fome provocada e não socorrida de seis milhões de ucranianos em 1932-1933; 

- deportação de centenas de milhares de poloneses, ucranianos, bálticos, moldávios e bessarábios em 1939- 
1941, e posteriormente em 1944-1945; 

- deportação dos alemães do Volga em 1941; 

- deportação-abandono dos tártaros da Criméia em 1943; 

- deportação-abandono dos chechenos em 1944; 

- deportação-abandono dos inguches em 1944; 

- deportação-abandono das populações urbanas do Camboja entre 1975 e 1978; 

- lenta destruição dos tibetanos pelos chineses, desde 1950, etc. 

Não terminaríamos nunca de enumerar os crimes do leninismo e do stalinismo, com frequência reproduzidos 
de modo quase idêntico pelos regimes de Mão Zedong, Kim II Sung, Pol Pot. 

Permanece uma difícil questão epistemológica: o historiador está apto a usar, em sua caracterização e em sua 
interpretação, fatos ou noções tais como “crime contra a humanidade” ou “genocídio”, relativos, como vimos acima, ao 
domínio jurídico? Não seriam essas noções demasiado dependentes de imperativos conjunturais - a condenação do 


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nazismo em Nuremberg - para serem integradas a uma reflexão histórica que vise estabelecer uma análise pertinente a 
médio prazo? Por outro lado, essas noções não estão demasiado carregadas de “valores” suscetíveis de “falsearem” o 
objetivo da análise histórica? 

Sobre o primeiro ponto, a história deste século mostrou que a prática do massacre de massa, feita por Estados 
ou por Partidos-Estados, não foi uma exclusividade nazista. Bósnia e Ruanda provam que essas práticas perduram e 
que elas constituirão, sem dúvida, uma das características principais deste século. 

Sobre o segundo ponto, não se trata de modo algum de um retorno às concepções históricas do século XIX, 
segundo as quais o historiador procurava bem mais “julgar” do que “compreender”. Contudo, diante das imensas 
tragédias humanas diretamente provocadas por certas concepções ideológicas e políticas, pode o historiador abandonar 
todo princípio de referência a uma concepção humanista - ligada à nossa civilização judaico-cristã e à nossa cultura 
democrática - como, por exemplo, o respeito pela pessoa humana”? Numerosos e renomados historiadores, tais como 
Jean-Pierre Azema num artigo sobre “Auschwitz”? ou Pierre Vidal-Naquet com respeito ao processo de Touvier, não 
hesitam em utilizar a expressão “crime contra a humanidade” para qualificar os crimes nazistas. Parece-nos, então, que 
não é ilegítimo utilizar essas noções para caracterizar alguns dos crimes cometidos pelos regimes comunistas. 

Além da questão da responsabilidade direta dos comunistas no poder, coloca-se a questão da cumplicidade. O 
Código Criminal canadense, modificado em 1987, considera, em seu artigo 7 (3.77), que as infrações de crime contra a 
humanidade incluem as infrações de tentativa, cumplicidade, conselho, ajuda e encorajamento ou de cumplicidade de 
fato? São também assimilados aos crimes contra a humanidade - artigo 7 (3.76) - “a tentativa, o complô, a 
cumplicidade após o fato, o conselho, a ajuda ou o encorajamento a respeito desse fato” (grifo nosso). Ora, dos anos 20 
aos anos 50, os comunistas do mundo inteiro e várias outras pessoas aplaudiram com entusiasmo a política de Lenin e, 
em seguida, a de Stalin. Centenas de milhares de homens engajaram-se nas fileiras da Internacional Comunista e nas 
seções locais do “partido mundial da revolução”. Nos anos 50-70, outras centenas de milhares de homens veneraram o 
“Grande Timoneiro” da revolução chinesa e cantaram os grandes méritos do Grande Salto Adiante ou os da Revolução 
Cultural. Já em nosso meio, muita gente se felicitou quando Pol Pot tomou o poder. Alguns responderão que “não 
sabiam”. É verdade que nem sempre foi fácil saber, já que os regimes comunistas fizeram do segredo uma das 
estratégias de defesa privilegiadas. Mas, frequentemente, essa ignorância era tão-somente resultado de uma cegueira 
devida à crença militante. E, desde os anos 40 e 50, muitos fatos eram conhecidos e incontestáveis. Ora, se vários 
desses bajuladores abandonaram seus ídolos de ontem, foi com silêncio e discrição. Mas o que pensar do profundo 
amoralismo que há em abandonar um engajamento público no maior dos segredos, sem tirar dele qualquer lição? 

Em 1969, um dos pioneiros no estudo do terror comunista, Robert Conquest, escreveu: “O fato de tantas 
pessoas 'engolirem' efetivamente [o Grande Expurgo] foi, sem dúvida, um dos fatores que tornaram possível qualquer 
Expurgo. Os processos, principalmente, teriam tido muito pouco interesse se não tivessem sido validados por certos 
comentadores estrangeiros - ou seja, independentes". Estes últimos devem, pelo menos em parte, arcar com a 
responsabilidade de uma certa cumplicidade para com essas mortes políticas, ou, em todo caso, para com o fato de que 
elas vieram a se repetir quando a primeira operação, o processo Zinoviev [de 1936], foi beneficiada com um crédito 
injustificado.” Se atribuímos, através desse parâmetro, uma cumplicidade moral e intelectual a um certo número de 
não-comunistas, o que dizer da cumplicidade dos comunistas”? E não nos lembramos de ver Louis Aragon arrepender-se 
publicamente por ter, num poema de 1931, evocado a vontade da criação de uma polícia política comunista na 
França,12 mesmo que, algumas vezes, ele tenha criticado o período stalinista. 

Joseph Berger, antigo membro do Komintern, ele próprio “expurgado” e conhecedor dos campos, cita a carta 
recebida de uma antiga deportada do Gulag, mas que permaneceu membro do Partido após ter retornado dos campos de 
concentração: “Os comunistas de minha geração aceitaram a autoridade de Stalin. Eles aprovaram seus crimes. Isso 
vale não somente para os comunistas soviéticos, mas também para aqueles do mundo inteiro, e essa nódoa nos marca 
individual e coletivamente. Só podemos apagá-la fazendo com que isso nunca mais se reproduza. O que aconteceu? 
Havíamos perdido a razão ou somos traidores do comunismo? A verdade é que todos nós, inclusive os que estavam 
mais próximos a Stalin, fizemos dos crimes o contrário do que eles realmente eram. Nós os consideramos como uma 
importante contribuição para a vitória do socialismo. Acreditamos que tudo o que fortalecia a potência política do 
Partido Comunista na União Soviética e no mundo era uma vitória para o socialismo. Não imaginávamos jamais que 
pudesse haver um conflito no interior do partido entre a política e a ética.” 

Por sua vez, Berger desenvolve essa afirmação: “Estimo que se podemos condenar a atitude daqueles que 
aceitaram a política de Stalin, o que não foi o caso de todos os comunistas, é bem mais difícil censurá-los por não terem 
tornado esses crimes impossíveis. Acreditar que homens, mesmo aqueles com postos mais elevados, podiam opor-se a 
seus desejos é não compreender nada do que foi o seu despotismo bizantino.” Berger tem a “desculpa” de ter estado na 
URSS e, portanto, de ter sido tragado pela máquina infernal, sem poder escapar dela. Mas e os comunistas da Europa 
Ocidental que não sofriam nenhum constrangimento direto do NKVD, que cegueira fez com que continuassem fazendo 
a apologia do sistema e de seu chefe? Seria preciso que a poção mágica que os mantinha em submissão fosse potente! 


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Em sua notável obra sobre a Revolução Russa - La Tragédie Soviétique - , Martin Malia traz um pouco de luz ao 
assunto falando “desse paradoxo: um grande ideal que levou a um grande crime.” Annie Kriegel, uma outra grande 
analista do comunismo, insistia nessa articulação quase necessária das duas faces do comunismo: uma luminosa e outra 
escura. 

A esse paradoxo, Tzvetan Todorov traz uma primeira resposta: “O habitante de uma democracia ocidental 
queria pensar no totalitarismo como algo completamente estranho às aspirações humanas normais. Ora, o totalitarismo 
não teria se mantido por tanto tempo, não teria arrastado tantos indivíduos em sua senda, se ele fosse assim. Ele é, ao 
contrário, uma máquina de tremenda eficácia. A ideologia comunista propõe a imagem de uma sociedade melhor e nos 
incita a desejá-la: não faz parte da identidade humana o desejo de transformar o mundo em nome de um ideal? [...] 
Além do mais, a sociedade comunista priva o indivíduo de suas responsabilidades: são sempre “eles” quem decidem. 
Ora, a responsabilidade é frequentemente um fardo pesado a ser carregado. [...] A atração pelo sistema totalitário, 
experimentada inconscientemente por numerosos indivíduos, provém de um certo medo da liberdade e da 
responsabilidade - o que explica a popularidade de todos os regimes autoritários (é a tese de Erich Fromm em O medo 
da liberdade); o que existe é uma 'servidão voluntária”, já dizia La Boétie”. 

A cumplicidade daqueles que enveredaram na servidão voluntária não foi - e continua não sendo - abstrata e 
teórica. O simples fato de aceitar e/ou assumir uma propaganda destinada a esconder a verdade demonstrava e continua 
demonstrando uma cumplicidade ativa. Pois tornar público é o único meio - ainda que não seja sempre eficaz, como 
acaba de mostrar a tragédia de Ruanda - de lutar contra os crimes de massa cometidos em segredo, protegidos dos 
olhares indiscretos. 

A análise dessa realidade central do fenómeno comunista no poder - ditadura e terror - não é simples. Jean 
Ellenstein definiu o fenómeno stalinis-ta como uma mistura de tirania grega e despotismo oriental. A fórmula é 
sedutora, mas não dá conta do caráter moderno dessa experiência, de seu alcance totalitário, distinto das formas 
anteriormente conhecidas de ditadura. Um rápido sobrevoo comparativo permitirá uma melhor compreensão. 

Poder-se-ia inicialmente evocar a tradição russa da opressão. Os bolcheviques combatiam o regime terrorista 
do Czar, que, entretanto, empalidece diante dos horrores do bolchevismo no poder. O Czar denunciava os prisioneiros 
políticos diante de uma verdadeira justiça; a defesa podia exprimir-se tanto quanto ou ainda mais do que a acusação e 
tomar o testemunho de uma opinião pública nacional inexistente no regime comunista e, sobretudo, de uma opinião 
pública internacional. Os prisioneiros e os condenados se beneficiavam de uma regulamentação nas prisões, e o regime 
de desterro, ou mesmo o de deportação, era relativamente leve. Os deportados podiam partir com suas famílias, ler e 
escrever o que quisessem: caçar, pescar e se encontrarem, nos momentos de lazer, com seus companheiros de 
“infortúnio”. Lenin e Stalin puderam experimentar essa situação pessoalmente. Mesmo as Recordações da casa dos 
mortos, de Dostoievski, que tanto chocaram a opinião pública na época de sua publicação, parecem anódinas em face 
dos horrores do comunismo. Seguramente, houve, na Rússia dos anos 1880 a 1914, tumultos populares e insurreições 
duramente reprimidos por um sistema político arcaico. Porém, de 1825 a 1917, o número total de pessoas condenadas à 
morte nesse país, por sua opinião ou sua ação política, foi de 6.360, dos quais 3.932 foram executados - 191 de 1825 a 
1905, e 3.741 de 1906 a 1910 - quantidade que já havia sido ultrapassada pelos bolcheviques em março de 1919, após 
somente quatro meses de exercício de poder. O balanço da repressão czarista é, assim, sem paralelo com o do terror 
comunista. 

Entre os anos 20 e 40, o comunismo censurou violentamente o terror praticado pelos regimes fascistas. Um 
rápido exame dos números mostra que as coisas não são assim tão simples. O fascismo italiano, o primeiro em ação e 
também quem abertamente reivindicou para si o título de “totalitário”, aprisionou e com fregiiência maltratou seus 
adversários políticos. Entretanto, ele raramente chegou a cometer assassinatos, de modo que, na metade dos anos 30, a 
Itália tinha algumas centenas de prisioneiros políticos e várias centenas de confinati - postos em residência vigiada nas 
ilhas -, mas, é verdade, tinha também dezenas de milhares de exilados políticos. 

Até a guerra, o terror nazista visou alguns grupos; os oponentes ao regime - principalmente comunistas, 
socialistas, anarquistas, alguns sindicalistas - foram reprimidos de maneira aberta, encarcerados em prisões e sobretudo 
internados em campos de concentração, submetidos a humilhações severas. No total, de 1933 a 1939, aproximadamente 
20.000 militantes de esquerda foram assassinados com ou sem julgamento nos campos e prisões; sem falar dos acertos 
de contas internos ao nazismo, como a “noite dos punhais” em junho de 1934. Outra categoria de vítimas destinadas à 
morte foram os alemães que supostamente não correspondiam aos critérios raciais do “grande ariano loiro” - doentes 
mentais, deficientes físicos, idosos. Hider decidiu executar seus intentos por ocasião da guerra: 70.000 alemães foram 
vítimas de um programa de eutanásia com asfixia por gás, entre o fim de 1939 e o início de 1941, até que as Igrejas 
protestassem e que o programa fosse encerrado. Os métodos de asfixia por gás aperfeiçoados na ocasião são os que 
foram aplicados no terceiro grupo de vítimas, os judeus. 

Até a guerra, as medidas de exclusão contra eles eram generalizadas, mas sua perseguição teve seu apogeu na 
ocasião da “Noite de Cristal” - várias centenas de mortos e 35.000 internamentos em campos de concentração. Foi 


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somente com a guerra, e sobretudo com o ataque à URSS, que se desencadeou o terror nazista, cujo balanço sumário é 
o seguinte: 15 milhões de civis mortos nos países ocupados; 5,1 milhões de judeus; 3,3 milhões de prisioneiros de 
guerra soviéticos; 1,1 milhão de deportados mortos nos campos; várias centenas de milhares de ciganos. Á essas 
vítimas se juntaram 8 milhões de pessoas destinadas a trabalhos forçados e 1,6 milhão de detentos sobreviventes em 
campos de concentração. 

O terror nazista chocou as imaginações por três razões. Inicialmente, por ter atingido diretamente os europeus. 
Por outro lado, uma vez vencidos os nazistas, e com seus principais dirigentes julgados em Nuremberg, seus crimes 
foram oficialmente designados e condenados como tais. Enfim, a revelação do genocídio dos judeus foi um choque por 
seu caráter de aparência irracional, sua dimensão racista, o radicalismo do crime. 

Nosso propósito aqui não é o de estabelecer uma macabra aritmética comparativa qualquer, uma contabilidade 
duplicada do horror, uma hierarquia da crueldade. Entretanto, os fatos são tenazes e mostram que os regimes 
comunistas cometeram crimes concernentes a aproximadamente 100 milhões de pessoas, contra 25 milhões de pessoas 
atingidas pelo nazismo. Essa simples constatação deve, pelo menos, provocar uma reflexão comparativa sobre a 
semelhança entre o regime que foi considerado, a partir de 1945, como o regime mais criminoso do século, e um 
sistema comunista que conservou, até 1991, toda a sua legitimidade internacional e que, até hoje, está no poder em 
alguns países, mantendo adeptos no mundo inteiro. Mesmo que muitos dos partidos comunistas tenham reconhecido 
tardiamente os crimes do stalinis-mo, eles não abandonaram, em sua maioria, os princípios de Lenin e nunca se 
interrogam sobre suas próprias implicações no fenómeno terrorista. 

Os métodos postos em prática por Lenin e sistematizados por Stalin e seus êmulos, não somente lembram os 
métodos nazistas como também, e com fregiiência, lhes são anteriores. A esse respeito, Rudolf Hoess, encarregado de 
criar o campo de Auschwitz, e também seu futuro comandante, sustentou afirmações bastante indicativas: “A direção 
da Segurança fizera chegar aos comandantes dos campos uma detalhada documentação sobre os campos de 
concentração russos. Baseando-se nos testemunhos dos fugitivos, estavam expostas em todos os detalhes as condições 
reinantes no local. Destacava-se particularmente que os russos exterminavam populações inteiras utilizando-as em 
trabalhos forçados.” Porém, se é fato que a intensidade e as técnicas da violência de massa foram inauguradas pelos 
comunistas e que os nazistas tenham se inspirado nelas, isto não implica, a nosso ver, que se possa estabelecer uma 
relação direta de causa e efeito entre a tomada do poder pelos bolcheviques e a emergência do nazismo. 

Desde o fim dos anos 20, a GPU (novo nome da Tcheka) inaugurou o método das quotas: cada região e cada 
distrito deviam deter, deportar ou fuzilar uma determinada percentagem de pessoas pertencentes às camadas sociais 
“inimigas”. Essas percentagens eram definidas centralmente pela direção do Partido. A loucura planificadora e a mania 
estatística não diziam respeito somente à economia; elas também se aplicavam ao domínio do terror. Desde 1920, com 
a vitória do Exército Vermelho sobre o Exército Branco, na Criméia, surgiram métodos estatísticos, e mesmo 
sociológicos: as vítimas são seleciona-das segundo critérios precisos, estabelecidos com a ajuda de questionários aos 
quais ninguém poderia deixar de responder. Os mesmos métodos “sociológicos" serão postos em prática pelos 
soviéticos para organizar as deportações e execuções em massa nos Estados Bálticos e na Polônia ocupada de 1939- 
1941. O transporte dos deportados em vagões de animais acarretou as mesmas “aberrações” que as cometidas pelo 
nazismo: em 1943-1944, em plena batalha, Stalin fel com que milhares de vagões e centenas de milhares de homens 
das tropas especiais do NKVD deixassem o fronte para assegurar em um curtíssimo espaço de tempo a deportação das 
populações do Cáucaso. Essa lógica do genocídio - que consiste, retomando o Código Penal francês, na “destruição 
total ou par 

cial de um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, ou de um determinado grupo, a partir de qualquer outro 
critério arbitrário” - aplicada pelo poder comunista a grupos designados como inimigos, a frações de sua própria socie 

dade, foi conduzida ao seu paroxismo por Pol Pot e seus khmers vermelhos. 

Fazer a aproximação entre o nazismo e o comunismo, no que diz respeito a seus respectivos extermínios, pode 
chocar. Entretanto, é Vassili Grossman - cuja mãe foi morta pelos nazistas no gueto de Berditchev, escritor do primeiro 
texto sobre Treblinka e também um dos mestres do Livre noir sobre o extermínio dos judeus na URSS - que, em seu 
relato Tout passe, faz um de seus personagens dizer a respeito da fome na Ucrânia: “Os escritores e o próprio Stalin 
diziam todos a mesma coisa: os kulaks são parasitas, eles queimam o trigo, matam as crianças. E nos disseram sem 
rodeios: é preciso que as massas se revoltem contra eles, para aniquilá-los todos, enquanto classe, esses mal ditos.” E 
acrescenta: “Para matá-los, seria preciso declarar: os kulaks não são seres humanos. Do mesmo modo que os alemães 
diziam: os judeus não são seres humanos. Foi o que Lenin e Stalin disseram: os kulaks não são seres humanos.” E 
Grossman conclui, a respeito das crianças kulaks: “É como os alemães que assassinaram as crianças judias nas câmaras 
de gás: vocês não têm direito de viver, vocês são judeus.” 

À cada vez, não são tanto os indivíduos que são atingidos, mas os grupos. O terror tem como objetivo 
exterminar um grupo designado como inimigo, que, na verdade, constitui-se somente como uma fração da sociedade, 
mas que é atingido enquanto tal por uma lógica do genocídio. Assim, os mecanismos de segregação e de exclusão do 


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“totalitarismo da classe” se parecem singularmente àqueles do “totalitarismo da raça”. Á sociedade nazista futura devia 
ser construída em torno da “raça pura”; a sociedade comunista futura, em torno de um povo proletário, purificado de 
toda escória burguesa. O remodelamento dessas duas sociedades foi planejado do mesmo modo, apesar de os critérios 
de exclusão não serem os mesmos. Portanto, é falso pretender que o comunismo seja um universalismo: se o projeto 
tem uma vocação mundial, uma parte da humanidade é declarada indigna de existir neste mundo, como no caso do 
nazismo; a diferença é que um recorte por estratos (classes) substitui o recorte racial e territorial dos nazistas. Logo, os 
empreendimentos leninista, stalinista, maoísta e a experiência cambojana pôem à humanidade - assim como aos juristas 
e historiadores - uma nova questão: como qualificar o crime que consiste em exterminar, por razões político- 
ideológicas, não mais indivíduos ou grupos limitados de oponentes, mas partes inteiras da sociedade? É preciso 
inventar uma nova denominação? Alguns autores anglo-saxões pensam dessa forma, criando o termo “politicídio”. Ou 
é preciso chegar, como o fazem os juristas tchecos, a qualificar os crimes cometidos pelos regimes comunistas como 
“crimes comunistas”? 

O que se sabia dos crimes do comunismo? O que se queria saber? Por que foi preciso esperar o fim do século 
para que esse tema obtivesse o status de objeto de ciência”? Pois é evidente que o estudo do terror stalinista e comunista 
em geral, comparado ao estudo dos crimes nazistas, tem um enorme atraso a recuperar, mesmo que, no Leste, os 
estudos se multipliquem. 

Um grande contraste não pode deixar de nos causar surpresa: foi com legitimidade que os vencedores em 1945 
situaram o crime - e em particular o genocídio dos judeus - no centro de sua condenação ao nazismo. Numerosos 
pesquisadores em todo o mundo trabalham há décadas sobre essa questão. Milhares de livros lhe foram consagrados, 
dezenas de filmes, dos quais alguns muito famosos nos mais diferentes géneros - Noite e Neblina ou Shoah, A Escolha 
de Sofia ou A Lista de Schindler. Raul Hilberg, para citarmos apenas um autor, fez da descrição detalhada das 
modalidades da matança aos judeus no III Reich o centro de sua obra mais importante. 

Ora, não existe um trabalho como esse sobre a questão dos crimes comunistas. Enquanto que nomes como os 
de Himmler ou o de Eichman são conhecidos em todo o mundo como símbolos da barbárie contemporânea, os de 
Dzerjinski, lagoda ou de lejov são ignorados da maioria. Quanto a Lenin, Mão, Ho Chi Minh e o próprio Stalin, eles 
sempre foram tratados com uma surpreendente reverência. Um órgão do Estado francês, a Loto, chegou a ter a 
inconsciência de associar Stalin e Mão a uma de suas campanhas publicitárias! Quem teria a idéia de utilizar Hitler ou 
Goebbels numa operação semelhante” 

A atenção excepcional concedida aos crimes hitleristas é perfeitamente justificada. Ela responde à vontade dos 
sobreviventes de testemunhar, dos pesquisadores de compreender e das autoridades morais e políticas de confirmar os 
valores democráticos. Mas por que os testemunhos dos crimes comunistas têm uma repercussão tão fraca na opinião 
pública? Por que o silêncio constrangido dos políticos? E, sobretudo, por que um silêncio “académico” sobre a 
catástrofe comunista que atingiu, há aproximadamente 80 anos, um terço da espécie humana, sobre quatro continentes? 
Por que essa incapacidade de situar no centro da análise do comunismo um fator tão essencial quanto o crime, o crime 
de massa, o crime sistemático, o crime contra a humanidade” Estamos diante de uma impossibilidade de compreensão? 
Não se trata, antes, de uma recusa deliberada de saber, de um medo de compreender? 

As razões dessa ocultação são múltiplas e complexas. Inicialmente, estava em jogo a vontade clássica e 
constante dos carrascos de apagar as marcas de seus crimes e de justificar o que eles não podiam esconder. O “relatório 
secreto” de Kruschev (1956), que se constituiu como o primeiro reconhecimento dos crimes comunistas pelos próprios 
dirigentes comunistas, é também o relato de um carrasco que vai procurar mascarar e encobrir seus próprios crimes - 
como chefe do Partido Comunista ucraniano no auge do terror - atribuindo-os somente a Stalin e valendo-se do fato de 
que obedecia a ordens; ocultar a maior parte do crime - ele fala somente das vítimas comunistas, bem menos numerosas 
do que todas as outras; atenuar o significado desses crimes - ele os qualifica como “abusos cometidos pelo regime 
stalinista”; e, enfim, justificar a continuidade do sistema com os mesmos princípios, as mesmas estruturas e os mesmos 
homens. 

Kruschev nos dá um testemunho franco, relacionando as oposições com as quais ele se chocou ao preparar o 
“relatório secreto”, particularmente no que diz respeito ao homem de confiança de Stalin: “Kaganovitch era de tal 
modo um adulador, que ele teria cortado a garganta de seu pai se Stalin assim o ordenasse com uma piscada de olhos, 
dizendo-lhe que era no interesse da Causa: a causa stalinista, é claro, f...] Ele argumentava contra mim por causa do 
medo egoísta de perder o pescoço. Ele obedecia ao desejo impaciente de fugir a toda responsabilidade. Se havia crimes, 
Kaganovitch queria somente uma coisa: estar certo de que suas marcas foram apagadas.” O fechamento absoluto dos 
arquivos dos países comunistas, o controle total da imprensa, da mídia e de todas as saídas para o exterior, a 
propaganda do “sucesso” do regime, toda essa máquina de ocultar informações visava, em primeiro lugar, impedir que 
viesse à luz a verdade sobre os crimes. 

Não contentes em esconder seus delitos, os carrascos combateram por todos os meios aqueles que tentavam 
relatá-los. Pois alguns observadores e analistas tentaram esclarecer seus contemporâneos. Após a Segunda Guerra 


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Mundial, isso foi particularmente claro em duas ocasiões na França. De janeiro a abril de 1949 teve lugar em Paris o 
processo que opôs Victor Kravchenko - um ex-alto funcionário soviético que havia escrito J'ai choisi Ia liberte, livro no 
qual era descrita a ditadura stalinista - ao jornal comunista dirigido por Louis Aragon, Lês Lettres Françaises, que 
cobria Kravchenko de injúrias. Teve lugar também em Paris, de novembro de 1950 a janeiro de 1951, um outro 
processo entre Lês Lettres Françaises (mais uma vez) e David Rousset, um intelectual, ex-trotskista, deportado da 
Alemanha pelos nazistas e que, em 1946, havia recebido o prémio Renaudot por seu livro LUniven concentrationnaire; 
Rousset convocara, em 12 de novembro de 1949, todos os antigos deportados dos campos nazistas para formar uma 
comissão de investigação sobre os campos soviéticos, sendo então violentamente atacado pela imprensa comunista, que 
negava a existência desses campos. Em seguida à convocação feita por Rousset, em 25 de fevereiro de 1950, num 
artigo do Figaro littéraire intitulado “Pour Penquête sur les camps soviétiques. Qui est pire, Satan ou Belzébuth?” 
Margaret Buber-Neumann expunha sua dupla experiência de deportada dos campos nazistas e soviéticos. 

Contra todos esses esclarecedores da consciência humana, os carrascos desenvolveram, num combate 
sistemático, todo o arsenal dos grandes Estados modernos, capazes de intervir no mundo inteiro. Eles procuraram 
desqualificá-los, desacreditá-los, intimidá-los. A. Soljenitsyne, V. Bukovsky, A. Zinoviev L. Plichki foram expulsos de 
seu país, André Sakharov foi exilado em Gorki, o general Piotr Grigorenko, abandonado num hospital psiquiátrico, 
Markov, assassinado com um guarda-chuva envenenado. 

Diante de tal poder de intimidação e de ocultação, as próprias vítimas hesitavam em se manifestar, tornando-se 
incapazes de reintegrar a sociedade onde desfilavam seus delatores e carrascos. Vassili Grossman20 narra essa 
desesperança. Ao contrário da tragédia dos judeus - em relação à qual a comunidade judia internacional encarregou-se 
da celebração dos mortos do genocídio - durante muito tempo foi impossível às vítimas do comunismo e aos seus 
interessados manter uma memória viva da tragédia, estando proibido qualquer tipo de celebração ou demanda de 
reparação. 

Quando não conseguiam manter a verdade escondida - a prática dos fuzilamentos, os campos de concentração, 
a fome imposta -, os carrascos tramavam a justificação dos fatos maguiando-os grosseiramente. Depois de terem 
reivindicado o terror, eles o erigiram como figura alegórica da revolução: “quando se corta a floresta, as farpas voam”, 
“não se pode fazer uma omelete sem se quebrarem os ovos”. A isto Vladimir Bukovski replicava ter visto os ovos 
quebrados, mas não ter nunca provado omeletes. Mas, sem dúvida, foi com a perversão da linguagem que se chegou ao 
pior. Através da magia vocabular, o sistema dos campos de concentração tornou-se obra de reeducação, e os carrascos, 
educadores aplicados em transformar os homens de uma sociedade antiga em “homens novos”. Pedia-se, através da 
força, aos zeks - termo que designa os prisioneiros dos campos de concentração soviéticos - para que acreditassem num 
sistema que os subjugava. Na China, o interno na concentração é denominado “estudante”: ele deve estudar o 
pensamento justo do partido e reformar o seu próprio pensamento imperfeito. 

Como acontece com fregiência, a mentira não é, strícto sensu, o inverso da verdade, e toda mentira se apoia 
sobre elementos verdadeiros. As palavras pervertidas aparecem como uma visão deslocada que deforma a perspectiva 
de conjunto: somos confrontados a um astigmatismo social e político. Ora, é fácil corrigir a percepção deformada pela 
propaganda comunista, mas é muito difícil reconduzir aquele que percebeu erroneamente a uma concepção intelectual 
pertinente. A impressão primeira permanece e torna-se preconceito. Como fazem os praticantes do judo - e graças a sua 
incomparável potência propagandista, amplamente baseada na perversão da linguagem -, os comunistas utilizaram toda 
a força das críticas feitas aos seus métodos terroristas para retorná-las contra essas próprias críticas, reunindo, a cada 
vez, as fileiras de seus militantes e simpatizantes na renovação do ato de fé comunista. Assim, eles reencontraram o 
princípio primeiro da crença ideológica, formulada por Tertuliano, em sua época: “Creio porque é absurdo.” 

No contexto dessas operações de contrapropaganda, os intelectuais, literalmente, se prostituíram. Em 1928, 
Gorki aceitou ir em “excursão” às ilhas Solovki, um campo de concentração experimental que, através de suas 
“metástases” (Soljenitsyne), dará origem ao sistema do Gulag. Ele trouxe de lá um livro exaltando Solovki e o governo 
soviético. Henri Barbusse, escritor francês ganhador do Goncourtfregiiência de 1916, não hesitou, em troca de uma 
recompensa financeira, em exaltar o regime stalinista, publicando, em 1928, um livro sobre a “maravilhosa Geórgia” - 
onde, precisamente em 1921, Stalin e seu acólito Ordjonikidze se entregaram a uma verdadeira carnificina, e onde 
Beria, chefe do NKVD, se fazia notar por seu maquiavelismo e seu sadismo - e, em 1935, a primeira biografia oficiosa 
de Stalin. Mais recentemente, Ma-ria-Antonietta Macciochi fez a apologia de Mão, Alain Peyrefitte lhe fez coro, 
enquanto Danielle Mitterrand passeava ao lado de Castro. Cupidez, apatia, vaidade, fascinação pela força e pela 
violência, paixão revolucionária: qualquer que seja a motivação, as ditaduras totalitárias sempre encontraram os 
bajuladores dos quais necessitavam, tanto a ditadura comunista quanto as outras. 

Diante da propaganda comunista, o Ocidente mostrou-se durante muito tempo de uma cegueira excepcional, 
mantida tanto pela inocência em face de um sistema astuto, quanto pelo medo da potência soviética, sem falar do 
cinismo dos políticos e dos interesseiros. Cegueira presente em Yalta, quando o presidente Roosevelt deixou o Leste 
Europeu entregue a Stalin, contra a promessa, redigida de forma clara e limpa, de que ele organizaria eleições livres na 


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região o mais rapidamente possível. O realismo e a resignação estavam presentes em Moscou quando, em dezembro de 
1944, o General de Gaulle trocou o abandono da infeliz Polônia ao Moloch pela garantia da paz social e política, 
assegurada pela volta de Maurice Thorez a Paris. 

Cegueira que foi fortalecida, quase que legitimada, por uma crença - entre os comunistas ocidentais e muitos 
homens de esquerda - segundo a qual esses países estavam “construindo o socialismo”, e que a utopia que nas 
democracias alimentava os conflitos sociais e políticos tornava-se “para eles” uma realidade cujo prestígio Simone 
Weil destacou: “Os trabalhadores revolucionários são felizes por terem um Estado por detrás deles - um Estado que dá 
às suas ações esse caráter oficial, uma legitimidade, uma realidade que somente ele, o Estado, pode conferir, e que, ao 
mesmo tempo, está situado longe deles o suficiente para não causar-lhes desgosto”. O comunismo apresentava, então, 
sua face clara: ele se declarava Iluminado, inserido numa tradição de emancipação social e humana, de sonho da 
“igualdade real” e da “felicidade para todos” inaugurada por Gracchus Babeuf. É essa face luminosa que ocultava 
quase que totalmente a face das trevas. 

À ignorância - desejada ou não - da dimensão criminosa do comunismo juntou-se, como sempre, a indiferença 
de nossos contemporâneos para com seus irmãos humanos. Não que o homem tenha o coração de pedra. Pelo contrário, 
em inúmeras situações-limite, ele mostra insuspeitadas fontes de solidariedade, de amizade, de afeição e mesmo de 
amor. Entretanto, como destaca Tzvetan Todorov, “a memória de nossos lutos nos impede de percebermos o 
sofrimento dos outros”. E, terminada a Primeira e, em seguida, a Segunda Guerra Mundial, que povo europeu ou 
asiático não estava ocupado em curar as chagas de inúmeros lutos? As dificuldades encontradas na própria Franca no 
afrontamento dos anos sombrios são suficientemente eloquentes. A história - ou melhor, a não-história - da Ocupação 
continua a envenenar a consciência francesa. Acontece o mesmo, talvez com menos intensidade, com a história dos 
períodos “nazi” na Alemanha, “fascista” na Itália, “franquista” na Espanha, da guerra civil na Grécia, etc. Neste século 
de ferro e sangue, cada um esteve demasiadamente ocupado com suas próprias mazelas para poder compadecer-se das 
dos outros. 

A ocultação da dimensão criminosa do comunismo remete, porém, a três razões específicas. A primeira refere- 
se ao apego à própria idéia da revolução. Ainda hoje, o luto dessa ideia, tal como ela foi preconizada nos séculos XIX e 
XX, está longe de terminar. Seus símbolos - bandeira vermelha, a Internacional, punho erguido - ressurgem por ocasião 
de todo movimento social importante. Che Guevara retorna à moda. Grupos declaradamente revolucionários 
permanecem ativos e se manifestam com toda legalidade, tratando com desprezo a menor reflexão crítica sobre os 
crimes dos seus predecessores e não hesitando em reiterar os velhos discursos justificativos de Lenin, de Trotski ou de 
Mão. Paixão revolucionária que não acometeu somente aos outros. Muitos dos próprios autores deste livro acreditaram 
durante algum tempo na propaganda comunista. 

A segunda razão refere-se à participação dos soviéticos na vitória sobre o nazismo, o que permitiu aos 
comunistas mascarar sob um patriotismo intenso seus fins últimos, que visavam à tomada do poder. A partir de junho 
de 1941, os comunistas do conjunto dos países ocupados entraram numa resistência ativa - e com freqiiência armada - à 
ocupação nazista ou italiana. Do mesmo modo que os demais resistentes aos regimes de sujeição, eles tiveram de pagar 
o imposto da repressão, com milhares de fuzilados, massacrados, deportados. Eles se serviram desses mártires para 
sacralizar a causa do comunismo e proibir toda crítica a seu respeito. Além disso, no curso dos combates da 
Resistência, muitos dos não-comunistas estabeleceram laços de solidariedade, de combate, de sangue com comunistas, 
o que impediu que muitos olhos se abrissem; na França, a atitude dos gaullistas foi com frequência comandada por essa 
memória comum e encorajada pela política do general de Gaulle que utilizava o contrapeso soviético diante dos 
americanos. 

A participação dos comunistas na guerra e na vitória sobre o nazismo fez triunfar definitivamente a noção de 
antifascismo como critério de verdade da esquerda, e, certamente, os comunistas se colocaram como os melhores 
representantes e os melhores defensores desse antifascismo. O antifascismo tornou-se um rótulo definitivo para o 
comunismo, sendo fácil, em nome do antifascismo, silenciar os recalcitrantes. François Furet escreveu páginas 
esclarecedoras sobre esse assunto crucial. Com o nazismo vencido, designado pelos Aliados como o “Mal Absoluto”, o 
comunismo saltou quase que mecanicamente para o campo do Bem. O que ocorreu, evidentemente, na ocasião do 
processo de Nuremberg, quando os soviéticos estiveram sentados no banco da acusação. Assim, episódios embaraçosos 
para os valores democráticos foram escamoteados, tais como os pactos germano-soviéticos de 1939 ou o massacre de 
Katyn. A vitória sobre o nazismo deveria supostamente fornecer a prova da superioridade do sistema comunista. Na 
Europa libertada pelos anglo-americanos, ela teve, sobretudo, o efeito de suscitar um duplo sentimento de gratidão para 
com o Exército Vermelho (do qual não se teve que suportar a ocupação) e de culpa em face dos sacrifícios suportados 
pela população da URSS, sentimentos que a propaganda comunista não hesitou em manipular a fundo. 

Paralelamente, as modalidades de “libertação” feitas pelo Exército Vermelho no Leste Europeu permanecem 
amplamente desconhecidas no Ocidente, onde os historiadores assimilaram dois tipos de “libertação” bastante 
diferentes: o primeiro deles conduzia à restauração das democracias, o outro abria caminho à instauração das ditaduras. 


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Na Europa Central e no Leste Europeu, o sistema soviético postulava à sucessão do Reich de mil anos, e Witold 
Gombrowicz exprimiu em poucas palavras o drama desses povos: “O fim da guerra não trouxe libertação aos 
poloneses. Nesta triste Europa Central, significou somente a troca de uma noite por outra, dos carrascos de Hitler pelos 
de Stalin. No momento exato em que, nos cafés parisienses, as nobres almas saudavam com um canto radiante a 
'emancipação do povo polonês do jugo feudal", na Polônia, o mesmo cigarro aceso simplesmente mudava de mão e 
continuava a queimar a carne humana”. Aqui reside a falha entre duas memórias européias. Entretanto, certas obras 
revelaram rapidamente a maneira pela qual a URSS libertou do nazismo poloneses, alemães, tchecos e eslovacos. 

A última razão dessa ocultação é a mais sutil, e também a mais delicada a exprimir. Após 1945, o genocídio 
dos judeus apareceu como o paradigma da barbárie moderna, chegando mesmo a ocupar todo o espaço reservado à 
percepção do terror de massa no século XX. Após negarem, durante algum tempo, a especificidade da perseguição dos 
nazistas aos judeus, os comunistas compreenderam toda a vantagem que eles podiam tirar de um tal reconhecimento, 
reutilizando regularmente o antifascismo. O espectro do “animal imundo cujo ventre é ainda fecundo” - segundo a 
fórmula famosa de Bertolt Brecht - foi agitado com freqiiência, com ou sem motivo justificado. Mais recentemente, o 
fato de ter sido posta em evidência a “singularidade” no genocídio dos judeus, focalizando a atenção sobre sua 
atrocidade excepcional, também impediu que se percebessem outras realidades da mesma natureza no mundo 
comunista. Como imaginar que eles próprios, que tinham contribuído com sua vitória na destruição de um sistema de 
genocídio, pudessem também praticar os mesmos métodos? A reação mais corrente foi a recusa em admitir tal 
paradoxo. 

A primeira grande virada no reconhecimento oficial dos crimes comunistas situa-se em 24 de fevereiro de 
1956. Nessa noite, Nikita Kruschev, primeiro-secretário, vem à tribuna do XX Congresso do Partido Comunista da 
União Soviética, o PCUS. A sessão é a portas fechadas; somente os delegados do congresso estão presentes. Em 
silêncio absoluto, aterrorizados, eles escutam o primeiro-secretário do Partido destruir metodicamente a imagem do 
“pequeno pai dos povos”, do “Stalin genial” que foi, durante 30 anos, o herói do comunismo mundial. Esse relato, 
conhecido como o “relatório secreto”, constitui uma das inflexões fundamentais do comunismo contemporâneo. Pela 
primeira vez, um dirigente comunista do mais alto escalão reconheceu oficialmente, ainda que assistido somente pelos 
comunistas, que o regime que tomara o poder em 1917 cometera uma “deriva” criminosa. 

As razões que levaram o “Senhor K” a quebrar um dos maiores tabus do regime soviético eram múltiplas. Seu 
principal objetivo era o de imputar os crimes do comunismo somente a Stalin, circunscrevendo e extraindo o mal para 
poder salvar o regime. Também fazia parte de sua decisão a vontade de atacar o clã dos stalinistas que se opunham a 
seu poder em nome dos métodos de seu antigo chefe. Aliás, após o verão de 1957, esses homens foram demitidos de 
todas as suas funções. Contudo, pela primeira vez desde 1934, a “morte política” destes últimos não foi acompanhada 
da morte real, podendo-se inferir, através desse simples “detalhe”, que as razões de Kruschev eram mais profundas. 
Ele, que tinha sido durante anos o grande chefe da Ucrânia e, por isso mesmo, havia conduzido e acobertado 
gigantescas chacinas, parecia cansado de todo esse sangue. Em suas memórias, onde, sem dúvida, tem o papel de 
mocinho, Kruschev relembra o que lhe passava pelo espírito: “O Congresso vai terminar; resoluções serão tomadas, 
todas para cumprir com as formalidades. Mas para quê? Aqueles que foram fuzilados às centenas de milhares 
permanecerão em nossas consciências”. 

Ao mesmo tempo, ele censura duramente seus camaradas: 

“O que faremos com os que foram detidos, assassinados? [...] Sabemos agora que as vítimas das repressões 
eram inocentes. Temos a prova irrefutável de que, longe de serem inimigos do povo, eram homens e mulheres 
honestos, devotados ao Partido, à Revolução, à causa leninista da edificação do socialismo e do comunismo. [...] É 
impossível tudo esconder. Cedo ou tarde, os que estão na prisão, nos campos, sairão e retornarão a suas casas. Eles 
relatarão então aos seus parentes, seus amigos, seus camaradas o que lhes aconteceu. [...] É por isso que somos 
obrigados a confessar aos delegados tudo a respeito do modo como o Partido foi dirigido naqueles anos. [...] Como 
pretender nada saber do que acontecia? [...] Sabemos que reinava a repressão e a arbitrariedade no Partido, e devemos 
dizer ao Congresso o que sabemos. [...] Na vida de todos os que cometeram um crime, vem o momento em que a 
confissão assegura a indulgência, e mesmo a absolvição”. 

Em alguns dos homens que haviam participado diretamente dos crimes perpetrados pelo regime stalinista - e 
que, em sua maioria, deviam sua promoção ao extermínio de seus predecessores na função - emergia um certo tipo de 
remorso; um remorso constrangido, é claro, um remorso interesseiro, um remorso político, mas, ainda assim, um 
remorso. Efetivamente, era preciso que alguém terminasse com o massacre; Kruschev teve essa coragem, mesmo não 
tendo hesitado, em 1956, em enviar uma frota de tanques soviéticos a Budapeste. 

Em 1961, na ocasião do XXII Congresso do PCUS, Kruschev evocou não somente as vítimas comunistas, mas 
também todo o conjunto das vítimas de Stalin, chegando a propor que fosse erigido um monumento em memória delas. 
Sem dúvida, ele havia transposto o limite invisível além do qual o próprio princípio do regime estava posto em causa: o 
monopólio do poder absoluto reservado ao Partido Comunista. O monumento jamais veio à luz. Em 1962, o primeiro- 


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secretário autorizou a publicação de Une journée dTvan Denissovitch, de Alexandre Soljenitsyne. Em 24 de outubro de 
1964, Kruschev foi brutalmente demitido de todas as suas funções, mas ele tampouco foi assassinado, morrendo no 
anonimato em 1971. 

Todos os analistas reconhecem a importância decisiva do “relatório secreto” que provocou a ruptura 
fundamental na trajetória do comunismo no século XX. François Furet, que justamente acabava de deixar o Partido 
Comunista Francês em 1954, escreve a este respeito: “Ora, eis que o relatório secreto' de fevereiro de 1956 transtorna 
de uma só vez, assim que ele veio a público, o estatuto da idéia comunista no universo. A voz que denuncia os crimes 
de Stalin não vem mais do Ocidente, mas de Moscou, e do santo dos santos de Moscou, o Kremlin. Não se trata mais 
de um comunista infringindo seu exílio, mas do primeiro dos comunistas no mundo, o chefe do Partido Comunista da 
União Soviética. Então, em lugar de ser alvo das suspeitas que acometem os discursos dos ex-comunistas, esta voz está 
investida da autoridade suprema outorgada pelo sistema ao seu chefe. [...] O extraordinário poder do 'relatório secreto' 
sobre as consciências vem do fato de ele não ter contraditores”. 

Desde o começo, o evento era tão paradoxal, que numerosos contemporâneos haviam prevenido os 
bolcheviques contra os perigos de seus procedimentos. Desde 1917-1918 batiam-se no próprio interior do movimento 
socialista os que acreditavam no “grande clarão do Leste” e os que criticavam sem remissão os bolcheviques. A disputa 
recaía essencialmente sobre o método de Lenin: violência, crimes, terror. Enquanto que, dos anos 20 aos anos 50, o 
lado sombrio da experiência bolchevique foi denunciado por numerosas testemunhas, vítimas, observadores 
qualificados, e também por incontáveis artigos e obras, foi preciso esperar que os próprios comunistas no poder 
reconhecessem essa realidade - ainda que de modo limitado - para que uma fração cada vez maior da opinião pública 
pudesse tomar conhecimento do drama. Reconhecimento enviesado, já que o “relatório secreto” abordava somente a 
questão das vítimas comunistas. Ainda assim, um reconhecimento que trazia a primeira confirmação de testemunhos e 
estudos anteriores, e que corroborava o que muitos desconfiavam há bastante tempo: o comunismo havia provocado na 
Rússia uma imensa tragédia. 

Os dirigentes de muitos dos “partidos irmãos” não se persuadiram, de imediato, de que era preciso que se 
engajassem no caminho das revelações. Ao lado do precursor Kruschev, eles pareciam um tanto retardados: foi 
necessário esperar 1979 para que o Partido Comunista chinês distinguisse na política de Mão “grandes méritos” - até 
1957 - e “grandes erros” em seguida. Os vietnamitas somente abordam essa questão à luz da condenação do genocídio 
perpetrado por Pol Pot. Quanto a Castro, ele nega as atrocidades cometidas sob sua égide. 

Até então, a denúncia dos crimes comunistas vinha somente da parte dos seus inimigos, dos dissidentes 
trotskistas ou dos anarquistas; e ela não tinha sido particularmente eficaz. A vontade de testemunhar era tão forte nos 
sobreviventes dos massacres comunistas quanto nos sobreviventes dos massacres nazistas. Mas eles foram muito pouco 
- ou quase nada - escutados, em particular na França, onde a experiência concreta do sistema de campos de 
concentração soviético só afetou diretamente a grupos restritos, tais como os Malgré-nous da Alsace-Lorraine.” Na 
maior parte das vezes, os testemunhos, as erupções de memória, os trabalhos das comissões independentes criadas sob 
a iniciativa de algumas pessoas - assim como a Commission Internationale sur lê regime concentrationnaire, de David 
Rousset, ou a Commission pour Ia véritésur lês crimes de Stalinefregiiência - foram encobertos pelo tamanho da verba 
para a propaganda comunista, acompanhado por um silêncio covarde ou indiferente. Esse silêncio, que sucede 
geralmente a algum momento de sensibilização provocado pela emergência de uma obra - UArchipel du Goulag, de 
Soljenitsyne -. ou de um testemunho mais incontestável do que outros - Lês Récits de Ia Kolyma, de Variam Chalamov, 
ou L"Utopie meurtritre, de Pin Yathay -, mostra uma resistência própria aos vários e diferentes segmentos das 
sociedades ocidentais no que diz respeito ao fenómeno comunista; eles se recusam, até o momento, a encarar a 
realidade: o sistema comunista comporta, ainda que em graus diversos, uma dimensão fundamentalmente criminosa. 
Com esta recusa, as sociedades participaram da mentira, no sentido aludido por Nietzsche: “Recusar-se a ver algo que 
se vê; recusar-se a ver algo como se vê”. 

A despeito de todas essas dificuldades na abordagem da questão, vários observadores tentaram a empreitada. 
Dos anos 20 aos anos 50 - na falta de dados mais confiáveis, cuidadosamente dissimulados pelo regime soviético - a 
pesquisa repousava essencialmente sobre os testemunhos dos desertores. Suscetíveis de estarem imbuídos de um 
espírito vingativo, ou difamatório, ou ainda de serem manipulados por um poder anticomunista, esses testemunhos - 
passíveis de contestação pelos historiadores, como todo testemunho - eram frequentemente desconsiderados pelos 
bajuladores do comunismo. O que se poderia pensar, em 1959, da descrição do Gulag feita por um desertor dos altos 
escalões da KGB, tal como ela fora recuperada no livro de Paul Bartonº32 E o que pensar de Paul Barton, ele próprio 
um exilado tcheco, cujo verdadeiro nome é Jiri Veltrusky, um dos organizadores da insurreição antinazista de 1945 em 
Praga, obrigado a fugir de seu país em 1948? Ora, a confrontação com os arquivos doravante abertos mostra que essa 
informação era perfeitamente confiável. 

Nos anos 70 e 80, a grande obra de Soljenitsyne — Lº Archipel du Goulag, e depois o ciclo dos “Nós” da 
Revolução Russa - provocou um verdadeiro choque na opinião pública. Sem dúvida, um efeito produzido muito mais 


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pela literatura, pelo cronista genial, do que por uma tomada de consciência geral do horrível sistema por ele descrito. 
Entretanto, Soljenitsyne encontrou dificuldades em perfurar a crosta da mentira, chegando a ser comparado, em 1975, 
por um jornalista de um grande jornal francês, a Pierre Lavai, Doriot e Déat, “que acolhiam os nazistas como 
libertadores”. Seu testemunho foi, todavia, decisivo para uma primeira tomada de consciência, assim como o de 
Chalamov sobre a Kolyma, ou o de Pin Yathay sobre o Camboja. Mais recentemente, Vladimir Bukovski, uma das 
principais figuras da dissidência soviética no período Brejnev, ergueu um novo grito de protesto que reclamava, sob o 
título Jugement à Moscou, a instauração de um novo tribunal de Nuremberg para julgar as atividades criminosas do 
regime; seu livro foi recebido no ocidente com grande sucesso de crítica, mas não de público. Simultaneamente, vemos 
as publicações que tentam a reabilitação de Stalin35 florescerem. 

Que motivação pode encorajar, neste fim de século XX, a exploração de um domínio tão trágico, tão 
tenebroso, tão polémico? Hoje, não somente os arquivos confirmam a exatidão desses testemunhos, como também 
permitem ir muito mais adiante. Os arquivos internos do sistema de repressão da ex-União Soviética, das ex- 
democracias populares e do Camboja evidenciam uma realidade aterradora: o caráter maciço e sistemático do terror, 
que, em vários casos, conduziu ao crime contra a humanidade. Chegou o momento de abordar de maneira científica - 
documentada por fatos incontestáveis, e livre das implicações polí-tico-ideológicas que a sobrecarregavam - a questão 
recorrente que todos os observadores se puseram: que lugar ocupa o crime no sistema comunista? 

Nessa perspectiva, qual pode ser a nossa contribuição específica? Procuramos utilizar procedimentos que 
respondam, em primeiro lugar, a um dever para com a história. Nenhum tema é tabu para o historiador, e as 
implicações e pressões de todo tipo - políticas, ideológicas, pessoais - não devem impedi-lo de seguir o caminho do 
conhecimento, da exumação e da interpretação dos fatos, sobretudo quando estes estiveram por um longo tempo 
voluntariamente enterrados no segredo dos arquivos e das consciências. Ora, a história do terror comunista constitui-se 
como um dos maiores panos de fundo da história europeia, sustentando com firmeza os dois extremos da grande 
questão historiográfica do totalitarismo. Este último teve uma versão hitlerista como também as versões leninista e 
stalinista, não sendo mais aceitável elaborar uma história hemiplégica, que ignore a vertente comunista. Do mesmo 
modo, a posição defensiva que consiste em reduzir a história do comunismo unicamente a sua dimensão nacional, 
social e cultural é insustentável. Sobretudo porque o fenómeno totalitário não se limitou à Europa e ao episódio 
soviético. Ela compreende também a China maoísta, a Coreia do Norte, o Camboja de Pol Pot. Cada comunismo 
nacional esteve ligado por algum tipo de cordão umbilical à matriz russa e soviética, o que também contribuiu para o 
progresso desse movimento mundial. A história com a qual nos confrontamos é a de um fenómeno que se desenvolveu 
em todo o mundo e que diz respeito a toda a humanidade. 

O segundo dever ao qual responde esta obra é o de um dever para com a memória. E uma obrigação moral 
honrar a memória dos mortos, sobretudo quando são vítimas inocentes e anónimas do Moloch conduzido por um poder 
absoluto que procurou, inclusive, apagar a sua própria lembrança. Após a queda do Muro de Berlim e o 
desmoronamento do centro do poder comunista em Moscou, a Europa, continente matricial das experiências trágicas do 
século XX, está prestes a recompor uma memória comum; podemos, por nossa parte, dar a nossa contribuição. Os 
próprios autores deste livro são portadores dessa memória: um mais ligado à Europa Central devido a sua vida 
profissional; outro, às idéias e práticas revolucionárias, em seus engajamentos contemporâneos a 1968 ou mesmo mais 
recentes. 

Esse duplo dever, para com a memória e a história, inscreve-se nos mais diversos contextos. Para alguns, ele 
se refere a países onde o comunismo praticamente nunca pesou, nem sobre a sociedade nem sobre o poder - Grã- 
Bretanha, Áustria, Bélgica, etc. Para outros, ele se manifesta em países em que o comunismo foi uma potência temida - 
como nos Estados Unidos após 1946 - ou temerária, mesmo não tendo jamais chegado ao poder - como na França, 
Itália, Espanha, Grécia, Portugal. Do mesmo modo, ele se impõe com força nos países onde o comunismo perdeu o 
poder que detivera por várias décadas - Leste Europeu, Rússia. Por fim, sua pequena chama vacila em meio ao perigo 
nos lugares onde o comunismo ainda está no poder - China, Coreia do Norte, Cuba, Laos, Vietnã. 

De acordo com essas situações, a atitude dos contemporâneos diante da história e da memória é distinta. Nos 
dois primeiros casos, eles se ligam a um procedimento relativamente simples de conhecimento e de reflexão. No 
terceiro caso, há um confronto com as necessidades da reconciliação nacional, havendo ou não o castigo dos carrascos; 
a esse respeito, a Alemanha reunificada oferece, sem dúvida, o exemplo mais surpreendente e “milagroso” - basta 
considerar o exemplo do desastre da Jugoslávia. Mas a ex-Tchecoslováquia -que se tornou República Tcheca e 
Eslováquia -, a Polônia e o Camboja se chocam do mesmo modo com os tormentos da memória e da história do 
comunismo. Um certo grau de amnésia, espontânea ou oficial, pode parecer indispensável à cura das feridas morais, 
psíquicas, afetivas, pessoais, coletivas, provocadas por meio século ou mais de comunismo. Nos lugares onde o 
comunismo continua no poder, os carrascos e seus herdeiros ou organizam uma denegação sistemática - como em Cuba 
ou na China - ou talvez até continuem a reivindicar o terror como modo de governo - como na Coreia do Norte. 


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Stéphane Courtois e outros - O Livro Negro do Comunismo - Crimes, Terror e Repressão — by PapaiNoel 


Esse dever para com a história e a memória tem, incontestavelmente, um alcance moral. Alguns poderiam nos 
censurar: “Quem os autoriza a dizer o que é o Bem e o que é o Mal?” 

Segundo critérios que lhe são próprios, é exatamente esse o efeito pretendido pela Igreja Católica quando, com 
poucos dias de intervalo, o Papa Pio XI condenou, em duas encíclicas distintas, o nazismo - Mit Brennender Sorge, de 
14 de março de 1937 - e o comunismo - Divini redemptoris, de 19 de março de 1937. Esta última afirmava que Deus 
havia dotado o homem de prerrogativas: “o direito à vida, à integridade do corpo e aos meios necessários à existência; 
o direito de se dirigir ao seu fim último na via traçada por Deus; o direito de associação, de propriedade e o direito de 
usufruir dessa propriedade”. Mesmo que possamos denunciar uma certa hipocrisia da Igreja que caucionava o 
enriquecimento excessivo de uns através da exploração de outros, o seu apelo em favor da dignidade humana não é 
desprovido de importância. 

Já em 1931, na encíclica Quadragésimo Armo, Pio XI havia escrito: “O comunismo tem em seu ensinamento e 
em sua ação um duplo objetivo, que são perseguidos não em segredo, ou por vias indiretas, mas abertamente, à luz do 
dia e por todos os meios, mesmo os mais violentos: uma luta de classes implacável e a desaparição completa da 
propriedade privada. Na perseguição desse objetivo, não há nada que ele não ouse, nada que ele respeite; nos lugares 
onde tomou o poder, ele se mostra selvagem e desumano com tanta intensidade que temos dificuldades em crer, 
chegando mesmo a nos parecer inexplicável, como atestam os terríveis massacres e as ruínas por ele acumuladas nos 
imensos países da Europa Oriental e da Ásia.” A advertência ganhava pleno sentido por vir de uma instituição que 
havia, durante vários séculos e em nome da fé, justificado o massacre dos Infiéis, desenvolvido a Inquisição, 
amordaçado a liberdade de pensamento e que iria apoiar os regimes ditatoriais como os de Franco ou Salazar. 

Contudo, se a Igreja cumpria seu papel de censor moral, qual deve ser, ou melhor, qual pode ser o discurso do 
historiador diante do relato “heróico” dos partidários do comunismo, ou do relato patético de suas vítimas? Em suas 
Memórias de Além-Túmulo, François René de Chateaubriand escreve: “Quando, no silêncio da abjeção, não escutamos 
mais repercutir senão a corrente do escravo e a voz do delator; quando tudo treme diante do tirano, e que é tão perigoso 
expormo-nos a seu favor quanto merecer sua desgraça, o historiador aparece, encarregado da vingança dos povos. A 
prosperidade de Nero é vã, Tácito já nasceu sob o império.” Longe de nós a idéia de nos instituirmos como defensores 
da enigmática “vingança dos povos”, à qual Chateaubriand já não mais crê no fim de sua vida; mas, em sua modéstia, o 
historiador torna-se, quase que contra a sua própria vontade, o porta-voz daqueles que, por causa do terror, se viram na 
impossibilidade de dizer a verdade sobre a sua condição. Ele se faz presente para trabalhar com o conhecimento; sua 
primeira tarefa é estabelecer fatos e elementos de verdade que se tornarão conhecimento. Além disso, sua relação com a 
história do comunismo é particular: ele é obrigado a ser o historiógrafo da mentira. Mesmo que a abertura dos arquivos 
lhe forneça materiais indispensáveis, ele deve se preservar de toda ingenuidade, já que um grande número de questões 
complexas se apresentam como objeto de controvérsias que não estão de modo algum isentas de segundas intenções. 
Todavia, este conhecimento histórico não se pode abster de um juízo que responda a alguns valores fundamentais: o 
respeito às regras da democracia representativa e, sobretudo, o respeito à vida e à dignidade humana. É através deste 
parâmetro que o historiador emite um “juízo” sobre os atores da história. 

Um motivo pessoal juntou-se às razões gerais para empreender esse trabalho sobre memória e sobre história. 
Alguns dos autores do livro nem sempre estiveram alheios à fascinação exercida pelo comunismo. Por vezes, eles 
foram participantes, dentro dos limites de cada um, do sistema comunista, seja em sua versão ortodoxa leninista- 
stalinista, seja em versões anexas e dissidentes (trotskista, maoísta). Se eles permanecem ligados à esquerda - e porque 
eles permanecem ligados à esquerda - é preciso que eles reflitam sobre as razões desta cegueira. Essa reflexão também 
seguiu os caminhos do conhecimento, balizados pela escolha dos respectivos temas de estudo, pelas publicações 
científicas próprias e pelas participações de cada um nas revistas La NouvelleAlternativee Communisme. O presente 
livro não é senão um momento dessa reflexão. Se seus autores a conduzem incansavelmente, é por terem a consciência 
de que não se pode deixar a uma extrema direita cada vez mais presente o privilégio de dizer a verdade; é em nome dos 
valores democráticos, e não dos ideais nacional-fascistas, que se devem analisar e condenar os crimes do comunismo. 

Essa abordagem implica um trabalho comparativo, da China à URSS, de Cuba ao Vietnã. Ora, não dispomos, 
até o momento, de uma qualidade homogênea na documentação. Em alguns casos, os arquivos estão abertos - ou 
entreabertos - enquanto em outros, não. Isto não nos pareceu uma razão suficiente para adiar o trabalho; sabemos o 
bastante, de fonte “segura”, para nos lançarmos num empreendimento que, embora não tenha nenhuma pretensão de ser 
exaustivo, quer ser pioneiro e deseja inaugurar um vasto campo para a pesquisa e a reflexão. Empreendemos, assim, 
uma primeira verificação de um número máximo de fatos, uma primeira aproximação que deverá instigar, com o 
tempo, muitos outros trabalhos. Mas é preciso começar, considerando apenas os fatos mais claros, mais incontestáveis, 
mais graves. 

Nosso trabalho contém muitas palavras e poucas imagens. Atingimos aqui um dos pontos sensíveis da 
ocultação dos crimes do comunismo: numa sociedade mundial supermidiatizada, onde a imagem - fotografada ou 
televisionada - será em breve a única a merecer crédito da opinião pública, dispomos tão-somente de algumas e raras 


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fotos de arquivo sobre o Gulag ou o Laogai, nenhuma foto sobre a deskulakização ou sobre a fome do Grande Salto 
Adiante. Os vencedores de Nuremberg puderam fotografar e filmar à vontade os milhares de cadáveres do campo de 
Bergen-Belsen, onde também foram encontradas fotos tiradas pelos próprios carrascos, corno aquela de um alemão 
abatendo com um tiro de fuzil à queima-roupa uma mulher com seu filho nos braços. Nada igual ocorreu no mundo 
comunista, onde o terror era organizado no mais estrito segredo. 

Que o leitor não se contente apenas com os poucos documentos icono-gráficos reunidos aqui. Que ele 
consagre o tempo necessário para tomar conhecimento, página por página, do calvário sofrido por milhões de homens. 
Que ele faça o esforço de imaginação indispensável para compreender o que foi essa imensa tragédia que vai continuar 
a marcar a história mundial pelas décadas vindouras. Então, a ele será apresentada a questão capital: por quê? Por que 
Lenin, Trotski, Stalin e os outros julgaram necessário exterminar todos aqueles que eram designados como “inimigos”? 
Por que eles se autorizaram a infringir o código não escrito que rege a vida da Humanidade: “Não matarás”? Tentamos 
responder a esta questão no fim deste livro. 


PRIMEIRA PARTE 


UM ESTADO CONTRA O POVO 
Violência, repressão e terror na União Soviética 
por Nicolas Werth 


1. Paradoxos e Equívocos de Outubro 


“Com a queda do comunismo, desapareceu a necessidade de demonstrar o caráter historicamente inelutável' 
da Grande Revolução Socialista de Outubro. Enfim, 1917 podia tornar-se um objeto histórico 'normal'. Infelizmente, 
nem os historiadores nem, sobretudo, nossa sociedade estão prontos para romper com o mito fundador do ano zero, o 
ano em que tudo teria começado: a felicidade ou a infelicidade do povo russo.” 

Essas afirmações de um historiador russo contemporâneo ilustram uma permanência: 80 anos após o evento, a 
“luta pelo relato” de 1917 continua. 

Para uma primeira escola histórica, que poderíamos chamar de “liberal”, a Revolução de Outubro foi apenas 
um putsch imposto com violência a uma sociedade passiva, resultado de uma habilidosa conspiração tramada por um 
punhado de fanáticos cínicos e disciplinados, desprovidos de qualquer real sustentação no país. Hoje, quase todos os 
historiadores russos, assim corno as elites cultas e os dirigentes da Rússia pós-comunista, adotaram como sua essa 
vulgata liberal. Privada de toda densidade social e histórica, a revolução de Outubro de 1917 é revista como um 
acidente que desviou de seu curso natural a Rússia pré-revolucionária, uma Rússia rica, laboriosa e a caminho da 
democracia. A ruptura simbólica com o “monstruoso parêntese do sovie-tismo” - aclamada tão alto e forte quanto na 
realidade perdura uma notável continuidade das elites dirigentes, todas pertencentes à nomenklatura comunista - 
apresenta um trunfo de grande importância: o de libertar a sociedade russa do peso da culpa, do pesado arrependimento 
durante os anos da peres-troika, marcados pela dolorosa redescoberta do stalinismo. Se o Golpe de Estado bolchevique 
de 1917 não foi senão um acidente, então o povo russo foi apenas uma vítima inocente. 

Diante dessa interpretação, a historiografia soviética tentou demonstrar que Outubro de 1917 havia sido a 
conclusão lógica, previsível e inevitável de um itinerário libertador, conscientemente empreendido pelas “massas” 
aliadas ao bolchevismo. Em seus vários avatares, essa corrente historiográfica amalgamou a “luta pelo relato” de 1917 
à questão da legitimidade do regime soviético. Se a Grande Revolução Socialista de Outubro foi a realização do sentido 
da História, um evento portador de uma mensagem de emancipação dirigida aos povos do mundo inteiro, então o 
sistema político, as instituições e o Estado dela oriundos permaneciam legítimos, apesar de todo e qualquer erro que o 
stalinismo possa ter cometido. Naturalmente, o desmoronamento do regime soviético acarretou uma completa 
deslegitimação da revolução de Outubro de 1917 e a desaparição da vulgata marxizante, devolvida, retomando uma 
célebre frase do bolchevismo, “ao lixo da História”. Contudo, do mesmo modo que a memória do medo, a memória 
dessa vulgata continua viva, com uma intensidade tão grande, ou talvez ainda maior no Ocidente do que na ex-URSS. 

Rejeitando a vulgata liberal e a vulgata marxista, uma terceira corrente historiográfica esforçou-se para 
“desideologizar” a história da Revolução Russa, procurando compreender, conforme escreveu Marc Ferro, como “a 
insurreição de Outubro de 1917 havia sido ao mesmo tempo um movimento de massa e [que] apenas poucos tinham 
participado dela”. Entre as numerosas questões feitas pelos vários historiadores que recusam a representação simplista 
da historiografia liberal, hoje em dia predominante a respeito de 1917, figuram algumas questões decisivas. Qual foi o 
papel representado pela militarização da economia e pela brutalização das relações sociais consecutivas à entrada do 
Império russo na Primeira Guerra Mundial? Houve a emergência de uma violência social específica que preparava o 
terreno de uma violência política exercida em seguida contra a sociedade? Como uma revolução popular e plebeia, 


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profundamente antiautoritária e antiestatal, conduziu ao poder o grupo político mais ditatorial e mais estatizante? Que 
ligação se pode estabelecer entre a inegável radicalização da sociedade russa no decorrer de 1917 e o bolchevismo? 

Com o decorrer dos anos e graças aos numerosos trabalhos de uma historiografia conflituosa - 
intelectualmente estimulante, portanto - a revolução de Outubro de 1917 surge como a convergência entre dois eventos: 
a tomada do poder político, fruto de um minucioso preparo insurrecional, por um partido que se distingue radicalmente, 
em suas práticas, sua organização e sua ideologia, de todos os outros atores da revolução; uma vasta revolução social, 
multiforme e autónoma. Essa revolução social manifesta-se nos mais diversos aspectos: inicialmente, uma enorme 
rebelião camponesa, amplo movimento de fundo enraizado numa longa história, marcada não somente pelo ódio aos 
proprietários de terras, mas também por uma profunda desconfiança dos camponeses em relação à cidade, ao mundo 
exterior, em relação a toda ingerência estatal. 

Assim, o verão e o outono de 1917 surgem como a conclusão, enfim vitoriosa, de um grande ciclo de revoltas 
que começou em 1902 e que teve seu primeiro ponto culminante em 1905-1907. O ano de 1917 é uma etapa decisiva da 
grande revolução agrária, da disputa entre os camponeses e os grandes proprietários pela apropriação das terras e pela 
realização da tão esperada “partilha negra”, a partilha de todas as terras em função do número de bocas a serem 
alimentadas em cada família. Mas é também uma etapa importante da disputa entre os camponeses e p Estado pela 
rejeição de toda a tutela das cidades sobre o campo. Sob esse aspecto, 1917 é apenas uma das marcas dentro do ciclo de 
confrontos que culminará em 1918-1922 e depois nos anos 1929-1933, terminando-se com a derrota total do mundo 
rural, cortado junto à raiz pela coletivização forçada da terra. 

Paralelamente à revolução camponesa, assistimos, no decorrer de 1917, à profunda decomposição do exército 
formado por cerca de dez milhões de camponeses-soldados, mobilizados havia mais de três anos para uma guerra de 
cujo sentido eles nada compreendiam; quase todos os generais lamentavam a falta de patriotismo desses soldados- 
camponeses, pouco integrados politicamente à nação, e cujo horizonte cívico não ia muito além de sua comunidade 
rural. 

Um terceiro movimento de fundo refere-se a uma minoria social que mal representava 3% da população 
economicamente ativa, mas uma minoria politicamente eficiente, bastante concentrada nas grandes cidades do país, o 
mundo operário. Esse meio, que condensava todas as contradições sociais da modernização econômica encaminhada 
havia apenas uma geração, deu origem a um movimento especificamente reivindicador e operário, a partir das palavras 
de ordem autenticamente revolucionárias - o “controle operário” e o “poder aos sovietes”. 

Enfim, um quarto movimento se esboça através da rápida emancipação das nacionalidades e dos povos 
alógenos do ex-Império Czarista, exigindo sua autonomia e também sua independência. 

Cada um desses movimentos tem sua própria temporalidade, sua dinâmica interna, suas aspirações específicas, 
que, evidentemente, não poderiam ser reduzidas nem aos slogans nem à ação política do Partido Bolchevique. No 
decorrer de 1917, esses movimentos agem também como forças corrosivas que contribuem poderosamente para a 
destruição das instituições tradicionais e, de modo geral, de todas as formas de autoridade. Durante um breve mas 
decisivo instante - o fim do ano de 1917 - a ação dos bolcheviques, minoria política que agia no vazio institucional 
reinante, vai ao encontro das aspirações da maioria, ainda que os objetivos a médio e longo prazos sejam diferentes 
para uns e para outros. Momentaneamente, Golpe de Estado político e revolução social convergem ou, com mais 
exatidão, interpenetram-se, antes de virem a divergir durante as décadas de ditadura. 

Os movimentos sociais e nacionais eclodidos no outono de 1917 desenvolveram-se em favor de uma 
conjuntura bastante particular, combinando, numa situação de guerra total - ela própria fonte de regressão e de 
brutaliza-ção generalizadas, crise econômica, transformação das relações sociais e falência do Estado. 

Longe de dar um novo impulso ao regime czarista, reforçando a coesão, ainda bastante imperfeita, do corpo 
social, a Primeira Guerra Mundial agiu como um formidável revelador da fragilidade de um regime autocrático, já 
muito abalado pela revolução de 1905-1906 e enfraquecido por uma política inconsequente que alternava concessões 
insuficientes e retomada do conservadorismo. A guerra acentuou igualmente as fraquezas de uma modernização 
econômica inacabada, dependente do afluxo regular de capitais, de especialistas e de tecnologias estrangeiras. Ela 
reativou a fratura profunda entre a Rússia urbana, industrial e governante e a Rússia rural, politicamente desintegrada e 
ainda amplamente fechada em suas estruturas locais e comunitárias. 

Como os outros beligerantes, o governo czarista previra que a guerra seria de curta duração. O fechamento dos 
estreitos e o bloqueio econômico da Rússia revelaram de forma brutal a dependência do império para com seus 
fornecedores estrangeiros. A perda das províncias ocidentais, invadidas pelos exércitos alemães e austro-húngaros 
desde 1915, privou a Rússia dos produtos da indústria polonesa, uma das mais desenvolvidas do império. A economia 
nacional não resistiu muito tempo à continuação da guerra: a partir de 1915, o sistema de transportes ferroviários 
desorganizou-se, devido à falta de peças de reposição. A reconversão da maior parte das fábricas para fins militares 
quebrou o mercado interior. Decorridos alguns meses, faltaram produtos manufaturados à retaguarda e o país instalou- 
se na penúria e na inflação. No, campo, a situação rapidamente se degradou: o violento corte no crédito e no 


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remembramento agrícola, a mobilização maciça de homens no exército, as requisições de cereais e de arrendamento do 
gado, a penúria de bens manufaturados e o rompimento dos circuitos de trocas entre cidades e campo detiveram 
francamente os processos de modernização das propriedades rurais, preparados com sucesso, desde 1906, pelo 
primeiro-ministro Piotr Stolypine, assassinado em 1910. Três anos de guerra reforçaram a percepção camponesa do 
Estado como força hostil e estrangeira. As afrontas cotidianas de um exército em que o soldado era tratado mais como 
um servo do que como um cidadão exacerbaram as tensões entre os combatentes e oficiais enquanto que as derrotas 
minavam o que sobrava do prestígio de um regime imperial demasiadamente longo. O antigo fundo de arcaísmo e 
violência - sempre presente no campo e que já havia demonstrado sua força durante as grandes insurreições dos anos 
1902-1906 - saiu reforçado dessa guerra. 

Desde o fim de 1915, o poder não dominava mais a situação. Diante da passividade do regime, viu-se por todo 
o país a organização de associações e Comitês encarregados da gestão de um cotidiano que o Estado parecia não poder 
mais assegurar: cuidar dos feridos, abastecer as cidades e o exército. O povo russo começou a se autogovernar; um 
grande movimento vindo das entranhas da sociedade, cuja importância não fora até então calculada, se pusera em 
movimento. Mas, para que esse movimento vencesse as forças corrosivas que estavam também ativas, teria sido 
necessário que o poder o encorajasse, e que lhe estendesse a mão. 

Ora, em lugar de construir uma ponte entre o poder e os elementos mais progressistas da sociedade civil, 
Nicolau II agarrou-se à utopia monár-quico-populista do “papaizinho-czar-comandando-o-exército-de-seu-belo-povo- 
camponês”. Ele assumiu pessoalmente o comando supremo dos exércitos, ato suicida para a autocracia em plena 
derrocada nacional. Isolado em seu trem especial no quartel-general de Mogilev, Nicolau II deixou, de fato, de dirigir o 
país a partir do outono de 1915, confiando-o a sua esposa, a imperatriz Alexandra, muito impopular por ser de origem 
alemã. 

No decorrer de 1916, o poder pareceu dissolver-se. A Duma, única assembleia eleita, era tão pouco 
representativa, que se reunia apenas algumas semanas por ano; governantes e ministros se sucediam, todos igualmente 
incompetentes e impopulares. O rumor público acusava o influente corrilho dirigido pela imperatriz e por Rasputin de 
abrir conscientemente o território nacional à invasão inimiga. Tornava-se manifesto que a autocracia não era mais 
capaz de conduzir a guerra. No fim de 1916, o país tornou-se ingoverná-vel. Em uma atmosfera de crise política, 
ilustrada pelo assassinato de Rasputin no dia 31 de dezembro, as greves, reduzidas a um número insignificante no início 
da guerra, retomaram sua força. O tumulto alcançou o exército; a desorganização total dos transportes interrompeu todo 
o sistema de abastecimento. Um regime ao mesmo tempo desacreditado e enfraquecido foi surpreendido pela chegada 
dos dias de fevereiro de 1917. 

A queda do regime czarista, vencido ao fim de cinco dias de manifestações de operários e da amotinação de 
vários milhares de homens da guarnição de Petrogradofregiiência, revelou não somente a fraqueza do czarismo e o 
estado de decomposição do exército ao qual o estado-maior não ousou apelar para dominar o levante popular, como 
também o despreparo político de todas as forças de oposição, profundamente divididas, desde os liberais do Partido 
Constitucional Democrata até os social-democratas. 

Em nenhum momento dessa revolução popular espontânea, iniciada nas ruas e terminada nos gabinetes 
silenciosos do palácio de Taurida, sede da Duma, as forças políticas da oposição conduziram o movimento. Os liberais 
tinham medo das ruas; quanto aos partidos socialistas, eles temiam uma rea-ção militar. Entre os liberais, inquietos com 
a extensão dos tumultos, e os socialistas, para quem o momento era manifestamente favorável à revolução “burguesa” - 
primeira etapa de um longo processo que poderia, com o passar do tempo, abrir caminho a uma revolução socialista -, 
engajaram-se negociações que culminaram, após longos arranjos, na fórmula inédita de um poder duplo. O primeiro, o 
governo provisório, um poder preocupado com a ordem, cuja lógica era parlamentarista e tendo como objetivo uma 
Rússia capitalista, moderna e liberal, firmemente consolidada em suas alianças com franceses e britânicos. O outro, o 
poder do soviete de Petrogrado, que um punhado de militantes socialistas acabava de constituir e que pretendia ser, na 
grande tradição do soviete de São Petersburgo de 1905, uma representação mais direta e mais revolucionária das 
“massas”. Mas este “poder dos sovietes” era em si uma realidade móvel e variável, ao sabor da evolução de suas 
estruturas descentralizadas e efervescentes e, principalmente, ao sabor das mudanças de uma opinião pública volúvel. 

Os três governos provisórios que se sucederam, de 2 de março a 25 de outubro de 1917, se mostraram 
incapazes de resolver os problemas deixados como herança pelo Antigo Regime: a crise econômica, a continuação da 
guerra, a questão operária e o problema agrário. Os novos homens no poder - os liberais do Partido Constitucional 
Democrata, majoritários nos dois primeiros governos; os mencheviques e os socialistas-revolucionários, majoritários no 
terceiro - pertenciam todos às elites urbanas cultas, aos elementos progressistas da sociedade civil, divididos entre a 
confiança ingénua e cega no “povo” e o medo das “massas escuras” que os circundavam e que, aliás, eles mal 
conheciam. Em sua maioria, eles consideravam necessário - pelo menos nos primeiros meses de uma revolução que 
havia chocado as consciências por seu aspecto pacifista - deixar o caminho livre para o impulso democrático libertado 


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pela crise e pela queda do Antigo Regime. Fazer da Rússia “o país mais livre do mundo”, esse era o sonho de idealistas 
tais como o príncipe Lvov, chefe dos dois primeiros governos provisórios. 

“O espírito do povo russo”, diz ele numa de suas primeiras declarações, “revelou-se, por sua própria natureza, 
um espírito universalmente democrático. Ele está pronto não somente para fundir-se na democracia universal, mas 
também para liderá-la no caminho do progresso delimitado pelos grandes princípios da Revolução Francesa: Liberdade, 
Igualdade, Fraternidade.” 

Certo de suas convicções, o governo provisório multiplicou as medidas democráticas - liberdades 
fundamentais, sufrágio universal, supressão de toda discriminação de casta, raça ou religião, reconhecimento do direito 
da Polônia e da Finlândia à autodeterminação, promessa de autonomia às minorias nacionais, etc. - que deviam, 
segundo se acreditava, permitir um amplo movimento patriótico, consolidar a coesão social, assegurar a vitória militar 
junto aos Aliados e atar solidamente o novo regime às democracias ocidentais. Entretanto, por excesso de escrúpulos 
legais, o governo recusou-se, em uma situação de guerra, a tomar, antes da reunião de uma Assembleia Constituinte 
que deveria ser eleita em outubro de 1917, toda uma série de medidas importantes que teriam assegurado sua 
continuação. Ele se ateve, de forma deliberada, a permanecer “provisório”, deixando em suspenso os problemas mais 
explosivos: o problema da paz e o problema da terra. Quanto à crise econômica, ligada à continuação da guerra, o 
governo provisório não conseguiu, do mesmo modo que o regime precedente, ter êxito em resolvê-los durante seus 
poucos meses de existência; problemas de abastecimento, penúrias, inflação, ruptura do circuito de trocas, fechamento 
de empresas e explosão do desemprego fizeram apenas exacerbar as tensões sociais. 

Diante da vacilação do governo, a sociedade continuou a organizar-se de maneira autónoma. Em poucas 
semanas, abundaram milhares de sovietes, Comitês de fábricas e bairros, milícias operárias armadas (as “Guardas 
Vermelhas”), Comitês de camponeses, Comitês de soldados, de cossacos e de donas-de-casa. Abundaram também os 
lugares para debates, propostas e confrontos, onde a opinião pública manifestava suas reivindicações, suas alternativas 
ao modo de se fazer política. O mitingovanie (o comício permanente) - verdadeira festa de libertação - tornou-se, com o 
decorrer dos dias, cada vez mais violento, uma vez que a revolução de fevereiro havia liberado ressentimentos e 
frustrações sociais por muito tempo acumulados; ele opunha-se francamente à democracia parlamentar sonhada pelos 
políticos do novo regime. No decorrer de 1917, assistiu-se a uma inegável radicalização das reivindicações dos 
movimentos sociais. 

Os operários passaram das reivindicações econômicas - jornada de oito horas, supressão de multas e de outras 
medidas humilhantes, seguridade social, aumentos de salário - à demanda política, o que implicava uma mudança 
radical das relações sociais entre patrões e assalariados e, também, uma outra forma de poder. Organizados em Comitês 
de fábrica - cujo primeiro objetivo era o de controlar a contratação e as demissões, impedindo, assim, que os patrões 
fechassem injustamente suas empresas alegando o rompimento de abastecimento -, os operários chegaram a exigir que 
a produção estivesse sob o “controle operário”. Mas, para que nascesse esse controle operário, era necessária uma 
forma de governo absolutamente nova, o “poder dos sovietes”, a única capaz de tomar medidas radicais, especialmente 
o sequestro judicial e nacionalização das empresas, uma reivindicação desconhecida na primavera de 1917, porém cada 
vez mais proposta nos seis meses que se seguiram. 

No decorrer das revoluções de 1917, o papel dos soldados-camponeses - uma massa de dez milhões de homens 
mobilizados - foi decisivo. A rápida decomposição do exército russo, vencido pelas deserções e pelo pacifismo, teve 
um papel catalisador na falência geral das instituições. Os Comitês de soldados, autorizados pelo primeiro texto 
aprovado pelo governo provisório - o famoso decreto nº 1, uma verdadeira “declaração dos direitos do soldado”, pois 
abolia as mais humilhantes regras disciplinares do Antigo Regime -, ultrapassavam com bastante fregiiência suas 
prerrogativas. Eles chegaram a recusar as ordens de alguns oficiais, “elegendo” obedecer a outros, a intrometer-se em 
estratégia militar, posando como um tipo inédito de “poder soldado”. Esse poder soldado preparou o terreno para um 
“bolchevismo de trincheira” específico, que o general Brussilov, chefe supremo do exército russo, caracterizava assim: 
“Os soldados não tinham a menor idéia do que eram o comunismo, o proletariado ou a Constituição. Eles queriam a 
paz, a terra e a liberdade de viver sem leis, sem oficiais, nem grandes proprietários de terra. Seu 'bolchevismo' era na 
verdade apenas um formidável anseio pela liberdade sem entraves, pela anarquia.” 

Após o fracasso da última ofensiva do exército russo, em junho de 1917, o exército desagregou-se: centenas de 
oficiais - suspeitos pela tropa de serem “contra-revolucionários” - foram detidos e, muitas vezes, massacrados pelos 
soldados. O número de desertores subiu assustadoramente, atingindo, em agosto-setembro, várias dezenas de milhares 
por dia. Os camponeses-soldados tinham apenas uma idéia na cabeça: voltar para casa, para não perderem a divisão das 
terras e do gado dos grandes proprietários. De junho a outubro de 1917, mais de dois milhões de soldados, cansados de 
combater ou de esperar com o estômago vazio nas trincheiras e guarnições, desertaram de um exército deliquescente. O 
retorno às suas cidades alimentou, por sua vez, o tumulto no campo. 

Até o verão, o tumulto agrário estava bastante circunscrito, sobretudo em comparação com o que se passara 
por ocasião da revolução de 1905-1906. Depois de conhecida a notícia da abdicação do czar, a assembleia camponesa 


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reuniu-se, como era costume quando se produzia um evento de maior importância, e redigiu uma petição expondo as 
queixas e desejos dos camponeses. A primeira reivindicação era de que a terra pertencesse aos que trabalhavam nela, 
que as terras não cultivadas dos grandes proprietários fossem imediatamente redistribuídas e que os arrendamentos 
fossem reavaliados com valores mais baixos. Pouco a pouco, os camponeses se organizaram em Comitês agrários, tanto 
nos povoados quanto nos cantões, dirigidos frequentemente pelos membros da intelligentsia rural - professores, 
sacerdotes, agrónomos, agentes de saúde -, próximos dos meios socialistas-revolucionários. A partir de maio-junho de 
1917, o movimento camponês recrudesceu: para não deixar que a base impaciente se excedesse, vários Comitês 
agrários começaram a apreender material agrícola e gado dos proprietários rurais, apropriando-se de bosques, pastos e 
terras inexploradas. Essa luta ancestral pela “partilha negra” das terras fez-se às expensas dos grandes proprietários 
rurais, mas também dos “kulaks”, esses camponeses abastados que, em razão das reformas de Stolypine, haviam 
deixado a comunidade rural para se estabelecerem em pequenos lotes em plena propriedade, liberados de todas as 
obrigações comunitárias. Desde antes da revolução de Outubro de 1917, o kulak - bicho-papão de todos os discursos 
bolcheviques, significando o “camponês rico e predador”, o “burguês rural”, o “usurário”, o “kulak bebedor de sangue” 
- não era mais a sombra do que fora. Com efeito, ele teve de devolver à comunidade do povoado a maior parte do gado 
arrendado, as máquinas e as terras, despejadas no caldeirão comum e distribuídas segundo o princípio ancestral de 
“bocas a alimentar”. 

No decorrer do verão, os tumultos agrários, fomentados pelo retorno às cidades de centenas de milhares de 
desertores armados, tornaram-se cada vez mais violentos. A partir do fim de mês de agosto, decepcionados com as 
promessas de um governo que não cessava de adiar a reforma agrária, os camponeses partiram para o assalto dos 
domínios senhoriais, sistematicamente saqueados e queimados, para expulsar de uma vez por todas o amaldiçoado 
proprietário rural. Na Ucrânia e nas regiões centrais da Rússia - Tambov, Penza, Voronezh, Saratov, Orei, Tuia, Ryazan 
- milhares de residências senhoriais foram queimadas, com centenas de proprietários massacrados. 

Diante da extensão dessa revolução social, as elites dirigentes e os partidos políticos - com a notável exceção 
dos bolcheviques, atitude sobre a qual ainda falaremos - hesitavam entre as tentativas de controlar, bem ou mal, o 
movimento social e a sedução do putsch militar. Tendo aceitado, desde o mês de maio, entrar para o governo, 
mencheviques, populares nos meios operários, e socialistas-revolucionários, melhor situados no mundo rural do que 
todas as outras formações políticas, se revelaram incapazes, pelo fato de alguns de seus dirigentes participarem de um 
governo preocupado com a ordem e com a legalidade, de realizar as reformas por eles sempre preconizadas - 
especialmente, no que diz respeito aos socialistas-revolucionários, a partilha das terras. Os partidos socialistas 
moderados tornaram-se gestores e guardiães do Estado “burguês”, deixando a área da contestação entregue aos 
bolcheviques, sem, entretanto, se beneficiarem da participação num governo que a cada dia controlava menos a 
situação no país. 

Em face da anarquia crescente, os meios patronais, os proprietários rurais, o estado-maior e alguns liberais 
desiludidos foram tentados pela solução do golpe militar proposto pelo general Kornilov. Essa solução fracassou diante 
da oposição do governo provisório dirigido por Alexandre Kerenski. Com efeito, a vitória do putsch militar teria 
aniquilado o poder civil que, por mais fraco que fosse, sustentava a condução formal dos negócios do país. O fracasso 
do putsch do general Kornilov, de 24-27 de agosto de 1917, precipitou a crise final de um governo provisório que não 
controlava mais nenhuma das tradicionais trocas de governantes. Enquanto nos altos escalões os jogos de poder 
punham em disputa civis e militares aspirantes a uma ilusória ditadura, os pilares sobre os quais o Estado repousava - a 
Justiça, a administração e o exército - cediam, o direito era ridicularizado, a autoridade era contestada sob todas as suas 
formas. 

Seria a radicalização incontestável das massas urbanas e rurais um sintoma de sua bolchevização? Nada menos 
certo. Por detrás dos slogans comuns - “controle operário”, “todo poder aos sovietes” - operários militantes e dirigentes 
bolcheviques não davam aos termos a mesma significação. No exército, o “bolchevismo de trincheira” refletia, antes de 
tudo, um generalizado anseio pela paz, partilhado pelos combatentes de todo o país, engajados havia mais de três anos 
na mais sangrenta e total das guerras. Quanto à revolução camponesa, ela seguia uma via completamente autónoma, 
bem mais próxima do programa socialista-revolucionário, favorável à “partilha negra”, do que do programa 
bolchevique que preconizava a nacionalização da terra e sua exploração em grandes unidades coletivas. Nos campos, os 
bolcheviques eram conhecidos apenas segundo os relatos feitos pelos desertores, precursores de um bolchevismo 
difuso, portadores das duas palavras mágicas: a paz e a terra. Nem todos os descontentes aderiam ao Partido 
Bolchevique, que contava, de acordo com números controversos, com algo entre cem mil e duzentos mil membros no 
início de outubro de 1917. Contudo, no vazio institucional do outono de 1917, quando toda autoridade do Estado havia 
desaparecido para dar lugar a uma plêiade de Comitês, sovietes e outros grupelhos, bastava que um núcleo bem- 
organizado e decidido agisse com determinação para tão logo exercer uma autoridade desproporcional a sua força real. 
Foi o que o Partido Bolchevique fez. 


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Desde sua fundação em 1903, esse partido havia se distanciado das outras correntes da social-democracia, 
tanto russa quanto europeia, especialmente em sua estratégia voluntária de ruptura radical para com a ordem existente e 
em sua concepção de partido, um partido fortemente estruturado, disciplinado, elitista e eficaz, vanguarda de 
revolucionários profissionais, bastante afastado do grande partido de reunião - amplamente aberto aos simpatizantes de 
diferentes tendências -, tal como concebiam os social-democratas europeus em geral. 

A Primeira Guerra Mundial acentuou ainda mais a especificidade do bolchevismo leninista. Rejeitando toda 
colaboração com as outras correntes social-democratas, Lenin, cada vez mais isolado, justificou teoricamente sua 
posição em seu ensaio O Imperialismo, estádio supremo do capitalismo. Ele explicava nesse ensaio que a revolução 
explodiria não no país em que o capitalismo estivesse muito forte, mas num Estado economicamente pouco 
desenvolvido, como a Rússia, com a condição de que o movimento revolucionário fosse dirigido por uma vanguarda 
disciplinada, pronta para ir até o fim, ou seja, até a ditadura do proletariado e a transformação da guerra imperialista 
numa guerra civil. 

Em uma carta de 17 de outubro de 1914, endereçada a Alexandre Chliapnikov, um dos dirigentes bolchevistas, 
Lenin escreveu: 

“De imediato, o menor dos males seria a derrota do czarismo na guerra. [...] Toda a essência do nosso trabalho 
(persistente, sistemático e, talvez, de longa duração) visa à transformação da guerra numa guerra civil. Quando é que 
isso vai se produzir é uma outra questão, ainda não está claro. Devemos deixar que o momento amadureça, “forçando 
tal amadurecimento” sistematicamente... Não podemos “prometer” a guerra civil, nem “decretá-la”, mas temos o dever 
de trabalhar - o tempo que for necessário - nessa direção.” 

Revelando as “contradições interimperialistas”, a “guerra imperialista” lançava, assim, os termos do dogma 
marxista, tornando sua explosão ainda mais provável na Rússia do que em qualquer outro país. No decorrer da guerra, 
Lenin retomou a idéia de que os bolcheviques deviam estar prontos para encorajar, por todos os meios, o 
desenvolvimento de uma guerra civil. 

“Quem quer que reconheça a guerra de classes”, escreveu ele em setembro de 1916, “deve reconhecer a guerra 
civil, que em toda sociedade de classes representa a continuação, o desenvolvimento e a acentuação naturais da guerra 
de classes.” 

Após a vitória da revolução de fevereiro, na qual nenhum dirigente bolchevique de peso tomou parte, uma vez 
que todos estavam ou no exílio ou no exterior, Lenin, contra a opinião dos próprios dirigentes do Partido, previu a 
falência da política de conciliação com o governo provisório que o soviete de Petrogrado - dominado por uma maioria 
de socialistas-revolucionários e de social-democratras, todas as tendências confundidas - tentava implantar. Em suas 
quatro Canas de longe- escritas em Zurique de 20 a 25 de maio de 1917, das quais o jornal bolchevique Pravda ousou 
publicar apenas a primeira, tanto esses escritos rompiam com as posições políticas então defendidas pelos dirigentes 
bolcheviques de Petrogrado - Lenin exigia a ruptura imediata entre o soviete de Petrogrado e o governo provisório, 
assim como a preparação ati-va da fase seguinte, a fase “proletária” da revolução. Para Lenin, o surgimento dos 
sovietes era a demonstração de que a revolução já havia ultrapassado sua “fase burguesa”. Sem mais esperar, esses 
órgãos revolucionários deviam tomar o poder pela força e pôr fim à guerra imperialista, mesmo pagando o preço de 
uma guerra civil, inevitável a todo o processo revolucionário. 

De volta à Rússia em 3 de abril de 1917, Lenin continuou a defender suas posições extremadas. Em suas 
célebres Teses de abril, ele repetiu sua hostilidade incondicional à república parlamentar e ao processo democrático. 
Acolhida com estupefação e hostilidade pela maioria dos dirigentes bolcheviques de Petrogrado, as idéias de Lenin 
progrediram rapidamente, especialmente entre os novos recrutas do Partido, os que Stalin chamava, com justiça, de os 
praktiki (os “praticantes”) em oposição aos “teóricos”. Em alguns meses, os elementos plebeus, entre os quais os 
soldados-camponeses, ocupavam um lugar central, sufocaram os elementos urbanizados e intelectuais, velhos de guerra 
nas lutas sociais institucionalizadas. Portadores de grande violência, enraizada na cultura camponesa e exacerbada por 
três anos de guerra, ainda não prisioneiros do dogma marxista do qual eles nada conheciam, esses militantes de origem 
popular, pouco formados politicamente, representantes típicos de um bolchevismo plebeu que ia tão logo fortemente 
distinguir-se do bolchevismo teórico e intelectual dos bolcheviques originais, nunca se punham a questão: uma “etapa 
burguesa” seria necessária ou não para “atingir o socialismo”? Defensores da ação direta, do golpe de força, eles eram 
os mais exaltados ativistas de um bolchevismo em que os debates teóricos cederam lugar à doravante única questão na 
ordem do dia, a da tomada do poder. 

Entre uma base plebeia cada vez mais impaciente, pronta para a aventura - os marinheiros da base naval de 
Kronstadt, na costa de Petrogrado, algumas unidades da guarnição da capital, as Guardas Vermelhas dos bairros 
operários de Vyborg -, e os dirigentes temerosos do fracasso de uma insurreição prematura, destinada a ser esmagada, o 
caminho do leninismo permanecia estreito. Durante todo o ano de 1917, o Partido Bolchevique conservou-se, ao 
contrário do que diz uma idéia bastante difundida, profundamente dividido, oscilando entre os excessos de uns e a 
reticência de outros. A famosa disciplina do Partido era bem mais um ato de fé do que uma realidade. No início do mês 


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de julho de 1917, os excessos da base, impaciente por bater-se com as forças governamentais, quase prevaleceram no 
Partido Bolchevique, declarado ilegal logo em seguida às manifestações sangrentas de 3 a 5 de julho em Petrogrado, e 
cujos dirigentes foram presos ou, como Lenin, obrigados ao exílio. 

A impotência do governo na solução dos grandes problemas, a falência das instituições e das autoridades 
tradicionais, o desenvolvimento dos movimentos sociais e o fracasso da tentativa de putsch militar do general Kornilov 
permitiram ao Partido Bolchevique reerguer-se, em agosto de 1917, em uma situação propícia para a tomada do poder 
através de uma insurreição armada. 

Mais uma vez, foi decisivo o papel pessoal de Lenin enquanto teórico e estrategista da tomada do poder. Nas 
semanas que precederam o Golpe de Estado bolchevique de 25 de outubro de 1917, Lenin estabeleceu todas as etapas 
de um Golpe de Estado militar, que não podia ser ultrapassado por uma agitação imprevista das “massas” nem ser 
freado pelo “legalismo revolucionário” dos dirigentes bolcheviques, tais como Zinoviev ou Kamenev, que, escaldados 
pela experiência amarga dos dias de julho, desejavam subir ao poder com uma maioria plural de socialistas- 
revolucionários e de social-democratas de diversas tendências, majoritários nos sovietes. Do seu exílio finlandês, Lenin 
não parava de enviar ao Comitê Central do Partido Bolchevique cartas e artigos convocando à insurreição. 

“Propondo uma paz imediata e dando terra aos camponeses, os bolcheviques estabelecerão um poder que 
ninguém derrubará, escreveu Lenin. Será inútil esperar por uma maioria formal em favor dos bolcheviques. Nenhuma 
revolução espera por isso. A História não nos perdoará se não tomarmos já o poder.” 

Esses apelos deixavam cética a maior parte dos dirigentes bolcheviques. Por que apressar as coisas, uma vez 
que a situação se radicalizava a cada dia mais? Não bastaria unir-se às massas encorajando a sua violência espontânea, 
deixar agirem as forcas corrosivas dos movimentos sociais, esperar a reunião do II Congresso Panrusso dos Sovietes, 
previsto para 20 de outubro? Os bolcheviques tinham todas as chances de obter uma maioria relativa nessa assembleia 
em que os delegados dos sovietes dos grandes centros operários e dos Comitês de soldados estavam muito bem 
representados em relação aos sovietes rurais onde dominavam os socialistas-revolucionários. Ora, se para Lenin a 
transferência do poder fosse feita através do voto no Congresso dos Sovietes, o governo então escolhido seria um 
governo de coalizão, em que os bolcheviques deveriam partilhar o poder com as outras formações socialistas. Lenin, 
que reclamava há meses todo o poder para os seus bolcheviques, queria antes de tudo que os próprios bolcheviques se 
apoderassem do poder através de uma insurreição militar, antes da convocação do II Congresso Panrusso dos Sovietes. 
Pois ele sabia que os outros partidos socialistas condenariam o Golpe de Estado insurrecional e que não caberia a estes 
últimos mais do que passar para a oposição, deixando todo o poder aos bolcheviques. 

Em 10 de outubro, de volta a Petrogrado clandestinamente, Lenin reuniu 12 dos 21 membros do Comitê 
Central do Partido Bolchevique. Após dez horas de discussões, ele conseguiu convencer a maioria dos presentes a votar 
a mais importante decisão tomada pelo Partido: dar início a uma insurreição armada o mais brevemente possível. Essa 
decisão foi aprovada por dez votos contra dois - os de Zinoviev e de Kamenev, resolutamente determinados na idéia de 
que nada deveria ser empreendido antes da reunião do II Congresso dos Sovietes. Em 16 de outubro, Trotski constituiu, 
apesar da oposição dos socialistas moderados, uma organização militar - o Comitê Militar Revolucionário de 
Petrogrado (CMRP), teoricamente proveniente do soviete de Petrogrado, mas cuja administração era de fato formada 
por bolcheviques - encarregada de conduzir a tomada do poder através de uma insurreição militar, opondo-se a uma 
revolta popular espontânea e anarquista suscetível de sobrepujar o Partido Bolchevique. 

Como desejava Lenin, o número de participantes diretos da Grande Revolução Socialista de Outubro de 1917 
foi bastante limitado: poucos milhares de soldados da guarnição, marinheiros de Kronstadt, Guardas Vermelhas aliadas 
ao CMRP e umas poucas centenas de militantes bolcheviques dos Comitês de fábrica. Os raros combates e o número 
insignificante de vítimas atestavam a facilidade de um Golpe de Estado esperado, cuidadosamente preparado e 
perpetrado praticamente sem oposição. A tomada do poder fez-se, significativamente, em nome do CMRP. Assim, os 
dirigentes bolcheviques atribuíam a totalidade do poder a uma instância que não havia sido delegada por ninguém, 
exceto pelo Comitê Central Bolchevique, e que, portanto, não era de modo algum dependente do Congresso dos 
Sovietes. 

A estratégia de Lenin mostrou-se correta: diante de um fato já consumado, os socialistas moderados, após 
denunciarem “a conspiração militar organizada pelas costas dos sovietes”, abandonaram o II Congresso dos Sovietes. 
Os bolcheviques, a partir de então mais numerosos ao lado de seus únicos aliados - os membros do pequeno grupo 
socialista-revolucionário de esquerda -, ratificaram o seu Golpe de Estado junto aos deputados ainda presentes no 
Congresso, votando um texto redigido por Lenin, que atribuía “todo o poder aos sovietes”. Essa resolução puramente 
formal fez com que os bolcheviques tornassem credível uma ficção que iria iludir várias gerações de crédulos: eles 
governavam em nome do povo no “país dos sovietes”. Algumas horas mais tarde, o Congresso homologou, antes de se 
encerrarem os trabalhos, a criação do novo governo bolchevique - o Conselho dos comissários do povo, presidido por 
Lenin - e aprovou os decretos sobre a paz e sobre a terra, primeiros atos do novo regime. 


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Rapidamente, multiplicaram-se os equívocos e os conflitos entre o novo poder e os movimentos sociais, que 
haviam agido de maneira autônoma, como forcas corrosivas da antiga ordem política, econômica e social. Primeiro 
equívoco: relativo à revolução agrária. Os bolcheviques, que sempre preconizaram a estatização das terras, foram 
obrigados, dentro de uma relação de forças que não lhe era favorável, a adotar, ou melhor, a “roubar” o programa 
socialista-revolucionário e aprovar a distribuição das terras aos camponeses. O “decreto sobre a terra” - cujo principal 
dispositivo proclamava que “a propriedade privada da terra está abolida sem direito a indenização, estando todas as 
terras à disposição dos Comitês agrários locais, para a sua distribuição” - limitava-se, na verdade, a legitimar o que 
várias comunidades camponesas já haviam praticado desde o verão de 1917: a brutal apropriação das terras 
pertencentes aos grandes proprietários rurais e aos camponeses abastados, os kulaks. Obrigados momentaneamente a 
“aderir” a essa revolução camponesa autónoma que havia facilitado de modo inequívoco sua subida ao poder, os 
bolcheviques só viriam retomar seu programa algumas décadas mais tarde. A coleti-vização forçada do campo, apogeu 
do confronto entre o regime oriundo de Outubro de 1917 e o campesinato, seria a resolução trágica do equívoco de 
1917. 

Segundo equívoco: as relações do Partido Bolchevique com todas as instituições - Comitês de fábrica, 
sindicatos, partidos socialistas, Comitês de bairro, Guardas Vermelhas e, sobretudo, sovietes - que tinham participado 
da destruição das instituições tradicionais, além de terem lutado pela afirmação e a extensão de sua própria 
competência. Em poucas semanas, essas instituições foram despojadas de seu poder, subordinadas ao Partido 
Bolchevique ou mesmo eliminadas. O “poder aos sovietes”, sem dúvida a palavra de ordem mais popular na Rússia de 
Outubro de 1917, tornou-se, num passe de mágica, o poder do Partido Bolchevique sobre os sovietes. Quanto ao 
“controle operário”, outra importante reivindicação daqueles em nome dos quais os bolcheviques pretendiam agir - os 
proletários de Petrogrado e de outros grandes centros industriais -, foi rapidamente descartado em nome do controle do 
Estado, supostamente operário, sobre as empresas e os trabalhadores. Uma incompreensão mútua instalou-se entre o 
mundo operário - atormentado pelo desemprego, pela degradação contínua de seu poder de compra e pela fome - e o 
Estado preocupado com a eficácia econômica. Desde o mês de dezembro de 1917, o novo regime teve de enfrentar uma 
onda de reivindicações operárias e de greves. Em poucas semanas, os bolcheviques perderam boa parte da confiança 
que o conjunto dos trabalhadores havia neles depositado durante o ano de 1917. 

Terceiro equívoco: as relações do novo poder com as nações do ex-Império Czarista. O Golpe de Estado 
bolchevique acelerou a tendência centrífuga que os novos dirigentes davam ares de, a princípio, afiançar. 
Reconhecendo a igualdade e a soberania - o direito à autodeterminação, à federação e à sucessão - dos povos do antigo 
império, os bolcheviques pareciam convidar os povos alógenos a se emanciparem da tutela do poder central russo. Em 
poucos meses, poloneses, finlandeses, bálticos, ucranianos, georgianos, arménios e azeris proclamaram sua 
independência. Ultrapassados, os bolcheviques pouco depois subordinaram essa autodeterminação à necessidade de 
conservarem o trigo ucraniano, o petróleo e os minerais do Cáucaso, ou seja, os interesses vitais do novo Estado, que 
rapidamente se afirmou, pelo menos do ponto de vista territorial, como um herdeiro direto do ex-Império, mais ainda 
do que o próprio governo provisório. 

A interpenetração de revoluções sociais e nacionais multiformes e de uma prática política específica que 
excluía completamente a partilha do poder devia rapidamente conduzir a um confronto, gerador de violência e de terror, 
entre o novo governo e amplos segmentos da sociedade. 


2. O “Braço Armado da Ditadura do Proletariado” 


O novo poder surge como uma construção complexa: uma fachada, “o poder dos sovietes”, formalmente 
representado pelo Comitê Executivo Central; um governo legal, o Conselho dos Comissários do Povo, que se esforça 
para adquirir uma legitimidade tanto internacional quanto interna; e uma organização revolucionária, o Comitê Militar 
Revolucionário de Petrogrado (CMRP), a estrutura operacional no centro do dispositivo de tomada do poder. Feliks 
Dzerjinski caracterizava este Comitê, no qual ele próprio desempenhou um papel decisivo, da seguinte maneira: “Uma 
estrutura ágil, flexível, prontamente operacional, sem futilidade legal. Nenhuma restrição para agir, para bater nos 
inimigos do braço armado da ditadura do proletariado.” 

E como funcionava, desde os primeiros dias do novo regime - segundo a expressão retomada da figura de 
linguagem de Dzerjinski, utilizada mais tarde para qualificar a polícia política bolchevique, a Tcheka - “o braço armado 
da ditadura do proletariado”? De maneira simples e diligente. O CMRP era composto por cerca de 60 membros, dos 
quais 48 eram bolcheviques, e os outros eram socialistas-revolucionários de esquerda e anarquistas; ele estava 
submetido à direção formal de um “presidente”, um socialista-revolucionário de esquerda, Lazimir, devidamente 
assessorado por quatro suplentes bolcheviques, entre os quais figuravam Antonov-Ovseenko e Dzerjinski. Na verdade, 
cerca de 20 pessoas redigiram e assinaram, sob o título de “Presidente” ou de “Secretário”, as quase seis mil ordens 
emitidas pelo CMRP, em geral em pequenos pedaços de papel escritos a lápis, durante seus 53 dias de existência. 


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A mesma “simplicidade operacional” valia para a difusão das diretivas e execução de ordens: o CMRP agia 
pelo intermédio de uma rede com cerca de mil “comissários”, nomeados junto às mais diversas organizações, tais como 
unidades militares, sovietes, Comitês de bairro e administrações. Únicos responsáveis diante do CMRP, esses 
comissários frequentemente tomavam decisões sem o aval do governo nem o do Comitê Central bolchevique. A partir 
do dia 26 de outubro (8 de novembro),! na ausência de todos os grandes líderes bolcheviques, ocupados com a 
formação do governo, obscuros “comissários”, que permanecem anónimos, decidiram “recrudescer a ditadura do 
proletariado” com as seguintes medidas: interdição dos panfletos “contra-revolu-cionários”; fechamento dos sete 
principais jornais da capital, tanto os “burgueses” quanto os “socialistas moderados”; controle da rádio e do telégrafo, e 
o estabelecimento de um projeto de requisição de apartamentos e automóveis privados. O fechamento dos jornais foi 
legalizado dois dias mais tarde através de um decreto do governo e, uma semana mais tarde, não sem ácidas discussões, 
pelo Comitê Executivo Central dos Sovietes. 

Ainda não muito seguros de sua força, os dirigentes bolcheviques encorajaram, num primeiro momento - e 
segundo a tática que lhe fora favorável no decorrer de 1917 -, o que eles chamavam de “espontaneidade revolucionária 
das massas”. Respondendo a uma delegação de representantes dos sovietes rurais, vindos das províncias em busca de 
informações junto ao CMRP sobre as medidas a serem tomadas para “evitar-se a anarquia”, Dzerjinski explicou que 
“temos agora a obrigação de romper com a antiga ordem. Nós, bolcheviques, não somos numerosos o suficiente para 
cumprir essa tarefa histórica. É necessário deixar agir livremente a espontaneidade revolucionária das massas que lutam 
por sua emancipação. Em um segundo momento, nós, bolcheviques, mostraremos os caminhos a serem seguidos. São 
as massas que falam através do CMRP; são elas que agem contra os inimigos da classe, contra os inimigos do povo. 
Nosso único papel aqui é o de dirigir e canalizar o ódio e o desejo legítimo de vingança dos oprimidos contra os 
opressores.” 

Alguns dias antes, na reunião do CMRP de 29 de outubro (10 de novembro), entre os presentes, algumas vozes 
anónimas haviam evocado a necessidade de lutar com mais energia contra “os inimigos do povo”, uma fórmula que 
conheceria um grande sucesso nos meses, anos e décadas futuras, e que foi retomada numa proclamação do CMRP 
datada de 13 de novembro (26 de novembro): “Os funcionários de alto escalão na administração do Estado, dos bancos, 
do Tesouro, das ferrovias e dos correios e telégrafos estão sabotando as medidas tomadas pelo governo bolchevique. 
Doravante, essas pessoas são declaradas inimigas do povo. Seus nomes serão publicados em todos os jornais, e as listas 
de inimigos do povo serão afixadas em todos os locais públicos.” Alguns dias após a instituição dessas listas de 
proscrição, uma nova proclamação: “Todos os indivíduos suspeitos de sabotagem, de especulação ou de monopólio são 
suscetíveis de serem imediatamente detidos como inimigos do povo e serem transferidos para as prisões de Kronstadt.” 

Em poucos dias, o CMRP introduziu duas noções particularmente amedrontadoras: a de “inimigo do povo” e a 
de “suspeito”. 

Em 28 de novembro (10 de dezembro), o governo institucionalizou a noção de “inimigo do povo”; um decreto, 
assinado por Lenin, estipulava que “os membros das instâncias dirigentes do Partido Constitucional Democrata, partido 
dos inimigos do povo, são declarados fora da lei, passíveis de prisão imediata e de comparecimento diante dos tribunais 
revolucionários”. Esses tribunais acabavam de ser instituídos pelo “decreto nº 1 sobre os tribunais”. Segundo os termos 
desse texto, estavam abolidas todas as leis que estivessem “em contradição com os decretos do governo operário e 
camponês assim como com os programas políticos dos Partidos Social-Democrata e Socialista Revolucionário”. 
Enquanto era aguardada a redação do novo Código Penal, os juizes tinham toda a liberdade de apreciar a validade da 
legislação existente “em função da ordem e da legalidade revolucionárias”, uma noção tão vaga, que permitia todo tipo 
de abuso. Os tribunais do Antigo Regime foram suprimidos e substituídos pelos tribunais populares e tribunais 
revolucionários, competentes para todos os crimes e delitos cometidos “contra o Estado Proletário”, a “sabotagem”, a 
“espionagem”, os “abusos de função” e outros “crimes contra-revolucionários”. Como reconhecia Kurski, comissário 
do povo para a Justiça de 1918 a 1928, os tribunais revolucionários não eram tribunais no sentido habitual, “burguês”, 
do termo, mas tribunais da ditadura do proletariado, órgãos de luta contra a contra-revolução, mais preocupados em 
erradicar do que em julgar. Entre os tribunais revolucionários figurava um “tribunal revolucionário para a imprensa”, 
encarregado de julgar os delitos de imprensa e suspender toda publicação que “semeasse a perturbação nos espíritos, 
publicando notícias voluntariamente falsas”.? 

Enquanto apareciam categorias inéditas (“suspeitos”, “inimigos do povo”), instauradas como os novos 
dispositivos judiciários, o Comitê Militar Revolucionário de Petrogrado continuava a estruturar-se. Em uma cidade 
onde os estoques de farinha eram inferiores a um dia de racionamento miserável - um quarto de quilo de pão por adulto 
-, a questão do abastecimento era, obviamente, primordial. 

Em 4 (17) de novembro foi criada uma Comissão para o Abastecimento, cuja primeira proclamação acusava as 
“classes ricas que se aproveitavam da miséria” e afirmava: “É chegada a hora de requisitar todo o excedente dos ricos, e 
também, por que não?, seus bens.” Em 11 (24) de novembro, a Comissão para o Abastecimento decidiu enviar, 
imediatamente, destacamentos especiais compostos por soldados, marinheiros, operários e Guardas Vermelhas nas 


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províncias produtoras de cereais, “a fim de obter os produtos alimentares de primeira necessidade para Petrogrado e 
para o Fronte”. Essa medida tomada por uma comissão do CMRP prefigurava a política de requisição praticada, 
durante cerca de três anos, pelos destacamentos do “exército do abastecimento”, e que viria a ser o fator essencial nos 
confrontos entre o novo pcder e os camponeses, com a consequente geração de violência e terror. 

A Comissão de Investigação Militar, criada em 10 (23) de novembro, foi encarregada da prisão dos oficiais 
“contra-revolucionários” (denunciados, com fregiiência, por seus próprios comandados), dos membros dos partidos 
“burgueses” e dos funcionários suspeitos de “sabotagem”. Rapidamente, essa comissão ocupou-se dos mais diversos 
casos. No clima de revolta de uma cidade atingida pela fome - onde destacamentos das Guardas Vermelhas e de 
soldados improvisados inquiriam, extorquiam e pilhavam em nome da revolução, protegidos por um mandato incerto, 
assinado por um tal “comissário” - a cada dia, centenas de indivíduos compareciam diante da Comissão pelos mais 
diversos tipos de delitos: pilhagem, “especulação”, “monopólio” de produtos de primeira necessidade, mas também 
“estado de embriaguez” e “por pertencer a uma classe hostil”. 

O apelo dos bolcheviques em favor da espontaneidade revolucionária das massas era uma arma de manuseio 
delicado. Os acertos de contas e os atos violentos multiplicaram-se, em particular os roubos à mão armada e a pilhagem 
de lojas, especialmente as que vendiam álcool e as adegas do Palácio de Inverno. Com o decorrer dos dias, o fenómeno 
tomou uma tal proporção, que, por sugestão de Dzerjinski, o CMRP decidiu criar uma comissão de luta contra a 
bebedeira e as desordens. Em 6 (20) de dezembro, essa comissão declarou a cidade de Petrogrado em estado de sítio e 
decretou o toque de recolher, com o objetivo de “pôr fim à revolta e à desordem iniciadas por alguns elementos 
obscuros e mascarados que se diziam revolucionários”. 

Na realidade, o governo temia - mais do que essas revoltas esporádicas - a extensão da greve dos funcionários, 
que durava desde os dias que se seguiram ao Golpe de Estado de 25 de outubro (7 de novembro). Foi essa ameaça que 
se constituiu como o pretexto para a criação, em 7 (20) de dezembro, da Vserossiskaía tchrezvytchaínaía komissiapo 
bor'be s kontr'-revoliutsii, spekuliat-sieí i sabotagem - a Comissão Panrussa Extraordinária de Luta Contra a Contra- 
Revolução, a Especulação e a Sabotagem -, que entraria para a História com as iniciais Vetcheka, ou de forma 
abreviada, Tcheka. 

Alguns dias antes da criação da Tcheka, o governo havia decidido, depois de alguma hesitação, dissolver o 
CMRP. Estrutura operacional provisória, fundada às vésperas da insurreição para dirigir as operações de campo, o 
CMRP cumprira as tarefas que lhe haviam sido reservadas. Ele havia permitido a tomada do poder e a defesa do novo 
regime até o momento em que este último pudesse criar seu próprio aparelho de Estado. Ele devia, a partir de então - 
para evitar a confusão dos poderes e o cruzamento de competências - transferir suas prerrogativas ao governo legal, o 
Conselho dos Comissários do Povo. 

Mas como dispensar “o braço armado do proletariado”, esse instrumento considerado, em determinado 
momento, como fundamental pelos dirigentes comunistas? Durante a reunião de 6 de dezembro, o governo encarregou 
“o camarada Dzerjinski de estabelecer uma comissão especial para examinar os meios de lutar, com a maior energia 
revolucionária possível, contra a greve geral dos funcionários e determinar os métodos de suprimir a sabotagem”. A 
escolha do “camarada Dzerjinski” não somente não suscitou nenhum tipo de discussão, como também pareceu 
evidente. Alguns dias antes, Lenin, eterno apreciador dos paralelos entre a Grande Revolução - francesa - e a revolução 
russa de 1917, confidenciara a seu secretário, V. Bontch-Bruevitch, a necessidade de encontrar com urgência “nosso 
Fouquier-Tinvillefrequência, para castigar toda essa ralé contra-revolucionária”. Em 6 de dezembro, a escolha de um 
“sólido jacobino proletário”, retomando uma outra expressão de Lenin, recaiu com unanimidade sobre Feliks 
Dzerjinski, que se tornou em poucas semanas, através de sua ação enérgica frente o CMRP, o grande especialista nas 
questões de segurança. Aliás, explicou Lenin a Bontch-Bruevitch, “de nós todos, foi Feliks quem passou mais tempo 
nas celas czaristas e quem mais desafiou a Okhranka [a polícia política czarista]. Ele sabe o que faz!” 

Antes da reunião governamental de 7 (20) de dezembro, Lenin enviou uma nota a Dzerjinski: 

“A respeito de seu relatório de hoje, seria interessante compor um decreto com um preâmbulo deste tipo: a 
burguesia prepara-se para cometer os crimes mais abomináveis, recrutando a escória da sociedade para organizar 
badernas. Os cúmplices da burguesia, especialmente os funcionários de alto escalão, os diretores dos bancos, etc., 
fazem sabotagens e organizam greves para minar as medidas do governo destinadas a pôr em prática a transformação 
socialista da sociedade. A burguesia não recua nem mesmo diante da sabotagem do abastecimento, condenando, dessa 
maneira, milhões de homens à fome. Medidas excepcionais devem ser tomadas para lutar contra os sabotado-res e os 
contra-revolucionários. Como consequência, o Conselho dos Comissários do Povo decreta.. .” 

Na noite de 7 (20) de dezembro, Dzerjinski apresentou seu projeto ao Conselho dos Comissários do Povo. Ele 
abriu sua intervenção discorrendo sobre os perigos que ameaçavam a revolução no “fronte interior”: 

“Devemos enviar a esse fronte - o mais perigoso e cruel dos frontes - os camaradas mais determinados, duros e 
sólidos, sem muito espírito ponderador, prontos a se sacrificarem pela integridade da revolução. Temos apenas de fazer 
justiça"! Estamos em guerra no fronte mais cruel, pois o inimigo ataca mascarado, e é uma luta de morte! Eu proponho, 


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eu exijo, que se crie um órgão que faça o acerto de contas com os contra-revolucionários da maneira revolucionária, 
autenticamente bolchevique!” 

Em seguida, Dzerjinski abordou o núcleo de sua intervenção, que nós transcrevemos tal como aparece na ata 
da reunião: 

“A Comissão tem como tarefa: 1) suprimir e liquidar toda tentativa e ato de contra-revolução e de sabotagem, 
de quaisquer fronteiras que possam vir, e sobre todo o território da Rússia; 2) transferir todos os sabotadores e os 
contra-revolucionários a um tribunal revolucionário. 

A Comissão limita-se a uma investigação preliminar, uma vez que esta última é indispensável à condução de 
sua tarefa. 

A comissão está dividida em departamentos: 1) Informação; 2) Organização; 3) Operação. 

A Comissão dispensará uma atenção toda especial aos casos relativos à imprensa, à sabotagem, aos KD 
[constitucionalistas-democratas], aos SR [socialistas-revolucionários] de direita, aos sabotadores e aos grevistas. 

Medidas repressivas reservadas à Comissão: confisco de bens, expulsão do domicílio, privação de cartões de 
racionamento, publicação de listas de inimigos do povo, etc. 

Resolução: aprovar o projeto. Nomear a Comissão de Comissão Panrussa Extraordinária de Luta Contra a 
Contra-Revolução, a Especulação e a Sabotagem. A ser publicado.” 

Inicialmente, este texto fundador da polícia política soviética suscita uma interrogação. Como interpretar a 
discordância entre o discurso agressivo de Dzerjinski e a relativa modéstia das atribuições conferidas à Tcheka? Os 
bolcheviques estavam prestes a concluir um acordo com os socialistas-revolucionários de esquerda (seis de seus 
dirigentes entraram para o governo em 12 de dezembro), a fim de romper seu isolamento político, num momento em 
que lhes era necessário lidar com a questão da convocação da Assembleia Constituinte, na qual eles eram minoritários. 
Desse modo, eles adoraram uma postura mais modesta. Contrariamente à resolução adotada pelo governo em 7 (20) de 
dezembro, nenhum decreto anunciando a criação da Tcheka e definindo o alcance de sua competência foi publicado. 

Comissão “extraordinária”, a Tcheka iria prosperar e agir sem a menor base legal. Dzerjinski, que desejava, 
como Lenin, ter as mãos livres, emitiu esta frase surpreendente: “É a própria vida quem mostra o caminho da Tcheka.” 
A vida, ou seja, o “terror revolucionário das massas”, a violência das ruas que a maioria dos dirigentes bolcheviques 
encorajava abertamente na ocasião, esquecendo-se momentaneamente da profunda desconfiança que eles tinham em 
relação à espontaneidade popular. 

Em 19 (13) de dezembro, Trotski, Comissário do povo para a Guerra, dirigindo-se aos delegados do Comitê 
Central dos Sovietes, previu: “Em menos de um mês, o terror, do mesmo modo que ocorreu durante a Grande 
Revolução francesa, vai ganhar formas bastante violentas. Não será mais somente a prisão, mas a guilhotina - essa 
notável invenção da Grande Revolução francesa, que tem como a maior vantagem reconhecida a de encurtar o homem 
em uma cabeça - que estará pronta para os nossos inimigos.” 

Algumas semanas mais tarde, tomando a palavra numa assembleia de operários, Lenin mais uma vez invocou 
o terror, essa “justiça revolucionária de classe”: 

“O poder dos sovietes agiu como deveriam ter agido todas as revoluções proletárias: ele acabou de uma vez 
por todas com a justiça burguesa, esse instrumento das classes dominantes. [...] Os soldados e os operários devem 
compreender que ninguém os ajudará se eles não se ajudarem a si próprios. Se as massas não se levantarem 
espontaneamente, não conseguiremos nada. f...] Enquanto não aplicarmos o terror sobre os especuladores - uma bala na 
cabeça, imediatamente - não chegaremos a lugar algum!” 

É verdade que esses apelos ao terror atiçavam uma violência que não havia esperado a subida dos 
bolcheviques ao poder para ser desencadeada. Desde o outono de 1917, milhares de grandes domínios rurais haviam 
sido saqueados pelos camponeses enraivecidos, e centenas de grandes proprietários haviam sido massacrados. Na 
Rússia do verão de 1917, a violência era onipre-sente. Essa violência não era nova, mas os eventos do decorrer daquele 
ano permitiram a convergência de várias formas de violência, presentes em estado latente: uma violência urbana, 
“reativa” à brutalização das relações capitalistas no seio do mundo industrial; uma violência camponesa “tradicional”; a 
violência “moderna” da Primeira Guerra Mundial portadora de uma extraordinária regressão e de uma formidável 
brutalização das relações humanas. Á mistura dessas três formas de violência constituía um coquetel explosivo, cujo 
efeito podia ser devastador na conjuntura bastante particular da Rússia em processo de revolução, marcada ao mesmo 
tempo pela falência das instituições da ordem e da autoridade, pelo crescimento dos ressentimentos e das frustrações 
sociais durante muito tempo acumuladas e pela instrumentalização política da violência popular. Entre os citadinos e a 
população rural, a desconfiança era recíproca; para estes últimos, a cidade era, mais do que nunca, o lugar do poder e da 
opressão. Para a elite urbana e para os revolucionários profissionais, oriundos em sua imensa maioria da intelligentsia, 
os camponeses permaneciam, como escrevia Gorki, uma massa de “pessoas metade selvagens” cujos “instintos cruéis” 
e o “individualismo animal” deviam ser submetidos à “razão organizada da cidade”. Ao mesmo tempo, os políticos e 
intelectuais estavam perfeitamente conscientes do fato de que era o desencadear das revoltas camponesas que havia 


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abalado o governo provisório, permitindo aos bolcheviques, minoritários em grande parte do país, se apoderarem do 
poder no vazio institucional ambiente. 

Entre o fim de 1917 e o começo de 1918, nenhuma oposição ameaçava seriamente o novo regime que, um mês 
após o Golpe de Estado bolchevique, controlava a maior parte do norte e do centro da Rússia até o Médio Volga, mas 
também um bom número de aglomerações até mesmo no Cáucaso (Baku) e na Ásia Central (Tachkent). E se a Ucrânia 
e a Finlândia haviam se separado, elas não demonstravam nenhuma intenção belicosa em relação ao poder bolchevique. 
A única força militar organizada antibolchevique era um pequeno “exército de voluntários”, com a força de cerca de 
três mil homens, embrião do futuro exército “branco”, erguido no sul da Rússia pelos generais Alexeiev e Kornilov. 
Esses generais czaristas baseavam todas as suas esperanças nos cossacos da região do Don e do Kuban. Os cossacos se 
diferenciavam radicalmente dos outros camponeses russos; seu principal privilégio, durante o Antigo Regime, era 
receber 30 hectares de terra em troca de um serviço militar até a idade de 36 anos. Se eles não aspiravam adquirir novas 
terras, eles queriam conservar as que eles já possuíam. Desejando, antes de tudo, salvar o seu estatuto e sua 
independência, os cossacos, inquietos diante das declarações bolcheviques culpando todos os kulaks, se juntaram às 
forças antibolchevi-ques na primavera de 1918. 

Pode-se falar de guerra civil a respeito das primeiras escaramuças ocorridas no sul da Rússia, no inverno de 
1917 e na primavera de 1918, entre os vários milhares de homens do exército de voluntários e as tropas bolcheviques 
do general Sivers que mal contava com seis mil homens? O que é surpreendente, inicialmente, é o contraste entre os 
exíguos efetivos engajados e a violência inaudita da repressão exercida pelos bolcheviques, não somente contra os 
militares capturados, mas também contra os civis. Instituída em junho de 1919 pelo general Denikin, comandante das 
forcas armadas do sul da Rússia, a “Comissão de Investigação Sobre os Crimes Bolcheviques” esforçou-se no 
recenseamento, durante os poucos meses de atividade, das atrocidades cometidas pelos bolcheviques na Ucrânia, no 
Kuban, região do Don e da Criméia. Os testemunhos recolhidos por essa comissão - que constituem a principal fonte do 
livro de S. P. Melgunov, O terror vermelho na Rússia, 1918-1924, o grande clássico sobre o terror bolchevique, 
publicado em Londres em 1924 -dão conta das inúmeras atrocidades perpetradas a partir de janeiro de 1918. Em 
Taganrog, os destacamentos do exército de Sivers haviam jogado 50 fidal-gotes e oficiais “brancos”, com os pés e os 
punhos atados, dentro de um alto-forno. Em Evpatória, várias centenas de oficiais e “burgueses” foram amarrados e 
Jogados ao mar, após terem sido torturados. Violências idênticas ocorreram na maior parte das cidades da Criméia 
ocupadas pelos bolcheviques: Sebastopol, Yalta, Aluchta, Simferopol. Mesmas atrocidades, a partir de abril-maio de 
1918, nos grandes burgos cossacos rebelados. Os dossiês bastante precisos da comissão de Denikin dão conta de 
“cadáveres com as mãos cortadas, ossos quebrados, cabeças decepadas, maxilares arrebentados, órgãos genitais 
cortados”. 

Entretanto, como observa Melgunov, é “difícil de distinguir entre o que seria a prática sistemática de um terror 
organizado e o que aparece como 'excessos' descontrolados”. Até agosto-setembro de 1918, não há quase nenhuma 
menção de que a Tcheka local teria dirigido os massacres. Aliás, até aquela altura dos acontecimentos, a rede de 
Tchekas permaneceu bastante dispersa. Os massacres, dirigidos conscientemente não apenas contra os combatentes do 
lado inimigo, mas também contra os civis “inimigos do povo” - assim, entre as 240 pessoas assassinadas em Yalta no 
início do mês de março de 1918, figuravam, além de 165 oficiais, cerca de 70 políticos, advogados, jornalistas e 
professores -, foram quase sempre perpetrados por “destacamentos armados”, “Guardas Vermelhas” e outros 
“elementos bolcheviques” não especificados. Exterminar “o inimigo do povo” foi apenas o prolongamento lógico de 
uma revolução ao mesmo tempo política e social em que uns eram os “vencedores” e os outros eram os “vencidos”. 
Essa concepção de mundo não havia aparecido bruscamente após outubro de 1917, mas as posições tomadas pelos 
bolcheviques, bastante explícitas sobre esse ponto, haviam-na legitimado. 

Lembremos o que já havia escrito um jovem capitão a respeito da revolução em seu regimento, em março de 
1917, numa carta extremamente perspicaz: “Entre nós e os soldados, o abismo é insondável. Para eles, nós somos e 
permaneceremos barines [senhores]. Para eles, o que acaba de acontecer não é uma revolução política, mas sim uma 
revolução social, na qual eles são os vencedores e nós os vencidos. Eles nos dizem: 'Antes, vocês eram os barines, 
agora é a nossa vez de os sermos!" Eles têm a impressão de enfim se vingarem após séculos de servidão.” 17 

Os dirigentes bolcheviques encorajavam tudo o que, nas massas populares, podia animar essa aspiração a uma 
“vingança social” que passava pela legitimação moral da delação, do terror, da guerra civil “justa”, segundo os termos 
de Lenin. Em 15 (28) de dezembro de 1917, Dzerjinski publicou nos Izvestia uma convocação convidando “todos os 
sovietes” a organizarem Tchekas. O resultado foi uma formidável abundância de “comissões”, “destacamentos” e 
outros “órgãos extraordinários” que as autoridades centrais tiveram muita dificuldade de controlar quando elas 
decidiram, alguns meses mais tarde, pôr um fim à “iniciativa das massas” e organizar uma rede estruturada e 
centralizada de Tchekas. 

Em julho de 1918, Dzerjinski escreveu, caracterizando os seis primeiros meses de existência da Tcheka: “Foi 
um período de improvisação e de tatea-mento, durante o qual nossa organização não esteve sempre à altura da 


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situação.” Naquela data, entretanto, o balanço da ação da Tcheka como órgão de repressão contra as liberdades já 
estava bastante pesado. E a organização, que contava com uma pequena centena de pessoas em dezembro de 1917, 
havia multiplicado seus efetivos por 120, em seis meses! 

Evidentemente, o início da organização foi mais modesto. Em 11 de janeiro de 1918, Dzerjinski enviou um 
recado a Lenin: “Encontramo-nos numa situação impossível, apesar dos importantes serviços já prestados. Nenhum 
financiamento. Trabalhamos dia e noite sem pão, açúcar, chá, manteiga ou queijo. Tome alguma medida para rações 
decentes ou nos autorize a requisição junto aos burgueses.” Dzerjinski havia recrutado uma centena de homens, entre 
eles muitos antigos camaradas de clandestinidade, em sua maioria poloneses e baltas que haviam quase todos 
trabalhado no Comitê Militar Revolucionário de Petrogrado, sendo que entre eles já figuravam os futuros burocratas da 
GPU dos anos 20 e do NKVD dos anos 30: Latsis, Menjinski, Messing, Moroz, Peters, Trilisser, Unchlicht e lagoda. 

A primeira ação da Tcheka foi interromper a greve dos funcionários de Petrogrado. O método foi expeditivo - 
prisão dos “mentores” - e a justificativa, simples: “Quem não quer trabalhar com o povo não tem lugar junto dele”, 
declarou Dzerjinski, que mandou prender um bom número de deputados socialistas-revolucionários e mencheviques, 
eleitos pela Assembleia Constituinte. Esse ato arbitrário foi rapidamente condenado pelo comissário do povo para a 
Justiça, Steinberg, um socialista-revolucionário de esquerda que se juntara ao governo havia alguns dias. Esse primeiro 
incidente entre a Tcheka e a Justiça levantava a questão, capital, do estatuto extralegal dessa polícia política. 

“Para o que serve um Comissariado do Povo para a Justiça”, perguntava então Steinberg a Lenin. Seria melhor 
chamá-lo de 'Comissariado do Povo para o Extermínio Social, e o negócio será entendido! 

- Excelente idéia - respondeu Lenin. - É exatamente por esse ângulo que eu vejo a coisa. Infelizmente, não 
podemos chamá-la assim!” 

Naturalmente, Lenin arbitrou o conflito entre Steinberg, que exigia uma estrita subordinação da Tcheka à 
Justiça, c Dzerjinski, que se insurgia contra a “futilidade legal da velha escola do Antigo Regime”, em favor deste 
último. A Tcheka só deveria responder por seus atos ao governo. 

O dia 6 (19) de janeiro de 1918 marcou uma etapa importante no recru-descimento da ditadura bolchevique. 
Na madrugada desse dia, a Assembleia Constituinte eleita em novembro-dezembro de 19177 - na qual os bolcheviques 
estavam em minoria, já que dispunham apenas de 175 deputados do total de 700 eleitos - foi dispersada pela força, após 
ter funcionado por apenas um dia. Contudo, esse ato arbitrário não despertou nenhuma reação notável no país. Uma 
pequena manifestação organizada para protestar contra a dissolução foi reprimida pela tropa. Houve vinte mortos, 
pesado tributo de uma experiência democrática parlamentar com apenas poucas horas de duração. 

Nos dias e semanas que se seguiram à dissolução da Assembleia Constituinte, a posição do governo 
bolchevique em Petrogrado tornou-se ainda mais desconfortável, no exato momento em que Trotski, Kamenev, lofFé e 
Radek negociavam, em Brest-Litovsk, as condições de paz com as delegações dos impérios centrais. Em 9 de janeiro 
de 1918, o governo consagrou a ordem do dia à questão de sua transferência para Moscou.” 

O que menos inquietava os dirigentes bolcheviques era a ameaça alemã - o armistício sustentava-se desde 15 
(28) de dezembro - mas a de uma insurreição operária. Com efeito, entre os operários, que dois meses antes os haviam 
apoiado, crescia o descontentamento. Com a desmobilização e o fim dos comandos militares, as empresas despediam às 
dezenas de milhares; o agravamento das dificuldades de abastecimento havia causado a queda da ração coti-diana de 
pão para pouco mais de cem gramas. Incapaz de reverter a situação, Lenin culpava os “monopolizadores” e os 
“especuladores”, designados como bodes expiatórios. “Cada fábrica, cada companhia deve organizar destacamentos de 
requisição. É necessário mobilizar para a busca de comida não somente os voluntários, mas todo mundo, sob pena de 
confisco imediato do cartão de racionamento”, escreveu Lenin, em 22 de janeiro (3 de fevereiro) de 1918. 

A nomeação de Trotski, de volta de Brest-Litovsk em 31 de janeiro de 1918, chefiando uma Comissão 
Extraordinária Para o Abastecimento e o Transporte, era um signo exato da importância decisiva concedida pelo 
governo à “caça de provisões”, primeiro passo da “ditadura da provisão”. Foi a essa comissão que Lenin propôs, em 
meados de fevereiro, um projeto de decreto que até os membros desse organismo - entre os quais figurava, além de 
Trotski, Tsiurupa, comissário do povo para o Abastecimento - julgaram oportuno retirar. O texto preparado por Lenin 
previa que todos os camponeses estariam obrigados a entregarem seus excedentes contra um recibo. Em caso de não- 
entrega nos prazos determinados, os contraventores seriam fuzilados. “Quando lemos esse projeto, ficamos 
embasbacados, escreveu Tsiurupa em suas memórias. Aplicar um tal decreto teria conduzido a execuções em massa. 
Finalmente, o projeto de Lenin foi abandonado.” 

Entretanto, esse episódio é bastante revelador. Desde o início do ano de 1918, Lenin, encurralado no impasse 
produzido por sua política, inquieto com a situação catastrófica de abastecimento dos grandes centros industriais - 
considerados como únicas ilhas bolcheviques em meio a um oceano camponês -, estava pronto a tudo para “tomar os 
cereais” antes mesmo de modificar uma vírgula em sua política. Entre os camponeses, que desejavam guardar todos os 
frutos de seu trabalho e rejeitavam toda e qualquer ingerência de uma autoridade exterior, e o novo regime, que queria 


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impor sua autoridade, recusando-se a compreender o funcionamento dos circuitos econômicos, e que aspirava - e 
pensava - controlar o que lhe parecia ser somente uma manifestação de anarquia social, o conflito era inevitável. 

Em 21 de fevereiro de 1918, diante do avanço fulminante dos exércitos alemães, consecutivo à ruptura dos 
colóquios de Brest-Litovsk, o governo proclamou “a Pátria socialista em perigo”. O apelo à resistência aos invasores 
era acompanhado de uma convocação ao terror de massa: “Todo agente inimigo, especulador, hooligan [baderneiro], 
agitador contra-revolucionário, espião alemão, será imediatamente fuzilado.” Essa proclamação tornava a instaurar a lei 
marcial nas operações militares. Com a conclusão do acordo de paz, em 3 de março de 1918 em Brest-Litovsk, ela 
tornou-se caduca. Legalmente, a pena de morte só foi restabelecida na Rússia em 16 de junho de 1918. Entretanto, a 
partir de fevereiro de 1918, a Tcheka procedeu a várias execuções sumárias fora das zonas de operações militares. 

Em 10 de março de 1918, o governo deixou Petrogrado por Moscou, que foi promovida à capital. A Tcheka 
instalou-se próximo ao Kremlin, Rua Bolchaia-Lubianka, nos prédios de uma companhia de seguros que ela iria 
ocupar, sob suas sucessivas siglas - GPU, NKVD, MVD, KGB - até a queda do regime soviético. O número de 
tchekistas trabalhando em Moscou passou de 600 em março para dois mil em julho de 1918, sem contar as tropas 
especiais. Cifra considerada razoável, quando se sabe que o Comissariado do Povo Para o Interior, encarregado de 
dirigir o imenso aparelho dos sovietes locais em todo o país, contava, nessa mesma data, com apenas 400 funcionários! 

A Tcheka lançou sua primeira operação de grande envergadura na noite do 11 ao 12 de abril de 1918: mais de 
mil homens de suas tropas especiais tomaram de assalto em Moscou cerca de 20 casas mantidas por anarquistas. No 
fim de várias horas de um disputado combate, 520 anarquistas foram presos, sendo que 25 entre eles foram 
sumariamente executados como “bandidos”, uma denominação que, a partir de então, serviria para designar operários 
em greve, desertores rugindo do serviço militar ou camponeses rebelados contra as requisições. 

Após este primeiro sucesso, que se seguiu de outras operações de “pacificação”, tanto em Moscou quanto em 
Petrogrado, Dzerjinski solicitou, em carta dirigida ao Comitê Executivo Central, em 29 de abril de 1918, um 
considerável aumento nos recursos da Tcheka: “No momento atual, ele escreveu, é inevitável que a Tcheka tenha um 
crescimento exponencial, diante da multiplicação da oposição contra-revolucionária por todos os lados.” 

Com efeito, o “momento atual” ao qual Dzerjinski fazia referência aparece como um período decisivo na 
instauração da ditadura política e econômica e no reforço da repressão contra uma população cada vez mais hostil aos 
bolcheviques. Desde outubro de 1917, essa população não havia conhecido nenhuma melhora em seu cotidiano nem 
salvaguardado as liberdades fundamentais adquiridas no decorrer de 1917. Únicos entre todos os políticos a deixarem 
os camponeses se apossarem das terras cobiçadas por tanto tempo, os bolcheviques tinham se transformado, para eles, 
nos “comunistas” que lhes tomavam os frutos de seu trabalho. “Serão os mesmos?”, se perguntavam inúmeros 
camponeses, fazendo, em suas queixas, a distinção entre os “bolcheviques que lhes haviam dado a terra” e os 
“comunistas que extorquiam o trabalhador honesto, lhe roubando até mesmo a camisa do corpo”. 

A primavera de 1918 foi, de fato, um momento-chave, em que as apostas ainda não haviam terminado; os 
sovietes, que não haviam ainda sido silenciados e transformados em simples órgãos da administração estatal, eram o 
local de verdadeiros debates políticos entre os bolcheviques e os socialistas moderados. Os jornais de oposição, ainda 
que perseguidos cotidianamente, continuavam a existir. A vida política local conhecia uma abundância de instituições 
concorrentes. Durante esse período, marcado pela piora das condições de vida e pela total ruptura dos circuitos de 
trocas econômicas entre cidade e campo, socialistas-revolucionários e mencheviques obtiveram inegáveis vitórias 
políticas. No decorrer das eleições para a renovação dos sovietes, apesar das pressões e manipulações, eles venceram 
em 19 das 30 capitais canto-nais do interior do país onde houve eleições e os resultados foram tornados públicos. 

Diante desse quadro, o governo bolchevique reagiu através do recrudes-cimento da ditadura, tanto no plano 
econômico quanto no político. Os circuitos econômicos de distribuição estavam interrompidos, tanto no que concerne 
aos recursos, em razão da espetacular degradação das vias de comunicação, em particular a ferroviária, como também 
em relação às motivações, pois a ausência de produtos manufaturados não incitava os camponeses à venda. O problema 
vital era o de assegurar o abastecimento do exército e das cidades, local do poder e sede do “proletariado”. Duas 
possibilidades eram oferecidas ao bolcheviques: ou restabelecer um mercado aparente numa economia arruinada, ou 
utilizar a força. Eles escolheram a última opção, persuadidos da necessidade de prosseguir com a luta pela destruição da 
“antiga ordem”. 

Tomando a palavra em 29 de abril de 1918, diante do Comitê Executivo Central dos Sovietes, Lenin declarou 
sem rodeios: “Sim, quando se tratou de derrubar os grandes proprietários rurais, os camponeses abastados e os 
pequenos proprietários estiveram do nosso lado. Mas, agora, nossos caminhos divergem. Os pequenos proprietários têm 
horror à organização e à disciplina. É chegada a hora de levarmos adiante uma batalha cruel e sem perdão contra esses 
pequenos proprietários, esses camponeses abastados. “º Alguns dias mais tarde, o comissário do povo para o 
abastecimento acrescentou, dentro da mesma assembleia: “Vou dizer abertamente: trata-se propriamente de uma guerra 
e é somente com o uso de fuzis que obteremos os cereais.” E Trotski ainda disse mais: “Nosso partido é a favor da 
guerra civil. A guerra civil é luta pelo pão... Viva a guerra civil!” 


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Citemos um último texto, escrito em 1921 por um outro dirigente bolchevique, Karl Radek, que esclarece 
perfeitamente a política bolchevique na primavera de 1918, ou seja, vários meses antes do desenvolvimento do 
confronto armado que oporia, durante dois anos, Vermelhos e Brancos: “O camponês havia recebido a terra há 
pouquíssimo tempo, acabava de voltar do fronte para a casa, havia guardado suas armas, e sua atitude em relação ao 
Estado podia ser resumida assim: para que serve o Estado? Para ele, nenhuma utilidade! Se tivéssemos decidido 
introduzir um imposto em espécie, não teríamos conseguido nada, pois não tínhamos um aparelho de Estado, o antigo 
tinha sido destruído, e os camponeses não nos teriam dado nada se não os forçássemos a fazê-lo. Nossa tarefa, no início 
de 1918, era simples; tínhamos de fazer com que os camponeses compreendessem duas coisas elementares: o Estado 
tinha direitos sobre uma parte dos produtos do campo para as suas próprias necessidades, e ele tinha a força para fazer 
valer os seus direitos.” 

Em maio-junho de 1918, o governo bolchevique tomou duas medidas decisivas que inauguraram o período de 
guerra civil comumente conhecido como “comunismo de guerra”. Em 13 de maio de 1918, um decreto atribuiu poderes 
extraordinários ao comissário do povo para o Abastecimento, encarregado de requisitar os produtos alimentares e 
organizar um verdadeiro “exército para o abastecimento”. Em julho de 1918, cerca de 12 mil homens já participavam 
desses “destacamentos para o abastecimento” que contaram, em seu apogeu, com quase 80 mil homens, dos quais perto 
da metade eram operários desempregados de Petrogrado, atraídos por um salário decente e uma remuneração em 
espécie proporcional aos cereais confiscados. A segunda medida, o decreto de 11 de junho de 1918, instituiu o Comitê 
de Camponeses Pobres, encarregados de colaborar estreitamente com os destacamentos para o abastecimento e também 
de requisitar, contra uma parte do que fosse obtido, os excedentes da produção agrícola dos camponeses abastados. 
Esses Comitês de Camponeses Pobres deviam, também, substituir os sovietes rurais, encarados pelo poder como pouco 
confiáveis, pois estavam impregnados de uma ideologia socialista-revolucionária. Consideradas as tarefas que lhes 
eram atribuídas - tomar, pela força, o fruto do trabalho de outrem - e os motivos que supos-tamente os tentavam - o 
poder, o sentimento de frustração e de inveja para com os “ricos”, a promessa de uma parte dos ganhos -, podemos 
imaginar como foram esses primeiros representantes do poder bolchevique no campo. Como escreveu, com 
perspicácia, Andrea Graziosi, “para essas pessoas, a inegável capacidade operacional e a devoção à causa - ou, antes, ao 
novo Estado - estavam estritamente ligadas a uma consciência política e social balbuciante, a um grande arrivismo e a 
comportamentos 'tradicionais', tais como a brutalidade para com os subordinados, o alcoolismo e o nepotismo. [...] 
Temos aqui um bom exemplo da maneira pela qual 'o espírito' da revolução plebeia penetrava no novo regime” 

Apesar de alguns sucessos iniciais, a organização de Comitês de camponeses pobres foi malsucedida. A 
própria idéia de se colocar na linha de frente a pane mais pobre dos camponeses refletia o profundo desconhecimento 
que os bolcheviques tinham da sociedade camponesa. Segundo um esquema marxista simplista, eles a imaginavam 
dividida em classes antagónicas, ao passo que ela estava sobretudo solidária em face do mundo exterior e dos 
estrangeiros vindos da cidade. Logo que se tratou de se entregarem os excedentes, o reflexo igualitário e comunitário da 
assembleia camponesa marcou sua presença; em lugar de incidir sobre os camponeses abastados, o peso das requisições 
foi repartido em função das disponibilidades de cada um. A massa dos camponeses médios foi atingida, e o 
descontentamento foi geral. Tumultos explodiram em várias regiões. Diante da brutalidade dos destacamentos de 
abastecimento apoiados pela Tcheka ou pelo exército, uma verdadeira guerrilha formou-se a partir de junho de 1918. 
Em julho-agosto, 110 insurreições camponesas, qualificadas pelo poder como “rebeliões dos kulaks” - terminologia 
utilizada pelos bolcheviques para designar os tumultos em que cidades inteiras participavam, com todas as categorias 
sociais misturadas - explodiram nas zonas controladas pelo novo poder. O crédito desfrutado durante um breve período 
pelos bolcheviques, por não terem feito oposição à apreensão das terras, em 1917, foi aniquilado em poucas semanas. 
Durante três anos, a política de requisição ia provocar milhares de revoltas e rebeliões, que se degeneraram em 
verdadeiras guerras camponesas, reprimidas com a maior violência. 

No plano político, o recrudescimento da ditadura, na primavera de 1918, acarretou o fechamento definitivo de 
todos os jornais não bolcheviques, a dissolução dos sovietes não bolcheviques, a prisão dos oponentes e a repressão 
brutal de vários movimentos de greve. Em maio-junho de 1918, 205 jornais de oposição socialista foram 
definitivamente fechados. Os sovietes com maioria menchevique ou socialista-revolucionária, de Kaluga, Tver, 
Yaroslav, Riazan, Kostroma, Kazan, Saratov, Penza, Tambov, Voronej, Orei e Volonezh, foram dissolvidos com o uso 
da força. A história era quase sempre a mesma: alguns dias antes das eleições que dariam a vitória aos partidos de 
oposição e a formação do novo soviete, o segmento bolchevique convocava a força armada, com fregiiência um 
destacamento da Tcheka, que proclamava a lei marcial e prendia os oponentes. 

Dzerjinski, que enviara seus principais colaboradores às cidades onde a oposição era vitoriosa, preconizava, 
sem rodeios, o uso da força, como provam de maneira eloquente as diretivas que ele deu, em 31 de maio de 1918, a 
Eiduk, seu plenipotenciário em missão em Tver: “Os operários, influenciados pelos mencheviques, SR e outros porcos 
contra-revolucionários, fizeram greve e manifestaram-se em favor da constituição de um governo de união entre todos 
os 'socialistas'. Você deve afixar por toda a cidade uma proclamação indicando que a Tcheka executará imediatamente 


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todo bandido, ladrão, especulador e contra-revolucionário que conspire contra o poder soviético. Sirva-se da 
contribuição dos burgueses da cidade. Recenseie-os. Essas listas nos serão úteis se por acaso eles se mobilizem. 
Investigue com que elementos poderemos formar uma Tcheka local. Engaje pessoas resolutas, que saibam que não há 
nada de mais eficaz do que uma bala para calar quem quer que seja. A experiência me ensinou que mesmo um número 
pequeno de pessoas decididas é capaz de reverter toda uma situação.” 

A dissolução dos sovietes dirigidos por oponentes e a expulsão, em 14 de junho de 1918, dos mencheviques e 
dos socialistas-revolucionários do Comitê Executivo Panrusso dos Sovietes suscitaram protestos, manifestações e 
movimentos de greve em várias cidades operárias, onde, aliás, a situação não cessava de se degradar. Em Kolpino, 
perto de Petrogrado, o comandante de um destacamento da Tcheka atirou sobre uma caminhada contra a fome, 
organizada pelos operários, cuja ração mensal caíra a um quilo de farinha! Houve dez mortos. No mesmo dia, na 
fábrica Berezovski, perto de Ekaterin-burgo, 15 pessoas foram assassinadas por um destacamento da Guarda Vermelha 
durante um encontro de protesto contra os “comissários bolcheviques” acusados de se apropriarem das melhores casas 
da cidade e de terem desviado em proveito próprio os 150 rublos de impostos sobre a burguesia local. No dia seguinte, 
as autoridades do setor decretaram a lei marcial nessa cidade operária, e 14 pessoas foram imediatamente fuziladas pela 
Tcheka local, sem que nada fosse relatado a Moscou. 

Na segunda quinzena de maio e no mês de junho de 1918, inúmeras manifestações operárias foram reprimidas 
com sangue em Sormovo, Yaroslav e Tuia, assim como nas cidades industriais do Ural, Nijni-Taguil, Beloretsk, Zlatus 
e Ekaterinburgo. A participação cada vez mais ativa das Tchekas locais na repressão é atestada pela frequência 
crescente, no meio militar, das palavras de ordem e dos slogans contra a “nova Okhranka” (polícia política czarista) a 
serviço da “comissariocracia”. 

De 8a 11 de junho de 1918, Dzerjinski presidiu a primeira conferência Panrussa das tchekas, à qual assistiram 
cerca de cem delegados de 43 seções locais, totalizando algo em torno de 12 mil homens - eles serão 40 mil no fim de 
1918 e mais de 280 mil no início de 1921. Colocando-se acima dos sovie-tes, e mesmo “acima do Partido”, segundo 
disseram alguns bolcheviques, a conferência declarou “assumir o peso da luta contra a contra-revolução em todo o 
território nacional, enquanto órgão supremo do poder administrativo da Rússia soviética”. O organograma ideal 
adotado no fim dessa conferência revelava o vasto campo de atividade atribuído à polícia política soviética a partir de 
junho de 1918, ou seja, antes da grande onda de insurreições “contra-revolucionárias” do verão de 1918. Calcada sobre 
o modelo da matriz em Lubianka, cada Tcheka do interior devia, no menor espaço de tempo possível, organizar os 
seguintes departamentos e secretarias: 1) Departamento da Informação. Secretarias: Exército Vermelho, monarquistas, 
cadetes, SR de direita e mencheviques, anarquistas e prisioneiros comuns, burguesia e pessoas religiosas, sindicatos e 
Comitês operários e estrangeiros. Para cada uma dessas categorias, as secretarias apropriadas deviam redigir uma lista 
de suspeitos. 2) Departamento de Luta Contra a Contra-Revolução. Secretarias: Exército Vermelho, monarquistas, 
cadetes, SR de direita e mencheviques, anarquistas, sindicalistas, minorias nacionais, estrangeiros, alcoolismo, pogroms 
e ordem pública, casos relativos à imprensa. 3) Departamento de Luta Contra a Especulação e o Abuso de Autoridade. 
4) Departamento dos Transportes, Estradas de Comunicação e Portos. 5) Departamento Operacional, reagrupando as 
unidades especiais da Tcheka. 

Dois dias após o fim dessa Conferência Panrussa de Tchekas, o governo declarou o restabelecimento legal da 
pena de morte. Abolida após a revolução de fevereiro de 1917, ela havia sido restaurada por Kerenski em julho de 
1917. Entretanto, ela só se aplicava às regiões do fronte, sob a jurisdição militar. Uma das primeiras medidas tomadas 
pelo II Congresso de Sovietes, em 26 de outubro (8 de novembro) de 1917, foi suprimir mais uma vez a pena capital. 
Essa decisão suscitou o furor de Lenin: “É um erro, uma fraqueza inadmissível, uma ilusão pacifista!” Lenin e 
Dzerjinski não descansaram enquanto não restabeleceram legalmente a pena de morte, sabendo perfeitamente que ela 
podia ser aplicada, sem nenhuma “futilidade legal”, pelos órgão extralegais tais como as Tchekas. A primeira 
condenação à morte legal, pronunciada por um tribunal revolucionário, ocorreu em 21 de junho de 1918: o almirante 
Tchastnyi foi o primeiro “contra-revolucionário” fuzilado “legalmente”. 

Em 20 de junho, V. Volodarski, um dos dirigentes bolcheviques de Petrogrado, foi abatido por um militante 
socialista-revolucionário. Esse atentado aconteceu num período de extrema tensão na antiga capital. No decorrer das 
semanas precedentes, as relações entre os bolcheviques e o mundo operário vinham gradativamente se deteriorando; em 
maio-junho de 1918, a Tcheka de Petrogrado calculou cerca de 70 “incidentes” - greves, encontros antibolcheviques, 
manifestações - implicando principalmente os metalúrgicos das fortalezas operárias, que haviam sido os mais ardentes 
partidários dos bolcheviques em 1917 e até mesmo antes disso. As autoridades responderam à greve através do 
fechamento das grandes fábricas nacionalizadas, uma prática que seria generalizada nos meses subsequentes, para 
quebrar a resistência operária. O assassinato de Volodarski foi seguido de uma violenta onda de prisões, sem 
precedentes nos meios operários de Petrogrado; “a assembleia dos plenipotenciários operários”, uma organização de 
maioria menchevique que coordenava a oposição operária em Petrogrado, foi dissolvida. Mais de 800 “mentores” 


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foram detidos em dois dias. Os meios operários responderam a essas prisões em massa convocando uma greve geral 
para 2 de julho de 1918. 

Lenin enviou de Moscou uma carta a Zinoviev, presidente do Comitê de Petrogrado do Partido Bolchevique, 
um documento revelador da concepção leninista do terror e, ao mesmo tempo, de uma extraordinária ilusão política. 
Assim, Lenin cometia um espetacular contra-senso político ao afirmar que os operários se revoltaram contra o 
assassinato de Volodarski! 

“Camarada Zinoviev! Acabamos de saber neste instante que os operários de Petrogrado desejavam responder 
com terror de massa ao assassinato do camarada Volodarski e que vocês (não você pessoalmente, mas o membros do 
Partido de Petrogrado) os impediram. Eu protesto energicamente! Nós nos comprometemos: preconizamos o terror de 
massa nas resoluções do soviete, mas, quando se tratou de agir, nós obstruímos a iniciativa absolutamente cor-reta das 
massas. Isto é i-nad-mis-sí-vel. Os terroristas vão nos considerar uns moleirões. A hora é ultramarcial. É indispensável 
encorajar a energia e o cará-ter de massa do terror dirigido contra os contra-revolucionários, especialmente em 
Petrogrado, cujo exemplo é decisivo. Saudações. Lenin.” 


3. O Terror Vermelho 


“Os bolcheviques dizem abertamente que estão com os dias contados, relatava a seu governo Karl Helfferich, 
embaixador alemão em Moscou, em 3 de agosto de 1918. Um verdadeiro pânico está tomando conta de Moscou... 
Circulam os mais loucos rumores sobre 'traidores' que se teriam infiltrado na cidade.” 

Os bolcheviques nunca haviam sentido o seu poder tão ameaçado quanto no decorrer do verão de 1918. Com 
efeito, eles controlavam apenas o pequeno território da Moscóvia histórica, diante dos três grandes frontes anti- 
bolcheviques, solidamente estabelecidos a partir de então: um na região de Don, ocupada pelas tropas cossacas do 
ataman Krasnov e pelo Exército Branco do general Denikin; o segundo, na Ucrânia, em poder dos alemães e do Rada 
(governo nacional) ucraniano; o terceiro, ao longo do Transiberiano, onde a maior parte das cidades caíra sob poder da 
Legião Tcheca, cuja ofensiva era sustentada pelo governo socialista-revolucionário de Samara. 

Nas regiões mais ou menos controladas pelos bolcheviques, explodiram cerca de 140 revoltas e insurreições de 
grande amplitude durante o verão de 1918; as mais frequentes eram devidas a comunidades camponesas que recusavam 
as requisições conduzidas com violência pelos destacamentos para o abastecimento, além das limitações impostas ao 
comércio privado e novos recrutamentos militares iniciados pelo Exército Vermelho. Os camponeses enfurecidos se 
dirigiam em massa à cidade mais próxima e cercavam o sovie-te, tentando, às vezes, atear fogo a ele. Geralmente, os 
incidentes se degeneravam: as tropas, as milícias encarregadas de manterem a ordem e, cada vez mais, os 
destacamentos da Tcheka não hesitavam em abrir fogo sobre os manifestantes. 

Os dirigentes bolcheviques viam nesses confrontos, cada vez mais numerosos com o passar dos dias, uma 
ampla conspiração contra-revolucio-nária, dirigida por “kulaks disfarçados de soldados do Exército Branco”. 

“É evidente que está sendo preparado um levante de soldados do Exército Branco em Nijni-Novgorod, 
telegrafou Lenin, em 9 de agosto de 1918, ao presidente do Comitê Executivo do Soviete dessa cidade, que acabara de 
informar sobre incidentes implicando camponeses protestando contra as requisições. É preciso formar imediatamente 
uma 'troika ditatorial (composta por você, Markin e um outro), introduzindo imediatamente o terror de massa, fuzilar 
ou deportar as centenas de prostitutas que dão de beber aos soldados, todos os ex-oficiais, etc. Não há um minuto a 
perder... É necessário agir com decisão: prática em massa de buscas. Execução por porte de arma. Deportações em 
massa de mencheviques e outros elementos suspeitos.” No dia seguinte, dia 10 de agosto, Lenin enviou outro telegrama 
com o mesmo teor ao Comitê Executivo do Soviete de Penza: 

“Camaradas! O levante kulak nos cinco distritos de sua região deve ser esmagado sem piedade. Os interesses 
de toda a revolução o exigem, pois a “luta final” com os kulaks está doravante engajada por toda parte. É necessário dar 
o exemplo: 1) Enforcar (e digo enforcar de modo que todos fossam ver) não menos de 100 kulaks, ricos e notórios 
bebedores de sangue. 2) Publicar seus nomes. 3) Apoderar-se de todos os seus grãos. 4) Identificar os reféns do modo 
como indicamos no telegrama de ontem. Façam isso de maneira que a cem léguas em torno as pessoas vejam, tremam, 
compreendam e digam: eles matam e continuarão a matar os kulaks sedentos de sangue. Telegrafem em resposta 
dizendo que vocês receberam e executaram exatamente estas instruções. Seu, Lenin. 

P.S. Encontrem as pessoas mais fortes.” 

De fato, como demonstra uma leitura atenta dos relatórios da Tcheka sobre as revoltas do verão de 1918, ao 
que parece, apenas os levantes de Yaroslav, Rybinsk e Murom - organizados pela União de Defesa da Pátria, do 
dirigente socialista-revolucionário Boris Savinkov - e o dos operários das fábricas de armamentos de Ijevsk, inspirado 
pelos mencheviques e socialistas-revolucionários locais, foram fruto de preparação anterior. Todas as outras 
insurreições desenvolveram-se espontaneamente e localmente a partir de incidentes implicando as comunidades 
camponesas que recusavam as requisições ou o recrutamento militar. Em poucos dias, elas foram ferozmente 


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reprimidas pelos destacamentos mais confiáveis do Exército Vermelho ou da Tcheka. Apenas a cidade de Yaroslav, 
onde os destacamentos de Savinkov haviam deposto o poder bolchevique local, resistiu cerca de 15 dias. Após a queda 
da cidade, Dzerjinski enviou a Yaroslav uma “comissão especial de investigação” que, em cinco dias, de 24 a 28 de 
julho de 1918, executou 428 pessoas. 

Durante todo o mês de agosto de 1918, ou seja, antes do desencadeamento “oficial” do Terror Vermelho de 3 
de setembro, os dirigentes bolcheviques, com Lenin e Dzerjinski à frente, enviaram um grande número de telegramas 
aos responsáveis locais da Tcheka ou do Partido, pedindo-lhes que tomassem “medidas profiláticas” para a prevenção 
de toda tentativa de insurreição. Entre essas medidas, explicava Dzerjinski, “as mais eficazes são a tomada de reféns 
entre os burgueses, a partir das listas que vocês estabeleceram para as contribuições excepcionais exigidas dos 
burgueses, [...] a detenção e o encarceramento de todos os reféns e suspeitos nos campos de concentração”.freguência 
Dia 8 de agosto, Lenin pediu a Tsuriupa, comissário do povo para o Abastecimento, que redigisse um decreto segundo 
o qual “em cada distrito produtor de cereais, 25 reféns, escolhidos entre os habitantes mais abastados, pagarão com suas 
vidas pela não-realização do plano de requisição.” Uma vez que Tsuriupa se fez de surdo, sob o pretexto de que era 
difícil organizar essa tomada de reféns, Lenin enviou-lhe uma segunda nota, ainda mais explícita: “Eu não estou 
sugerindo que sejam feitos reféns, mas que eles sejam nomeadamente designados em cada distrito. O objetivo dessa 
designação é que os ricos, do mesmo modo que eles são responsáveis pela própria contribuição, sejam, com o risco de 
suas vidas, responsáveis pela realização imediata do plano de requisição em seu distrito.” 

Além do sistema de reféns, os dirigentes bolcheviques experimentaram, em agosto de 1918, um outro 
instrumento de repressão, surgido na Rússia em guerra: o campo de concentração. Em 9 de agosto de 1918, Lenin 
telegrafou ao Comitê Executivo da província de Penza pedindo que fossem aprisionados “os kulaks, os padres, os 
soldados do Exército Branco e outros elementos duvidosos num campo de concentração”.? 

Alguns dias antes, Dzerjinski e Trotski haviam, do mesmo modo, prescrito o aprisionamento de reféns em 
“campos de concentração”. Esses “campos de concentração” eram campos de internação onde deveriam ser 
encarcerados, através de uma simples medida administrativa e sem qualquer julgamento, os “elementos duvidosos”. 
Existiam, tanto na Rússia quanto nos outros países beligerantes, numerosos campos onde haviam sido internados os 
prisioneiros de guerra. 

Entre os “elementos duvidosos” a serem preventivamente aprisionados, figuravam, em primeiro lugar, os 
responsáveis políticos, ainda em liberdade, dos partidos de oposição. Em 15 de agosto de 1918, Lenin e Dzerjinski 
assinaram a ordem de prisão dos principais dirigentes do Partido Menchevique - Martov, Dan, Potressov e Goldman - 
cujo jornal já havia sido silenciado e os representantes expulsos dos sovietes. 

Doravante, para os dirigentes bolcheviques, as fronteiras entre as diferentes categorias de oponentes estavam 
apagadas, numa guerra civil que, segundo eles, tinha suas próprias leis. 

“A guerra civil não conhece leis escritas, escrevia Latsis, um dos principais colaboradores de Dzerjinski, nos 
Izvestia de 23 de agosto de 1918. A guerra capitalista tem suas leis escritas [...] mas a guerra civil tem suas próprias leis 
[...]. É necessário não somente destruir as forças ativas do inimigo, mas também demonstrar que qualquer um que erga 
a espada contra a ordem de classes existente perecerá pela espada. Tais são as regras que a burguesia sempre observou 
nas guerras civis perpetradas contra o proletariado. [...] Nós ainda não assimilamos essas regras suficientemente. Os 
nossos estão sendo mortos às centenas e aos milhares. Nós executamos os deles um a um, após longas deliberações e 
diante de comissões e tribunais. Na guerra civil, não há tribunais para o inimigo. Trata-se de uma luta mortal. Se você 
não mata, você será morto. Então mate, se você não quer ser morto!” 

Em 30 de agosto de 1918, dois atentados - um contra M. S. Uritski, chefe da Tcheka de Petrogrado, e outro 
contra Lenin - fortaleceram a certeza dos dirigentes bolcheviques de que uma verdadeira conspiração ameaçava até a 
própria vida de cada um deles. Na verdade, esses dois atentados não tinham nenhuma relação entre si. O primeiro fora 
cometido, na mais pura tradição do terrorismo revolucionário populista, por um jovem estudante desejoso de vingar um 
amigo oficial executado havia alguns dias pela Tcheka de Petrogrado. Quanto ao segundo, dirigido contra Lenin - 
atribuído durante muito tempo a Fanny Kaplan, uma militante próxima dos meios anarquistas e socialistas- 
revolucionários, detida e imediatamente executada sem julgamento três dias após os fatos - hoje em dia parece ter sido 
resultado de uma provocação, organizada pela Tcheka, que escapou ao controle de seus instigadores. O governo 
bolchevique imputou de imediato esses atentados aos “socialistas-revolucionários de direita, servos do imperialismo 
francês e inglês”. Desde o dia seguinte, artigos publicados na imprensa e declarações oficiais convocaram o 
crescimento do terror: 

“Trabalhadores, escrevia o Pravdaàs. 31 de agosto de 1918, é chegada a hora de aniquilar a burguesia, senão 
vocês serão aniquilados por ela. As cidades devem ser impecavelmente limpas de toda putrefação burguesa. Todos 
esses senhores serão fichados, e aqueles que representem qualquer perigo para a causa revolucionária, exterminados. 
[...] O hino da classe operária será um canto de ódio e de vingança!” 


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No mesmo dia, Dzerjinski e seu adjunto, Peters, redigiram uma “Convocação à classe operária” com o 
seguinte espírito: “Que a classe operária esmague, através do terror em massa, a hidra da contra-revolução! Que os 
inimigos da classe operária saibam que todo indivíduo detido com posse ilícita de uma arma será executado 
imediatamente, que todo indivíduo que ouse fazer a menor propaganda contra o regime soviético será de imediato 
detido e encarcerado num campo de concentração!” Publicado no Izvestia de 3 de setembro, essa convocação foi 
seguida, no dia 4 de setembro, da publicação de uma instrução enviada por N. Petrovski, comissário do povo para o 
Interior, a todos os sovietes. Petrovski queixava-se do fato de que, apesar da “repressão em massa” exercida pelos 
inimigos do regime contra as “massas laboriosas”, o Terror tardava a se fazer perceber: 

“É chegada a hora de pôr um ponto final a toda essa moleza e a esse sentimentalismo. Todos os socialistas- 
revolucionários de direita devem ser imediatamente detidos. Um grande número de reféns deve ser tomado entre a 
burguesia e os oficiais. Ao menor sinal de resistência, é necessário recorrer às execuções em massa. Os Comitês 
executivos das províncias devem dar o exemplo de iniciativa nesse terreno. As Tchekas e outras milícias devem 
identificar e deter todos os suspeitos e executar imediatamente todos aqueles que tenham algum compromisso com 
atividades contra-revolucionárias. [...] Os responsáveis pelos Comitês executivos devem informar imediatamente ao 
Comissariado do Povo para o Interior sobre toda moleza e indecisão da parte dos sovietes locais. [...] Nenhuma 
fraqueza, nenhuma hesitação pode ser tolerada na instauração do terror em massa.” 

Esse telegrama, sinal oficial do Terror Vermelho em grande escala, refuta a argumentação desenvolvida a 
posteriori por Dzerjinski e Peters, segundo a qual “o Terror Vermelho, expressão da indignação geral e espontânea das 
massas contra os atentados de 30 de agosto de 1918, começou sem a menor dire-tiva do Centro”. De fato, o Terror 
Vermelho era o alívio natural de um ódio quase abstrato que a maior parte dos dirigentes bolcheviques alimentava 
contra os “opressores”, a quem eles estavam prontos para liquidar, não somente individualmente, mas “enquanto uma 
classe”. Em suas memórias, o dirigente menchevique Raphael Abramovitch relata uma conversa bastante reveladora 
que ele tivera, em agosto de 1917, com Feliks Dzerjinski, o futuro chefe da Tcheka: 

“Abramovitch, você se lembra do discurso de Lassalle sobre a essência de uma Constituição? 

- Certamente. 


Ele dizia que toda Constituição era determinada pela relação das for cas sociais em um país em um dado 
momento. Eu me pergunto como essa correlação entre a política e o social poderia mudar. 

Pois bem, pelos diversos processos de evolução econômica e política, pela emergência de novas formas 
econômicas, a ascensão de certas classes sociais, etc., todas as coisas que você conhece perfeitamente, Feliks. 

Sim, mas não se poderia mudar radicalmente essa correlação”? Por exemplo, pela submissão ou pelo extermínio 
de certas classes da sociedade?” 13 

Essa crueldade calculada, fria, cínica, fruto de uma lógica implacável de “guerra de classes” levada a seu 
extremo, era compartilhada por muitos bolcheviques. Em setembro de 1918, um dos principais dirigentes bolcheviques, 
Grigori Zinoviev, declarou: “Para nos desfazermos de nossos inimigos, devemos ter o nosso próprio terror socialista. 
Devemos ter a nosso lado, digamos, cerca de 90 dos cem milhões de habitantes da Rússia soviética. Quanto aos outros, 
não há nada que possamos dizer-lhes. Eles devem ser aniquilados.” 

Dia 5 de setembro, o governo soviético legalizou o terror pelo famoso decreto “Sobre o Terror Vermelho”: 
“Na situação atual, é absolutamente vital reforçar a Tcheka [...], proteger a República Soviética contra os inimigos da 
classe, isolando estes últimos em campos de concentração, fuzilando de imediato todo indivíduo implicado nas 
organizações dos Exércitos Brancos, em complôs, em insurreições ou tumultos, publicar o nome dos indivíduos 
fuzilados, dando as razões pelas quais eles foram abatidos a tiro.” Como Dzerjinski reconheceu mais adiante, “os textos 
de 3 e de 5 de setembro de 1918 nos atribuíam legalmente, enfim, aquilo contra o que até mesmo alguns camaradas de 
Partido chegaram a protestar, o direito de acabar imediatamente com a ralé contra-revolucionária, sem ter de dar 
satisfação a quem quer que seja”. 

Em uma circular interna, datada de 17 de setembro, Dzerjinski convidou todas as tchekas locais a “acelerar os 
procedimentos e a terminar, ou seja, liquidar, com o que estivesse em suspenso”. As “liquidações” tinham começado, 
de fato, desde o dia 31 de agosto. Em 3 de setembro, os Izvestia, relataram que, no decorrer dos dias precedentes, mais 
de 500 reféns haviam sido executados em Petrogrado pela Tcheka local. Segundo os tchekistas, 800 pessoas teriam sido 
executadas, durante o mês de maio a setembro de 1918, em Petrogrado. Este número é, em grande parte, subestimado. 
Uma testemunha dos eventos relatava os seguintes detalhes: “Para Petrogrado um balanço superficial dá um total de 
1.300 execuções. [...] Os bolcheviques não consideram, em suas 'estatísticas', as centenas de oficiais e civis fuzilados 
em Kronstadt, sob a ordem das autoridades locais. Apenas em Kronstadt, durante uma única noite, 400 pessoas foram 
fuziladas. Foram cavados no pado três grandes fossos, 400 pessoas foram colocadas diante deles e executadas uma após 
o outra.” Em uma entrevista concedida ao jornal Outro Moskvy, em 3 de novembro de 1918, o braço direito de 
Dzerjinski, Peters, reconheceu que, “em Petrogrado, os tchekistas muito sensíveis [sic] acabaram perdendo a cabeça e 


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passaram da medida. Antes do assassinato de Uritski, ninguém havia sido executado - e, creia-me, a despeito de tudo o 
que se pretende, não sou assim tão sanguinário quanto dizem - enquanto que após, o número de execuções passou um 
pouco além da conta e, frequentemente, sem nenhum discernimento. Mas, por outro lado, Moscou não respondeu ao 
atentado contra Lenin senão com a execução de alguns poucos ministros do Czar.” Ainda segundo o Izvestia, “apenas” 
29 reféns, pertencentes ao “campo da contra-revolução”, foram abatidos a tiro em Moscou, em 3 e 4 de setembro. Entre 
eles figuravam dois ministros de Nicolau II, N. Khvostov (Interior) e I. Chtcheglovitov (Justiça). Todavia, vários 
testemunhos concordantes dão conta de centenas de execuções de reféns no decorrer dos “massacres de setembro” nas 
prisões moscovitas. 

Nesses tempos de Terror Vermelho, Dzerjinski fez com que fosse publicado um jornal, Ejenedelnik VCK (O 
Semanário da Tcheka), claramente encarregado de elogiar os méritos da polícia política e de encorajar o “justo desejo 
de vingança das massas”. Durante seis semanas e até a sua suspensão, por ordem do Comitê Central, num momento em 
que a Tcheka estava sendo contestada por um certo número de responsáveis bolcheviques, esse semanário relatou, sem 
pesar ou pudor, as tomadas de reféns, os internamentos em campos de concentração, as execuções, etc. Ele constitui-se 
como uma fonte oficial e a mínima do Terror Vermelho nos meses de setembro e outubro de 1918. Lê-se ali que a 
Tcheka de Nijni-Novogorod, particularmente pronta a reagir, sob as ordens de Nicolau Bulganin - futuro chefe de 
Estado soviético de 1954 a 1957 - executou, desde 31 de agosto, 141 reféns; 700 reféns foram detidos nessa cidade de 
tamanho médio da Rússia. Sobre Viatka, a Tcheka regional do Ural, evacuada de Ekaterinburgo, relatava a execução de 
23 “ex-policiais”, 154 “contra-revolucionários”, 8 “monarquistas”, 28 “membros do Partido Constitucional 
Democrata”, 186 “oficiais” e 10 “mencheviques e SR de direita”, tudo isso no espaço de uma semana. A Tcheka de 
Ivano-Voznessensk anunciava a tomada de 181 reféns, a execução de 25 “contra-revolucionários” e a criação de um 
“campo de concentração com 1.000 lugares”. Para a Tcheka da pequena cidade de Sebejsk, “ kulaks abatidos a tiro e 1 
padre que havia celebrado uma missa para o tirano sanguinário Nicolau IV”; para a Tcheka de Tver, 130 reféns e 39 
execuções. Para a Tcheka de Perm, 50 execuções. Poder-se-ia prolongar este catálogo macabro, tirado de alguns 
extratos dos seis números publicados do Semanário da Tcheka.” 

Outros jornais de províncias deram conta, do mesmo modo, das milhares de prisões e execuções durante o 
outono de 1918. Assim, para citar somente alguns exemplos: o único número publicado das Izvestia Tsaritsynskoi 
Goubtcheka (Notícias da Tcheka da Província de Tsarytsine) dava conta da execução de 103 pessoas na semana de 3 a 
10 de setembro de 1918. De 19 a 8 de novembro de 1918, 371 pessoas passaram diante do tribunal local da Tcheka: 50 
foram condenados à morte, os outros ao “encarceramento num campo de concentração, na qualidade de reféns, como 
medida profilática, até a liquidação completa de todas as insurreições contra-revolucionárias”. O único número das 
Izvestia Penzenskoi Goubtcheka (Notícias da Tcheka da Província de Penza) relatava, sem outros comentários: “Pelo 
assassinato do camarada Egorov, operário de Petrogrado em missão oficial num destacamento de requisição, 152 
soldados do Exército Branco foram executados pela Tcheka. Outras medidas, ainda mais rigorosas [sic], serão tomadas 
no futuro contra todos aqueles que ergam o braço contra o braço armado do proletariado.” 

Os relatórios confidenciais (svodk!) das Tchekas locais enviados a Moscou, consultáveis há pouco tempo, 
confirmam, aliás, a brutalidade com a qual foram reprimidos, desde o verão de 1918, os menores incidentes entre as 
comunidades camponesas e as autoridades locais, que tinham como origem mais frequente a recusa das requisições ou 
do recrutamento militar, e que foram sistematicamente catalogadas como “tumultos kulaks contra-revolucio-nários” e 
reprimidos sem piedade. 

Seria vão tentar calcular o número de vítimas dessa primeira grande onda de Terror Vermelho. Um dos 
principais dirigentes da Tcheka, Latsis, pretendia que, no transcurso do segundo semestre de 1918, a Tcheka houvesse 
executado 4.500 pessoas, acrescentando com cinismo: “Se é possível acusar a Tcheka de qualquer coisa, não é excesso 
de zelo nas execuções, mas de insuficiência nas medidas supremas de punição. Uma mão de ferro sempre diminui a 
quantidade de vítimas.” No final de outubro de 1918, o dirigente menchevique luri Martov estimava o numero de 
vítimas diretas da Tcheka, desde o início do mês de setembro, em “mais de 10.000”. 

Qualquer que seja o número exato das vítimas do Terror Vermelho do outono de 1918 - uma vez que apenas a 
adição das execuções relatadas na imprensa nos sugere um número que não poderia ser inferior a 10.000-15.000 - esse 
Terror consagrava definitivamente a prática bolchevique de tratar toda forma de contestação real ou potencial dentro do 
contexto de uma guerra civil sem perdão, submetida, segundo a expressão de Latsis, a “suas próprias leis”. Se alguns 
operários fazem greve - como foi, por exemplo, o caso da fábrica de armamentos de Motovilikha, na província de 
Perm, no início do mês de novembro de 1918, para protestar contra o princípio bolchevique de racionamento “em 
função da origem social” e contra também os abusos da Tcheka local - toda a fábrica é de imediato declarada “em 
estado de insurreição” pelas autoridades. Nenhuma negociação com os grevistas: fechamento da fábrica, todos os 
operários despedidos, prisão dos “mentores”, busca dos “con-tra-revolucionários” mencheviques suspeitos de estarem 
na origem dessa greve. É fato que essas práticas foram correntes a partir do verão de 1918. Entretanto, no outono, a 


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Tcheka local, a partir de então bem organizada e “estimulada” pela incitação à morte vinda do Centro, foi mais longe 
na repressão; ela executou cem grevistas sem qualquer outra forma de processo. 

Apenas a ordem de grandeza - de 10 mil a 15 mil execuções sumárias em dois meses - marcava então uma 
verdadeira mudança de escala com relação ao período czarista. Basta lembrar que, para o conjunto do período de 1825- 
1917, o número de sentenças de morte proferidas pelos tribunais czaris-tas (incluídas as cortes marciais) em todos os 
casos “relacionados à ordem política” que foram julgados se elevara, em 92 anos, a 6.321, com o máximo de 1.310 
condenações à morte em 1906, ano da reação contra os revolucionários de 1905. Em poucas semanas, somente a 
Tcheka havia executado duas a três vezes mais pessoas do que todo o império czarista havia condenado à morte em 92 
anos; além disso, por se tratar de condenações que ocorreram como consequência de procedimentos legais, nem todas 
as penas foram executadas, uma boa parte das sentenças foi comutada em penas de trabalhos forçados. 

Essa mudança de escala ia muito além dos números. Á introdução de novas categorias tais como “suspeito”, 
“inimigo do povo”, “refém”, “campo de concentração”, “tribunal revolucionário”, de práticas inéditas tais como 
“encarceramento profilático” ou execução sumária, sem julgamento, de centenas de milhares de pessoas detidas por 
uma polícia política de um tipo novo, acima das leis, constituía uma verdadeira revolução copernicana. 

Essa revolução era tamanha, que alguns dirigentes bolcheviques não estavam preparados para ela; como prova 
disso a polêmica que se desenvolveu nos meios dirigentes bolcheviques, entre outubro e dezembro de 1918, a respeito 
do papel da Tcheka. Na ausência de Dzerjinski - enviado por um mês, incógnito, para cuidar de sua saúde mental e 
física na Suíça -, o Comitê Central do Partido bolchevique discutiu, em 25 de outubro de 1918, um novo estatuto para a 
Tcheka. Criticando os “plenos poderes entregues a uma organização que pretende agir acima dos sovietes e do próprio 
Partido”, Bukharin, Olminski, um dos veteranos do Partido, e Petrovski, comissário do povo para o Interior, pediram 
que fossem tomadas medidas para limitar os “excessos intempestivos de uma organização recheada de criminosos, de 
sádicos e de elementos degenerados do lumpem-proletariado”. Uma comissão de controle político foi criada. Kamenev, 
que fazia parte dessa comissão, chegou mesmo a propor a pura e simples abolição da Tcheka. 

Mas logo o campo dos torcedores incondicionais da Tcheka retomou as rédeas. Nela figuravam, além de 
Dzerjinski, algumas sumidades do Partido, tais como Sverdlov, Stalin, Trotski e, é claro, Lenin. Este último defendeu 
com afinco uma instituição “injustamente atacada, pelo fato de ter cometido alguns poucos excessos, por uma 
intelligentsia limitada [...] incapaz de considerar o problema do terror numa perspectiva mais ampla”. Em 19 de 
dezembro de 1918, através de uma proposta de Lenin, o Comitê Central adotou uma resolução proibindo a imprensa 
bolchevique de publicar “artigos caluniosos sobre as instituições, especialmente sobre a Tcheka, que faz o seu trabalho 
em condições particularmente difíceis”. Assim, encerrou-se o debate. O “braço armado da ditadura do proletariado” 
recebeu o seu atestado de infalibilidade. Como disse Lenin, “um bom comunista é igualmente um bom tchekista”. 

No início de 1919, Dzerjinski conseguiu com o Comitê Central a criação de departamentos especiais da 
Tcheka, a partir de então responsáveis pela segurança militar. Em 16 de março de 1919, ele foi nomeado comissário do 
povo para o Interior e determinou a reorganização, sob a égide da Tcheka, do conjunto das milícias, tropas, 
destacamentos e unidades auxiliares ligadas, até aquele momento, a administrações diversas. Em maio de 1919, todas 
essas unidades - milícias das estradas-de-ferro, destacamentos de abastecimento, agentes de fronteira, batalhões da 
Tcheka - foram reagrupadas num corpo especial, as “Tropas para a Defesa Interna da República”, que chegaria ao 
número de 200 mil homens em 1921. Essas tropas estavam encarregadas de garantir a segurança nos campos, estações 
ferroviárias e outros pontos estratégicos, de conduzir as operações de requisição e, sobretudo, de reprimir as rebeliões 
camponesas, os levantes operários e os motins no Exército Vermelho. As Unidades Especiais da Tcheka e as Tropas 
para a Defesa Interna da República - ou seja, cerca de 200 mil homens no total - representavam uma força 
extraordinária para o controle e para a repressão, um verdadeiro exército no seio do Exército Vermelho, este último 
minado por deserções, e que não chegava jamais alinhar mais de 500 mil soldados equipados, apesar dos efeti-vos 
teoricamente bastante elevados, algo entre três e cinco milhões de homens. 

Um dos primeiros decretos do novo comissário do povo para o Interior recaiu sobre as modalidades de 
organização dos campos que já existiam desde o verão de 1918 sem a menor base jurídica ou regulamentar. O decreto 
de 15 de abril de 1919 distinguia dois tipos de campos: “os campos de trabalho coercitivo”, onde eram, em princípio, 
internados aqueles que haviam sido condenados por um tribunal, e os “campos de concentração”, reagrupando as 
pessoas encarceradas, na maior parte das vezes na qualidade de “reféns”, em virtude de uma simples medida 
administrativa. De fato, as distinções entre esses dois tipos de campos permaneciam em grande parte teóricas, como 
demonstra a instrução complementar de 17 de maio de 1919, que, além da criação de “pelo menos um campo em cada 
província, com uma capacidade mínima de 300 lugares”, previa uma lista padrão de 16 categorias de pessoas a serem 
internadas. Entre elas, figuravam contingentes tão diversos quanto “reféns oriundos da alta burguesia”, “funcionários 
do Antigo Regime até o nível de assessor de colégio, procurador e seus auxiliares, prefeitos e ajudantes de cidades que 
sejam capitais de seus distritos”, “pessoas condenadas pelo regime soviético a todas as penas, pelo delito de 


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parasitismo, proxenetismo e prostituição”, “desertores comuns (não recidivos), e soldados prisioneiros da guerra civil” 
etc. 

O número de pessoas internadas nos campos de trabalho ou de concentração teve um aumento constante no 
decorrer dos anos 1919-1921, passando de cerca de 16 mil em maio de 1919 a mais de 60 mil em setembro de 1921. 
Esses cálculos não levam em conta um certo número de campos instalados nas regiões rebeladas contra o poder 
soviético: assim, por exemplo, na província de Tambov, contavam-se, no verão de 1921, pelo menos 50 mil “bandidos” 
e “membros das famílias dos bandidos tornados reféns” nos sete campos de concentração abertos pelas autoridades 
encarregadas da repressão ao levante camponês. 


4. A “guerra suja” 


A guerra civil na Rússia é geralmente analisada como um conflito entre os Vermelhos (bolcheviques) e os 
Brancos (monarquistas). Na realidade, além dos confrontos militares entre os dois exércitos, o Exército Vermelho e as 
unidades que compunham de forma bastante heterogénea o Exército Branco, o mais importante foi sem dúvida o que se 
passou atrás dessas linhas de frente em incessante movimento. Essa dimensão da guerra civil é conhecida como o 
“fronte interior”. Ela se caracteriza por uma repressão multiforme exercida pelos poderes estabelecidos, branco ou 
vermelho - sendo a repressão vermelha muito maior e mais frequente -, contra os militantes políticos dos partidos ou 
grupos de oposição, contra os trabalhadores em greve por alguma reivindicação, contra os desertores que rugiam da 
convocação militar ou de sua unidade, ou simplesmente contra os cidadãos pertencentes a uma classe social suspeita ou 
“hostil”, e cujo único erro era o de morar em uma cidade ou um burgo conquistado pelo “inimigo”. Essa luta pelo 
fronte interior da guerra civil foi também, antes de tudo, a resistência oposta por milhares de camponeses, insubmissos 
e desertores, que eram chamados de Verdes tanto pelos Vermelhos quanto pelos Brancos, e que muitas vezes 
desempenharam um papel decisivo na vitória ou na derrota de um ou de outro lado. 

Assim, o verão de 1919 foi pleno de grandes revoltas camponesas contra o poder bolchevique, na região do 
Médio Volga e na Ucrânia, que permitiram ao almirante Koltchak e ao general Denikin penetrar centenas de 
quilómetros nas linhas bolcheviques. Por outro lado, foi a revolta dos camponeses siberianos exasperados com o 
restabelecimento dos direitos dos proprietários rurais que precipitou a derrota do almirante branco Koltchak em face do 
Exército Vermelho. 

Enquanto as operações militares de grande envergadura entre Brancos e Vermelhos duraram pouco mais de 
um ano, do fim de 1918 ao início de 1920, o principal do que se acostumou designar com o termo “guerra civil” 
aparece, de fato, como uma “guerra suja”, uma guerra de pacificação conduzida pelas várias autoridades, militares ou 
civis, vermelhas ou brancas, contra todos os potenciais ou reais oponentes nas zonas controladas alternadamente por 
cada um dos campos. Nas regiões dominadas pelos bolcheviques, foi a “luta de classes” contra os 
“aristocratas” frequência os burgueses, os “elementos estranhos à sociedade”, a caça aos militantes de todos os partidos 
não bolcheviques, a repressão às greves operárias, aos motins das unidades incertas do Exército Vermelho e às revoltas 
camponesas. Nas regiões dominadas pelos Brancos, foi a caça aos elementos suspeitos de possíveis simpatias “judaico- 
bolcheviques”. 

Os bolcheviques não detinham o monopólio do terror. Existia um Terror Branco, cuja expressão mais terrível 
foi a onda de pogroms cometida na Ucrânia durante o outono de 1919 pelos destacamentos do exército de Denikin e as 
unidades de Simon Pediura, fazendo cerca de 150 mil vítimas. Mas, como observaram a maioria dos historiadores do 
Terror Vermelho e do Terror Branco durante a guerra civil russa, estes dois últimos não podem ser postos no mesmo 
plano. A política de terror bolchevique foi mais sistemática, mais organizada, pensada e posta em prática como tal 
muito antes da guerra civil, teorizada contra grupos inteiros da sociedade. O Terror Branco não foi nunca erigido como 
um sistema. Ele foi, quase sempre, produzido por destacamentos que escaparam ao controle e à autoridade de um 
comando militar que tentava, sem grande sucesso, fazer o papel de governo. Excetuados os pogroms, condenados por 
Denikin, o Terror Branco se mostra muito mais como uma repressão policial praticada no mesmo nível que um serviço 
de contra-espionagem militar. Diante dessa contra-espionagem das unidades brancas, a Tcheka e as Tropas de Defesa 
Interna da República constituíam um instrumento de repressão muito mais estruturado e poderoso, beneficiando-se de 
toda prioridade do regime bolchevique. 

Como em toda guerra civil, é difícil fazer um balanço completo das formas de repressão e dos tipos de terror 
perpetrados por ambos os campos presentes no conflito. O Terror Bolchevique, o único a ser abordado aqui, exige 
várias apologias pertinentes. Com seus métodos, suas especificidades e seus alvos privilegiados, ele foi bastante 
anterior à guerra civil propriamente dita, que só veio a ser iniciada a partir do fim do verão de 1918. Escolhemos uma 
tipologia que permite ressaltar, na continuidade de uma evolução que podemos seguir desde os primeiros meses do 
regime, os principais grupos de vítimas submetidos à repressão consequente e sistemática: 

- os militantes políticos não bolcheviques, desde os anarquistas até os monarquistas; 


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- Os operários em luta por seus direitos mais elementares - o pão, o trabalho e um mínimo de liberdade e 
dignidade; 

- OS camponeses - em sua maioria desertores - implicados em uma das inúmeras revoltas camponesas ou 
motins de unidades do Exército Vermelho; 

- OS cossacos, deportados em massa como um grupo social e étnico considerado hostil ao regime soviético. A 
“descossaquização” prefigura as grandes operações de deportação dos anos 30 (“deskulakização”, deportação de grupos 
étnicos) e destaca a continuidade das fases leninista e stalinista no que diz respeito à política repressiva; 

- os “elementos estranhos à sociedade” e outros “inimigos do povo”, “suspeitos” e “reféns” executados 
“preventivamente”, principalmente durante a evacuação das cidades pelos bolcheviques ou, ao contrário, durante a 
retomada das cidades e territórios ocupados um certo tempo pelos Brancos. 

A repressão que atingiu os militantes políticos dos diversos partidos de oposição ao regime bolchevique é, sem 
dúvida, a mais conhecida. Vários testemunhos foram deixados pelos principais dirigentes dos partidos de oposição. 
Eles foram encarcerados, algumas vezes exilados, mas geralmente foram deixados vivos, ao contrário da grande massa 
de militantes operários e camponeses, fuzilados sem processo ou massacrados durante as operações punitivas da 
Tcheka. 

Uma das primeiras incursões armadas da Tcheka foi o ataque de 11 de abril de 1918 aos anarquistas de 
Moscou, com dezenas de milhares de pessoas sendo executadas de imediato. A luta contra os anarquistas não deu 
trégua nos anos seguintes, se bem que alguns dentre eles tenham se juntado às fileiras bolcheviques, chegando mesmo a 
ocupar postos importantes da Tcheka, tais como Alexandre Goldberg, Mikhail Brener ou Timofei Samsonov. O dilema 
da maioria dos anarquistas, que recusavam tanto a ditadura bolchevique quanto o retorno dos partidários do antigo 
regime, é ilustrado pelas repentinas mudanças do grande líder anarquista e camponês Makhno, que teve de, ao mesmo 
tempo, aliar-se ao Exército Vermelho no combate aos Brancos e, uma vez afastada a ameaça branca, lutar contra os 
vermelhos para salvaguardar seus ideais. Milhares de militantes anarquistas anónimos foram executados como 
“bandidos” durante a repressão aos exércitos camponeses de Makhno e seus aliados. Ao que parece, esses camponeses 
constituíram t imensa maioria das vítimas anarquistas, se podemos acreditar nesse balanço - incompleto, sem dúvida, 
mas o único disponível - da repressão bolchevique apresentada pelos anarquistas russos exilados em Berlim em 1922. 
Esse balanço estimava cerca de 138 militantes anarquistas executados durante os anos 1919-1921,281 exilados e 608 
ainda encarcerados em 19 de janeiro de 1922. 

Aliados dos bolcheviques até o verão de 1918, os socialistas revolucionários de esquerda beneficiaram-se, até 
fevereiro de 1919, de uma relativa clemência. Em dezembro de 1918, Maria Spiridonova, sua dirigente histórica, 
presidiu um congresso de seu partido que foi tolerado pelos bolcheviques. Condenando rigorosamente o terror 
praticado cotidianamente pela Tcheka, ela foi presa em 10 de fevereiro de 1919, ao mesmo tempo que outros 210 
militantes, e condenada pelo Tribunal Revolucionário à “detenção em um sanatório, considerado seu estado histérico”; 
este é o primeiro exemplo de internação, feita pelo regime soviético, de um oponente político em um estabelecimento 
psiquiátrico; Maria Spiridonova conseguiu fugir e dirigir, na clandestinidade, o Partido Socialista Revolucionário de 
Esquerda proibido pelos bolcheviques. Segundo fontes tchekistas, 58 organizações socialistas revolucionárias de 
esquerda teriam sido desmanteladas em 1919, e 45 em 1920. Durante esses dois anos, 1.875 militantes teriam sido 
encarcerados como reféns, de acordo com as ordens de Dzerjinski, que havia declarado, em 18 de março de 1919: “A 
partir de hoje, a Tcheka não fará mais distinção entre os Soldados Brancos como Krasnov e os Soldados Brancos do 
campo socialista. [...] Os SR e os mencheviques detidos serão considerados reféns, e seu destino dependerá do 
comportamento político de seu partido.” 

Para os bolcheviques, os socialistas-revolucionários de direita sempre apareciam como os mais perigosos 
rivais políticos. Ninguém se esquecera de que eles haviam sido amplamente majoritários no país durante as eleições 
livres no sufrágio universal de novembro-dezembro de 1917. Após a dissolução da assembleia constituinte na qual eles 
dispunham da maioria absoluta das cadeiras, os socialistas-revolucionários continuavam a se reunir nos sovietes e no 
Comitê Executivo Central dos Sovietes, de onde eles foram expulsos junto com os mencheviques em junho de 1918. 
Uma parte dos dirigentes socialistas-revolucionários constituíram então, com constitucional-democratas e os 
mencheviques, alguns governos efémeros em Samara e Omsk, logo depostos pelo almirante branco Koltchak. Presos 
em meio ao tiroteio entre bolcheviques e brancos, socialistas-revolucionários e mencheviques tiveram enorme 
dificuldade em definir uma política coerente de oposição a um regime bolchevique que exercia uma política hábil 
diante da oposição socialista, alternando medidas de apaziguamento e manobras de infiltração e de repressão. 

Depois de autorizar, no auge da ofensiva do almirante Koltchak, a reabertura, de 20 a 30 de março de 1919, do 
jornal socialista revolucionário Delo Naroda (A Causa do Povo), a Tcheka se lança, em 31 de março de 1919, numa 
grande onda de aprisionamento dos militantes socialistas revolucionários e mencheviques, apesar de esses partidos 
ainda não terem sorrido nenhum tipo de intervenção legal. Mais de 1.900 militantes foram presos em Moscou, Tuia, 
Smolensk, Voronezh, Penza, Samara e Kostroma. Qual foi o número de pessoas sumariamente executadas na repressão 


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às greves e às revoltas camponesas, nas quais os mencheviques e os socialistas revolucionários desempenhavam na 
maior parte das vezes o papel principal? Os dados quantificados disponíveis são bem reduzidos, pois se conhecemos 
aproximadamente o número de vítimas dos principais episódios de repressão recenseados, ignoramos a proporção de 
militantes políticos envolvidos nesses massacres. 

Uma segunda onda de prisões sucedeu à publicação de um artigo de Lenin no Pravda de 28 de agosto de 1919, 
no qual ele fustigava mais uma vez os SR e os mencheviques, “cúmplices e servos dos Brancos, dos proprietários rurais 
e dos capitalistas”. Segundo fontes da Tcheka, 2.380 socialistas-revolu-cionários e mencheviques foram detidos durante 
os quatro últimos meses de 1919. Em 23 maio de 1920, depois de o presidente socialista-revolucionário, Victor 
Tchernov - presidente por um dia da Assembleia Constituinte que foi dissolvida, ativamente procurado pela polícia 
política - ter ridicularizado a Tcheka e o governo, tomando a palavra disfarçado sob uma falsa identidade, num 
encontro organizado pelo sindicato dos tipógrafos em homenagem a uma delegação de operários ingleses, a repressão 
aos militantes socialistas retornou com toda a força. Toda a família de Tchernov foi tomada como refém, e os dirigentes 
socialistas-revolucionários ainda em liberdade foram jogados na pri-são. Durante o verão de 1920, mais de dois mil 
militantes socialistas-revolucionários e mencheviques, devidamente fichados, foram presos e encarcerados como 
reféns. Um documento interno da Tcheka, datado de 19 de julho de 1920, assim explicitava - e com um raro cinismo - 
as grandes linhas de ação a serem desenvolvidas contra os oponentes socialistas: “Em vez de interditar esses partidos, 
fazendo-os cair na clandestinidade, o que poderia ser difícil de controlar, é bem melhor deixá-los com um status de 
semilegalidade. Desse modo, será mais fácil tê-los sob a mão e extrair deles, assim que se faça necessário, os 
desordeiros, renegados e outros fornecedores de informações úteis. [...] Frente a esses partidos anti-soviéticos, é 
indispensável que nós possamos tirar proveito da situação atual de guerra para imputar a seus membros crimes tais 
como 'atividade contra-revolucionária', 'alta traição', 'desorganização da retaguarda", espionagem para uma potência 
estrangeira intervencionista', etc.” 

De todos os episódios de repressão, um dos mais cuidadosamente ocultados pelo novo regime foi a violência 
exercida contra o mundo operário, em nome do qual os bolcheviques haviam tomado o poder. Iniciada a partir de 1918, 
essa repressão desenvolveu-se em 1919-1920, culminando na primavera de 1921, com o episódio bem conhecido de 
Kronstadt. O mundo operário de Petrogrado já havia manifestado, desde o início de 1918, o clima de desafio aos 
bolcheviques. Após o fracasso da greve geral de 2 de julho de 1918, veio à tona, em março de 1919, o segundo grande 
evento das revoltas operárias na antiga capital, depois de os bolcheviques terem prendido um bom número de dirigentes 
socialistas-revolucionários, entre os quais Maria Spiridonova, que acabava de efetuar uma série de memoráveis visitas 
às principais fábricas de Petrogrado, tendo sido aclamada em todas elas. Essas prisões desencadearam, numa conjuntura 
Já bastante tensa devido às dificuldades de abastecimento, um vasto movimento de protestos e greves. Em 10 de março 
de 1919, a assembleia geral dos operários das fábricas de Putilov, com a presença de dez mil participantes, adotou uma 
proclamação condenando solenemente os bolcheviques: “Esse governo não é senão a ditadura do Comitê Central do 
Partido Comunista que governa com a ajuda da Tcheka e dos tribunais revolucionários. “ 

A proclamação exigia a passagem de todo o poder aos sovietes, a liberdade de serem realizadas eleições nos 
sovietes e nos Comitês de fábrica, a supressão das limitações da quantidade de comida que os operários estavam 
autorizados a trazer do campo de Petrogrado (1,5 pud, ou seja, 24 quilos), a libertação de todos os prisioneiros políticos 
dos autênticos partidos “revolucionários”, principalmente de Maria Spiridonova. Para tentar deter um movimento que 
crescia a cada dia, Lenin foi pessoalmente a Petrogrado, em 12 e 13 de março de 1919. Mas quando ele quis tomar a 
palavra nas fábricas em greve e ocupadas pelos operários, ele e Zinoviev foram vaiados, aos gritos de: “abaixo os 
judeus e os comissários!”. O velho fundo popular de anti-semitis-mo, sempre pronto a vir à tona, associou 
imediatamente os judeus aos bolcheviques, tão logo estes últimos perderam todo o crédito que eles momentaneamente 
tiveram nos dias que se seguiram a Outubro de 1917. O fato de uma grande proporção dos mais conhecidos líderes 
soviéticos serem judeus (Trotski, Zinoviev, Kamenev, Rykov, Radek, etc.) justificava, do ponto de vista das massas, 
esse amálgama entre bolcheviques e judeus. 

Em 16 de março de 1919, os destacamentos da Tcheka tomaram de assalto a fábrica de Putilov, que foi 
defendida de armas na mão. Cerca de 900 operários foram detidos. Durante os dias que se seguiram, algo em torno de 
200 grevistas foram executados sem julgamento na fortaleza de Schliisselburg, a mais ou menos de 50 quilómetros de 
Petrogrado. Segundo um novo ritual, os grevistas, todos demitidos, só foram readmitidos depois de assinarem uma 
declaração na qual eles reconheciam terem sido usados e “induzidos ao crime” por mentores contra-revolucionários. A 
partir de então, os operários foram submetidos a uma grande vigilância. Depois da primavera de 1919, o departamento 
secreto da Tcheka pôs em prática, em alguns centros operários, uma grande rede de agentes infiltrados encarregados de 
informar regularmente sobre o “estado de espírito” dessa ou daquela fábrica. Classes trabalhadoras, classes perigosas... 

A primavera de 1919 foi marcada por um grande número de greves, reprimidas de maneira selvagem, nos 
vários centros operários da Rússia, em Tuia, Sormovo, Orei, Briansk, Tver, Ivanovo-Voznessensk e Astrakhan. As 
reivindicações dos trabalhadores eram quase todas idênticas. Levados à fome por salários miseráveis que mal davam 


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para um cartão de racionamento que assegurasse cerca de 250 gramas de pão por dia, os grevistas exigiam inicialmente 
a igualização de sua ração aquela do Exército Vermelho. Mas as suas exigências eram também, e sobretudo, políticas: 
supressão de privilégios para os comunistas, libertação de todos os prisioneiros políticos, eleições livres no Comitê de 
fábrica e no soviete, término da convocação militar pelo Exército Vermelho, liberdade de associação, de expressão, de 
imprensa, etc. 

O que tornava esses movimentos perigosos aos olhos do poder bolchevique é que eles muitas vezes 
contaminavam as unidades militares aquarteladas nas cidades operárias. Em Orei, Briansk, Gomei e Astrakhan, os 
soldados amotinados se juntaram aos grevistas, com gritos de “morte aos judeus, abaixo os comissários bolcheviques!”, 
ocupando e pilhando uma parte da cidade que só foi reconquistada pelos destacamentos da Tcheka e pelos grupos que 
permaneceram fiéis ao regime, após vários dias de combate. A repressão a essas greves e esses motins foi diversa, indo 
do fechamento em massa da totalidade das fábricas, com confisco dos cartões de racionamento - uma das armas mais 
eficientes do poder bolchevique era a arma da fome - até a execução em massa, às centenas, de grevistas e amotinados. 

Entre os episódios repressivos mais significativos figuram, em março-abril de 1919, os de Tuia e de 
Astrakhan. Dzerjinski foi pessoalmente a Tuia, capital histórica da fabricação de armas da Rússia, em 3 de abril de 
1919, para acabar com a greve dos operários das fábricas de armamentos. Durante o inverno de 1918-1919, essas 
fábricas, vitais para o Exército Vermelho - onde eram fabricados 80% dos fuzis produzidos na Rússia -, já tinham sido 
palco de suspensões de produção e de greves. Mencheviques e socialistas-revolucio-nários eram amplamente 
majoritários entre os militantes políticos implantados nesse meio operário altamente qualificado. A prisão, no início de 
março de 1919, de centenas de militantes socialistas suscitou uma onda de protestos, que culminaram em 27 de março, 
durante uma imensa “marcha pela liberdade e contra a fome” reunindo milhares de operários e trabalhadores 
ferroviários. Em 4 de abril, Dzerjinski ordenou a prisão de mais 800 “mentores” e a evacuação com uso da força das 
fábricas ocupadas durante semanas pelos grevistas. Todos os operários foram demitidos. A resistência operária foi 
quebrada pela arma da fome. Já havia várias semanas que os cartões de racionamento não eram mais respeitados. Para 
obter novos cartões que dessem direito aos mesmos 250 gramas de pão por dia, e recuperar o trabalho após o 
fechamento geral das fábricas, os operários foram forçados a assinar um pedido de emprego que estipulava que toda 
interrupção da produção seria, a partir de então, considerada uma deserção passível da aplicação da pena de morte. Em 
10 de abril a produção foi retomada. No dia anterior, 26 “mentores” haviam sido executados. 

A cidade de Astrakhan, perto da foz do Volga, tinha uma importância estratégica toda particular na primavera 
de 1919; ela formava o último ferrolho bolchevique que impedia a junção das tropas do almirante Koltchak, no 
nordeste, com as do general Denikin, no sudoeste. Sem dúvida, essa circunstância explica a extraordinária violência 
com a qual foi reprimida, em março de 1919, a greve operária nessa cidade. Iniciada no princípio de março por razões 
tanto econômicas - normas de racionamento muito baixas - quanto políticas - a prisão de militantes socialistas -, a greve 
degenerou em 10 de março, quando o 45º. regimento da infantaria recusou-se a atirar nos operários que desfilavam no 
centro da cidade. Juntando-se ao grevistas, os soldados saquearam a sede do Partido Bolchevique, matando vários dos 
seus dirigentes. Serguei Kirov, presidente do Comitê Militar Revolucionário dessa região, ordenou, então, “o 
extermínio sem perdão e por todos os meios desses vermes, os Guardas Brancos”. As tropas que permaneceram fiéis ao 
regime e os destacamentos da Tcheka bloquearam todos os acessos da cidade antes de metodicamente começarem a sua 
reconquista. Quando as prisões ficaram chéias a ponto de explodir, amotinados e grevistas foram embarcados em balsas 
de onde eles foram jogados às centenas, com uma pedra amarrada ao pescoço, no rio Volga. De 12 a 14 de março, 
foram fuzilados ou afogados entre dois mil e quatro mil operários grevistas e amotinados. A partir do dia 15, a 
repressão atingiu os “burgueses” da cidade, sob o pretexto de que eles haviam inspirado o complô dos “Guardas 
Brancos”, dos quais os operários e os soldados não passavam de subalternos. Durante dois dias, as ricas lojas de 
mercadorias de Astrakhan estiveram entregues à pilhagem, seus proprietários foram presos e fuzilados. As avaliações, 
incertas, do número de vítimas “burguesas” dos massacres de Astrakhan oscilam entre 600 e mil pessoas. No total, em 
uma semana, entre três mil e cinco mil pessoas foram executadas ou afogadas. Quanto ao número de comunistas mortos 
e enterrados com grande pompa em 18 de março - dia do aniversário da Comuna de Paris, como as autoridades fizeram 
questão de destacar -, eles eram 47. Durante muito tempo lembrada como um simples episódio da guerra entre 
Vermelhos e Brancos, a matança de Astrakhan atualmente revela, à luz dos documentos e dos arquivos disponíveis, sua 
verdadeira natureza: o maior massacre de operários cometido pelo poder bolchevique antes do massacre de Kronstadt.” 

No fim de 1919 e no início de 1920, as relações entre o poder bolchevique e o mundo operário degradaram-se 
ainda mais, como consequência da militarização de mais de duas mil empresas. Principal defensor da militarização do 
trabalho, Leon Trotski desenvolveu, durante o DC Congresso do Partido, em março de 1920, suas concepções sobre 
essa questão. O homem é naturalmente voltado para a preguiça, explicou Trotski. No capitalismo, os operários devem 
procurar trabalho para sobreviverem. É o mercado capitalista que impulsiona o trabalhador. No socialismo, “a 
utilização dos recursos do trabalho substitui o mercado”. Portanto, o Estado tem a tarefa de orientar, destinar e adaptar 
o trabalhador, que deve obedecer como um soldado ao Estado operário, defensor dos interesses do proletariado. Eram 


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esses os fundamentos e o sentido da militarização do trabalho, vivamente criticada por uma minoria de sindicalistas e 
dirigentes bolcheviques; isso significava, na prática, a proibição das greves, considerada uma deserção em tempos de 
guerra, o reforço da disciplina e dos poderes da direção, a subordinação completa dos sindicatos e Comitês de fábrica - 
cujo papel se resumiria a partir de então a pôr em prática uma política produtivista -, a proibição aos operários de 
deixarem seus cargos, a punição de ausências e atrasos - muito (requentes nesses dias em que os operários estavam à 
procura, sempre problemática, de comida. 

Ao descontentamento suscitado no mundo do trabalho pela militarização vinham juntar-se as dificuldades 
crescentes da vida cotidiana. Como reconhecia um relatório da Tcheka enviado ao governo em 6 de dezembro de 1919, 
“nesses últimos tempos a crise de abastecimento não parou de agravar-se. A fome atormenta as massas operarias. Os 
operários não têm mais força física para continuarem a trabalhar e ausentam-se cada vez mais, sob os efeitos 
conjugados do frio e da fome. Em toda uma série de empresas metalúrgicas de Moscou, as massas estão prontas a tudo 
- greve, desordens, insurreição - se não resolvermos, no menor espaço de tempo possível, a questão do abastecimento.” 

Em Petrogrado, no início de 1920, o salário operário variava entre 7.000 e 12.000 rublos por mês. Além desse 
insignificante salário de base - meio quilo de manteiga custava no mercado livre 5.000 rublos, meio quilo de carne 
3.000 rublos, um litro de leite 750 rublos! -, cada operário tinha direito a um certo número de produtos, em função da 
categoria na qual era classificado. No fim de 1919, em Petrogrado, um trabalhador braçal tinha direito a 250 gramas de 
pão por dia, meio quilo de açúcar por mês, meio quilo de gorduras e dois quilos de arenque defumado... 

Teoricamente, os cidadãos eram classificados em cinco categorias de “estômagos”, dos trabalhadores braçais e 
os soldados do Exército Vermelho aos “ociosos” - categoria na qual entravam os intelectuais, particularmente mal 
situados -, com “rações de classe” decrescentes. Na realidade, o sistema era ainda mais complexo e injusto. Atendidos 
por último, os mais desfavorecidos - “ociosos”, intelectuais e “aristocratas” - muitas vezes não recebiam nada. Quanto 
aos “trabalhadores”, eles estavam, de fato, divididos em várias categorias, de acordo com uma hierarquia de prioridades 
que privilegiava os setores vitais para a sobrevivência do regime. Em Petrogrado, podiam-se contar, durante o inverno 
de 1919-1920, 33 categorias de cartões de racionamento, cuja validade não excedia nunca um mês! No sistema de 
abastecimento centralizado que os bolcheviques haviam posto em prática, a arma alimentar possuía uma grande 
importância na estimulação ou na punição desta ou daquela categoria de cidadãos. 

“A ração de pão deve ser reduzida para aqueles que não trabalham no setor de transportes, e aumentada para 
aqueles que trabalham nesse setor que consideramos de extrema importância nos dias de hoje, escreveu Lenin a Trotski 
em 1º. de fevereiro de 1920. Que milhares de pessoas pereçam se for necessário, mas o país deve ser salvo.” 

Diante dessa política, os que mantiveram relações com o campo - e tratava-se de muita gente - esforçavam-se 
para voltar a sua cidade o mais frequentemente possível, tentando trazer de lá algo do que comer. 

Destinadas a “repor a ordem” dentro das fábricas, as medidas de militarização do trabalho suscitaram, ao 
contrário do efeito pretendido, várias e frequentes paralisações, suspensões de produção, greves e insurreições, sempre 
reprimidas sem piedade. Como se podia ler no Pravda. de 12 de fevereiro de 1920, “o melhor lugar para o grevista, esse 
verme amarelo e nocivo, é o campo de concentração!” Segundo as estatísticas oficiais do Comissariado do Povo para o 
Trabalho, 77% das grandes e médias indústrias da Rússia foram atingidas pelas greves durante o primeiro semestre de 
1920. Significativamente, os setores onde houve mais perturbação - a metalurgia, as minas e as ferrovias - foram 
também aqueles onde a militarização era mais adiantada. Os relatórios do departamento secreto da Tcheka, destinados 
aos dirigentes bolcheviques, mostram de maneira crua a repressão aos operários resistentes à militarização: presos, eles 
eram, na maior parte dos casos, julgados no tribunal revolucionário por “sabotagem” ou “deserção”. Assim, tomando 
somente um exemplo, 12 operários da fábrica de armamentos em Simbirsk foram condenados a cumprirem uma pena 
em campo de concentração por terem “sabotado, através de uma greve italiana [...], por terem feito propaganda contra o 
poder soviético a partir das superstições religiosas e da pouca consciência política das massas [...] e por terem dado 
uma falsa interpretação da política salarial soviética.” !6 Decifrando esse politiquês, pode-se deduzir que esses acusados 
faziam pausas não autorizadas pela direção da empresa, protestavam contra a obrigação de trabalhar aos domingos, 
criticavam os privilégios dos comunistas e denunciavam os salários miseráveis... 

Os mais importantes dirigentes do Partido, entre eles Lenin, convocavam a uma repressão exemplar das 
greves. Em 29 de janeiro de 1920, preocupado com a extensão dos movimentos operários do Ural, Lenin telegrafou a 
Smirnov, chefe do Conselho Militar do V Exército: “P. informou-me que há uma clara sabotagem da parte dos 
ferroviários. [...] Disseram-me que os operários de Ijevsk também fazem pane da trama. Estou surpreso com a sua 
acomodação e que você não tenha promovido execuções em massa para dissuadir a sabotagem.”? Em 1920, houve 
inúmeras greves provocadas pela militarização do trabalho: em Ekaterinburgo, em março de 1920, 80 operários foram 
presos e condenados a cumprirem penas em campos de concentração; na linha férrea Ryazan-Ural, em abril de 1920, 
100 ferroviários foram condenados; na linha férrea de Moscou-Koursk, 160 ferroviários foram condenados em maio de 
1920; na fábrica metalúrgica de Briansk, em junho de 1920, 152 operários foram condenados. Dentro desse aspecto de 
militarização do trabalho, poderíamos multiplicar ao infinito esses exemplos de greves reprimidas severamente. 


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Uma das mais notáveis foi, em junho de 1920, a dos trabalhadores na fabricação de armas de Tuia, local que, 
apesar de já ter sido duramente castigado em abril de 1919, era palco de grandes protestos operários contra o regime. 
No domingo, 6 de junho de 1920, um grande número de operários metalúrgicos recusou-se a fazer as horas extras 
exigidas pela direção. Os operários recusavam-se a trabalhar naquele e nos demais domingos, explicando que o 
domingo era o único dia em que eles podiam ir em busca de alimentos nas pequenas cidades circunvizinhas. 
Convocado pela direção, um grande destacamento de tchekistas veio prender os grevistas. A lei marcial foi decretada, e 
a troika composta por representantes do Partido e da Tcheka foi encarregada de denunciar a “conspiração contra- 
revolucionária fomentada por espiões poloneses e pelos Cem-Negros, com o objetivo de enfraquecer a força de 
combate do Exército Vermelho”. 

Enquanto a greve se prolongava e se multiplicavam as prisões dos “mentores”, um fato novo veio perturbar o 
contorno habitual da situação: às centenas, e depois aos milhares, operárias e simples donas-de-casa se apresentaram à 
Tcheka pedindo para que elas também fossem presas. O movimento ampliou-se, e, por sua vez, os operários exigiram a 
própria prisão em massa, a fim de tornar absurda a tese do “complô dos poloneses e dos Cem-Negros”. Em quatro dias, 
mais de dez mil pessoas foram encarceradas, ou melhor, alojadas num grande local ao ar livre, vigiadas por tchekistas. 
Sobrecarregadas, não sabendo mais como apresentar tais acontecimentos a Moscou, as organizações locais do Partido e 
da Tcheka conseguiram finalmente convencer as autoridades centrais da veracidade de uma ampla conspiração. Um 
“Comitê de Liquidação da Conspiração de Tuia” interrogou milhares de operários, homens e mulheres, na esperança de 
encontrar os culpados ideais. Para serem libertados, readmitidos e para obterem um novo cartão de racionamento, todos 
os trabalhadores presos tiveram de assinar a seguinte declaração: “Eu, abaixo assinado, cachorro fedorento e criminoso, 
arrependo-me diante do Tribunal Revolucionário e do Exército Vermelho, confesso os meus pecados e prometo 
trabalhar conscienciosamente.” 

Ao contrário de outros movimentos de protesto operário, a desordem política em Tuia no verão de 1920 deu 
lugar a condenações bastante leves: 28 pessoas foram condenadas a cumprirem pena em campos de concentração, e 200 
pessoas foram exiladas. Diante da penúria de mão-de-obra altamente qualificada, o poder bolchevique não podia, sem 
dúvida, dispensar o trabalho dos melhores fabricantes de armas do país. A repressão, assim como o abastecimento, teve 
de considerar os setores importantes e os grandes interesses do regime. 

Por mais importante que fosse - simbolicamente e estrategicamente - “a frente operária”, ela representava 
apenas uma ínfima parte dos engajamentos nos vários “frontes interiores” da guerra civil. A luta contra os camponeses 
que recusavam a convocação militar e a requisição de parte de sua produção - os Verdes - mobilizava todas as energias 
dos bolcheviques. Os relatórios, atual-mente disponíveis, dos departamentos especiais da Tcheka e das Tropas de 
Defesa Interna da República, encarregadas de lutar contra as revoltas, as deserções e as insurreições camponesas, 
revelam em todo o seu horror a extraordinária violência dessa “guerra suja” de pacificação, praticada à margem dos 
combates entre Vermelhos e Brancos. É nesse confronto crucial entre o poder bolchevique e o conjunto dos 
camponeses que se produziu definitivamente uma prática política terrorista fundada numa visão radicalmente 
pessimista das massas “a tal ponto obscuras e ignorantes, escreveu Dzerjinski, que elas não são nem mesmo capazes de 
ver onde está o seu verdadeiro interesse”. Essas massas bestiais só podem ser domadas pela força, por essa “vassoura 
de ferro” que Trotski evocava para caracterizar, através de imagens, a repressão que devia ser aplicada para se poder 
“limpar” a Ucrânia desses “bandos de bandidos” dirigidos por Nestor Makhno e outros líderes camponeses. 

As revoltas camponesas haviam começado a partir do verão de 1918. Elas atingiram uma maior amplitude em 
1919-1920 para culminar durante o inverno de 1920-1921, obrigando o regime soviético a recuar momentaneamente. 

Duas razões imediatas levavam os camponeses a se revoltarem: as requisições e a convocação militar para o 
Exército Vermelho. Em janeiro de 1919, a busca desordenada por excedentes agrícolas, que havia marcado, desde o 
verão de 1918, as primeiras operações, foi substituída por um sistema centralizado e planejado de requisições. Cada 
cidade, cada distrito, cada região, cada comunidade devia entregar ao Estado uma cota previamente fixada, em função 
da estimativa das colheitas. Essas cotas não se limitavam aos cereais, pois incluíam cerca de 20 outros produtos 
variados, assim como batatas, mel, ovos, manteiga, grãos oleíferos, came, creme, leite... Cada comunidade era 
solidariamente responsável pela colheita. Somente quando a cidade como um todo preenchia suas cotas é que as 
autoridades distribuíam os recibos que davam direito à aquisição de bens manufaturados - em número muito inferior às 
necessidades, pois, no fim de 1920, estas últimas eram cobertas em apenas 15%. Quanto ao pagamento das colheitas 
agrícolas, ele era efetuado através de preços meramente simbólicos, uma vez que, no fim de 1920, o rublo havia 
perdido 96% de seu valor em relação ao rublo-ouro. De 1918 a 1920, as requisições de cereais foram triplicadas. 
Embora seja difícil avaliar com exati-dão, o número de revoltas camponesas parece ter seguido uma progressão no 
mínimo paralela. 

A recusa à convocação do Exército Vermelho, depois de três anos nos frontes e trincheiras de “guerra 
imperialista”, constituía a segunda grande motivação das revoltas camponesas, conduzida na maior parte das vezes por 
desertores escondidos nas florestas, os Verdes. Estima-se que o número de desertores em 1919-1920 era de mais de três 


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milhões. Em 1919, cerca de 500 mil desertores foram detidos pelos destacamentos da Tcheka e comissões especiais de 
luta contra os desertores; em 1920, o número foi de 700 a 800 mil. Porém, entre um milhão e meio e dois milhões de 
desertores, camponeses, em sua imensa maioria, conheciam muito bem a região e conseguiram escapar das buscas. 

Diante da gravidade do problema, o governo tomou medidas repressivas cada vez mais duras. Milhares de 
desertores foram fuzilados, e suas famílias foram tratadas como reféns. De fato, desde o verão de 1918, o princípio de 
se fazer reféns era aplicado nas circunstâncias as mais cotidianas. Tomemos como exemplo o decreto governamental de 
15 de fevereiro de 1919, assinado por Lenin, que ordenava às Tchekas locais que, nos lugares em que as vias férreas 
cobertas de neve não tiverem sido desobstruídas de maneira satisfatória, fossem feitos reféns entre os camponeses: “Se 
a desobstrução não for feita, os reféns serão executados.” Em 12 de maio de 1920, Lenin enviou as seguintes instruções 
a todas as comissões provinciais de luta contra os desertores: “Após a expiração do prazo final de sete dias, concedido 
aos desertores para que se rendam, é preciso reforçar ainda mais as sanções a esses incorrigíveis traidores do povo 
trabalhador. As famílias e todos os que de algum modo ajudarem os desertores serão a partir de agora considerados 
como reféns e tratados como tais.” Esse decreto apenas legalizava o que já era prática cotidiana. Mas o fluxo de 
deserções não deixou de aumentar. Em 1920-1921, assim corno em 1919, os desertores constituíram a maior parte dos 
militantes verdes, contra os quais os bolcheviques praticaram, durante três anos (chegando a cinco anos em algumas 
regiões), uma guerra impiedosa, de uma crueldade inaudita. 

De um modo geral, os camponeses rejeitavam, além da requisição e da convocação militar, toda intrusão de 
um poder que eles consideravam estrangeiro, o poder dos “comunistas” oriundos da cidade. Para os camponeses, os 
comunistas que praticavam as requisições eram diferentes dos “bolcheviques” que haviam encorajado a revolução 
agrária de 1917. No campo, à mercê da soldadesca branca e dos destacamentos de convocados vermelhos, a violência 
transbordava. 

Uma fonte excepcional para a apreensão das múltiplas facetas dessa guerrilha camponesa são os relatórios dos 
diversos departamentos da Tcheka encarregados da repressão. Eles distinguem dois tipos especiais de movimentos 
camponeses: o bunt, uma revolta circunscrita, breve explosão de violência implicando um número relativamente 
restrito de participantes, que vai de algumas dezenas a uma centena de pessoas; a vosstanie, a insurreição que implicava 
a participação de milhares, e mesmo de dezenas de milhares de camponeses, organizados em verdadeiros exércitos 
capazes de tomarem um burgo ou uma cidade e dotados de um programa político coerente, com tendência social- 
revolucionária ou anarquista. 

“ de abril de 1919. Província de Tambov. No início de abril, no distrito de Lebiadinski, estourou uma revolta 
de kulaks e de desertores protestando contra a mobilização dos homens, dos cavalos e contra a requisição de cereais. 
Com gritos de 'Abaixo os comunistas! Abaixo os sovietes!', os rebelados armados saquearam quatro Comitês 
executivos da região, mataram barbaramente sete comunistas, cortados vivos com uma serra. O 212º batalhão da 
Tcheka, chamado pelos membros do destacamento de requisição, esmagou os kulaks rebelados. Sessenta pessoas foram 
presas, sendo que 50 delas executadas de imediato, e a cidade de onde partiu a rebelião foi inteiramente queimada.” 

“Província de Voronezh, 11 de junho de 1919, 16h15min. Por telégrafo. A situação melhora. A revolta do 
distrito de Novokhopersk está praticamente liquidada. Nosso avião bombardeou e queimou inteiramente o burgo de 
Tretiaki, um dos principais ninhos de bandidos. As operações de limpeza prosseguem.” 

“Província de Yaroslav, 23 de junho de 1919. A revolta dos desertores na volost Petropavlovskaia foi 
liquidada. As famílias dos desertores foram tomadas como reféns. Quando começamos a fuzilar um homem em cada 
família de desertores, os Verdes começaram a sair do bosque e a se renderem. Para dar o exemplo, 34 desertores foram 
fuzilados.”? 

Milhares de relatórios semelhantes26 mostram a extraordinária violência dessa guerra de pacificação aplicada 
pelas autoridades contra a guerrilha camponesa, alimentada pela deserção, mas qualificada, na maior parte das vezes, 
de “revolta de kulaks” ou de “insurreição de bandidos”. Os três extratos citados acima revelam os métodos de repressão 
utilizados com mais frequência: prisão e execução dos reféns das famílias dos desertores ou dos “bandidos”, cidades no 
campo bombardeadas e queimadas. A repressão cega e desproporcional repousava no princípio da responsabilidade 
coletiva da comunidade camponesa como um todo. Geralmente, as autoridades davam aos desertores um prazo para 
que eles se rendessem. Passado esse prazo, o desertor era considerado como um “bandido da floresta”, passível de 
execução imediata. Aliás, os textos das autoridades civis e militares deixavam explícito que “se os habitantes de uma 
cidade camponesa ajudassem de algum modo os bandidos a se esconderem nas florestas vizinhas, essa cidade seria 
inteiramente queimada”. 

Alguns relatórios finais da Tcheka dão indicações numéricas sobre a extensão dessa guerra de pacificação 
camponesa. Assim, no período de 15 de outubro a 30 de novembro de 1918, em apenas 12 regiões da Rússia, 
estouraram 44 revoltas (bunty), durante as quais 2.320 pessoas foram presas, 620 mortas durante os combates e 982 
fuziladas. Nessas rebeliões, 480 funcionários soviéticos foram mortos, assim como 112 homens dos destacamentos de 
abastecimento, do Exército Vermelho e da Tcheka. No mês de setembro de 1919, nas dez províncias russas sobre as 


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quais dispomos de informações sintéticas, contam-se 48.735 desertores e 7.325 “bandidos” presos, 1.826 mortos em 
combate e 2.230 fuzilados, com 430 vítimas do lado dos funcionários e militares soviéticos. Esses números estão 
bastante incompletos e não levam em conta as perdas, ainda maiores, sofridas durante as grandes insurreições 
camponesas. 

Essas insurreições tiveram vários ápices: março-agosto de 1919, principalmente nas províncias do Médio 
Volga e na Ucrânia; fevereiro-agosto de 1920, nas províncias de Samara, Ufa, Kazan, Tambov e, novamente, na 
Ucrânia, retomada dos Brancos pelos bolcheviques, mas ainda controlada, no interior do país, pela guerrilha 
camponesa. A partir do fim de 1920 e durante todo o primeiro semestre de 1921, o movimento camponês, malogrado 
na Ucrânia e nas regiões do Don e do Kuban, culminou na Rússia com um enorme levante centrado nas províncias de 
Tambov, Penza, Samara, Saratov, Sim-birsk e Tsaritsyne.? O calor dessa guerra camponesa apagou-se apenas com a 
chegada de uma das mais terríveis fomes que o século XX jamais conheceu. 

Foi nas ricas províncias de Samara e de Simbirsk - que tiveram de suportar sozinhas cerca de um quinto de 
todas requisições de cereais feitas na Rússia em 1919 - que pela primeira vez, desde o estabelecimento do regime 
bolchevique, as revoltas camponesas circunscritas se transformaram, em março de 1919, numa verdadeira insurreição. 
Dezenas de burgos foram tomados por um exército rebelde camponês que contava com quase 30 mil homens armados. 
Durante cerca de um mês, o poder perdeu o controle da província de Samara. Essa rebelião favoreceu o avanço das 
unidades do Exército Branco comandadas pelo almirante Koltchak em direção ao Volga, obrigando os bolcheviques a 
enviarem várias dezenas de milhares de homens para conseguirem vencer esse exército camponês muito bem 
organizado, que propunha um projeto político coerente, reclamando a supressão das requisições, a liberdade do 
comércio, eleições livres nos sovietes e o fim da “comissariocracia bolchevique”. No começo de abril de 1919, fazendo 
o balanço do término das insurreições camponesas na província, o chefe da Tcheka de Samara dava conta de, entre os 
rebeldes, 4.240 mortos em combate, 625 fuzilados e 6.210 desertores e “bandidos” presos... 

Mal ocorria o cessar-fogo na província de Samara e os conflitos já recomeçavam com um alcance 
impressionante na maior parte da Ucrânia. Depois da partida dos alemães e dos austro-húngaros no fim de 1918, o 
governo bolchevique havia decidido reconquistar a Ucrânia. Sendo a mais rica região agrícola do ex-Império Czarista, 
ela devia “alimentar o proletariado de Moscou e de Petro-grado”. Nessa região, mais do que em qualquer outro lugar, 
as cotas de requisição eram extremamente elevadas. Cumpri-las significava condenar à fome centenas de milhares de 
pequenas cidades que já haviam sido extorquidas durante todo o ano de 1918 pelos exércitos de ocupação alemães e 
austro-húngaros. Além disso, ao contrário da política que eles foram obrigados a aceitar na Rússia no fim de 1917 - a 
partilha das terras entre as comunidades camponesas -, os bolcheviques russos desejavam estatizar todas as grandes 
propriedades rurais na Ucrânia, as mais modernas do ex-império. Essa política, que visava transformar todos os grandes 
domínios cerealístas e açucareiros em grandes propriedades coletivas, onde os camponeses passariam a ser operários 
agrícolas, só podia ter suscitado um enorme descontentamento em toda a população do campo. Eles se haviam 
aguerrido na luta contra as forças de ocupação alemãs e austro-hún-garas. No início de 1919, existiam na Ucrânia 
verdadeiros exércitos camponeses com dezenas de milhares de homens, comandados pelos chefes militares e políticos 
ucranianos, tais como Simon Petliura, Nestor Makhno, Hryhoryiv, ou ainda Zeleny. Esses exércitos camponeses 
estavam firmemente decididos a fazer com que sua concepção de revolução agrária triunfasse: terra para os 
camponeses, liberdade de comércio e sovictes eleitos com liberdade, “sem moscovitas nem judeus”. Para a maioria dos 
camponeses ucranianos, marcados por uma longa tradição de antagonismo entre o campo - onde a população 
majoritária era a ucraniana - e cidades - onde a população majoritária era composta por russos e judeus -, era simples e 
tentador realizar esse amálgama: moscovitas = bolcheviques = judeus. Todos deveriam ser expulsos da Ucrânia. 

Essas particularidades próprias à Ucrânia explicam a brutalidade e a duração dos conflitos entre os 
bolcheviques e uma grande parte da população camponesa ucraniana. A presença de um outro ator, os Brancos, 
combatidos ao mesmo tempo pelos bolcheviques e pelos diversos exércitos camponeses ucranianos que não queriam o 
retorno dos grandes proprietários, tornava ainda mais complexo o imbróglio político e militar nessa região onde 
algumas cidades, como Kiev, chegaram a mudar 14 vezes de dominador em dois anos! 

As primeiras revoltas contra os bolcheviques e seus odiados destacamentos de requisição explodiram a partir 
de abril de 1919. Durante esse único mês, ocorreram 93 revoltas camponesas nas províncias de Kiev, Tchernigov, 
Poltava e Odessa. Nos primeiros 20 dias de julho de 1919, os dados oficiais da Tcheka dão conta de 210 revoltas, 
implicando cerca de cem mil combatentes armados e várias centenas de milhares de camponeses. Em abril-maio de 
1919, os exércitos camponeses de Hryhoryiv - cerca de 20 mil homens armados, entre os quais várias unidades 
amotinadas do Exército Vermelho, com 50 canhões e 700 metralhadoras - tomaram toda uma série de cidades no sul da 
Ucrânia, entre as quais Tcherkassy, Kherson, Nikolaiev e Odessa, estabelecendo nelas um poder autónomo cujas 
palavras de ordem não deixavam margem a equívocos: “Todo o poder aos sovietes do povo ucraniano!”, “A Ucrânia 
aos ucranianos, sem bolcheviques nem judeus!”, “Reforma Agrária” e “Liberdade para as empresas e o comércio”. Os 
partidários de Zeleny, ou seja, cerca de 20 mil homens armados, mantinham o domínio da província de Kiev, exceto 


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nas cidades principais. Utilizando-se da palavra de ordem “Viva o poder soviético, abaixo os bolcheviques e os 
judeus!”, eles organizaram dezenas de pogroms sangrentos contra a comunidade judia dos burgos e pequenas cidades 
das províncias de Kiev e Tchernigov. Bastante conhecida atualmente graças aos numerosos estudos que lhe foram 
dedicados, a ação de Nestor Makhno à frente de um exército camponês de dezenas de homens apresentava um 
programa ao mesmo tempo nacional, social e anarquizante, elaborado durante verdadeiros congressos, tais como o 
“Congresso dos Delegados Camponeses, Rebeldes e Operários de Guliai-Pole”, que teve lugar em abril de 1919, em 
meio aos eventos da rebelião makhonovista. Como tantos outros movimentos camponeses menos estruturados, os 
makhnovistas exprimiam antes de tudo a recusa a toda ingerência do Estado nos negócios camponeses e o desejo de um 
self-government camponês - um tipo de autogestão - fundado em sovietes livremente eleitos. A essas reivindicações de 
base se juntava um pequeno numero de exigências comuns a todos os movimentos camponeses: o término das 
requisições, a supressão das taxas e impostos, a liberdade para todos os partidos socialistas e grupos anarquistas, a 
reforma agrária, a supressão da “comissariocracia bolchevique”, das tropas especiais e da Tcheka. 

Na primavera e no verão de 1919, as centenas de insurreições camponesas na retaguarda do Exército 
Vermelho tiveram um papel determinante na vitória sem futuro das tropas brancas do general Denikin. Partindo do sul 
da Ucrânia em 19 de maio de 1919, o Exército Branco avançou com muita rapidez diante das unidades do Exército 
Vermelho engajadas nas operações de repressão às rebeliões camponesas. As tropas de Denikin tomaram Kharkov em 
12 de junho, Kiev em 28 de agosto e Voronezh em 30 de setembro. A retirada dos bolcheviques, que só conseguiam 
restabelecer o poder nas maiores cidades, deixando o campo entregue aos camponeses rebelados, foi acompanhada de 
execuções em massa de prisioneiros e reféns, sobre as quais retornaremos mais adiante. Em sua retirada precipitada 
através do interior do país dominado pela guerrilha camponesa, os destacamentos do Exército Vermelho e da Tcheka 
não foram nem um pouco indulgentes: centenas de cidades queimadas, execuções em massa de “bandidos”, de 
desertores e de “reféns”. O abandono e a posterior reconquista da Ucrânia foram a ocasião de um extraordinário 
despejar de violência sobre as populações civis, o que foi muito bem demonstrado na obra-prima de Isaak Babel, 
Cavalaria Vermelha. 

No princípio de 1920, os exércitos brancos comandados pelo sucessor de Denikin, o Barão de Wrangel, já 
estavam desfeitos, com a exceção de umas poucas unidades dispersas que haviam encontrado refúgio na Criméia. 
Ficaram face a face as forças bolcheviques e as camponesas. Até 1922, uma repressão impiedosa se abateria sobre as 
regiões do campo em luta contra o poder. Em fevereiro-março de 1920, explodia uma nova revolta, conhecida pelo 
nome de “insurreição dos forcados”, numa grande extensão territorial que ia do Volga ao Ural, incluindo as províncias 
de Kazan, Simbirsk e Ufa. Povoadas por russos, além de Tatarsk e Bashkir, essas regiões foram submetidas a 
requisições particularmente pesadas. Em poucas semanas, a rebelião alcançou uma dezena de distritos. O exército 
camponês rebelde dos “Águias Negras” chegou a ter, em seu apogeu, cerca de 50 mil combatentes. Armadas com 
canhões e metralhadoras, as Tropas de Defesa Interna da República dizimaram os rebeldes armados com forcados e 
lanças. Em poucos dias, milhares de rebeldes foram massacrados, e centenas de povoados queimados. 

Após a rápida aniquilação da “insurreição dos forcados”, o clamor das revoltas camponesas propagou-se 
novamente nas províncias do Médio Volga, elas também bastante depredadas pelas requisições: em Tambov, Penza, 
Samara, Saratov e Tsaritsyne. Se os planos das requisições de 1920-1921 fossem seguidos - como admitiu Antonov- 
Ovseenko, o dirigente bolchevique que organizou a repressão aos camponeses rebeldes de Tambov - os camponeses 
seriam inexoravelmente condenados à morte: em média, eles receberiam umpud(l6 quilos) de grãos e 1,5 pud(24 
quilos) de batatas por pessoa durante um ano, ou seja, uma porção de dez a 12 vezes menor do que o mínimo vital! 
Assim, foi uma luta pela sobrevivência que os camponeses dessas províncias engajaram a partir do verão de 1920. Essa 
luta durou dois anos inteiros, até que a fome venceu a resistência desses camponeses rebelados. 

O terceiro grande pólo de conflito entre os bolcheviques e os camponeses em 1920 ainda era a Ucrânia, 
retomada em dezembro de 1919-fevereiro de 1920 do domínio dos exércitos brancos, mas cujo interior permanecia 
controlado por centenas de destacamentos verdes independentes ou por unidades mais ou menos ligadas ao comando de 
Makh.no. Ao contrário dos Águias Negras, os destacamentos ucranianos, compostos principalmente por desertores, 
estavam bem armados. Durante o verão de 1920, o exército de Makhno contava ainda com cerca de 15 mil homens, 
2.500 cavaleiros, uma centena de metralhadoras, duas dezenas de canhões de artilharia e dois veículos blindados. 
Centenas de “bandos” menores, com grupos que iam de poucas dezenas até algumas centenas de combatentes, também 
opunham uma resistência feroz à penetração bolchevique. Para lutar contra essa guerrilha camponesa, o governo 
nomeou, no início de maio de 1920, o chefe da Tcheka, Feliks Dzerjinski, “comandante chefe da retaguarda sudoeste”. 
Dzerjinski permaneceu mais de dois meses em Kharkov, organizando 24 unidades especiais das forcas de segurança 
interna da República, unidades de elite, dotadas de uma cavalaria encarregada de perseguir os “rebeldes”, além de 
aviões destinados a bombardear os “ninhos de bandidos”. A tarefa que lhes foi dada era a de erradicar, em apenas três 
meses, a guerrilha camponesa. Na realidade, as operações de “pacificação” se prolongaram por mais de dois anos, do 
verão de 1920 ao outono de 1922, ao custo de dezenas de milhares vítimas. 


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Entre os diversos episódios de luta praticada pelo poder bolchevigque contra os camponeses, a 
“descossaquização” - ou seja, a eliminação de todo o grupo social dos cossacos do Don e do Kuban - ocupa uma 
posição particular. Com efeito, pela primeira vez o novo regime tomou um certo número de medidas repressivas para 
eliminar, exterminar, deportar, segundo o princípio da responsabilidade coletiva, a totalidade da população de um 
território que os dirigentes bolcheviques tinham se habituado a chamar de “Vendéia Sovié-tica”. Essas operações não 
foram o resultado de medidas de retaliação militar tomadas no calor dos combates, mas foram planejadas 
antecipadamente, sendo objeto de vários decretos elaborados nos mais altos níveis do Estado, onde estavam implicados 
diretamente inúmeros responsáveis políticos de alto escalão (Lenin, Ordjonikidze, Syrtsov, Sokolnikov, Reingold). 
Fracassada uma primeira vez, na primavera de 1919, por causa dos reveses militares dos bolcheviques, a 
descossaquização foi retomada, em 1920, durante a reconquista bolchevique das terras cossacas do Don e do Kuban. 

Os cossacos - privados desde dezembro de 1917 do estatuto do qual eles se beneficiavam desde no Antigo 
Regime, catalogados pelos bolcheviques como “kulaks” e “inimigos da classe” - haviam se juntado, sob a bandeira do 
ataman Krasnov, às forcas brancas que se haviam constituído no sul da Rússia na primavera de 1918. Foi somente em 
fevereiro de 1919, durante a progressão geral dos bolcheviques em direção à Ucrânia e o sul da Rússia, que os 
primeiros destacamentos do Exército Vermelho penetraram nos territórios cossacos do Don. Em princípio, os 
bolcheviques tomaram um certo número de medidas que aniquilavam tudo o que era especificamente cossaco: as terras 
que lhes pertenciam foram confiscadas e distribuídas entre colonos russos ou a camponeses locais que não tinham o 
estatuto de cossacos; os cossacos foram obrigados, sob ameaça de pena de morte, a entregarem as suas armas - ora, de 
acordo com o seu estatuto tradicional de guardiães dos confins do Império Russo, todos os cossacos deveriam se armar; 
as assembléias e circunscrições administrativas cossacas foram dissolvidas. 

Todas essas medidas faziam parte de um plano preestabelecido de des-cossaquização, assim definido em uma 
resolução secreta do Comitê Central do Partido Bolchevique, datada de 24 de janeiro de 1919: “Em vista da experiência 
da guerra civil contra os cossacos, é necessário reconhecer como única medida politicamente correta uma luta sem 
perdão, um terror em massa contra os ricos cossacos, que deverão ser exterminados e fisicamente liquidados até a 
última pessoa.” 

Na realidade, como reconheceu Reingold - presidente do Comitê Revolucionário do Don e encarregado de 
impor “a ordem bolchevique” nas terras cossacas - em junho de 1919, “nós temos a tendência a aplicar uma política de 
extermínio em massa dos cossacos, sem a menor distinção”. Em poucas semanas, de meados de fevereiro a meados de 
março de 1919, os destacamentos bolcheviques já haviam executado mais de oito mil cossacos. Em cada stanitsa 
(burgo cossaco), os tribunais revolucionários procediam, em poucos minutos, a julgamentos sumários de listas de 
suspeitos, nos quais todos eram invariavelmente condenados à pena capital por “comportamento contra- 
revolucionário”. Diante dessa torrente repressiva, os cossacos não tiveram outra alternativa a não ser se rebelarem. 

O levante partiu do distrito de Veshenskaia em 11 de março de 1919. Bem organizados, os cossacos revoltosos 
decretaram a mobilização geral de todos os homens de 16 a 50 anos de idade; eles enviaram a todas as regiões do Don, 
chegando à província limítrofe de Voronezh, vários telegramas convocando a população a se insurgir contra os 
bolcheviques. “Nós, cossacos, eles explicavam, não somos contra os sovietes. Somos favoráveis à realização de 
eleições livres. Somos contra os comunistas, as comunas [cultivo coletivo da terra] e os judeus. Somos contra as 
requisições, os roubos e as execuções perpetradas pelas Tchekas.” No início do mês de abril, os cossacos rebelados 
representavam uma força armada considerável de cerca de 30 mil homens bem-armados e aguerridos. Operando nas 
retaguardas do Exército Vermelho que combatia mais ao sul as tropas de Denikin aliadas aos cossacos de Kuban, os 
rebeldes do Don contribuíram, como todos os camponeses revoltados, para a fulminante progressão dos exércitos 
brancos em maio-junho de 1919. No início do mês de junho, os cossacos do Don se juntaram ao grosso dos exércitos 
brancos, apoiados pelos cossacos do Kuban. Toda a “Vendéia Cossaca” estava livre do maldito poder dos “moscovitas, 
judeus e bolcheviques”. 

Entretanto, com a virada da sorte militar, os bolcheviques retornaram em fevereiro de 1920. Começava uma 
segunda ocupação militar das terras cossacas, bem mais assassina do que a primeira. A região do Don foi submetida a 
uma contribuição de 36 milhões de puas de cereais, uma quantidade que ultrapassava largamente o total da produção 
local; a população rural foi sistematicamente espoliada, não somente de suas magras reservas alimentares, mas também 
da totalidade de seus bens, “sapatos, roupas, travesseiros e samo-var incluídos”, explicitava um dos relatórios da 
Tcheka. Todos os homens em condições de combate responderam a essa pilhagem e a essa repressão sistemática 
juntando-se aos bandos de partidários verdes. Em julho de 1920, estes últimos contavam, pelo menos, 35 mil homens 
no Kuban e no Don. Bloqueado na Criméia desde fevereiro, o general Wrangel decidiu, numa última tentativa para se 
ver livre do aperto bolchevique, atuar em conjunto com os cossacos e os Verdes do Kuban. Em 17 de agosto de 1920, 
cinco mil homens desembarcaram perto de Novorossisk. Sob a pressão conjugada dos Brancos, dos Cossacos e dos 
Verdes, os bolcheviques tiveram de abandonar Ekaterinodar, a principal cidade do Kuban, e depois toda a região. Por 
sua vez, o general Wrangel avançava na Ucrânia do Sul. O sucesso dos Brancos foi, entretanto, de curta duração. 


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Suplantadas pelas forças bolcheviques, bastante superiores em número de homens, as tropas de Wrangel, cada vez mais 
lentas e pesadas com o imenso afluxo de civis, retrocederam, na mais indescritível desordem, em direção à Criméia no 
fim do mês de outubro. A retomada da Criméia pelos bolcheviques, último episódio do conflito entre Brancos e 
Vermelhos, deu lugar às maiores chacinas da guerra civil: pelo menos 50 mil civis foram massacrados pelos 
bolcheviques em novembro e em dezembro de 1920. 

Encontrando-se, mais uma vez, do lado dos vencidos, os cossacos foram submetidos a um novo Terror 
Vermelho. Um dos principais dirigentes da Tcheka, o letão Karl Lander, foi nomeado “plenipotenciário do Cáucaso 
Norte e do Don”. Ele pôs em prática as troiki, tribunais especiais encarregados da descossaquização. Durante apenas o 
mês de outubro de 1920, essas troiki condenaram à morte mais de seis mil pessoas, imediatamente executadas. As 
famílias - e, muitas vezes, mesmo os vizinhos dos partidários verdes ou dos cossacos que tinham ido à luta armada 
contra o regime e que ainda não tinham sido alcançados - foram sistematicamente presas corno reféns e encarceradas 
em campos de concentração, verdadeiros campos de morte, como reconheceu Martyn Latsis, o chefe da Tcheka da 
Ucrânia em um de seus relatórios: “Reunidos num campo perto de Maikop, os reféns - mulheres, crianças e idosos - 
sobrevivem em condições assustadoras, na lama e no frio de outubro. [...] Eles morrem como moscas. [...] As mulheres 
estão prontas a tudo para escapar da morte. Os soldados que guardam o campo se aproveitam para fazer comércio de 
mulheres.” 

Toda resistência era impiedosamente punida. Quando o chefe da Tcheka de Piatigorsk caiu numa emboscada, 
os tchekistas decidiram organizar o “Dia do Terror Vermelho”. Indo além das instruções do próprio Lander - que 
desejava que “esse ato terrorista fosse aproveitado para fazer mais preciosos reféns para poder executá-los, e para 
acelerar os procedimentos de execução dos espiões brancos e contra-revolucionários em geral” -, os tchekistas de 
Piatigorsk se lançaram numa torrente de prisões e de execuções. Segundo Lander, “a questão do Terror Vermelho foi 
resolvida de maneira simplista. Os tchekistas de Piatigorsk decidiram executar 300 pessoas em um”, ó dia. Eles 
definiram as cotas por cada município de Piatigorsk e por cada burgo das redondezas e ordenaram às organizações do 
Partido que fossem feitas listas de execução. [...] Esse método insatisfatório acarretou um grande número de acertos de 
contas. [...] Em Kislovodsk, na falta de outro critério, foi decidido que seriam executadas as pessoas que se 
encontrassem no hospital”. 

Um dos métodos mais rápidos de descossaquização era a destruição dos burgos cossacos e a deportação de 
todos os sobreviventes. Os arquivos de Sergo Ordjonikidze, um dos principais dirigentes bolcheviques, na época 
presidente do Comitê Revolucionário do Cáucaso Norte, conservaram os documentos de uma dessas operações que 
ocorreram entre fins de outubro e meados de novembro de 1920. 

Dia 23 de outubro, Sergo Ordjonikidze ordenou: 

“1. queimar inteiramente o burgo de Kalinovskaia; 

2. esvaziar de todos os seus habitantes o burgo de Ermolovskaia, Romanovskaia, Samachinskaia e 
Mikhailovskaia; as casas e as terras pertencentes aos habitantes serão distribuídas entre os camponeses pobres, em 
particular os chechenos, que sempre demonstraram sua profunda ligação com o poder soviético; 

3. embarcar em vagões de trem toda a população masculina, de 18 a 50 anos, dos burgos supramencionados e 
deportá-los sob escolta, em direção ao norte, onde eles farão trabalhos forcados de natureza pesada; 

4. expulsar mulheres, crianças e idosos, deixando-lhes, porém, a autorização para que se reinstalem em outros 
burgos mais ao norte; 

5. apreender todo o gado e todos os bens dos habitantes dos burgos supramencionados.” 

Três semanas mais tarde, um relatório endereçado a Ordjonikidze assim descrevia o desenrolar das operações: 

“ Kalinovskaia: burgo inteiramente queimado, toda a população (4.220) deportada e expulsa. 

- Ermolovskaia: limpa de todos os seus habitantes (3.218). 

- Romanovskaia: 1.600 deportados; restam 1.661 a serem deportados. 

- Samachinskaia: 1.018 deportados; restam 1.900 a serem deportados. 

- Mikhailovskaia: 600 deportados; restam 2.200 a serem deportados. Aliás, 154 vagões de produtos 
alimentares foram enviados a Groznyi. 

Nos três burgos em que a deportação ainda não foi concluída, foram deportadas em primeiro lugar as famílias 
dos elementos brancos-verdes, assim como os elementos que participaram da última insurreição. Entre os que ainda não 
foram deportados, figuram os simpatizantes do regime soviético, famílias de soldados do Exército Vermelho, 
funcionários e comunistas. O atraso nas operações de deportação explica-se pela falta de vagões. Em média, recebemos 
apenas um vagão por dia para dar conta das operações. Para concluir as operações de deportação, nos são necessários 
306 vagões suplementares com urgência.” Como terminaram essas “operações”? Infelizmente, nenhum documento 
preciso esclarece esse ponto. Sabe-se que as “operações” foram muito arrastadas e que, no final das contas, os homens 
deportados foram enviados não em direção ao Grande Norte, como seria feito em seguida, mas, na maior parte das 
vezes, para as minas de Donetz, mais próximas. Considerado o estado dos trens ferroviários nesse fim de 1920, tinha-se 


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muita dificuldade em prosseguir com a intendência... Entretanto, as “operações” de descossaquização de 1920 
prefiguravam, em vários aspectos, as grandes “operações” de deskula-kização que foram lançadas dez anos mais tarde: 
a mesma concepção de responsabilidade coletiva, o mesmo processo de deportação em vagões de trem, os mesmos 
problemas de intendência e de locais de abrigo não preparados para receber os deportados, a mesma idéia de explorar 
os deportados, submetendo-os a trabalhos forçados. As regiões cossacas do Don e do Kuban pagaram um pesado 
tributo por terem feito oposição aos bolcheviques. Segundo as estimativas mais superficiais, para uma população total 
que não ultrapassava os três milhões de pessoas, entre 300 e 500 mil pessoas foram mortas ou deportadas em 1919- 
1920. 

Entre as operações repressivas mais difíceis de serem classificadas e avaliadas figuram os massacres de presos 
e de reféns encarcerados unicamente por pertencerem a uma “classe inimiga” ou “socialmente estranha”. Esses 
massacres se inscreviam na continuidade da lógica do Terror Vermelho da segunda metade de 1918, mas em uma 
escala ainda mais ampla. Essa torrente de massacres “de acordo com a classe” era permanentemente justificada pelo 
fato de que um mundo novo estava nascendo. Tudo era permitido, como explicava a seus leitores o editorial do 
primeiro número do Krasnyi Metch (O Gládio Vermelho), jornal da Tcheka de Kiev: 

“Nós rejeitamos os velhos sistemas de moralidade e de humanidade' inventados pela burguesia com o objetivo 
de oprimir e explorar as 'classes inferiores". Nossa moralidade não tem precedentes, nossa humanidade é absoluta pois 
ela repousa sobre um novo ideal: destruir toda forma de opressão e de violência. Para nós, tudo é permitido pois somos 
os primeiros no mundo a erguermos a espada não para oprimir, mas para libertar a humanidade de suas correntes... 
Sangue? Que o sangue jorre aos montes! Somente o sangue pode colorir para sempre a bandeira negra da burguesia 
pirata como um estandarte vermelho, bandeira da Revolução. Somente a morte final do velho mundo pode nos libertar 
para sempre do retorno dos chacais!” 

Essa instigação ao assassinato atiçava o velho fundo de violência e o desejo de vingança social presente em 
muitos dos tchekistas, recrutados na maior parte das vezes entre os “elementos criminosos e socialmente degenerados 
da sociedade”, como reconheciam os próprios dirigentes bolcheviques. Em uma carta endereçada a Lenin em 22 de 
março de 1919, o dirigente bolchevique Gopner assim descrevia as atividades da Tcheka de Ekaterinoslav: “Nessa 
organização gangrenada pela criminalidade, violência e arbitrariedade, dominada pelos canalhas e criminosos comuns, 
homens armados até os dentes executavam toda pessoa que não lhes agradasse, devassando, pilhando, violando, 
aprisionando, passando dinheiro falso, exigindo suborno, chantageando os que haviam sido extorquidos e subornados e 
depois liberando-os em troca de somas dez ou vinte vezes superiores.” 

Os arquivos do Comitê Central, assim como os de Feliks Dzerjinski, contêm inúmeros relatórios de 
responsáveis do Partido ou inspetores da polícia política descrevendo a “degenerescência” das tchekas locais, “ébrias 
de violência e de sangue”. O desaparecimento de toda norma jurídica ou moral favorecia com freqiiência a autonomia 
dos responsáveis locais da Tcheka, que não respondiam mais por seus atos nem mesmo diante de sua hierarquia e se 
transformavam em tirânicos sanguinários, descontrolados e incontroláveis. Três extratos de relatório, entre dezenas de 
outros com o mesmo teor, ilustram essa deriva da Tcheka em um ambiente de total arbitrariedade, de absoluta ausência 
de direito. 

De Sysran, na província de Tambov, em 22 de março de 1919, eis o relatório de Smirnov, instrutor da Tcheka, 
a Dzerjinski: “Verifiquei o caso do levante kulak na volost Novo-Matrionskaia. A instrução foi aplicada de maneira 
caótica. Setenta e cinco pessoas foram interrogadas sob tortura, mas é impossível ler o que quer que seja das confissões 
transcritas. [...] Cinco pessoas foram fuziladas dia 16 de fevereiro, e 13 no dia seguinte. Os autos das condenações e das 
execuções datam do dia 28 de fevereiro. Quando pedi ao responsável local que se explicasse, ele me respondeu: 'Não 
temos nunca o tempo de escrever os autos. De todo modo, para que serviriam, já que estamos exterminando kulaks e 
burgueses enquanto uma classe?“ 

De Yaroslav, eis o relatório de 26 de setembro de 1919 do secretário de organização regional do Partido 
Bolchevique: “Os tchekistas estão pilhando e prendendo a esmo. Sabendo que eles não serão punidos, eles 
transformaram a sede da Tcheka num imenso bordel para onde eles levam as burguesas". A bebedeira é geral. A 
cocaína está sendo utilizada correntemente pelos pequenos chefes.” 

De Astrakhan, de 16 de outubro de 1919, eis o relatório de missão de N. Rosental, inspetor de direção dos 
departamentos especiais: “Atarbekov, chefe dos departamentos especiais do XI Exército, não reconhece mais nem 
mesmo o poder central. Em 30 de julho último, quando o camarada Zakovski, enviado por Moscou para controlar o 
trabalho dos departamentos especiais, foi ter com Atarbekov, este último lhe disse: Diga a Dzerjinski que eu não me 
deixarei mais controlar... Nenhuma norma administrativa é respeitada pelo pessoal composto em sua maioria por 
elementos duvidosos e, muitas vezes, criminosos. Os dossiês do departamento operacional são praticamente 
inexistentes. A respeito das condenações à morte e da execução das sentenças, não encontrei protocolos individuais de 
julgamento e de condenação, apenas listas, às vezes incompletas, com uma única menção: 'Fuzilado sob as ordens do 
camarada Atarbekov'. Quanto aos eventos do mês de maio, é impossível ter uma idéia de quem foi fuzilado e o porquê. 


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[...] As bebedeiras e as orgias são cotidianas. Quase todos os tchekistas fazem uso frequente de cocaína. Isso lhes 
permite, segundo dizem, suportar melhor a visão cotidiana do sangue. Ébrios de violência e de sangue, os tchekistas 
cumprem com o seu dever, mas são, indubitavelmente, elementos descontrolados e que devem ser vigiados bem de 
perto.” 

Os relatórios da Tcheka e do Partido Bolchevique confirmam hoje os vários testemunhos recolhidos, a partir 
dos anos 1919-1920, pelos adversários dos bolcheviques, principalmente pela Comissão Especial de Investigação dos 
Crimes Bolcheviques, instaurada pelo general Denikin e cujos arquivos, transferidos de Praga a Moscou em 1945, estão 
agora disponíveis, depois de ficarem fechados durante muito tempo. O historiador social-revolucionário russo Serguei 
Melgunov tentou classificar, a partir de 1926, em sua obra O Terror Vermelho na Rússia, os principais massacres de 
detentos, reféns e civis comuns executados em massa pelos bolcheviques, quase sempre “por pertencerem a uma 
determinada classe”. Ainda que incompleta, a lista dos principais episódios ligados a esse tipo de repressão, tal como 
ela é mencionada nessa obra pioneira, está plenamente confirmada pela totalidade concordante de fontes documentais 
bastante diversas, emanadas dos dois campos conflitantes. Permanece, entretanto, a incerteza quanto ao número de 
vítimas executadas durante os principais episódios repressivos atualmente identificados com precisão, haja vista o caos 
organizacional que reinava na Tcheka naquela época. Pode-se, no máximo, recorrendo-se a fontes diversas, arriscar a 
afirmação de algumas ordens de grandeza. 

Os primeiros massacres de “suspeitos”, reféns e “outros inimigos do povo” - encarcerados preventivamente, e 
com uma simples medida administrativa, nos campos de concentração e nas prisões - haviam começado em setembro 
de 1918, durante o primeiro Terror Vermelho. Estabelecidas as categorias de “suspeitos”, “reféns” e “inimigos do 
povo” e, rapidamente, tornados operacionais os campos de concentração, a máquina repressiva estava pronta para 
funcionar. O elemento desencadeador dessa guerra de frontes móveis, e para a qual cada mês trazia seu lote de ganhos 
da fortuna militar, era, naturalmente, a tomada de uma cidade até então ocupada pelo adversário, ou, ao contrário, seu 
abandono precipitado. 

A imposição da “ditadura do proletariado” nas cidades conquistadas ou retomadas passava pelas mesmas 
etapas: dissolução de todas as assembléias eleitas anteriormente; interdição de todo o comércio - medida que acarretava 
de imediato a elevação dos preços de todas as mercadorias, seguida de seu desaparecimento; confisco de empresas, 
estatizando-as ou municipalizando-as; imposição à burguesia de uma contribuição financeira muito elevada - em 
Kharkov, 600 milhões de rublos em fevereiro de 1919; em Odessa, 500 milhões em abril de 1919. Para garantir a boa 
execução dessa contribuição, centenas de “burgueses” eram feitos reféns e encarcerados em campos de concentração. 
Na realidade, essa contribuição era um sinónimo de pilhagens, de expropriações e de humilhações, primeira etapa da 
aniquilação da “burguesia enquanto classe”. 

“De acordo com as resoluções do soviete de trabalhadores, esse 13 de maio foi decretado como um dia de 
expropriação da burguesia, lia-se nos Izvestia do Conselho de Deputados Operários de Odessa de 13 de maio de 1919. 
As classes abastadas deverão preencher um questionário detalhado, relacionando os produtos alimentares, os calçados, 
as roupas, as jóias, as bicicletas, os cobertores, os lençóis, a prataria, as louças e outros objetos indispensáveis ao povo 
trabalhador. [...] Todos devem auxiliar as comissões de expropriação nessa tarefa sagrada. [...] Os que não obedecerem 
às ordens das comissões de expropriação serão imediatamente detidos. Os que resistirem serão fuzilados no ato.” 

Como reconhecia Latsis, o chefe da Tcheka ucraniana, em sua circular endereçada às Tchekas locais, todas 
essas “expropriações” iam para o bolso dos tchekistas e de outros pequenos chefes dos vários destacamentos de 
requisição, de expropriação e das Guardas Vermelhas que pululavam nessa ocasião. 

A segunda etapa das expropriações era o confisco dos apartamentos dos burgueses. Nessa “guerra de classes”, 
a humilhação dos vencidos também tinha um papel importante: “O peixe gosta de ser temperado com creme. A 
burguesia gosta da autoridade que sevícia e mata, lia-se no já citado jornal de Odessa, datado de 26 de abril de 1919. Se 
executamos alguns desses emprestáveis e idiotas, se os rebaixamos a varredores de ruas, se forcamos suas mulheres a 
lavarem as casernas das Guardas Vermelhas (o que seria mais do que uma pequena honraria para elas), eles 
compreenderão então que o nosso poder é sólido, e que não há nada a se esperar dos ingleses ou dos hotentotes.” 

Tema recorrente de vários artigos de jornais bolcheviques em Odessa, Kiev, Kharkov, Ekaterinoslav, além de 
Perm, no Ural, ou Nijni-Novgorod, a humilhação das “burguesas” obrigadas a limpar as latrinas e as casernas dos 
tchekistas ou das Guardas Vermelhas parece ter sido uma prática corrente. Mas era também uma versão edulcorada e 
“politicamente apresentável” de uma realidade bem mais brutal: o estupro, fenómeno que, segundo vários testemunhos 
concordantes, alcançou proporções gigantescas, particularmente durante a segunda reconquista da Ucrânia, das regiões 
cossacas e da Criméia em 1920. 

Etapa lógica e final do “extermínio da burguesia enquanto classe”, as execuções de detentos, suspeitos e reféns 
encarcerados somente por pertencerem às “classes abastadas” são atestadas em muitas cidades tomadas pelos 
bolcheviques. Em Kharkov, entre 2.000 e 3.000 execuções em fevereiro-junho de 1919; entre 1.000 e 2.000 durante a 
segunda retomada da cidade, em dezembro de 1919. Em Rostov-sobre-o-Don, cerca de 1.000 em janeiro de 1920; em 


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Odessa, 2.200 entre maio e agosto de 1919, depois 1.500 a 3.000 entre fevereiro de 1920 e fevereiro de 1921; em Kiev, 
pelo menos 3.000 entre fevereiro e agosto de 1919; em Ekaterinodar, pelo menos 3.000 entre agosto de 1920 e 
fevereiro de 1921; em Armavir, pequena cidade do Kuban, entre 2.000 e 3.000 entre agosto e outubro de 1920. 
Poderíamos prolongar indefinidamente essa lista. 

Na realidade, ocorreram muitas outras execuções em outras regiões, mas essas não foram alvo de investigação 
feita logo após os massacres. É mais bem conhecido o que se passou na Ucrânia ou no sul da Rússia do que no 
Cáucaso, na Ásia Central ou no Ural. Com efeito, as execuções geralmente eram apressadas com a aproximação do 
adversário, no momento em que os bolcheviques abandonavam suas posições e “descarregavam” as prisões. Em 
Kharkov, durante os dois dias que precederam a chegada dos Brancos, 8 e 9 de junho de 1919, centenas de reféns foram 
executados. Em Kiev, mais de 1.800 pessoas foram fuziladas entre 22 e 28 de agosto de 1919, antes da retomada da 
cidade pelos Brancos em 30 de agosto. Mesma coisa em Ekaterinodar, onde, em face do avanço das tropas cossacas, 
Atarbekov, o chefe local da Tcheka, executou em três dias, de 17 a 19 de agosto de 1920, 1.600 “burgueses” nessa 
pequena cidade provinciana que possuía, antes da guerra, menos de 30.000 habitantes. 

Os documentos das comissões de investigação das unidades do Exército Branco, que chegaram no local alguns 
dias - ou quem sabe até algumas horas - após as execuções, contêm uma massa de depoimentos, testemunhos, relatórios 
de autópsia, de fotos dos massacres e carteiras de identidade das vítimas. Se os executados “de última hora”, 
eliminados com a pressa de uma bala na nuca, não apresentavam sinais de tortura, a situação dos cadáveres exumados 
nos “abatedouros” mais antigos era outra. O uso das mais terríveis torturas é atestado por relatórios de autópsia, por 
elementos materiais e por testemunhos. Descrições detalhadas dessas torturas figuram principalmente no livro já citado 
se Serguei Melgunov e também na Tcheka, a publicação do Escritório Central do Partido Socialista Revolucionário, 
editada em Berlim em 1922. 

Foi na Criméia, durante a evacuação das últimas unidades brancas de Wrangel e dos civis que rugiam do 
avanço dos bolcheviques, que os massacres atingiram seu apogeu. Em poucas semanas, de novembro ao fim de 
dezembro de 1920, cerca de 50 mil pessoas foram fuziladas ou enfbreadas. Um grande número de execuções ocorreu 
logo após o embarque das tropas de Wrangel. Em Sebastopol, várias centenas de estivadores foram fuzilados, em 26 de 
novembro, por terem ajudado na evacuação dos Brancos. Em 28 e 30 de novembro, os Izvestia do Comitê 
Revolucionário de Sebastopol publicaram duas listas de fuzilados. A primeira continha 1.634 nomes, a segunda, 1.202. 
No início de dezembro, quando a febre das primeiras execuções em massa decresceu, as autoridades começaram a 
produzir uma listagem, tão completa quanto possível, consideradas as circunstâncias, da população das principais 
cidades da Criméia onde, segundo se pensava, estavam escondidas dezenas, ou mesmo centenas de burgueses que, de 
toda a Rússia, fugiam em direção aos locais de vilegiatura tradicional. Em 6 de dezembro, Lenin declarou diante de 
uma assembleia de responsáveis em Moscou que 300 mil burgueses se encontravam na Criméia. Ele assegurou que, 
num futuro próximo, esses “elementos” que constituíam um “reservatório de espiões e de agentes prontos para 
emprestar o braço ao capitalismo” seriam “castigados” frequência 

Os cordões militares que fechavam o istmo de Perekop, único ponto de fuga terrestre, foram reforçados. Feita 
a armadilha, as autoridades ordenaram que todos os habitantes se apresentassem à Tcheka para o preenchimento de um 
longo questionário de investigação, comportando cerca de 50 questões sobre a sua origem social, seu passado, suas 
atividades, seus ganhos, mas também sobre a sua ocupação cotidiana em novembro de 1920, sobre o que eles pensavam 
da Polônia, de Wrangel, dos bolcheviques, etc. Com base nessas “investigações”, a população foi dividida em três 
categorias: a serem fuzilados; a serem enviados aos campos de concentração; a serem poupados. Os testemunhos dos 
raros sobreviventes, publicados nos jornais da emigração de 1921, descrevem Sebastopol, uma das cidades mais 
atingidas pela repressão, como uma “cidade de enforcados”. “O panorama de Nakhimovski estava coberto de corpos 
pendurados de oficiais enforcados, de soldados, de civis detidos nas ruas. [...] A cidade estava mona, a população se 
escondia nos sótãos e nos porões. Todas as paliçadas, os muros das casas, os postes telegráficos, as vitrines de lojas 
estavam cobertos de cartazes 'Morte aos traidores". [...] Enforcava-se nas ruas, como fator edificador.” 

O último episódio de confronto entre Brancos e Vermelhos não pôs fim à repressão. Os frontes militares da 
guerra civil não existiam mais, mas a guerra de “pacificação” e de “erradicação” se prolongaria ainda por cerca de dois 
anos. 


5. De Tambov à grande fome 


No fim de 1920, o regime bolchevique parecia vitorioso. O último exército branco fora vencido, os cossacos 
foram batidos, e os destacamentos de Makhno estavam sendo derrotados. Entretanto, se a guerra reconhecida, aquela 
que os Vermelhos empreendiam contra os Brancos, estava terminada, o confronto entre o regime e enormes segmentos 
da sociedade continuava de vento em popa. As guerras camponesas atingiram seu apogeu no início de 1921, quando 
províncias inteiras escapavam do controle do poder bolchevique. Na província de Tambov, numa parte das províncias 


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do Volga (Samara, Saratov, Tsaritsyne, Simbirsk) e na Sibéria Ocidental, os bolcheviques controlavam apenas as 
cidades de maior porte. O campo estava sob o controle de centenas de bandos de Verdes e, às vezes, de verdadeiros 
exércitos camponeses. Nas unidades do Exército Vermelho, novos motins estouravam a cada dia. Greves, rebeliões e 
protestos operários multiplicavam-se nos últimos centros industriais ainda em atividade no país, em Moscou, 
Petrogrado, Ivanovo-Voznessensk e Tuia. No fim do mês de abril de 1921, foi a vez dos marinheiros da base naval de 
Kronstadt, na costa de Petrogrado, se amotinarem. A situação tornava-se explosiva, e o país, ingovernável. Diante da 
ameaça de uma torrente de desordem social que poderia acabar com o regime, os dirigentes bolcheviques foram 
obrigados a retroceder e tomar a única medida capaz de momentaneamente acalmar o descontentamento mais 
frequente, mais geral e mais perigoso: o descontentamento camponês; eles prometeram acabar com as requisições, 
substituindo-as pelo imposto em espéciesfregiiência. É nesse contexto de confrontos entre o regime e a sociedade que 
começou a esboçar-se, a partir de 1921, a NPE, a Nova Política Econômica. 

Uma história política por muito tempo dominante deu exagerada importância à “ruptura” de março de 1921. 
Ora, adotada precipitadamente no último dia do X Congresso do Partido Bolchevique - sob a ameaça de uma convulsão 
social - a substituição das requisições pelo imposto em espécies não acarretou nem o fim das revoltas camponesas e das 
greves operárias nem a diminuição da repressão. Os arquivos hoje disponíveis demonstram que a paz civil não foi 
instaurada da noite para o dia na primavera de 1921. Pelo menos até o verão de 1922 - e, em algumas regiões, indo 
muito além disso - o ambiente permaneceu bastante tenso. Os destacamentos de requisição continuaram a agir no 
campo, as greves operárias foram interrompidas de maneira selvagem, os últimos militantes socialistas foram detidos, e 
“a erradicação dos bandidos das florestas” prosseguiu com força total: fuzilamentos em massa de reféns e bombardeio 
de povoados com gazes asfixiantes. No final das contas, foi a grande fome de 1921-1922 que venceu as resistências nos 
locais mais conturbados do campo, regiões mais assoladas pelos destacamentos de requisição e que se tinham rebelado 
para a própria sobrevivência. O mapa da fome superpõe exatamente as zonas em que as requisições foram mais intensas 
e as zonas em que as revoltas camponesas foram mais intensas. Aliada objetiva do regime e arma absoluta de 
pacificação, a fome serviu, além disso, como pretexto para que os bolcheviques pudessem dar um golpe decisivo na 
Igreja Ortodoxa e na intelligentsia que se haviam mobilizado para lutar contra esse flagelo. 

De todas as revoltas camponesas deflagradas a partir da instauração das requisições, no verão de 1918, a 
revolta dos camponeses de Tambov foi a mais longa, a mais importante e a mais bem organizada. A menos de 500 
quilómetros a sudoeste de Moscou, a província de Tambov era, desde o começo do século, um dos bastiões do Partido 
Socialista Revolucionário, o herdeiro do populismo russo. Em 1918-1920, apesar da repressão que acometia esse 
partido, seus militantes permaneciam numerosos e ativos. Mas a província de Tambov era também o celeiro de trigo 
mais próximo de Moscou e, a partir do outono de 1918, mais de cem destacamentos de requisição agiam nessa 
província agrícola densamente povoada. Em 1919, dezenas de bounty, rebeliões sem futuro, foram deflagradas, todas 
impiedosamente reprimidas. Em 1920, as cotas de requisição foram elevadas de forma substancial, passando de 18 a 27 
milhões de puds, apesar de os camponeses terem diminuído sensivelmente a semeadura, pois eles sabiam que tudo 
aquilo que eles não tivessem tempo para consumir seria imediatamente requisitado. Preencher as cotas significava 
então fazer com que os camponeses morressem de fome. Em 19 de agosto de 1920, os incidentes habituais que 
implicavam os destacamentos de abastecimento saíram do controle no burgo de Khitrovo. Como as próprias 
autoridades locais reconheciam, “os destacamentos cometiam todo tipo de abuso; eles pilhavam tudo em sua passagem, 
dos travesseiros aos utensílios de cozinha, partilhavam entre si o produto dos saques e espancavam idosos de 70 anos, à 
vista e com o conhecimento de todos. Esses idosos eram punidos pela ausência de seus filhos desertores que se 
escondiam nos bosques. [...] O que revoltava os camponeses era que os grãos confiscados, transportados até as estações 
de trem mais próximas, apodreciam ao ar livre no local de estocagem”. 

Partindo de Khitrovo, a revolta se espalhou como fogo na palha. No fim de agosto de 1920, mais de 14 mil 
homens, em sua maioria desertores, armados com fuzis, forcados e foices, caçaram ou massacraram todos os 
“representantes do poder soviético” em três distritos da província de Tambov. Em poucas semanas, essa revolta 
camponesa, que em seu princípio não se distinguia em nada das outras revoltas deflagradas havia dois anos na Rússia 
ou na Ucrânia, transformou-se, nesse tradicional bastião dos socialistas revolucionários, num movimento rebelde bem- 
organizado, sob a direção de um comandante inspirado, Alexandre Stepanovitch Antonov. 

Militante socialista revolucionário desde 1906, exilado político na Sibéria de 1908 até a revolução de fevereiro 
de 1917, Antonov, como outros socialistas revolucionários “de esquerda”, aliou-se por um tempo ao regime 
bolchevique, ocupando a função de chefe da milícia de Kirsanov, seu distrito natal. Em agosto de 1918, ele rompeu 
com os bolcheviques, assumindo a liderança de um dos inúmeros bandos de desertores que dominavam o interior 
profundo do campo, batendo-se com os destacamentos de requisição e atacando os raros funcionários soviéticos que se 
arriscavam nos povoados. Quando a revolta camponesa se inflamou, em agosto de 1920, Antonov criou, em seu distrito 
de Kirsanov, uma organização eficaz de milícias camponesas, além de um notável serviço de informações que se 
infiltrou até mesmo na Tcheka de Tambov. Ele também organizou um serviço de propaganda que denunciava, através 


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de panfletos e proclamas, a “comissariocracia bolchevique”, mobilizando os camponeses em torno de algumas 
reivindicações populares, como a liberdade de comércio, o fim das requisições, eleições livres e a abolição dos 
comissários bolcheviques e da Tcheka. 

Paralelamente, a organização clandestina do Partido Socialista Revolucionário instaurava a União Camponesa 
Trabalhadora, uma rede clandestina de militantes camponeses bem implantados localmente. A despeito das fortes 
tensões entre Antonov, socialista-revolucionário dissidente, e a direção da União Camponesa Trabalhadora, o 
movimento camponês da província de Tambov dispunha de uma boa organização militar, de um serviço de 
informações e de um programa político que lhe dava a força e a coerência que não teve, anteriormente, a maior parte 
dos outros movimentos camponeses, com exceção do movimento makhnovista. 

Em outubro de 1920, o poder bolchevique controlava somente a cidade de Tambov e alguns raros centros 
urbanos nas províncias. Aos milhares, desertores juntavam-se ao exército camponês de Antonov, que chegaria a ter em 
seu apogeu mais de 50 mil homens armados. Em 19 de outubro, ao tomar enfim consciência da gravidade da situação, 
Lenin escreveu a Dzerjinski: “É indispensável esmagar esse movimento da maneira mais rápida e mais exemplar 
possível. [...] É preciso darmos provas de toda a nossa energia!” 

No início de novembro, os bolcheviques enviaram ao combate apenas cinco mil homens das Tropas de 
Segurança Interna da República, mas, após a derrota de Wrangel na Criméia, os efetivos das Tropas Especiais enviados 
a Tambov aumentaram rapidamente, chegando ao total de cem mil homens - incluindo os destacamentos do Exército 
Vermelho, sempre minoritários, pois eram considerados pouco confiáveis na repressão às revoltas populares. 

No início de 1921, as revoltas camponesas incendiaram outras regiões: todo o Baixo Volga (as províncias de 
Samara, Saratov, Tsaritsyne, Astrakhan), além da Sibéria Ocidental. A situação tornava-se explosiva, a fome ameaçava 
essas regiões ricas, mas impiedosamente pilhadas desde há muitos anos. Na província de Samara, o comando do distrito 
militar do Volga relatava, em 12 de fevereiro de 1921: “Multidões de milhares de camponeses famintos cercam os 
galpões onde os destacamentos estocaram os grãos requisicionados para as cidades e o exército. Em várias 
oportunidades, a situação saiu do controle, e o exército teve de atirar sobre a multidão raivosa.” De Saratov, os 
dirigentes bolcheviques locais telegrafaram a Moscou: “O banditismo ganhou toda a província. Os camponeses 
apoderaram-se de todas as reservas - três milhões de puds- nos galpões do Estado. Graças aos fuzis fornecidos pelos 
desertores, eles estão fortemente armados. Unidades inteiras do Exército Vermelho se volatilizaram.” 

No mesmo momento, a mais de mil quilómetros a leste dali, um novo foco de rebeliões camponesas se 
formava. Tendo exaurido todos os recursos possíveis nas regiões agrícolas prósperas do sul da Rússia e da Ucrânia, o 
governo bolchevique voltou-se, no outono de 1920, em direção à Sibéria ocidental, cujas cotas arbitrárias de entrega 
foram fixadas em função das exportações de cereais realizadas em... 1913! Seria possível, entretanto, comparar os 
rendimentos destinados às exportações pagas em tilintantes rublos-ouro e os rendimentos guardados pelo camponês 
para as requisições feitas sob ameaça? Como em todos os outros locais, os camponeses siberianos se rebelaram para 
defender o fruto de seu trabalho e assegurar a sua sobrevivência. Em janeiro-março de 1921, os bolcheviques perderam 
o controle das províncias de Tiumen, Omsk, Tcheliabinsk e de Ekaterinburgo, um território maior do que um país como 
a Franca. O Transiberiano, única estrada de ferro que ligava a Rússia europeia à Sibéria, foi interrompido. Em 21 de 
fevereiro, um exército popular camponês apoderou-se da cidade de Tobolsk, que só foi retomada pelas unidades do 
Exército Vermelho em 30 de março. 

No outro extremo do país, nas capitais - a antiga, Petrogrado, e a nova, Moscou -, a situação no início de 1921 
era quase explosiva. A economia estava quase que inteiramente parada; os trens não circulavam mais; por falta de 
combustível, quase todas as fábricas estavam fechadas ou funcionavam apenas parcialmente; o abastecimento dessas 
cidades não era mais assegurado. Os operários estavam ora na rua, ora em busca de alimento nas cidades 
circunvizinhas, ora discutindo nas oficinas geladas, semidestruídas, onde cada um já tinha roubado o que era possível 
carregar para trocar a “manufatura” por um pouco de alimento. 

“O descontentamento é geral, concluía, em 16 de janeiro, um relatório do departamento de informação da 
Tcheka. No meio operário, prevê-se que o regime está por um fio. Ninguém trabalha mais, as pessoas estão passando 
fome. Greves de grande porte são iminentes. As unidades de guarnição de Moscou estão cada vez menos seguras e 
podem a todo momento escapar a nosso controle. Medidas profiláticas se impõem.” 

Em 21 de janeiro, um decreto do governo ordenou a redução em um terço, a começar no dia seguinte, das 
rações de pão em Moscou, Petrogrado, Ivanovo-Voznessensk e Kronstadt. Essa medida, que chegava num momento 
em que o governo não podia mais lançar mão da ameaça contra-revolucionária para convocar o patriotismo das classes 
trabalhadoras - os últimos exércitos brancos já tinham sido derrotados -, pôs fogo no barril de pólvora. Do fim de 
Janeiro a meados de março de 1921, greves, assembléias de protesto, marchas contra a fome, manifestações e ocupação 
de fábricas aconteciam cotidiana-mente, atingindo seu apogeu, tanto em Moscou quanto em Petrogrado, entre o fim de 
fevereiro e o início de março. Entre 22 e 24 de fevereiro, em Moscou, graves incidentes opuseram os destacamentos da 


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Tcheka a manifestantes operários que tentavam forçar a entrada nas casernas para confraternizar com os soldados. 
Vários operários foram mortos, e centenas de outros, presos. 

Em Petrogrado, as rebeliões alcançaram um novo patamar a partir de 22 de fevereiro, quando os operários de 
várias grandes fábricas elegeram, assim como havia sido feito em março de 1918, uma “assembleia de operários 
plenipotenciários” com grande coloração menchevique e socialista revolucionária. Em sua primeira proclamação, essa 
assembleia exigiu a abolição da ditadura bolchevique, eleições livres nos sovietes, liberdade de palavra, de associação, 
de imprensa, e a libertação de todos os prisioneiros políticos. Para chegar a esses objetivos, a assembleia convocava 
uma greve geral. O comando militar não conseguiu impedir que vários de seus regimentos mantivessem assembléias, 
no decorrer das quais foram adotadas moções de suporte aos operários. Em 24 de fevereiro, os destacamentos da 
Tcheka abriram fogo sobre uma manifestação operária, matando 12 operários. Nesse dia, cerca de mil operários e 
militantes socialistas foram presos. Porém, as fileiras manifestantes cresciam sem parar, e milhares de soldados 
desertavam de suas unidades para se juntarem aos operários. Quatro anos após os dias de fevereiro que derrubaram o 
regime czarista, a mesma situação parecia repetir-se: a confraternização dos manifestantes operários e dos soldados 
amotinados. Em 26 de fevereiro, às 21 horas, Zinoviev, o dirigente da organização soviética de Petrogrado, enviou a 
Lenin um telegrama no qual o pânico era patente: “Os operários entraram em contato com os soldados dentro das 
casernas. [...] Nós continuamos esperando o reforço das tropas pedidas a Novgorod. Se essas tropas não chegarem nas 
próximas horas, nós seremos invadidos.” 

Dois dias depois ocorreu o que os dirigentes bolcheviques temiam acima de tudo: o motim dos marinheiros 
dos dois encouraçados da base de Kronstadt, situado na costa de Petrogrado. Em 28 de fevereiro, às 23 horas, Zinoviev 
endereçou um novo telegrama a Lenin: “Kronstadt: os dois principais navios, o Sebastopol e o Petropavlovsk, adotaram 
medidas SR-Cem-Negros e nos endereçaram um ultimato ao qual devemos responder em 24 horas. Entre os operários 
de Petrogrado, a situação permanece bastante instável. As grandes empresas estão em greve. Acreditamos que os SR 
vão acelerar o movimento.”” 

As reivindicações que Zinoviev qualificava de “SR-Cem-Negros” eram as mesmas formuladas por uma 
imensa maioria dos cidadãos após três anos de ditadura bolchevique: após a realização de debates e de eleições livres, a 
reeleição dos sovietes por voto secreto; liberdade de expressão e de imprensa -porém, com o detalhe de ser “em favor 
dos operários, dos camponeses, dos anarquistas e dos partidos socialistas de esquerda”; igualdade no racionamento para 
todos e libertação de todos os presos políticos membros dos partidos socialistas, de todos os operários, camponeses, 
soldados e marujos aprisionados em razão de atividades políticas nos movimentos operários e camponeses; criação de 
uma comissão encarregada de examinar o caso de todos os detentos nas prisões e nos campos de concentração; 
supressão das requisições; abolição dos destacamentos especiais da Tcheka; liberdade absoluta para os camponeses 
para “fazer o que quiserem em sua terra e de criar seus próprios rebanhos, desde que o façam por seus próprios meios”. 

Em Kronstadt, os eventos se aceleravam. Em primeiro de março teve lugar uma enorme assembleia reunindo 
mais de 15 mil pessoas, um quarto de toda a população civil e militar da base naval. Enviado ao local para tentar salvar 
a situação, Mikhail Kalinin, presidente do Comitê Executivo Central dos Sovietes, foi expulso debaixo das vaias da 
multidão. No dia seguinte, os rebeldes, junto a pelo menos a metade dos dois mil bolcheviques de Kronstadt, formaram 
um Comitê Revolucionário provisório que tentou de imediato entrar em contato com os grevistas e os soldados de 
Petrogrado. 

Os relatórios cotidianos da Tcheka sobre a situação em Petrogrado durante a primeira semana de março de 
1921 demonstram a amplitude do apoio popular ao motim de Kronstadt: “O Comitê Revolucionário de Kronstadt 
espera um iminente levante geral em Petrogrado. O contato entre os amotinados e um grande número de fábricas foi 
estabelecido. [...] Hoje, durante a assembleia na fábrica Arsenal, os operários votaram uma resolução convocando a 
adesão à insurreição. Foi eleita uma delegação de três pessoas -um anarquista, um menchevique e um socialista 
revolucionário - para manter contato com Kronstadt.” 

Para interromper o movimento, a Tcheka de Petrogrado recebeu, no dia 7 de março, a ordem de “empreender 
ações decisivas contra os operários”. Em 48 horas, mais de dois mil operários, simpatizantes e militantes socialistas ou 
anarquistas foram presos. Ao contrário dos amotinados, os operários não possuíam armas e não podiam opor nenhuma 
resistência diante dos destacamentos da Tcheka. Tendo cortado a base da insurreição em sua retaguarda, os 
bolcheviques planejaram minuciosamente o assalto a Kronstadt. O general Tukhatchevski foi encarregado de liquidar a 
rebelião. Para atirar sobre a população, o vencedor da campanha de 1920 na Polônia convocou os jovens recrutas da 
Escola Militar, sem tradição revolucionária, assim como as tropas especiais da Tcheka. As operações foram engajadas 
em 8 de março. Dez dias mais tarde, Kronstadt tombava com o custo de milhares de vidas de ambas as partes. A 
repressão à insurreição foi impiedosa. Várias centenas de rebeldes prisioneiros foram fuzilados nos dias que se 
seguiram à derrota. Os arquivos publicados recentemente dão conta de, somente para os meses de abril a junho de 
1921, 2.103 condenações à morte e de 6.459 condenações a penas de prisão ou de campo de concentração. Um pouco 
antes da tomada de Kronstadt, cerca de oito mil pessoas haviam conseguido fugir, através das extensões glaciais do 


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golfo, para a Finlândia, sendo então internadas em campos de trânsito, em Te-rijoki, Vyborg e Ino. Enganadas por uma 
falsa anistia, várias dentre essas pessoas voltaram à Rússia, onde foram imediatamente presas e enviadas aos campos 
das ilhas Solovki e a Kholmogory, um dos mais sinistros campos de concentração, perto de ArkhangelskJ3 Segundo 
uma fonte nos meios anarquistas, dos cinco mil detentos de Kronstadt enviados a Kholmogory, menos de 1.500 
permaneciam ainda vivos na primavera de 1922. 

O campo de Kholmogory, vizinho ao grande rio Dvina, tinha a triste reputação de se desembaraçar com 
extrema rapidez de um grande número de detentos. Estes últimos infelizes eram embarcados em balsas e jogados, com 
uma pedra amarrada no pescoço e as mão atadas, nas águas do rio. Mikhail Kedrov, um dos principais dirigentes da 
Tcheka, havia inaugurado esses afogamentos coletivos em junho de 1920. Segundo vários testemunhos concordantes, 
um grande número de amotinados em Kronstadt, de cossacos e de camponeses da província de Tambov, deportados em 
Kholmogory, teriam sido afogados no rio Dvina em 1922. Nesse mesmo ano, uma Comissão Especial de Evacuação 
deportou para a Sibéria 2.514 civis de Kronstadt apenas por terem permanecido na praça de guerra durante os 
eventos!15 

Vencida a rebelião de Kronstadt, o regime engajou todas as suas forcas na caça aos militantes socialistas, na 
luta contra as greves e o “corpo mole” dos trabalhadores, no esmagamento das insurreições camponesas que 
continuavam com toda a força - apesar da proclamação oficial do fim das requisições - e na repressão à Igreja. 

Em 28 de fevereiro de 1921, Dzerjinski ordenou a todas as tchekas provinciais: “) que fossem imediatamente 
presos todos os membros da intelli-gentsia anarquizante menchevique, socialista-revolucionária e, particularmente, os 
funcionários que trabalhassem nos comissariados do povo para a agricultura e o abastecimento; 2) após esse início, que 
também fossem presos todos os mencheviques, socialistas-revolucionários e anarquistas que trabalhassem nas fábricas 
e fossem suscetíveis de incitarem greves ou manifestações.” 

Longe de marcar uma diminuição na política repressiva, a introdução da NPE, a partir de março de 1921, foi 
acompanhada por um recrudescimen-to da repressão aos militantes socialistas moderados. Essa repressão não era 
incitada pelo perigo de vê-los se oporem à Nova Política Econômica, mas pelo fato de eles já a terem reclamado há 
bastante tempo, mostrando, assim, a perspicácia e a justeza de sua análise. “O único lugar para os mencheviques e os 
SR, quer eles sejam declarados ou camuflados, escrevia Lenin em abril de 1921, é a prisão.” 

Alguns meses mais tarde, julgando que os socialistas ainda estavam bastante “ativos”, ele escreveu: “Se os 
mencheviques e os SR ainda derem as caras, fuzile-os sem piedade!” Entre março e junho de 1921, mais de dois mil 
militantes e simpatizantes socialistas moderados foram detidos. Todos os membros do Comitê Central do Partido 
Menchevique foram aprisionados; ameaçados com o desterro na Sibéria, eles iniciaram, em janeiro de 1922, uma greve 
de fome; 12 dirigentes, entre os quais Dan e Nikolaievski, foram expulsos do país, chegando a Berlim em fevereiro de 
1922. 

Uma das prioridades do regime na primavera de 1921 era a retomada da produção industrial que fora reduzida 
a um décimo da sua capacidade em 1913. Longe de diminuir a pressão sobre os operários, os bolcheviques mantiveram, 
ou mesmo reforçaram, a militarização do trabalho iniciada no decorrer dos anos precedentes. A condução política em 
1921, após a adoção da NPE, na grande região industrial e mineira de Donbass - que produzia mais de 80% do carvão e 
do aço do país -, aparece, em vários aspectos, como reveladora dos métodos ditatoriais empregados pelos bolcheviques 
para que “os operários retornassem ao trabalho”. No fim de 1920, Piatakov, um dos principais dirigentes e próximo de 
Trotski, havia sido nomeado para a chefia da Direção Central da Indústria Carvoeira. Em um ano, ele conseguiu 
quintuplicar a produção de carvão, mas a custo de um política de exploração e de repressão da classe operária sem 
precedentes, que se baseava na militarização do trabalho dos 120 mil mineiros que realizavam esses serviços. Piatakov 
impôs uma disciplina rigorosa: toda ausência era qualificada como “ato de sabotagem” e sancionada com penas em 
campo de concentração, ou até mesmo com a pena de morte - 18 mineiros foram executados em 1921 por “para-sitismo 
agravado”. Para obter dos operários um aumento de produtividade, ele introduziu um aumento das horas de trabalho 
(através, principalmente, do trabalho aos domingos) e generalizou a “chantagem com o cartão de racionamento”. Todas 
essas medidas foram tomadas no momento em que os operários recebiam, à guisa de todo pagamento, entre um terço e 
a metade de todo o pão necessário a sua sobrevivência; além do mais, eles ainda eram obrigados, no final de sua 
jornada de trabalho, a emprestar o único par de sapatos aos camaradas que assumiam seus postos. Como reconhecia a 
Direção da Indústria Carvoeira, entre as razões do grande número de ausentes do lado operário figuravam, além das 
epidemias, “a fome permanente” e “a falta quase que total de roupas, de calças e de sapatos”. Para se reduzir o número 
de bocas a serem alimentadas, já que a fome era ameaçadora, Piatakov ordenou, em 24 de junho de 1921, que fossem 
expulsas das cidades mineiras todas as pessoas que não trabalhassem nas minas, pois elas representavam 
necessariamente um “peso morto”. Os cartões de racionamento foram retirados dos membros das famílias dos mineiros. 
As normas de racionamento foram estritamente alinhadas às performances individuais de cada mineiro, sendo 
introduzida uma forma primitiva de salário, por quantidade produzida. 


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Todas essas medidas se opunham aos ideais de igualdade e de “racionamento garantido” que ainda serviam de 
consolo a vários operários, iludidos pela ideologia pró-operária bolchevique. Esses ideais prefiguravam, de maneira 
notável, as medidas antioperárias dos anos 30. As massas operárias eram apenas a rabsila (força de trabalho) que era 
necessário explorar da maneira mais eficaz possível, contornando a legislação do trabalho e os inúteis sindicatos - 
reduzidos ao simples papel de incentivadores da produtividade. A militarização do trabalho aparecia como a forma 
mais eficaz de enquadramento dessa mão-de-obra afamada e pouco produtiva. Não podemos deixar de nos interrogar 
sobre o parentesco entre essa fornia de exploração do trabalho livre e o trabalho forçado dos grandes conjuntos 
penitenciários criados no início dos anos 30. Como vários outros episódios desses anos iniciais do bolchevis-mo - que 
não poderiam ser reduzidos somente à guerra civil -, o que se passava em Donbass em 1921 prenunciava um certo 
número de práticas que iam direto ao cerne do stalinismo. 

Entre as operações prioritárias ao regime bolchevique na primavera de 1921, figurava a “pacificação” de todas 
as regiões dominadas por bandos e destacamentos de camponeses. Em 27 de abril de 1921, o Politburo nomeou o 
general Tukhatchevski como responsável pelas “operações de liquidação dos bandos de Antonov na província de 
Tambov”. Liderando cerca de cem mil homens, dos quais a grande maioria pertencia aos destacamentos especiais da 
Tcheka, equipados com artilharia pesada e aviões, Tukhatchevski venceu os destacamentos de Antonov através de uma 
repressão e de uma violência raramente vistas. Tukhatchevski e Antonov-Ovseenko - presidente da Comissão 
Plenipotenciária do Comitê Executivo Central, nomeado para estabelecer um verdadeiro regime de ocupação da 
província de Tambov - praticaram sistemáticas capturas de reféns, execuções, internação em campos de concentração, 
extermínio por gases asfixiantes e deportações de povoados inteiros, suspeitos de ajudar ou abrigar os “bandidos”. 

A ordem do dia de nº 171, datada de 11 de junho de 1921, assinada por Antonov-Ovseenko e por 
Tukhatchevski, deixa claro quais foram os métodos utilizados na “pacificação” da província de Tambov. Essa ordem 
estipulava principalmente: 


“1. Fuzilar de imediato e sem julgamento todo cidadão que se recuse a dizer seu nome. 

2. As comissões políticas de distrito e as comissões políticas de bairros têm o poder de pronunciar, contra os 
povoados que estiverem escondendo armas, o veredicto de prisão de reféns e de fuzilamento desses reféns caso as 
armas não sejam entregues. 

3. Caso sejam encontradas armas escondidas, fuzilar de imediato e sem julgamento o primogénito da família. 

4. A família que tiver escondido um bandido em sua casa é passível de prisão e de deportação para fora da 
província, seus bens podem ser confisca dos, e o primogénito dessa família será fuzilado sem julgamento. 

5. Considerar como bandidos as famílias que esconderem membros da família ou bens de bandidos, e fuzilar 
de imediato e sem julgamento o primogênito dessa família. 

6. Em caso de fuga de uma família de bandido, distribuir seus bens entre os camponeses fiéis ao poder 
soviético e queimar ou demolir as casas abandonadas. 

7. Aplicar a presente ordem do dia rigorosamente e sem piedade.” 

No dia seguinte à promulgação da ordem n.º 171, o general Tukhatchevski ordenou que os rebeldes fossem 
mortos com o uso de gases. “Os restos dos bandos desfeitos e bandidos isolados continuam a se reunir nas florestas. 
[...] As florestas onde se escondem os bandidos devem ser limpas por meio de gases asfixiantes. Tudo deve ser 
calculado para que a nuvem de gás penetre na floresta e extermine todos que ali estiverem escondidos. O inspe-tor da 
artilharia deve fornecer imediatamente as quantidades requeridas de gases asfixiantes assim como os especialistas 
competentes para esse tipo de operação.” Dia 19 de julho, diante da oposição de vários dirigentes bolcheviques a essa 
fórmula extrema de “erradicação”, a ordem 171 foi anulada. 

Nesse mês de julho de 1921, as autoridades militares da Tcheka já haviam instalado sete campos de 
concentração onde, segundo informações ainda parciais, estavam internadas pelo menos 50 mil pessoas, na maioria 
mulheres, velhos, crianças, “reféns” e membros das famílias dos camponeses-desertores. A situação nesses campos era 
espantosa: o tifo e o cólera eram endémicos, e aos detentos, seminus, faltava tudo. Durante o verão de 1921, a fome 
apareceu. No outono, a mortalidade chegou a ser de 15% a 20% por mês! Em 1.º de setembro de 1921, contavam-se 
apenas alguns bandos, reunindo com dificuldade um pouco mais de mil homens armados, contra os 40 mil do apogeu 
do movimento camponês, em fevereiro de 1921. A partir de novembro de 1921, uma vez que o campo já havia sido 
desde há muito tempo “pacificado”, vários milhares de detentos, escolhidos entre os que estavam em melhores 
condições, foram deportados para os campos de concentração ao norte da Rússia, em Arkhangelsk e Kholmogory. 

Como testemunham os relatórios semanais da Tcheka aos dirigentes bolcheviques, a “pacificação” do campo 
continuou, em várias outras regiões - Ucrânia, Sibéria Ocidental, províncias do Volga, Cáucaso -, pelo menos até a 
segunda metade do ano de 1922. Os hábitos adquiridos no decorrer dos anos precedentes resistiam e, se oficialmente as 
requisições tinham sido abolidas, a arrecadação dos impostos em espécies, que havia substituído as requisições, era 


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frequentemente feita com extrema brutalidade. As cotas, bastante elevadas diante da situação catastrófica da agricultura 
em 1921, mantinham uma tensão permanente no campo, onde muitos camponeses ainda possuíam armas. 

Descrevendo suas impressões de viagem na província de Tuia, de Orei e de Voronezh, em maio de 1921, o 
comissário adjunto do povo para a agricultura, Nikolai Ossinski, relatava que os funcionários locais estavam 
convencidos de que as requisições seriam restabelecidas no outono. As autoridades locais “não podiam considerar os 
camponeses de outra maneira, a não ser como sabotadores-natos”. 

Relatório do Presidente da Comissão Plenipotenciária de Cinco Membros sobre as Medidas Repressivas contra 
os Bandidos da Província de Tambov. 10 de julho de 1921. 

As operações de limpeza do volost (cantão) Kudriukovskaia começaram em 27 de junho no povoado de 
Ossinovki, que no passado havia abrigado alguns grupos de bandidos. Os camponeses tinham uma atitude bastante 
desconfiada diante de nossos destacamentos repressores. Eles não denunciavam os bandidos das florestas e sempre 
respondiam que não sabiam de nada às questões que lhes eram feitas. 

Fizemos 40 reféns, declaramos o povoado em estado de sítio e demos duas horas aos seus habitantes para 
entregarem os bandidos e as armas escondidas. Reunidos em assembleia, os habitantes hesitavam sobre que conduta 
seguir, mas não se decidiam a colaborar ativamente com a caça aos bandidos. Sem dúvida, eles levavam a sério as 
nossas ameaças de execução dos reféns. Expirado o prazo, executamos 21 reféns diante da assembleia de moradores. A 
execução pública, por fuzilamento individual, com todas as formalidades usuais, na presença de todos os membros da 
Comissão Plenipotenciária, comunistas, etc., provocou um efeito considerável entre os camponeses... 

Quanto ao povoado de Kareievka, que, decorrente de sua situação geográfica, era um local privilegiado para os 
bandidos... a Comissão decidiu riscá-lo do mapa. Toda a população foi deportada, seus bens confiscados, exceção feita 
às famílias dos soldados que servem no Exército Vermelho, que foram transferidas para o burgo de Kurdiuki e alojados 
nas casas confiscadas das famílias dos bandidos. Após a recuperação dos poucos objetos de valor - molduras de janelas, 
obje-tos em vidro e madeira, etc. -, o fogo foi ateado nas casas do povoado... 

Em 3 de julho, começamos as operações no burgo de Bogoslovka. Raramente podemos encontrar camponeses 
assim tão insubmissos e organizados. Quando discutíamos com eles, do mais jovem ao mais idoso, todos respondiam 
unanimemente, fazendo cara de espantados: “Bandidos, aqui? Não acreditem nisso! Talvez tenhamos visto um ou outro 
passar de vez em quando por estas paragens, mas não sabíamos que eram bandidos. Nós vivemos tranquilamente, não 
fazemos mal a ninguém, não sabemos de nada.” 

Tomamos medidas semelhantes às de Ossinovka: fizemos 58 reféns. Em 4 de julho, fuzilamos um primeiro 
grupo de 21 pessoas, depois 15 no dia seguinte, e pusemos sob estreita vigilância 60 famílias de bandidos, ou seja, 
cerca de 200 pessoas. No final das contas, alcançamos nossos objetivos, e eles foram obrigados a partir em busca dos 
bandidos e das armas escondidas... 

A limpeza dos povoados e burgos supracitados acabou em 6 de julho. A operação foi coroada de sucesso e tem 
consequências que vão muito além dos dois volosts (cantões) limítrofes. A rendição dos elementos bandidos continua. 

Presidente da Comissão Plenipotenciária de 5 Membros, Uskonin. 

Para acelerar a coleta de impostos na Sibéria, região que deveria fornecer a maior parte da colheita de produtos 
agrícolas, no momento em que a fome devastava todas as províncias do Volga, Feliks Dzerjinski foi enviado à Sibéria, 
em dezembro de 1921, como plenipotenciário extraordinário. Ele instaurou os “tribunais revolucionários móveis”, 
encarregados de percorrer os povoados e condenar de imediato, a penas em prisão ou em campos de concentração, os 
camponeses que não pagassem os impostos. Como os destacamentos de requisição, esses tribunais, respaldados por 
“destacamentos fiscais”, cometeram tantos abusos, que o próprio presidente do Supremo Tribunal, Nikolai Krylenko, 
foi obrigado a ordenar uma investigação sobre os atos desses órgãos remunerados pelo chefe da Tcheka. De Omsk, em 
14 de fevereiro de 1922, um inspetor escreveu: “Os abusos dos destacamentos de requisição atingiram um grau 
inimaginável. Os camponeses detidos são sistematicamente encerrados em galpões não aquecidos, são chicoteados e 
ameaçados de execução. Os que não preencheram a totalidade de sua cota de entrega são amarrados, obrigados a correr, 
nus, ao longo da rua principal do povoado, sendo então encerrados num galpão não aquecido. Muitas mulheres foram 
espancadas até perderem os sentidos, sendo então jogadas nuas em buracos cavados na neve...” Em todas as províncias, 
a tensão permanecia bem viva. 

Tais fatos são demonstrados por esses extratos de um relatório da polícia política de outubro de 1922, um ano 
e meio após o início da NPE: 

“Na província de Pskov, as cotas fixadas para o imposto em espécies representavam 2/3 da colheita. Quatro 
distritos pegaram em armas. [...] Na província de Novgorod, as cotas não serão preenchidas, apesar da baixa de 25% 
concedida em razão da colheita ruim. Nas províncias de Ryazan e de Tver, a realização de 100% das cotas condenaria 
os camponeses a morrerem de fome. [...] Na província de Novo-Nikolaievsk, a fome ameaça e os camponeses fazem 
provisões de ervas e raízes para consumo próprio. [...] Mas todos esses fatos parecem anódinos com relação às 
informações que nos chegam da província de Kiev, onde se assiste a uma onda de suicídios como nunca se viu antes: os 


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camponeses se suicidam em massa porque eles não podem pagar os impostos nem pegar em armas, pois estas lhes 
foram confiscadas. Em toda a região, a fome que os atingiu há mais de um ano deixa os camponeses bastante 
pessimistas sobre o próprio futuro.” 

Entretanto, no outono de 1922, o pior já havia passado. Após dois anos de fome, os sobreviventes haviam 
acabado de armazenar uma colheita que deveria lhes permitir passar o inverno, com a condição de que os impostos não 
fossem exigidos em sua totalidade. “Neste ano, a colheita de cereais será inferior à média dos últimos dez anos”: Foi 
nesses termos que o Pravda mencionou pela primeira vez, em 2 de julho de 1921, na última página e num pequeno 
excerto, a existência de “um problema alimentar” no “fronte agrícola”. Dez dias mais tarde, Mikhail Kalinin, presidente 
do Comitê Executivo Central dos Sovietes, reconhecia, num “Apelo a todos os cidadãos da RSFSR”, publicado 
noPravdaãe 12 de julho de 1921, que “a seca deste ano destruiu a colheita de cereais em vários distritos”. 

“Essa calamidade, explicava uma resolução do Comitê Central datada de 21 de julho, não resulta somente da 
seca. Ela decorre e procede de toda a história passada, do atraso de nossa agricultura, da ausência de organização, do 
baixo nível de conhecimento em agronomia, da técnica indigente e das formas caducas de rotação das culturas. Ela foi 
agravada pelas consequências da guerra e do bloqueio econômico e militar, pela luta ininterrupta dos proprietários, dos 
capitalistas e de seus lacaios contra o nosso regime, pelas ações incessantes dos bandidos que executam ordens de 
organizações hostis à Rússia Soviética e a toda a sua população trabalhadora.” 

Na longa enumeração das causas dessa “calamidade”, a qual não se ousava ainda nomear, faltava o principal 
fator: a política das requisições que há vários anos sangrava uma agricultura já bastante frágil. Os dirigentes das 
províncias atingidas pela fome, convocados a Moscou em junho de 1921, destacaram com unanimidade a 
responsabilidade do governo e, principalmente, a do todo-poderoso comissário do povo para o abastecimento na 
extensão e no agravamento da fome. O representante da província de Samara, um certo Vavilin, explicou que o Comitê 
provinciano para o abastecimento não havia cessado, desde a instauração das requisições, de superestimar as colheitas. 

Apesar da colheita ruim de 1920, dez milhões de puas haviam sido requisitados nesse ano. Todas as reservas, 
inclusive as sementes para a futura colheita, foram tomadas. A partir de janeiro de 1921, vários camponeses não tinham 
mais nada do que comer. A mortalidade começara a aumentar em fevereiro. Em dois ou três meses, os tumultos e as 
revoltas contra o regime na província de Samara haviam praticamente terminado. “Hoje, explicava Vavilin, não há mais 
revoltas. Assistimos a novos fenómenos: multidões de milhares de famintos cercam pacificamente o Comitê Executivo 
dos Sovietes ou o do Partido e esperam, durante dias, não se sabe por que miraculosa chegada de alimentos. Não 
conseguimos expulsar essa multidão na qual a cada dia as pessoas morrem como moscas. [...] Creio que há pelo menos 
900 mil famintos na província.” 

Ao lermos esses relatórios da Tcheka e do serviço de informação militar, constatamos que a escassez já se 
instalara em várias regiões desde 1919. No decorrer de todo o ano de 1920, a situação se degradou sem cessar. Em seus 
relatórios internos, a Tcheka, o Comissariado do Povo para a Agricultura e o Comissariado do Povo para o 
Abastecimento, perfeitamente conscientes da situação, faziam, desde o verão de 1920, uma lista de províncias e de 
distritos “famintos” ou “à beira da miséria”. Em janeiro de 1921, um relatório destacava, entre as causas da fome que 
ganhava a província de Tambov, a “orgia” de requisições do ano de 1920. De acordo com o relato das expressões 
coletadas pela polícia política, era evidente aos mais humildes que “o regime soviético quer matar de fome todos os 
camponeses que ousem fazer-lhe resistência”. Ainda que perfeitamente informado das consequências inelutáveis de sua 
política de requisições, o governo não tomou nenhuma medida. Mesmo quando a fome começou a ganhar um número 
cada vez maior de regiões, Lenin e Molotov enviaram, em 30 de julho de 1921, um telegrama a todos os dirigentes dos 
Comitê regionais e provincianos do Partido, pedindo-lhes para “reforçarem os serviços de coleta [...], para 
desenvolverem uma intensa propaganda junto à população rural, explicando a todos a importância econômica e política 
do pagamento pontual e total dos impostos [...] e para que pusessem à disposição das agências de coleta do imposto em 
espécies toda a autoridade do Partido e a totalidade do poder de repressão do aparelho de Estado!” 

Diante da atitude das autoridades, que prosseguiam a todo custo com a sua política de sangria do campo, os 
setores cultos e instruídos da intelligent-sia constituíram, no seio da Sociedade Moscovita de Agricultura, o Comitê 
Social de Luta Contra a Fome. Entre os primeiros membros desse Comitê figuravam os eminentes economistas 
Kondratiev e Prokopovitch, antigo ministro do Abastecimento do governo provisório, Ekaterina Kuskova, uma 
jornalista próxima de Máximo Gorki, além de escritores, médicos e agrónomos. Graças ao intermédio de Gorki, bem 
aceito nos meios bolcheviques, uma delegação do Comitê, que Lenin se recusava a receber, obteve, em meados de 
julho de 1921, uma audiência junto a Lev Kamenev. Depois dessa entrevista, Lenin, sempre desconfiado da “pieguice” 
de alguns dirigentes bolcheviques, enviou um recado aos seus colegas do Politburo: “Coloquem Kuskova sobre estreita 
vigilância. [...] Aceitamos de Kuskova o nome, a assinatura e um ou dois vagões da parte dos que têm simpatia por ela 
(e dos iguais a ela). Nada mais.” 

Finalmente, os membros do Comitê conseguiram convencer um bom número de dirigentes de que eles podiam 
ser úteis. Representantes mais ramosos da ciência, da literatura e da cultura russa, conhecidos pelo Ocidente, eles já 


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haviam, em sua maioria, participado da organização de ajuda às vítimas da fome em 1891. Além disso, eles tinham 
numerosos contatos com intelectuais do mundo inteiro e podiam servir de garantia para a justa distribuição de uma 
eventual ajuda internacional aos famintos. Eles estavam prontos a dar o seu aval, mas exigiam que fosse concedido um 
estatuto oficial ao Comitê de ajuda aos famintos. 

Em 21 de julho de 1921, o governo bolchevique decidiu, não sem alguma hesitação, legalizar o Comitê social, 
que passou a ser chamado de Comitê Panrusso de Ajuda aos Famintos. Ao Comitê foi conferido o emblema da Cruz 
Vermelha. Ele teve o direito de procurar, na Rússia e no exterior, víveres, forragem e medicamentos; de partir em 
socorro da população carente; de fazer uso de transportes especiais para encaminhar suas entregas; de organizar sopas 
populares; de criar seções e Comitês locais; de “comunicar-se livremente com os organismos e os procuradores por ele 
designados no exterior”; e mesmo de “debater as medidas tomadas pelas autoridades centrais e locais que, em sua 
opinião, dizem respeito à questão da luta contra a fome”. Em nenhum momento da história soviética, uma organização 
social havia sido contemplada com tais direitos. As concessões do governo correspondiam à gravidade da crise que 
atravessava o país, quatro meses após a instauração oficial, e bem tímida, da NPE. 

O Comitê entrou em contato com o chefe da Igreja Ortodoxa, o patriarca Tikhon, que logo criou o Comitê 
Eclesiástico Panrusso de Ajuda aos Famintos. Em 7 de julho de 1921, o patriarca fez que com que uma carta pastoral 
fosse lida em todas as igrejas: “A carniça tornou-se uma iguaria no cardápio da população faminta, e mesmo essa 
iguaria não é fácil de se encontrar. Choro e gemidos são ouvidos por toda parte. Já se chegou ao canibalismo... Estenda 
uma mão caridosa a seus irmãos e irmãs! Com a permissão dos fiéis, você pode utilizar o tesouro das igrejas que não 
tenham o valor do sacramento para socorrer os famintos, tais como anéis, correntes e braceletes, decorações que 
adornem os santos ícones, etc.” 

Após conseguir a ajuda da Igreja, o Comitê Panrusso entrou em conta-to com diversas instituições 
internacionais, entre elas a Cruz Vermelha, os Quakers e a American Relief Association (ARA), sendo que todas 
responderam positivamente. Entretanto, a colaboração entre o regime e o Comitê não duraria mais do que cinco 
semanas: em 27 de agosto de 1921, o Comitê foi dissolvido, seis dias após o governo ter assinado um acordo com o 
representante da American Relief Association, presidida por Herbert Hoover. Para Lenin, assim que os americanos 
enviaram seus primeiros trens com provisões, o Comitê já havia cumprido seu papel: “o nome e a assinatura de 
Kuskova” havia servido de calção aos bolcheviques. Isso bastava. 

“Proponho, hoje mesmo, sexta-feira, 26 de agosto, a dissolução do Comitê. [...] Prender Prokopovitch por 
propostas sediciosas [...] e mante-lo três meses na prisão. [...] Expulsar imediatamente de Moscou todos os outros 
membros do Comitê; colocá-los em prisão domiciliar nas capitais dos distritos, separados uns dos outros, se possível 
longe da rede ferroviária. [...] Publicaremos amanhã um breve e seco comunicado governamental, de cinco linhas: 
Comitê dissolvido por recusar-se a trabalhar. Dar aos jornais a diretiva de começar, a partir de amanhã, a cobrir de 
injúrias as pessoas do Comitê. Filhinhos-de-papai, guardas brancos, mais dispostos a passear no exterior do que ir às 
províncias, ridicularizá-los por todos os meios e difamá-los pelo menos uma vez por semana durante dois meses.” 

Seguindo essas instruções ao pé da letra, a imprensa atacou raivosamente os 60 intelectuais de renome que 
faziam parte do Comitê. Os títulos dos artigos publicados demonstram com eloquência o caráter dessa campanha 
difamatória: “Com a fome não se brinca!” (Pravda, de 30 de agosto de 1921); “Eles especulavam com a fome!” 
(Komunistitcheski TnuL, de 31 de agosto de 1921); “O Comitê de ajuda... à contra-revolução” (Izvestia, de 30 de 
agosto de 1921). A uma pessoa que tentava interceder em favor dos membros do Comitê que foram detidos e 
deportados, Unschlicht, um dos adjuntos de Dzerjinski na Tcheka, declarou: “Vocês dizem que o Comitê não cometeu 
nenhum ato desleal. É verdade. Mas ele surgiu como um pólo atrativo para a sociedade. E isso nós não podemos 
admitir. Sabe, quando colocamos um ramo ainda sem brotos num copo d'água, ele logo começa a germinar. Do mesmo 
modo, o Comitê começou a estender suas ramificações na coletivida-de social. [...] Foi preciso tirar o ramo d'água e 
esmagá-lo.” 

Em lugar do Comitê, o governo organizou uma Comissão Central de Ajuda aos Famintos, um organismo 
pesado e burocrático, composto por funcionários de diversos comissariados do povo, bastante ineficaz e corrompido. 
No ponto alto da fome - que atingiu em seu apogeu, durante o verão de 1922, cerca de 30 milhões de pessoas - a 
Comissão Central assegurou uma ajuda alimentar irregular a menos de três milhões de pessoas. Por sua vez, a ARA, a 
Cruz Vermelha e os Quakers alimentavam cerca de 11 milhões de pessoas por dia. Apesar dessa mobilização 
internacional, pelo menos cinco milhões de pessoas, das 29 milhões atingidas, morreram de fome em 1921-1922. A 
última grande fome sofrida pela Rússia, em 1891, aproximadamente nas mesmas regiões (O Médio e o Baixo Volga e 
uma parte do Caza-quistão), havia feito entre 400 e 500 mil vítimas. Naquela ocasião, o Estado e a sociedade civil 
disputaram entre si quem fornecia mais ajuda aos camponeses vítimas da seca. Jovem advogado, Vladimir Ulianov 
Lenin residia, no início dos anos 1890, em Samara, capital de uma das províncias mais atingidas pela fome em 1891. 
Ele foi o único membro da intelligentsia local que não somente não participou da ajuda social aos famintos, como 
pronunciou-se categoricamente contra uma tal ajuda. Como lembrava um de seus amigos, “Vladimir Ilitch Ulianov teve 


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a coragem de declarar abertamente que a fome tinha várias consequências positivas, entre elas, a aparição de um 
proletariado industrial, esse coveiro da ordem burguesa. [...] A fome, ao destruir a economia camponesa atrasada, 
explicava ele, nos aproxima de nosso objetivo final, o socialismo, etapa imediatamente posterior ao capitalismo. Além 
disso, a fome não somente destruiu a fé no Czar, como também a fé em Deus”. 

Trinta anos mais tarde, esse jovem advogado, agora chefe do governo bolchevique, retomava as suas idéias: a 
fome podia e devia servir para “dar um golpe mortal na cabeça do inimigo”. Esse inimigo era a Igreja Ortodoxa. “A 
eletricidade substituirá a Deus. Deixem o camponês rezar pela eletricidade e ele sentirá que o poder das autoridades é 
bem maior que o dos céus”, dizia Lenin em 1918, durante uma discussão com Leonid Krassin a respeito da ele- 
trificação na Rússia. Desde a chegada dos bolcheviques ao poder, as relações entre o novo regime e a Igreja Ortodoxa 
vinham se deteriorando. Em 5 de fevereiro de 1918, o governo bolchevique decretou a separação da Igreja e do Estado, 
da escola e da Igreja, proclamou a liberdade de consciência e dos cultos e anunciou a estatização dos bens da Igreja. 
Contra esse ataque ao papel tradicional da Igreja Ortodoxa, religião de estado durante o czarismo, o patriarca Tikhon 
protestou com rigor através de quatro cartas pastorais aos fiéis. Os bolcheviques multiplicavam as provocações, 
“vistoriando” - isto é, profanando - as relíquias dos santos, organizando “carnavais anti-religiosos” durante as grandes 
comemorações religiosas, exigindo que o grande monasté-rio da Trindade São Sérgio, nos arredores de Moscou, onde 
estão conservadas as relíquias de São Sérgio de Radonégia, fosse transformado num museu para o ateísmo. Foi nesse 
clima já bastante tenso, enquanto vários padres e bispos tinham sido presos por se oporem a essas provocações, que os 
dirigentes bolcheviques, com a iniciativa de Lenin, usaram o pretexto da fome para lançar uma grande operação política 
contra a Igreja. 

Em 26 de fevereiro de 1922, a imprensa publicou um decreto governamental ordenando “o confisco imediato 
nas igrejas de todos os objetos preciosos em ouro e prata, de todas as pedras preciosas que não sirvam diretamente ao 
culto. Esses objetos deverão ser entregues aos órgãos do Comissariado do Povo para as Finanças, que os transferirá 
para os fundos da Comissão Central de Ajuda aos Famintos”. As operações de confisco foram iniciadas nos primeiros 
dias de março, sendo acompanhadas por vários incidentes entre os destacamentos encarregados de tomar os tesouros 
das igrejas e os fiéis. Os mais graves ocorreram em 15 de março de 1922, em Chuia, uma pequena cidade industrial da 
província de Ivanovo, onde a tropa atirou sobre a multidão de fiéis, matando uma dezena de pessoas. Lenin usou essa 
matança como pretexto para reforçar a campanha anti-religiosa. 

Em uma carta endereçada aos membros do Politburo, em 19 de março de 1922, ele explicitou, com o cinismo 
que o caracterizava, como a fome poderia ser utilizada em proveito próprio para “dar um golpe mortal na cabeça do 
inimigo”: 

“A respeito dos eventos de Chuia, que vão ser discutidos no Politburo, penso que uma decisão firme deve ser 
imediatamente adotada, no contexto do plano geral de luta nesse fronte. [...] Se consideramos o que nos dizem os 
jornais a respeito da atitude do clero em face da campanha de confisco dos bens da Igreja, somada à tomada de posição 
subversiva do patriarca Tikhon, parece perfeitamente claro que o clero Cem-Negros está colocando em prática um 
plano elaborado que visa a nos infligir agora uma derrota decisiva. [...] Penso que nosso inimigo está cometendo um 
erro estratégico monumental. Com efeito, o momento atual nos é extremamente favorável, ao contrário do que se passa 
com eles. Temos 99% de chances de dar, com sucesso total, um golpe mortal na cabeça do inimigo, garantindo as 
posições que nos são essenciais para as décadas futuras. Com todas essas pessoas famintas que se alimentam de carne 
humana, com todas as estradas cheias de centenas, de milhares de cadáveres, é agora e somente agora o momento em 
que podemos (e, por conseguinte, devemos) confiscar os bens da Igreja, com uma energia feroz, impiedosa. É 
precisamente agora e somente agora que a imensa maioria das massas camponesas pode nos apoiar ou, mais 
exatamente, pode não estar à altura de apoiar esse punhado de clérigos Cem-Negros e pequeno-burgueses 
reacionários... Assim, podemos obter um tesouro de centenas de milhões de rublos-ouro (imaginem a riqueza de alguns 
desses monastérios!). Sem esse tesouro, nenhuma atividade estatal em geral, nenhuma edificação econômica em 
particular, e nenhuma defesa de nossas posições é possível de ser feita. Devemos, custe o que custar, apropriarmo-nos 
desse tesouro de centenas de milhões de rublos (e mesmo, quem sabe, de vários bilhões!). Tudo isso só pode ser feito, 
com sucesso, neste instante. Tudo indica que não chegaremos a nossos objetivos em outro momento, uma vez que 
somente o desespero proporcionado pela fome pode acarretar uma atitude benevolente ou, pelo menos, neutra, das 
massas a nosso respeito... Além disso, chego à conclusão categórica de que é o momento de esmagarmos o clero Cem- 
Negros da maneira mais decisiva e mais impiedosa, com uma brutalidade tal que seja lembrada por décadas a fio. 
Imagino a implementação de nosso plano de batalha do seguinte modo: O camarada Kalinin será o único a vir a público 
tomar as medidas. Em nenhuma hipótese, o camarada Trotski deverá aparecer para a imprensa ou para o público... Será 
necessário enviar um dos membros mais enérgicos e mais inteligentes do Comitê Executivo Central... à Chuia, com 
instruções verbais de um dos membros do Politburo. Essas instruções estipularão quem terá como missão prender o 
maior número possível de membros do clero, de pequeno-burgueses e burgueses, pelo menos algumas dúzias, que serão 
acusados de participação direta ou indireta na violenta resistência ao decreto de confisco dos bens da Igreja. De volta da 


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missão, esse responsável deverá relatar suas atividades, seja ao Politburo reunido por completo, seja a dois de seus 
membros. Com base nesse relatório, o Politburo dará, verbalmente, diretivas precisas às autoridades judiciárias, a saber, 
que o processo dos rebeldes de Chuia deve ser conduzido o mais rapidamente possível e que o único desfecho seja a 
execução, por fuzilamento, de um grande número de Cem-Negros de Chuia, mas também de Moscou e de outros 
centros clericais. .. Quanto maior for o número de representantes do clero reacioná-rio e da burguesia reacionária que 
forem executados, melhor será para nós. Devemos dar, imediatamente, uma lição a todas essas pessoas, de tal modo 
que eles nem sequer imaginem qualquer tipo de resistência durante várias décadas.. .” 

Como demonstram os relatórios semanais da polícia política, a campanha de confisco de bens da Igreja chegou 
a seu apogeu em março, abril e maio de 1922, provocando 1.414 incidentes recenseados e a prisão de vários milhares 
de padres, monges e freiras. Segundo fontes eclesiásticas, 2.691 padres, 1.962 monges e 3.447 freiras foram mortos em 
1922. O governo organizou vários grandes processos públicos de membros do clero, em Moscou, Ivanovo, Chuia, 
Smolensk e Petrogrado. A partir de 22 de março, uma semana após os incidentes de Chuia, o Politburo propôs, de 
acordo com as instruções de Lenin, toda uma série de medidas: “Prender o sínodo e o patriarca, não imediatamente, 
mas dentro de 15 ou 25 dias. Tornar públicas as ocorrências do caso Chuia. Fazer com que sejam julgados os padres e 
laicos de Chuia dentro de, no máximo, uma semana. Fuzilar os mentores da rebelião.” Em uma nota enviada ao 
Politburo, Dzerjinski indicou que “o patriarca e seu bando [...] se opõem abertamente ao confisco dos bens da Igreja. 
[...] Já há, a partir de agora, motivos mais do que suficientes para prender Tikhon e os membros reacionários do sínodo. 
A GPU estima que: 1) a prisão do sínodo e do patriarca é oportuna; 2) a nomeação de um novo sínodo não deve ser 
autorizada; 3) todo padre que se opuser ao confisco dos bens da Igreja deve ser deportado, como inimigo do povo, para 
as regiões do Volga mais atingidas pela fome.”? 

Em Petrogrado, 76 eclesiásticos foram condenados a cumprir pena em campos de concentração, e quatro 
foram executados, entre os quais o bispo metropolita de Petrogrado, Benjamim, eleito em 1917, muito próximo do 
povo e que, entretanto, havia defendido com grande assiduidade a idéia de uma a Igreja independente do Estado. Em 
Moscou, 148 eclesiásticos e laicos foram condenados a penas em campos de concentração, seis à pena de morte, 
imediatamente aplicada. O patriarca Tikhon foi posto em residência vigiada, no monastério Donskoi, em Moscou. 

Algumas semanas após esses julgamentos fictícios, foi aberto em Moscou, em 6 de junho de 1922, um grande 
processo público, anunciado na imprensa desde o dia 28 de fevereiro: o processo de 34 socialistas-revolucioná-rios 
acusados de terem praticado “atividades contra-revolucionárias e terroristas contra o governo soviético”, entre os quais 
figuravam principalmente o atentado de 31 de agosto de 1918 contra Lenin e a “direção política” da revolta camponesa 
de Tambov. De acordo com uma prática que seria frequentemente utilizada nos anos 30, os acusados formavam um 
grupo heterogéneo, composto por autênticos dirigentes políticos - entre os quais estavam doze membros do Comitê 
Central do Partido Socialista Revolucionário, dirigido por Abraham Gots e Dimitri Donskoi - e por agentes 
provocadores, encarregados de testemunhar contra os co-acusados e de “confessar seus crimes”. Esse processo permitiu 
também, como escreveu Hélêne Carrêre d'Encausse, que “fosse testado o método das acusações 'encaixotadas', assim 
como as bonecas russas, que, partindo de um fato exato - os socialistas haviam efetivamente feito, desde 1918, 
oposição ao absolutismo dos dirigentes bolcheviques -, chegue ao princípio... de que toda oposição equivale, em última 
instância, a cooperar com a burguesia internacional”. 

Ao final dessa justiça fictícia, durante a qual as autoridades trouxeram à cena manifestações populares pedindo 
a pena de morte para os “terroristas”, 11 dos acusados - os dirigentes do Partido Socialista Revolucionário - foram 
condenados, em 77 de agosto de 1922, à pena capital. Diante dos protestos da comunidade internacional, mobilizada 
pelos socialistas russos exilados, e, principalmente, diante da ameaça real de uma retomada das insurreições no campo, 
onde o “espírito socialista-revolucionário” permanecia ativo, a execução das sentenças foi suspensa, “com a condição 
de que o Partido Socialista Revolucionário cessasse todas as suas atividades conspirativas, terroristas e insurrecionais”. 
Em janeiro de 1924, as condenações à morte foram comutadas em penas de cinco anos em campo de concentração. 
Entretanto, os condenados nunca foram libertados, sendo executados nos anos 30, quando nem a opinião internacional 
nem o perigo das insurreições camponesas contavam mais para a direção bolchevique. 

Na ocasião do processo dos socialistas-revolucionários, havia sido aplicado o novo Código Penal, que passou a 
vigorar em 19 de junho de 1922. Lenin seguiu com grande interesse a elaboração desse código que deveria legalizar a 
violência exercida contra os inimigos políticos, uma vez que a fase da eliminação expeditiva, justificada pela guerra 
civil, estava oficialmente encerrada. Os primeiros esboços submetidos a Lenin suscitaram, de sua parte, em 15 de maio 
de 1922, essas observações dirigidas a Kurskii, comissário do povo para a Justiça: “Em minha opinião, é preciso 
ampliar o campo de aplicação da pena de morte a todas as formas das atividades dos mencheviques, socialistas- 
revolucio-nários, etc. Encontrar uma nova punição, que seria a expulsão do país. E aperfeiçoar uma fórmula que ligue 
essas atividades à burguesia internacional. “ Dois dias mais tarde, Lenin tornava a escrever: “Camarada Kurskii, quero 
acrescentar a nossa entrevista esse esboço de um parágrafo complementar para o Código Penal. [...] Creio que o 
essencial está bem claro. É preciso colocar abertamente o princípio - justo do ponto de vista político, e não somente em 


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termos estreitamente jurídicos - que motiva a essência e a justificação do terror, sua necessidade e seus limites. O 
tribunal não deve suprimir o terror - dizer isso seria mentir para si ou para os outros -, mas fundamentá-lo, legalizá-lo 
em seus princípios, claramente, sem trair ou dissimular a verdade. A formulação deve ser a mais aberta possível, pois 
somente a consciência legal revolucionária e a consciência revolucionária criam, nos fatos, suas condições de 
aplicação.” 

De acordo com as instruções de Lenin, o Código Penal define o crime contra-revolucionário como todo ato 
“que vise abater ou enfraquecer o poder dos sovietes operários e camponeses estabelecido pela revolução proletária”, 
mas também todo ato “que contribua na ajuda à burguesia internacional que não reconhece a igualdade dos direitos do 
sistema comunista de propriedade como sucessor do sistema capitalista, se esforçando para derrubá-lo com o uso da 
força, da intervenção militar, do bloqueio econômico e militar, da espionagem ou do financiamento da imprensa e de 
outros meios similares”. 

Eram passíveis de pena de morte não somente todas as atividades (revoltas, perturbações da ordem, 
sabotagens, espionagem, etc.) suscetíveis de serem qualificadas como “atos contra-revolucionários”, mas também a 
participação ou a cooperação cedida a uma organização “no sentido de uma ajuda a uma parte da burguesia 
internacional”. Mesmo a “propaganda suscetível de levar uma ajuda a uma parte da burguesia internacional” era 
considerada como um crime contra-revolucionário, passível de uma privação da liberdade “que não poderia ser inferior 
a três anos” ou de banimento perpétuo. 

No contexto da legalização da violência política empreendida no começo de 1922, convém lembrar a 
transformação nominal da polícia política. Em 6 de fevereiro de 1922, um decreto aboliu a Tcheka, substituindo-a de 
imediato pela GPU - Direção Política de Estado -, subordinada ao comissariado do povo para o interior. Se o nome foi 
mudado, os responsáveis e as estruturas permaneciam idênticas, evidenciando claramente a continuidade da instituição. 
O que poderia significar, então, essa mudança de etiqueta? A Tcheka era por definição uma comissão extraordinária, o 
que sugeria o caráter transitório da sua existência e do que a justificava. A GPU indicava, ao contrário, que o Estado 
devia dispor de instituições normais e permanentes de controle e de repressão política. Por detrás dessa mudança de 
denominação, se desenhava a perpetuação e a legalização do terror como modo de resolução das relações conflituosas 
entre o novo Estado e a sociedade. 

Uma das disposições inéditas do novo Código Penal era o banimento perpétuo, com a proibição de retorno à 
URSS sob ameaça de execução imediata. Ela foi posta em prática a partir do outono de 1922, como consequência de 
uma operação de expulsão que atingiu cerca de 200 intelectuais de renome, suspeitos de fazerem oposição ao 
bolchevismo. Entre estes últimos destacavam-se todos os que haviam participado do Comitê Social de Luta Contra a 
Fome, dissolvido em 27 de julho de 1921. 

Em 20 de maio de 1922, Lenin expôs, numa longa carta a Dzerjinski, um grande plano de “expulsão do país 
dos escritores e dos professores que ajudam a contra-revolução”. “É preciso preparar com bastante cuidado essa 
operação, escrevia Lenin. Reunir uma comissão especial. Obrigar os membros do Politburo a dedicarem de duas a três 
horas por semana ao exame de um certo número de livros e de revistas. [...) Reunir informações sistemáticas sobre o 
passado político, os trabalhos e a atividade literária dos professores e dos escritores.” 

E Lenin mostrava o exemplo: “No que diz respeito à revista Ekonomist, por exemplo, é evidente que se trata 
de um centro de guardas brancos. O nP 3 (apenas seu terceiro número! nota bene!) traz na capa a lista de seus 
colaboradores. Creio que quase todos são fortes candidatos à expulsão. São todos contra-revolucionários reconhecidos, 
cúmplices da Conspiração, que formam uma organização com seus lacaios, espiões e corruptores da juventude 
estudante. É preciso organizar as coisas para que possamos caçar esses espiões, capturando-os de maneira permanente, 
organizada e sistemática, para expulsá-los de nosso país.” 

Em 22 de maio, o Politburo instaurou uma Comissão Especial, que incluía principalmente Kamenev, Kurskii, 
Unschlicht, Mantsev (dois adjuntos de Dzerjinski), encarregada de catalogar um certo número de intelectuais para a 
prisão e posterior expulsão. Os primeiros a serem expulsos, em junho de 1922, foram os dois principais dirigentes do 
ex-Comitê Social de Luta Contra a Fome, Serge Prokopovitch e Ekaterina Kuskova. Um primeiro grupo de 160 
intelectuais de renome - filósofos, escritores, historiadores e professores universitários, detidos em 16 e 17 de agosto - 
foi expulso num navio em setembro. Estavam entre eles, principalmente, alguns nomes que já haviam adquirido ou 
iriam adquirir renome internacional: Nikolai Berdiaev, Serge Bulgakov, Semion Frank, Nikolai Losski, Lev Karsavin, 
Fedor Stepun, Serge Trubetskoi, Alexandre Izgoiev, Ivan Lapchin, Mikhail Ossorguin, Alexandre Kiesewetter... Todos 
tiveram de assinar um documento estipulando que em caso de retorno à URSS eles seriam imediatamente fuzilados. 
Cada um estava autorizado a levar consigo um casaco de inverno, um casaco de verão, um terno e roupa de baixo de 
troca, duas camisas para o dia e duas para a noite, duas ceroulas e dois pares de meias! Além desses objetos de uso 
pessoal, cada pessoa expulsa tinha o direito de levar 20 dólares em divisas. 

Paralelamente a essas expulsões, a polícia política continuava a catalogação de todos os intelectuais de 
segunda grandeza que fossem suspeitos, que seriam destinados à deportação administrativa - legalizada por um decreto 


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de 10 de agosto de 1922 - para as panes mais longínquas do pais ou então para campos de concentração. Em 5 de 
setembro de 1922, Dzerjinski escreveu a seu adjunto Unschlicht: 

“Camarada Unschlicht! Quanto à catalogação da intelligentsia, o processo ainda está demasiadamente 
artesanal! Desde a partida de Agranov, não temos mais um responsável competente para essa tarefa. Zaraiski é jovem 
demais. Parece-me que, para progredirmos, seria preciso que o camarada Menjinski ocupe-se do processo. [...] É 
indispensável que se faça um bom planejamento do trabalho, que nós corrigiríamos e completaríamos regularmente. É 
preciso classificar toda a intelligentsia em grupos e subgrupos: 1) escritores; 2) jornalistas e políticos; 3) economistas 
(indispensável que sejam feitos subgrupos: a) financistas; b) especialistas em energia; c) especialistas em transporte; d) 
comerciantes; e) especialistas em cooperação, etc.); 4) especialidades técnicas (também aqui são necessários subgrupos: 
a) engenheiros; b) agrónomos; c) médicos, etc.); 5) professores universitários e seus assistentes, etc. etc. As 
informações sobre todos esses senhores deve vir de nossos departamentos e devem ser sintetizadas pelo departamento 
“Intelligentsia”. Devemos ter um dossiê sobre cada intelectual. [...] É preciso ter sempre em mente que o objetivo do 
nosso departamento não é somente o de expulsar ou o de prender os indivíduos, mas de contribuir para a elaboração de 
uma linha política geral com respeito aos especialistas: vigiá-los de perto, classificá-los, mas também promover os que 
estão prontos - não apenas em palavras, mas em atos - para apoiar o poder soviético.” 

Alguns dias mais tarde, Lenin enviou um longo memorando a Stalin, no qual ele retomava meticulosamente, e 
com o sentido maníaco do detalhe, a “limpeza definitiva” da Rússia de todos os socialistas, intelectuais, liberais e 
outros “senhores”: 

“Sobre a questão da expulsão dos mencheviques, dos socialistas populares, dos cadetes, etc. Gostaria de 
colocar algumas questões, pois essa medida, iniciada antes de minha partida, ainda não foi terminada. Foi decidido 
extirpar todos os socialistas populares? Pechekhonov, Miakotin, Gornfeld? Petrichtchev e os outros? Creio que todos 
eles deveriam ser expulsos. Eles são mais perigosos do que os SR porque são mais espertos. E também Potressov, 
Izgoiev e todos da revista Economista (Ozerov e muitos outros). Os mencheviques Rozanov (um médico ardiloso), 
Vigdortchik (Migulo ou alguma coisa parecida), Liubov Nikolaievna Radtchenko e sua jovem filha (no nosso 
entendimento, os piores inimigos do bolchevismo); N. A. Rojkov (esse deve ser expulso, ele é incorrigível). [...] A 
comissão Mantsev-Messing deveria estabelecer listas, e várias centenas desses senhores deveriam ser impiedosamente 
expulsos. Nós limparemos a Rússia de uma vez por todas. [...] Também, todos os autores da Casa dos Escritores e os da 
Casa do Pensamento (Pe-trogrado). Kharkov deve ser revistada dos pés à cabeça. Não temos a mínima idéia do que se 
passa por lá; trata-se, para nós, de um país estrangeiro. A cidade deve ser limpa radical e rapidamente, não muito mais 
tarde que o fim do processos dos SR. Ocupe-se dos autores e escritores de Petrogrado (seus endereços constam de O 
Novo Pensamento Russo, nº 4, 1922, p. 37) e também da lista de editores privados (p. 29). Isso é superimportante!” 


x 


6. Da trégua à “grande virada” 


Durante um pouco menos de cinco anos, do início de 1923 ao final de 1927, houve uma pausa nos confrontos 
entre o regime e a sociedade. As lutas pela sucessão de Lenin, morto em 24 de janeiro de 1924 - mas completamente 
afastado da política desde março de 1923, em seguida ao seu terceiro derrame cerebral - monopolizaram uma grande 
parte da atividade política dos dirigentes bolcheviques. Durante esses poucos anos, a sociedade tratou de suas feridas. 

No decorrer dessa trégua, a população camponesa - que representava mais de 85% de todo o país - tentou 
reatar as relações de comércio, negociar os frutos de seu trabalho e viver, de acordo com a bela fórmula do grande 
historiador do campesinato russo, Michael Confino, “como se a utopia camponesa funcionasse”. Essa “utopia 
camponesa”, que os bolcheviques facilmente qualificavam de eserovschina - termo cuja tradução mais aproximada 
seria “mentalidade socialista-revolucionária” -, repousava em quatro princípios que estiveram por várias décadas na 
raiz de todos os programas camponeses: o fim dos grandes proprietários rurais e a terra dividida em função do número 
de bocas a serem alimentadas; a liberdade de dispor livremente dos frutos do seu trabalho e a liberdade de comércio; 
um self-government camponês representado pela comunidade tradicional das cidades do campo; e a presença exterior 
do Estado bolchevique reduzida a sua mínima expressão - um soviete rural para um pequeno conjunto de povoados e 
uma unidade do Partido Bolchevique para um em cada cem povoados! 

Parcialmente reconhecidos pelo poder, tolerados momentaneamente como um símbolo de “retardo” num país 
de maioria camponesa, os mecanismos de mercado, interrompidos de 1914 a 1922, retornaram a funcionar. Cedo, 
recomeçaram as migrações sazonais em direção às grandes cidades, tão frequentes durante o antigo regime; com a 
indústria de Estado negligenciando o setor de bens de consumo, o artesanato rural obteve um notável êxito, a miséria e 
a fome tornaram-se cada vez mais raras e os camponeses começaram a saciar suas necessidades alimentares. 

Entretanto, a aparente calma desses poucos anos não poderia mascarar as profundas tensões que subsistiam 
entre o regime e uma sociedade que não havia esquecido a violência da qual fora vítima. Para os camponeses, ainda 
havia vários motivos de descontentamento. Os preços agrícolas estavam demasiadamente baixos, os produtos 


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manufaturados estavam caros e raros em demasia, e os impostos estavam exageradamente pesados. Comparados aos 
habitantes das cidades - principalmente os operários, que eram com fregiiência vistos como privilegiados -, os 
camponeses tinham a sensação de serem cidadãos de segunda categoria. Eles queixavam-se sobretudo dos inúmeros 
abusos de poder cometidos pelos representantes de base do regime soviético, formados na escola do “comunismo de 
guerra”. Eles continuavam submetidos à absoluta arbitrariedade de um poder local herdeiro tanto de uma certa tradição 
russa quanto das práticas terroristas dos anos precedentes. “Os aparelhos judiciário, administrativo e policial estão 
totalmente gangrenados pelo alcoolismo generalizado, pela prática corrente do suborno, [...] pelo burocra-tismo e por 
uma atitude de extrema grosseria em relação às massas camponesas”, reconhecia, no fim de 1925, um longo relatório 
da polícia política sobre “o estado da legalidade socialista no campo”. 

Apesar de condenar os abusos mais gritantes dos representantes do poder soviético, a maioria dos dirigentes 
bolcheviques não deixava de considerar o campo como uma terra incógnita perigosa, “um ambiente fervilhante de 
elementos kulaks, de socialistas revolucionários, de popes e de antigos proprietários rurais que ainda não foram 
eliminados”, segundo a imagem expressa num relatório do chefe da polícia política da província de Tula. 

Como demonstram os documentos do departamento de Informação da GPU, o mundo operário também 
continuava sob estreita vigilância. Grupo Social em reconstrução nos anos que se seguiram à guerra, à revolução e à 
guerra civil, o mundo operário estava sempre sob a suspeita de conservar ligações com o mundo hostil do campo. Os 
agentes infiltrados, presentes em cada empresa, seguiam de perto as conversas e os atos desviantes, “humores 
camponeses” que os operários, recém-chegados de trabalhos no campo, feitos durante as suas férias, supostamente 
traziam para a cidade. Os relatórios policiais dissecavam o mundo operário em “elementos hostis”, influenciados 
necessariamente por grupelhos contra-revolucionários, “elementos politicamente retardados”, geralmente oriundos do 
campo, e elementos dignos de serem conhecidos como “politicamente conscientes”. As interrupções de trabalho e as 
greves, muito pouco frequentes nesses anos de grande desemprego e relativa melhora do nível de vida para aqueles que 
estavam empregados, eram cuidadosamente analisadas, e seus mentores eram presos. 

Os documentos internos - hoje parcialmente acessíveis - da polícia política mostram que, após alguns anos de 
formidável expansão, essa instituição passou por dificuldades, causadas principalmente pela pausa no empreendimento 
voluntarista bolchevique de transformação da sociedade. Em 1924-1926, Dzerjinski chegou a ter de lutar com bastante 
firmeza contra alguns dirigentes bolcheviques que consideravam que seria preciso reduzir drasticamente os efetivos de 
uma polícia política cujas atividades estavam em franco declínio! Pela primeira e única vez até 1953, os efetivos da 
polícia política diminuíram expressivamente. Em 1921, a Tcheka empregava cerca de 105.000 civis e 180.000 militares 
nas diversas tropas especiais, incluindo os agentes de fronteira, as Tchekas atuando na rede ferroviária e os guardas de 
campos de concentração. Em 1925, esses efetivos foram reduzidos a apenas 26.000 civis e 63.000 militares. A esses 
números se juntam cerca de 30.000 agentes infiltrados, cujo número, em 1921, permanece desconhecido, em razão do 
estado atual da documentação. Em dezembro de 1924, Nikolai Bukharin escreveu a Feliks Dzerjinski: “Considero que 
devemos passar mais rapidamente a uma forma mais 'liberal' de poder soviético: menos repressão, mais legalidade, 
mais discussões, mais poder local (sob a direção do Partido naturaliter), etc.” 

Alguns meses mais tarde, em 1.º de maio de 1925, o presidente do Tribunal Revolucionário, Nikolai Krylenko, 
que havia presidido a farsa judiciária do processo dos socialistas-revolucionários, enviou ao Politburo uma longa nota 
na qual ele criticava os abusos da GPU que, segundo ele, ultrapassava os direitos que lhe foram concedidos pela lei. 
Vários decretos, assinados em 1922-1923, haviam efetivamente limitado a competência da GPU aos casos de 
espionagem, banditismo, moeda falsa e “contra-revolução”. Para esses crimes, a GPU era o único juiz, e seu Golegiado 
Especial podia pronunciar penas de deportação e de prisão domiciliar vigiada (até 3 anos), em campos de concentração, 
e mesmo a pena de morte. Em 1924, de cada 62.000 dossiês abertos pela GPU, um pouco mais de 52.000 foram 
transmitidos aos tribunais comuns. As jurisdições especiais da GPU haviam guardado mais de 9.000 casos, número 
considerável, haja vista a conjuntura política estável, lembrava Nikolai Krylenko, que concluía: 

“As condições de vida das pessoas deportadas e obrigadas a residir em buracos perdidos na Sibéria, sem o 
menor pecúlio, são pavorosas. Enviamos a esses lugares tanto jovens de 18 anos, vindos dos meios estudantis, quanto 
idosos de 70 anos, sobretudo os membros do clero e velhas senhoras que 'pertencem a classes perigosas para a 
sociedade'.” 

Krylenko também propunha a limitação do qualificativo “contra-revo-lucionário” apenas aos membros 
reconhecidos dos “partidos políticos que representem os interesses da burguesia”, a fim de evitar “uma interpretação 
abusiva do termo pelos serviços da GPU”. 

Diante dessas críticas, Dzerjinski e seus adjuntos não deixaram de alimentar os dirigentes mais importantes do 
país, principalmente Stalin, com relatórios alarmistas sobre a persistência de problemas no interior, e sobre ameaças 
militares orquestradas pela Polônia, países bálticos, Grã-Bretanha, França e Japão. Segundo o relatório de atividades da 
GPU para o ano de 1924, a polícia política teria: 

- prendido 11.453 “bandidos”, dos quais 1.858 foram imediatamente executados; 


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- detido 926 estrangeiros (dos quais 357 foram expulsos) e 1.542 “espiões”; 

- impedido um “levante de guardas brancos” na Criméia (132 pessoas executadas nas operações ligadas a esse 
caso); 

- executado 81 “operações” contra grupos anarquistas, levando a 266 prisões; 

- “liquidado” 14 organizações mencheviques (540 prisões), 6 organizações socialistas-revolucionárias de 
direita (152 prisões), 7 organizações socialistas-revolucionárias de esquerda (52 prisões), 117 organizações “diversas 
de intelectuais” (1.360 prisões), 24 organizações monarquistas (1.245 prisões), 85 organizações “clericais” e “sectárias” 
(1.765 prisões) e 675 grupos kulaks (1.148 prisões); 

- expulsado em duas grandes operações, em fevereiro e julho de 1924, cerca de 4.500 “ladrões”, “recidivistas” 
e “nepmen” (comerciantes e pequenos empreendedores privados) de Moscou e de Leningrado; 

- colocado “sob vigilância individual” 18.200 pessoas “perigosas à sociedade”: 

- vigiado 15.501 empresas e administrações diversas; 

- lido 5.078.174 canas e correspondências diversas. 

Em que medida esses dados, cuja precisão escrupulosa chega ao ridículo burocrático, são confiáveis? Incluídos 
no projeto orçamentário da GPU para 1925, eles tinham função de demonstrar que a polícia política não baixava a 
guarda diante de todas as ameaças exteriores e que merecia os fundos que lhe foram concedidos. Eles não deixam de 
ser preciosos para os historiadores, pois, além dos números, da arbitrariedade das categorias, eles revelam a 
permanência dos métodos, dos inimigos potenciais, de uma organização menos ativa momentaneamente, mas sempre 
operacional. 

Apesar dos cortes no orçamento e de algumas críticas vindas de dirigentes bolcheviques contraditórios, o 
ativismo da GPU só poderia ser encorajado pelo recrudescimento da legislação penal. Com efeito, os Princípios 
Fundamentais da Legislação Penal da URSS, adotados em 31 de outubro de 1924, assim como o novo Código Penal de 
1926, ampliam sensivelmente a definição do crime contra-revolucionário, codificando a noção de “pessoa perigosa à 
sociedade”. A lei incluía, entre os crimes contra-revolucionários, todas as ati-vidades que, sem ter por objetivo direto o 
enfraquecimento ou a derrubada do poder soviético, eram por si sós, e “notoriamente para o delinquente”, um “atentado 
às conquistas políticas ou econômicas da revolução proletária”. Assim, a lei sancionava não somente as intenções 
diretas, como também as intenções eventuais ou indiretas. 

Aliás, era reconhecida como “perigosa à sociedade [...] toda pessoa que houvesse cometido um ato perigoso 
para a sociedade, ou cujas relações com os meios criminosos ou ainda as atividades passadas representem perigo”. As 
pessoas designadas segundo esses critérios bastante extensíveis podiam ser condenadas, mesmo em caso de ausência de 
toda culpa. Era claramente detalhado que “a Corte pode aplicar as medidas de proteção social às pessoas reconhecidas 
como perigosas à sociedade, seja por haverem cometido um determinado delito, seja no caso em que, indiciadas sob a 
acusação de terem cometido um determinado delito, elas são inocentadas pela Corte, mas reconhecidas como perigosas 
à sociedade”. Todas essas disposições, codificadas em 1926 - entre as quais figurava o famoso artigo 58 do Código 
Penal, com suas 14 alíneas definindo os crimes contra-revolucionários - reforçavam a fundamentação legal do terror. 
Em 4 de maio de 1926, Dzerjinski enviou a seu adjunto lagoda uma carta na qual ele expunha um grande programa de 
“juta contra a especulação”, bastante revelador dos limites da NPE e da continuidade do “espírito de guerra civil” entre 
os mais importantes dirigentes bolcheviques: 

“A luta contra a 'especulação' está hoje revestida de uma extrema importância... É indispensável limpar 
Moscou de seus elementos parasitas e especuladores. Pedi a Pauker para que ele reunisse toda a documentação 
disponível sobre a catalogação dos habitantes de Moscou em relação a esse problema. Até agora, não recebi nada dele. 
Você não acha que deveríamos criar na GPU um departamento especial de colonização, que seria financiado por um 
fundo especial alimentado pelos confiscos...? É preciso povoar as zonas inóspitas de nosso país com esses elementos 
parasitas (e suas famílias) de nossas cidades, seguindo um plano preestabelecido e aprovado pelo governo. Devemos a 
todo custo limpar nossas cidades de centenas de milhares de especuladores e de parasitas que nelas prosperam... Esses 
parasitas nos devoram. Por causa deles, não há mercadorias para os camponeses, por causa deles os preços aumentam e 
o nosso rublo baixa. A GPU deve empenhar-se inteiramente na resolução desse problema, usando toda a sua energia.” 

Entre as especificidades do sistema penal soviético figurava a existência de dois sistemas distintos de 
indiciamento em matéria criminal, um judiciário e outro administrativo, e dois sistemas de locais de detenção, um 
administrado pelo Comissariado do Povo para o Interior, outro pela GPU. Além das prisões tradicionais onde estavam 
encarceradas as pessoas condenadas por um processo judicial “comum”, existia um conjunto de campos administrados 
pela GPU, onde estavam presas as pessoas condenadas pelas jurisdições especiais da polícia política por terem 
cometido um dos crimes que diziam respeito a essa instituição: contra-revolução sob todas as suas formas, grande 
banditismo, moeda falsa e delitos cometidos pelos membros da polícia política. 

Em 1922, o governo propôs à GPU a instalação de um grande campo no arquipélago de Solovki, cinco ilhas do 
Mar Branco, na costa de Arkhangelsk, sendo que a principal delas abrigava um dos grandes monastérios da Igreja 


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Ortodoxa russa. Depois de ter expulsado os monges, a GPU organizou no arquipélago um conjunto de campos, 
reunidos sob a sigla SLON (Campos Especiais de Solovki). Os primeiros efetivos, vindos dos campos de Kholmogory 
e de Pertaminsk, chegaram a Solovki no início do mês de julho de 1923. No fim desse ano, já havia 4.000 detentos; em 
1927, 15.000 e, no final de 1928, cerca de 38.000. 

Uma das particularidades do conjunto penitenciário de Solovki era a sua autogestão. Além do diretor e de 
alguns poucos responsáveis, todas as funções do campo eram ocupadas por detentos. Tratava-se de uma esmagadora 
maioria de antigos colaboradores da polícia política, condenados por abusos especialmente graves. Praticada por essa 
espécie de indivíduo, a autogestão era o símbolo da mais completa arbitrariedade que, muito rapidamente, agravou a 
condição quase privilegiada, herdeira legítima do Antigo Regime, da qual se beneficiavam alguns detentos que haviam 
obtido o estatuto de prisioneiro político. Com efeito, sob a NPE, a administração da GPU distinguia três categorias de 
prisioneiros. 

A primeira reunia os políticos, ou seja, quase que exclusivamente os membros dos antigos Partidos 
Menchevique, Socialista Revolucionário e Anarquista; esses detentos tinham, em 1921, conseguido de Dzerjinski - ele 
próprio havia sido durante muito tempo prisioneiro político do regime czaris-ta, tendo passado cerca de dez anos na 
prisão ou no exílio - um regime político relativamente clemente: eles recebiam a melhor alimentação, chamada de 
“ração política”, conservavam alguns objetos pessoais, podiam receber jornais e revistas. Eles viviam em comunidade 
e, sobretudo, estavam livres do trabalho forcado. Esse estatuto privilegiado foi suprimido no final dos anos 20. 

A segunda categoria, a maior delas, reunia os “contra-revolucionários”: membros dos partidos políticos não 
socialistas ou anarquistas, membros do clero, antigos oficiais do exército czarista, antigos funcionários, cossacos, 
participantes das revoltas de Kronstadt e de Tambov, e toda outra pessoa condenada pelo artigo 58 do Código Penal. 

A terceira categoria reunia os prisioneiros comuns condenados pela GPU (bandidos, falsados) e antigos 
tchekistas condenados por diversos crimes e delitos pela sua instituição. Os contra-revolucionários, obrigados a 
coabitarem com os prisioneiros comuns, que eram os que ditavam a lei no interior dos campos, estavam submetidos às 
mais completas arbitrariedades, à fome, ao frio extremo no inverno, aos mosquitos no verão - uma das torturas mais 
frequentes consistia em amarrar os prisioneiros nus nos bosques, como pasto para os mosquitos, particularmente 
numerosos e temidos nessas ilhas setentrionais repletas de lagos. Para passar de um setor a outro do campo, lembrava- 
se um dos mais célebres prisioneiros de Solovki, o escritor Variam Chalamov, os detentos exigiam que as próprias 
mãos fossem atadas nas costas e que isso fosse expressamente mencionado no regulamento: “Era a única maneira de 
autodefesa dos detentos contra a lacónica fórmula 'morto durante uma tentativa de fuga'” 

Foi nos campos de Solovki que houve a verdadeira implantação, após os anos de improvisação durante a 
guerra civil, do sistema de trabalho forçado que a partir de 1929 teria um desenvolvimento fulgurante. Até 1925, os 
detentos eram ocupados de maneira bem pouco produtiva em diversos trabalhos no próprio interior dos campos. A 
partir de 1926, a administração decidiu estabelecer contratos de produção com um certo número de organismos de 
Estado, explorando mais “racionalmente” o trabalho forçado, tonando-o fonte de rendimentos ao invés de ser, de 
acordo com a ideologia dos primeiros campos de “trabalho corretivo” dos anos 1919-1920, fonte de “reeducação”. 
Reorganizados sob a sigla USLON (Direção dos Campos Especiais do Norte), os campos de Solovki se espalharam 
pelo continente, a começar pelo litoral do Mar Branco. Em 1926-1927, foram criados novos campos perto da 
embocadura do Petchora, em Kem e em outras localidades de um litoral inóspito, mas que possuíam uma região 
costeira bastante rica em florestas. Os detentos eram encarregados da execução de um determinado programa de 
produção, principalmente a derrubada e o corte da madeira. O crescimento exponencial dos programas de produção 
rapidamente necessitou de um número cada vez maior de detentos. Tal crescimento conduziu a uma reforma essencial 
no sistema de detenção: a transferência para os campos de trabalho de todos os detentos condenados a penas superiores 
a três anos. Essa medida iria permitir um formidável desenvolvimento do sistema de campos de trabalho. Laboratório 
experimental do trabalho forçado, os “campos especiais” do arquipélago de Solovki eram a verdadeira matriz de outro 
arquipélago em gestação, um imenso arquipélago de dimensões continentais: o Arquipélago do Gulag. 

As atividades cotidianas da GPU, com seu montante anual de alguns milhares de condenações a penas em 
campos de concentração ou de prisão domiciliar, não excluífam um certo número de operações repressivas específicas 
de grande porte. Durante os anos calmos da NPE, de 1923 a 1927, foi de fato nas repúblicas periféricas da Rússia, na 
região Transcaucasiana e na Ásia Central, que ocorreram os episódios de repressão mais frequentes e sangrentos. Esses 
países haviam bravamente resistido à conquista russa no século XIX e só tardiamente foram reconquistados pelos 
bolcheviques: o Azerbaijão em abril de 1920, a Arménia em dezembro de 1920, a Geórgia em fevereiro de 1921, o 
Daguestão em fins de 1921, e o Turcomenistão, com Bukhara, no outono de 1920. Eles continuaram a oferecer uma 
grande resistência à sovietização. “Controlamos apenas as principais cidades, ou melhor, o centro das principais 
cidades”, escreveu, em janeiro de 1923, Peters, um plenipotenciário da Tcheka enviado ao Turcomenistão. De 1918 ao 
final dos anos 20 - e, em algumas regiões, estendendo-se até 1935-1936 -, a maior parte da Ásia Central, com a exceção 
das cidades, foi controlada por basmatehis. O termo basmatchis (“bandoleiros”, na língua usbeque) era atribuído pelos 


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russos aos diversos tipos de guerrilheiros, sedentários, mas também aos nómades, usbecos, quirguizes e tur-comanos, 
que agiam de modo independente uns dos outros em várias regiões. 

O principal foco de revolta situava-se no vale de Fergana. Em setembro de 1920, após a conquista de Bukhara 
pelo Exército Vermelho, o levante se estendeu às regiões oriental e meridional do antigo Emirado de Bukhara e à 
região setentrional das estepes turcomanas. No início de 1921, o estado-maior do Exército Vermelho estimava em 30 
mil o número de basmatchis armados. A direção do movimento era heterogénea, formada por líderes locais - oriundos 
das altas classes sociais dos povoados ou de um clã -, por líderes religiosos tradicionais, mas também por nacionalistas 
muçulmanos estrangeiros à região, tais como Enver Pacha, antigo ministro da defesa na Turquia, morto em 1922 num 
confronto com os destacamentos da Tcheka. 

O movimento basmatchi era um levante espontâneo, instintivo, contra “o infiel”, “o opressor russo”, o antigo 
inimigo de volta sob uma nova forma, que se propunha não somente a apropriar-se das terras e do gado, mas também a 
profanar o mundo espiritual do muçulmano. Guerra de “pacificação” de caráter colonial, a luta contra os basmatchis 
mobilizou, durante mais de dez anos, uma parte importante das forcas armadas e das tropas especiais da polícia política 
- da qual um dos principais departamentos era precisamente o Departamento Oriental. No presente momento é 
impossível avaliar, mesmo de maneira aproximada, o número de vítimas dessa guerra. 

O segundo grande setor do Departamento Oriental da GPU era o Transcaucásio. Na primeira metade dos anos 
20, o Daguestão, a Geórgia e a Chechênia foram particularmente atingidos pela repressão. O Daguestão resistiu à 
penetração soviética até fins de 1921. Sob a direção do xeque Uzun Hadji, a confraria muçulmana dos Nakchbandis 
encabeçou uma grande revolta de montanheses, e a luta assumiu um aspecto de guerra santa contra o invasor russo. Ela 
durou pouco mais de um ano, mas algumas regiões só foram “pacificadas” em 1923-1924, através de frequentes 
bombardeios e massacres de civis. 

Após três anos de independência sob um governo menchevique, a Geórgia foi ocupada pelo Exército 
Vermelho em fevereiro de 1921, mas permaneceu, como chegou a confessar Alexandre Miasnikov, o secretário do 
Comitê do Partido Bolchevique do Transcaucásio, “um caso bastante árduo”. O Partido Bolchevique local, esquelético, 
que em três anos de poder mal conseguiu recrutar dez mil pessoas, confrontava-se com uma camada intelectual e 
nobiliária de cerca de cem mil pessoas, tremendamente antibolchevique, e com ramificações mencheviques bastante 
fortes, uma vez que o Partido Menchevique chegou a possuir, em 1920, mais de 60 mil militantes. Apesar do terror 
exercido pela todo-poderosa Tcheka da Geórgia, muito independente de Moscou e dirigida por Lavrenti Beria - um 
jovem dirigente policial de 25 anos, votado a um futuro brilhante - os dirigentes mencheviques exilados conseguiram, 
no fim de 1922, organizar, com a ajuda de outros partidos antibolcheviques, um Comitê secreto pela independência da 
Geórgia, logo preparando um levante. Começando em 28 de agosto de 1924, na pequena cidade de Tchiatura, esse 
levante, cujo grosso dos participantes era constituído por camponeses da região de Gurie, em poucos dias ganhou cinco 
dos 25 distritos georgianos. Diante de forças superiores, dotadas de artilharia e de aviação, a insurreição foi esmagada 
em uma semana. Sergo Ordjonikidze - primeiro secretário do Comitê do Partido Bolchevique do Transcaucásio - e 
Lavrenti Beria usaram esse levante como pretexto para “acabar de uma vez por todas com o menchevismo e com a 
nobreza georgiana”. Segundo dados que só recentemente vieram a público, 12.578 pessoas foram fuziladas de 29 de 
agosto a 5 de setembro de 1924. A dimensão da repressão foi tamanha, que mesmo o Politburo comoveu-se. A direção 
do Partido enviou a Ordjonikidze uma repreensão, pedindo-lhe para que não praticasse execuções em massa e 
desproporcionadas nem execuções políticas sem ter sido expressamente autorizado pelo Comitê Central. Entretanto, as 
execuções sumárias continuaram durante vários meses. No Plenário do Comitê Central reunido em outubro de 1924, 
Sergo Ordjonikidze concedeu: “Talvez tenhamos exagerado, mas agora é tarde!” 

Um ano após a repressão do levante georgiano de agosto de 1924, o regime lançou uma grande operação de 
“pacificação” na Chechênia, onde todos podiam dizer que o poder soviético não existia. De 27 de agosto a 15 de 
setembro de 1925, mais de dez mil homens das tropas regulares do Exército Vermelho, sob a direção do general 
Uborevitch, apoiadas pelas unidades especiais da GPU, iniciaram uma tentativa de desarmamento dos guerrilheiros 
chechenos que dominavam o interior do país. Dezenas de milhares de armas foram apreendidas, cerca de mil 
“bandidos” foram detidos. Diante da resistência da população, o dirigente da GPU, Unchlicht, reconheceu que “as 
tropas tiveram de recorrer à artilharia pesada e ao bombardeio dos esconderijos dos bandidos mais obstinados”. No 
final dessa nova operação de “pacificação”, feita durante o que se convencionou chamar “o apogeu da NPE”, Unchlicht 
concluía seu relatório dessa maneira: “Como demonstrou a experiência da luta contra os basmatchis no Turcomenistão, 
contra o banditismo na Ucrânia, na província de Tambov e em outras regiões, a repressão militar só é eficaz quando ela 
for seguida de uma sovietização do interior profundo do país.” 

A partir do fim de 1926, após a morte de Dzerjinski, a GPU, dirigida desde então por Viatcheslav 
Rudolfovitch Menjinski - braço direito do fundador da Tcheka e de origem polonesa, como Dzerjinski -, parece ter sido 
novamente solicitada por Stalin, que preparava sua ofensiva política contra Trotski e, ao mesmo tempo, contra 
Bukharin. Em janeiro de 1927, a GPU recebeu a ordem de acelerar a catalogação dos “anti-soviéticos e elementos 


a! 


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perigosos à sociedade” no campo. Em um ano, o número de pessoas catalogadas passou de 30.000 para cerca de 
72.000. Em setembro de 1927, a GPU lançou, em várias províncias, uma boa quantidade de campanhas para a prisão de 
kulaks e outros “elementos perigosos à sociedade”. A posteriori, essas operações aparecem também como exercícios 
preparatórios para as grandes varreduras de kulaks durante as “deskulakizações” do inverno de 1929-1930. 

Em 1926-1927, a GPU se mostrou igualmente muito ativa na caça aos opositores do comunismo, etiquetados 
como “zinovievistas” ou “trotskistas”. A prática de catalogar e perseguir os opositores do comunismo apareceu muito 
cedo, desde 1921-1922. Em setembro de 1923, Dzerjinski havia proposto, para “fortalecer a unidade ideológica do 
Partido”, que os comunistas se comprometessem em transmitir à polícia política toda informação que lhes passasse 
pelas mãos sobre a existência de facções ou desvios do seio do Partido. Essa proposição havia suscitado violentos 
protestos da parte de vários dos responsáveis, entre eles Trotski. Apesar disso, o hábito de mandar vigiar os opositores 
generalizou-se no decorrer dos anos seguintes. O expurgo da organização comunista de Leningrado, dirigido por 
Zinoviev, em janeiro-fevereiro de 1926, implicou intensamente os serviços da GPU. Os opositores não somente foram 
excluídos do Partido, como várias centenas deles foram exilados em cidades longínquas do país, lugares em que seus 
destinos se tornaram bastante precários - uma vez que ninguém ousava propor-lhes qualquer espécie de trabalho. Em 
1927, a caça aos opositores trotskistas - alguns milhares no país - mobilizou, durante mais de um mês, uma parte dos 
serviços da GPU. Todos foram catalogados; centenas de trotskistas ativos foram detidos, depois exilados através de 
uma simples medida administrativa. Em novembro de 1927, todos os principais dirigentes de oposição, Trotski, 
Zinoviev, Kamenev, Radek e Rakovski foram excluídos do Partido e depois detidos. Todos os que se recusaram a fazer 
sua autocrítica pública foram exilados. Em 19 de janeiro de 1928, o Pravda anunciou a partida de Moscou de Trotski e 
de um grupo de 30 opositores, exilados em Alma-Ata. Um ano mais tarde, Trotski foi banido da URSS. Com a 
transformação de um dos principais artífices do terror bolchevique em “contra-revolucionário”, uma nova etapa fora 
atingida, agora sob a responsabilidade do novo homem forte do Partido, Stalin. 

No início de 1928, justo após ter eliminado a oposição trotskista, a maioria stalinista do Politburo decidiu 
romper a trégua para com uma sociedade que parecia distanciar-se cada vez mais dos caminhos para os quais os 
bolcheviques queriam conduzi-la. O inimigo principal continuava a ser, como dez anos antes, a imensa maioria dos 
camponeses, pressentida como uma massa hostil, incontrolável e descontrolada. Assim, começou o segundo ato da 
guerra contra a população camponesa, que, como observou o historiador Andrea Graziosi, “era, entretanto, bastante 
diferente da primeira. A iniciativa estava, a partir de então, inteiramente nas mãos do Estado, e o ator social nada podia 
fazer senão reagir, cada vez com menos força, aos ataques recebidos”. 15 

Mesmo que, globalmente, a agricultura tenha se reerguido desde a catástrofe dos anos 1918-1922, “o inimigo 
camponês” era mais fraco e o Estado mais forte no fim dos anos 20 do que no início da década. Isso é demonstrado, por 
exemplo, pela melhor informação da qual dispunham as autoridades sobre o que se passava nos povoados, pela 
catalogação dos “elementos nocivos à sociedade” que permitiu à GPU a condução das primeiras varreduras durante a 
deskulakização, pela erradicação progressiva, mas real, do “banditismo”, pelo desarmamento dos camponeses, pela 
progressão constante da percentagem de reservistas presentes nos períodos de convocação militar e pelo 
desenvolvimento de uma rede escolar mais equipada. Como revelam a correspondência entre os dirigentes 
bolcheviques e os estenogramas das discussões nos altos escalões do Partido, a direção stalinista - assim como, aliás, 
seus opositores, Bukharin, Rykov e Kamenev- media perfeitamente, em 1928, os riscos de um novo ataque contra a 
população camponesa. “Teremos uma guerra camponesa, tal como em 1918-1919”, preveniu Bukharin. Stalin estava 
pronto para isso, qualquer que fosse o preço a ser pago. Ele sabia que dessa vez o regime sairia vencedor. 

A “crise das coletas” do fim de 1927 forneceu a Stalin o pretexto procurado. O mês de novembro de 1927 foi 
marcado por uma espetacular queda nas entregas de produtos agrícolas aos organismos de coleta do Estado, tomando 
proporções catastróficas em dezembro. Em janeiro de 1928, foi preciso render-se à evidência: apesar da boa colheita, os 
camponeses haviam entregue somente 4,8 milhões de toneladas, em lugar dos 6,8 milhões do ano precedente. A baixa 
nos preços oferecidos pelo Estado, o alto custo e a escassez dos produtos manufaturados, a desorganização das agências 
de coleta, assim como os rumores de guerra, isto é, o descontentamento geral da população camponesa para com o 
regime, explicavam essa crise, que Stalin apressou-se em qualificar de “greve dos kulaks”. 

O grupo stalinista tomou todos esses fatos como o pretexto para novamente recorrer às requisições e a toda 
uma série de medidas repressivas já experimentadas no tempo do comunismo de guerra. Stalin foi pessoalmente à 
Sibéria. Outros dirigentes, tais como Andreiev, Mikoian, Postychev e Kossior, partiram para as grandes regiões 
produtoras de cereais, a região das terras negras, a Ucrânia e o Cáucaso do Norte. Em 14 de janeiro de 1928, o Polit- 
buro enviou uma circular às autoridades locais instruindo-as a “prenderem os especuladores, os kulaks e outros 
desorganizadores do mercado e da política dos preços”. Plenipotenciários - o próprio termo já lembrava o tempo das 
requisições dos anos 1918-1921 - e os destacamentos militares comunistas foram enviados ao campo com os objetivos 
de afastar as autoridades locais consideradas complacentes com os kulaks e de descobrir o esconderijo dos excedentes, 


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se necessário com a ajuda dos camponeses pobres, aos quais foi prometido um quarto de todos os cereais encontrados 
com os “ricos”. 

Entre o arsenal de medidas destinadas a penalizar os camponeses recalcitrantes a entregar - nos prazos 
prescritos e por preços derrisórios, de três a quatro vezes inferiores aos do mercado - seus produtos agrícolas, figurava a 
multiplicação, por dois, três ou cinco, das quantidades inicialmente fixadas. O artigo 107 do Código Penal, que previa 
penas de três anos de prisão para toda ação que contribuísse para o aumento dos preços, foi intensamente utilizado. 
Enfim, os impostos sobre os kulaks foram multiplicados por dez em dois anos. Outra medida foi o fechamento dos 
mercados, o que evidentemente não atingiu somente os camponeses abastados. Em poucas semanas, todas essas 
medidas romperam abruptamente a trégua que, desde 1922-1923, fora estabelecida tanto bem quanto mal entre o 
regime e a população camponesa. As requisições e as medidas repressivas apenas provocaram o agravamento da crise; 
de imediato, as autoridades conseguiram, com o uso da força, uma cólera muito pouco inferior aquela de 1927; mas, 
para o ano seguinte, como no tempo do comunismo de guerra, os camponeses reagiram e diminuíram a semeadura. 

A “crise das coletas” do inverno de 1927-1928 teve um papel crucial na guinada dos eventos que se 
sucederam; com efeito, Stalin tirou várias conclusões sobre a necessidade de criar “fortalezas do socialismo” no campo 
- kol-khozes e sovkhozes gigantes -, de coletivizar a agricultura para poder controlar diretamente a produção agrícola e 
os produtores sem ter de passar pelas leis do mercado, e de se livrar de uma vez por todas dos kulaks, “liquidando-os 
enquanto classe”. 

Em 1928, o regime também rompeu com a trégua acordada com uma outra categoria social, os spetzy, esses 
“especialistas burgueses” oriundos da intelligentsia do Antigo Regime que, no fim dos anos 20, ainda ocupavam a 
imensa maioria dos cargos executivos tanto nas empresas quanto nas repartições públicas. Durante o plenário do 
Comitê Central de abril de 1928, foi anunciada a descoberta de “sabotagem industrial” na região de Chakhty, uma bacia 
carbonífera de Donbass, no seio do truste Donugol, que empregava “especialistas burgueses” e mantinha relações com 
os meios financeiros ocidentais. Algumas semanas mais tarde, 53 acusados, com a maioria de engenheiros e executivos 
de empresa, compareceram ao primeiro processo político público desde o processo dos socialistas-revolucionários de 
1922. Onze dos acusados foram condenados à morte, e cinco foram executados. Esse processo exemplar, relatado pela 
imprensa durante muito tempo, ilustrava um dos principais mitos do regime, o do “sabotador-pago-pelos-estrangeiros”, 
que iria servir para mobilizar militantes e denunciadores da GPU, “explicando” todas as fraquezas da economia, além 
de permitir a “requisição” de executivos para os novos “bureaux especiais de construção da GPU”, tornados célebres 
sob o nome charachki. Milhares de engenheiros e de técnicos condenados por sabotagem pagaram suas penas em 
canteiros de obras e em empresas de primeiro plano. Nos meses que se seguiram ao processo de Chakhty, o 
departamento econômico da GPU fabricou várias dezenas de processos similares, especialmente na Ucrânia. Apenas no 
complexo metalúrgico de lugostal em Dniepropetrovsk, 112 executivos foram presos no decorrer do mês de maio de 
1928. 

Os executivos industriais não foram os únicos visados pela grande operação antiespecialistas lançada em 1928. 
Vários estudantes e professores de origem “nociva à sociedade” foram excluídos do ensino superior durante uma das 
numerosas campanhas de expurgo das universidades e de promoção de uma nova “intelligentsia vermelha e proletária”. 

O recrudescimento da repressão e as dificuldades econômicas dos últimos anos da NPE, marcados por um 
desemprego crescente e por um aumento da delinquência, tiveram como resultado um crescimento espetacular do 
número de condenados penais: 578.000 em 1926; 709.000 em 1927; 909.000 em 1928; e 1.178.000 em 1929. Para 
conter esse fluxo que entupia as prisões que contavam com apenas 150 mil lugares em 1928, o governo adotou duas 
decisões importantes. A primeira, através do decreto de 26 de março de 1928, propunha, para os delitos menores, a 
substituição da reclusão de curta duração por trabalhos corretivos efetuados sem remuneração “nas empresas, nos 
canteiros de obras e nas explorações florestais”. A segunda medida, tomada pelo decreto de 27 de junho de 1929, teria 
enormes consequências. Com efeito, ela previa a transferência de todos os detentos condenados a penas maiores a três 
anos para os campos de trabalho que tivessem como objetivo “a valorização das riquezas naturais das regiões orientais 
e setentrionais do país”. Essa idéia já pairava no ar há vários anos. A GPU engajou-se num grande programa de 
produção de madeira para exportação; em várias oportunidades, ela já havia solicitado mão-de-obra suplementar à 
direção principal dos locais de detenção do Comissariado do Povo para o Interior, que era quem administrava as prisões 
comuns; com efeito, “seus” próprios detentos dos campos especiais de Solovki, que chegavam a 38.000 em 1928, não 
constituíam um número suficiente para realizar a produção prevista. 

A preparação do primeiro plano quinquenal trouxe à ordem do dia as questões de distribuição da mão-de-obra 
e do cultivo das regiões inóspitas, mas ricas em recursos naturais. Desse ponto de vista, a mão-de-obra penal até então 
inutilizada podia tornar-se, com a condição de ser bem explorada, uma verdadeira riqueza, cujo controle e gestão 
seriam fontes de rendimentos, de influência e de poder. Os dirigentes da GPU, em particular Menjinski e seu adjunto 
lagoda, apoiados por Stalin, estavam bem conscientes dos riscos. Eles implementaram, a partir do verão de 1929, um 
plano ambicioso para a “colonização” da região de Narym, que cobria 350 mil quilómetros quadrados de taiga na 


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Sibéria Ocidental, e não cessaram de reclamar a aplicação direta do decreto de 27 de junho de 1929. Foi nesse contexto 
que nasceu a idéia da “deskulakização”, ou seja, da deportação em massa de todos os pretensos camponeses abastados, 
os kulaks, que só podiam, segundo se considerava nos meios oficiais, fazer uma violenta oposição à coletivização. 

Entretanto, foi necessário um ano inteiro para que Stalin e seus partidários vencessem todas as resistências, 
mesmo as interiores ao Partido, à política da coletivização forçada, da deskulakização e da industrialização acelerada, 
três capítulos inseparáveis de um programa coerente de uma violenta transformação da economia e da sociedade. Esse 
programa baseava-se ao mesmo tempo na interrupção dos mecanismos de mercado e na valorização das riquezas 
naturais das regiões inóspitas do país, graças ao trabalho forçado de milhares de proscritos, deskulakizados e outras 
vítimas dessa “segunda revolução”. 

A oposição dita “de direita”, conduzida principalmente por Rykov e por Bukharin, considerava que a 
coletivização só poderia desembocar na “exploração militar e feudal” da população camponesa, na guerra civil, na 
irrupção do terror, no caos e na fome; ela foi interrompida em abril de 1929. No decorrer do verão de 1929, os 
“direitistas” foram cotidianamente atacados por uma campanha extremamente violenta na imprensa, que os acusava de 
“colaboração com os elementos capitalistas” e de “conluio com os trotskistas”. Totalmente desacreditados, os 
opositores fizeram publicamente sua autocrítica no plenário do Comitê Central de novembro de 1929. 

Enquanto os diversos episódios da luta entre os partidários e os opositores do abandono da NPE se 
desenrolavam nos altos escalões do Partido, o país afundava numa crise econômica cada vez mais profunda. Os 
resultados agrícolas de 1928-1929 foram catastróficos. A despeito do recurso sistemático a um grande arsenal de 
medidas coercitivas que atingiam o conjunto da população camponesa - pesadas multas, penas de prisão para aqueles 
que se recusavam a vender a sua produção aos organismos do Estado -, a campanha de coleta do inverno de 1928-1929 
obteve bem menos cereais do que a campanha precedente, criando um clima de extrema tensão no campo. A GPU 
recenseou, de janeiro de 1928 a dezembro de 1929, ou seja, antes da coletivização forçada, mais de 1.300 distúrbios e 
“manifestações de massa” no campo, durante os quais dezenas de milhares de camponeses foram detidos. Um outro 
dado dá conta do clima que reinava então no campo: em 1929, mais de 3.200 funcionários soviéticos foram vítimas de 
“atos terroristas”. Em fevereiro de 1929, os cartões de racionamento que haviam desaparecido desde o início da NPE 
reapareceram nas cidades onde uma penaria generalizada se instalara desde que as autoridades haviam fechado a maior 
parte dos pequenos comércios e tendas de artesãos, qualificados como empresas “capitalistas”. 

Para Stalin, a situação crítica da agricultura devia-se à ação dos kulaks e de outras forças hostis que se 
preparavam para “minar o regime soviético”. A aposta era clara: ou os “capitalistas rurais” ou os kolkhozes! Em junho 
de 1929, o governo anunciou o início de uma nova fase, aquela da “coletivização em massa”. Os objetivos do primeiro 
plano quinquenal, ratificados em abril pela XVI Conferência do Partido, foram ampliados. O plano previa inicialmente 
a coletivização de cinco milhões de moradias, ou seja, cerca de 20% das unidades de produção, até o fim do 
quinquénio. Em junho, anunciou-se um objetivo de oito milhões de moradias somente para o ano de 1930; em 
setembro, já era de 13 milhões! Durante o verão de 1929, as autoridades mobilizaram dezenas de milhares de 
comunistas, de sindicatos, de membros das juventudes comunistas (os komsomols), de operários e de estudantes, 
enviados aos povoados, apoiados pelos responsáveis locais dos partidos e pelos agentes da GPU. As pressões sobre os 
camponeses amplificavam-se gradativamente, enquanto as organizações locais do Partido rivalizavam em empenho 
para bater os recordes de coletivização. Em 31 de outubro de 1929, o Pravdacon-vocou à “coletivização total”, sem 
nenhum limite para o movimento. Uma semana mais tarde, durante o 129 aniversário da Revolução, Stalin publicou seu 
famoso artigo, “A Grande Virada”, baseado em uma apreciação fundamentalmente enganosa, segundo a qual “o 
camponês médio virou-se para os kolkhozes”. A NPE deixava de viver. 


7. Coletivização forçada e deskulakização 


Como confirmam os arquivos hoje acessíveis, a coletivização forçada do campo foi uma verdadeira guerra 
declarada pelo Estado soviético contra toda uma nação de pequenos produtores. Mais de dois milhões de camponeses 
deportados, dos quais 1.800.000 apenas em 1930-1931, seis milhões mortos de fome, centenas de milhares mortos 
durante a deportação: esses números dão a medida da tragédia humana que foi o “grande assalto” contra os 
camponeses. Longe de limitar-se ao inverno de 1929-1930, essa guerra durou pelo menos até meados dos anos 30, 
culminando nos anos 1932-1933, marcados por uma fome terrível, deliberadamente provocada pelas autoridades para 
quebrar a resistência dos camponeses. A violência exercida contra os camponeses permitiu experimentar métodos 
posteriormente aplicados a outros grupos sociais. Nesse sentido, ela constitui uma etapa decisiva no desenvolvimento 
do Terror stalinista. 

Em seu relatório de novembro de 1929 ao Plenário do Comitê Central, Viatcheslav Molotov declarara: “A 
questão do ritmo da coletivização não se coloca no contexto do plano. [...] Faltam novembro, dezembro, janeiro, 
fevereiro e março: quatro meses e meio durante os quais, se os Imperialistas não nos atacarem diretamente, devemos 


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efetuar um avanço decisivo no domínio da economia e da coletivização”. As decisões do plenário apoiaram esse passo 
adiante. Uma comissão elaborou um novo calendário de coletivização, que foi promulgado em 5 de janeiro de 1930, 
após várias ampliações em seus objeti-vos. De acordo com esse calendário, o Cáucaso do Norte, o Baixo e Médio 
Volga deveriam ser totalmente coletivizados a partir do outono de 1930; as outras regiões produtoras de cereais, um 
ano mais tarde. 

Em 27 de dezembro de 1929, Stalin já havia anunciado a passagem da “limitação das tendências produtoras 
dos kulaks à liquidação dos kulaks enquanto classe”. Uma comissão do Politburo, presidida por Molotov, foi 
encarregada de definir as medidas práticas dessa liquidação. Ela definiu três categorias de kulaks: os primeiros, 
“engajados nas atividades contra-revolucio-nárias”, deveriam ser presos e transferidos para os campos de trabalho da 
GPU ou executados em caso de resistência, suas famílias deportadas e seus bens confiscados. Os kulaks de segunda 
categoria, definidos como “manifestando uma oposição menos ativa, embora arqui-exploradores e, por causa disso, 
naturalmente inclinados a ajudar a contra-revolução”, deveriam ser presos e deportados, com suas famílias, para regiões 
retiradas do país. Enfim, os kulaks de terceira categoria, qualificados de “leais ao regime”, seriam instalados por 
decreto nas margens dos distritos em que residiam, “fora das zonas coletiviza-das, em terras que necessitem de 
melhorias”. O decreto especificava que “a quantidade de unidades produtoras kulaks a serem liquidadas num prazo de 
quatro meses [...] se situa numa margem de 3% a 5% do número total de unidades produtoras”, número indicativo 
devendo guiar as operações de deskulakização. 

Coordenadas em cada distrito por uma troika - composta pelo primeiro secretário do Comitê do Partido, pelo 
presidente do Comitê Executivo dos Sovietes e pelo responsável local da GPU -, as operações foram conduzidas in loco 
por comissões e brigadas de deskulakização. A lista dos kulaks de primeira categoria, que compreendia 60 mil chefes 
de família segundo o “plano indicativo” fixado pelo Politburo, era de responsabilidade exclusiva da polícia política. 
Quanto às listas dos kulaks de outras categorias, elas eram preparadas no local da ação, levando-se em conta as 
“recomendações” dos “ativistas” do povoado. Quem eram esses ativistas? Um dos mais próximos colaboradores de 
Stalin, Sergo Ordjonikidze, os descreve assim: “Como não há nenhum militante do Partido no povoado, colocou-se 
geralmente no local um jovem comunista, junto com dois ou três camponeses pobres, sendo esse activ (grupo de 
ativistas) encarregado de resolver pessoalmente todos os negócios do povoado: coletivização, deskulakização.” As 
instruções eram claras: coletivizar o maior número possível de unidades produtoras e prender os recalcitrantes 
etiquetados como kulaks. 

Tais práticas naturalmente abriam caminho para todos os abusos e ajustes de contas. Como definir o kulak? O 
kulak de segunda categoria ou o de terceira categoria? Em janeiro-fevereiro de 1930, não se podiam nem mesmo 
utilizar os critérios de definição da produção kulak, pacientemente elaborados por vários ideólogos e economistas do 
Partido, após inúmeras discussões, nos anos precedentes. Com efeito, no decorrer do último ano, os kulaks haviam 
empobrecido consideravelmente, arcando com os impostos cada vez mais pesados que os atingiam. Na ausência de 
sinais exteriores de riqueza, as comissões deviam recorrer às listas fiscais conservadas pelo soviete rural, 
frequentemente antigas e incompletas, às informações da GPU e às denúncias dos vizinhos, atraídos pela possibilidade 
de pilhar os bens alheios. Com efeito, ao invés de proceder a um inventário preciso e detalhado dos bens e de transferi- 
los ao fundo inalienável do kolkhoz, segundo as instruções oficiais, as brigadas de deskulakizacão agiam segundo a 
palavra de ordem “Comamos e bebamos, tudo é nosso”. Como observava um relatório da GPU, vindo da província de 
Smolensk, “os deskulakizadores retiravam as roupas de inverno e as roupas de baixo para frio dos camponeses 
abastados, apoderando-se em primeiro lugar dos sapatos. Eles deixavam os kulaks de ceroulas e lhes pegavam tudo, 
incluindo os velhos sapatos de borracha, as roupas de mulheres, o chá de 50 copeques, seus atiçadores de fogo, seus 
cântaros... As brigadas confiscavam até mesmo os pequenos travesseiros que eram colocados sob a cabeça das crianças, 
assim como a kacha que cozinhava no forno e que eles espalhavam sobre as imagens sagradas, após tê-las quebrado”. 
As propriedades dos camponeses deskulakizados foram com fregiiência simplesmente saqueadas ou vendidas em 
leilões por preços derrisórios; as isbas foram compradas por 60 copeques, as vacas por 15 copeques - ou seja, por 
preços centenas de vezes inferiores ao seu valor real - pelos membros das brigadas de deskulakizacão! Possibilidade 
ilimitada de pilhagem, a deskulakizacão também servia frequentemente como pretexto para ajustes de contas pessoais. 

Nessas condições, não é surpreendente que, em certos distritos, entre 80% e 90% dos camponeses 
deskulakizados tenham sido seredniaki, camponeses médios. Tinha-se que atingir, e se possível ultrapassar, o número 
“indicativo” de kulaks apresentados pelas autoridades locais! Camponeses eram presos e deportados, alguns por terem 
vendido grãos ao mercado durante o verão, outros por possuírem dois samovares, outros ainda por terem matado um 
porco em setembro de 1929 “com o objetivo de consumi-lo e de subtraí-lo, desse modo, à apropriação socialista”. 
Enquanto um camponês era preso sob pretexto de “ter-se entregue ao comércio”, apesar de ele ser apenas um camponês 
pobre vendendo os produtos de sua fabricação, outro era deportado com o pretexto de que seu tio havia sido oficial 
czarista, e outro ainda era etiquetado como kulak por ser “assíduo frequentador da igreja”. Mas, na maioria das vezes, 
era-se catalogado como kulak pelo simples fato de ter feito franca oposição à coletivização. Reinava uma tal confusão 


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nas brigadas de des-kulakização, que, às vezes, atingia-se o cúmulo do absurdo. Assim, num burgo da Ucrânia, para 
citar apenas um exemplo, um seredniaki, membro de uma brigada de deskulakização, foi preso como kulakipor 
representantes de outra brigada de deskulakização, sediada na outra extremidade do burgo! 

Entretanto, após uma primeira fase, que serviu a alguns apenas como pretexto para acertar velhas contas, ou 
simplesmente para entregar-se à pilhagem, a comunidade do povoado não tardou a se reunir contra os “deskulaki- 
zadores” e contra os “coletivizadores”. Em janeiro de 1930, a GPU recenseou 402 revoltas e “manifestações de massa” 
camponesas contra a coletivização e a deskulakização, 1.048 em fevereiro e 6.528 em março. 

Essa resistência em massa e não esperada dos camponeses obrigou o poder a modificar momentaneamente 
seus planos. Em 2 de março de 1930, todos os jornais soviéticos publicaram o famoso artigo de Stalin, “A vertigem do 
sucesso”, no qual ele condenava “as inúmeras distorções do princípio do voluntariado na adesão dos camponeses aos 
kolkhozes”, imputando os “excessos” da coletivização e da deskulakização aos responsáveis locais “embriagados de 
sucesso”. O impacto do artigo foi imediato; somente no mês de março, mais de cinco milhões de camponeses deixaram 
os kolkhozes. Os tumultos e desordens ligados à reapropriação, frequentemente violenta, das ferramentas e do rebanho 
por seus proprietários não cessaram, apesar disso. Durante o mês de março, as autoridades centrais receberam 
cotidianamente relatórios da GPU dando conta das sublevações em massa na Ucrânia Ocidental, na região central das 
terras negras, no Cáucaso do Norte e no Cazaquistão. No total, a GPU contabilizou, durante esse mês crítico, mais de 
6.500 “manifestações de massa”, das quais mais de 800 tiveram de ser “esmagadas pela força armada”. Durante esses 
eventos, mais de 1.500 funcionários públicos foram mortos, feridos ou espancados. O número de vítimas entre os 
insurgidos não é conhecido, mas deve se contar por milhares. 

No início do mês de abril, o poder foi obrigado a fazer novas concessões. Ele enviou às autoridades locais 
diversas circulares pedindo por um ritmo mais lento de coletivização, reconhecendo que existia um perigo real de “uma 
verdadeira onda de guerras camponesas” e de “um aniquilamento físico da metade dos funcionários locais do poder 
soviético”. Em abril, o número de revoltas e manifestações camponesas diminuiu, permanecendo ainda imponente, com 
1.992 casos registrados pela GPU. A diminuição acelerou-se a partir do verão: 886 revoltas em junho, 618 em julho, 
256 em agosto. Ao todo, durante o ano de 1930, cerca de 2,5 milhões de camponeses participaram de cerca de 14.000 
revoltas, rebeliões e manifestações de massa contra o regime. As regiões mais atingidas foram a Ucrânia - em particular 
a Ucrânia Ocidental, onde distritos inteiros, principalmente nas fronteiras com a Polônia e com a Roménia, escaparam 
ao controle do regime -, a região das terras negras e o Cáucaso do Norte.? 

Uma das particularidades desses movimentos era o papel desempenhado pelas mulheres enviadas à linha de 
frente, na esperança de que elas não fossem submetidas a repressões muito severas. Mas, se as manifestações de 
camponesas protestando contra o fechamento da igreja ou a coletivização forçada das vacas leiteiras - o que ameaçava a 
sobrevivência de seus filhos - atingiram particularmente as autoridades, também houve enfrentamentos sangrentos entre 
os destacamentos da GPU e grupos de camponeses armados de forcados e machados. Centenas de sovietes foram 
saqueados, enquanto os Comitês camponeses tomavam a frente dos negócios do povoado por algumas horas ou alguns 
dias, formulando uma lista de reivindicações, entre as quais figuravam, sem nenhuma ordem, a restituição das 
ferramentas e do rebanho confiscados, a dissolução do kolkhoze, a restauração da liberdade do comércio, a reabertura 
da igreja, a restituição de seus bens aos kulaks, a volta dos camponeses deportados, a abolição do poder bolchevique 
ou... o restabelecimento da “Ucrânia independente”. 

Se os camponeses chegaram a perturbar os planos governamentais de coletivização acelerada, principalmente 
em março e em abril, seus sucessos duraram pouco. Diferentemente do que se passara em 1920-1921, eles não 
conseguiram fazer funcionar uma verdadeira organização, encontrar líderes e federar-se, ainda que fosse no nível 
regional. Na falta de tempo diante de um regime que reage rapidamente, na falta de oficiais, dizimados durante a guerra 
civil, na falta de armas, progressivamente confinadas no decorrer dos anos 20, as revoltas camponesas falharam em 
seus objetivos. 

A repressão foi terrível. Apenas nos distritos fronteiriços da Ucrânia Ocidental, a “limpeza dos elementos 
contra-revolucionários” levou à prisão, no fim de março de 1930, mais de 15.000 pessoas. A GPU da Ucrânia prendeu 
ainda, no intervalo de 40 dias, de 1º de fevereiro a 15 de março, outras 26.000 pessoas, das quais 650 foram fuziladas. 
Segundo dados da GPU, 20.200 pessoas foram condenadas à morte em 1930, apenas pelas jurisdições de exceção da 
polícia política. 

Enquanto a repressão dos elementos contra-revolucionários era mantida, a GPU aplicava a diretriz nº 44/21 de 
G. lagoda sobre a prisão dos 60 mil kulaks de primeira categoria. Á operação foi conduzida com sucesso, a julgar pelos 
relatórios cotidianos enviados a lagoda: o primeiro deles, datado de 6 de fevereiro, dá conta de 15.985 indivíduos 
presos; em 9 de fevereiro, 25.245 pessoas foram, segundo os próprios termos da GPU, “retiradas de circulação”. O 
“relatório secreto” (spetzsvodka), datado de 15 de fevereiro, especificava: “Em execuções, em indivíduos retirados de 
circulação e em operações de massa, atingimos um total de 64.589, dos quais 52.166 retirados durante as operações 


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preparatórias (primeira categoria); 12.423 retirados durante operações de massa”. Em alguns dias, o “plano” de 60 mil 
kulaks de primeira categoria fora ultrapassado. 

Na realidade, os kulaks representavam apenas uma parte das pessoas “retiradas de circulação”. Os agentes 
locais da GPU aproveitaram-se da ocasião para “limpar” seus distritos dos “elementos nocivos à sociedade”, entre os 


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quais figuravam “policiais do Antigo Regime”, “oficiais brancos”, “servidores do culto”, “noviças”, “artesãos rurais”, 
“antigos comerciantes”, “membros da intelligentsia rural” e “outros”. Embaixo do relatório de 15 de fevereiro de 1930, 
que detalhava as diversas categorias de indivíduos presos no contexto da liquidação dos kulaks de primeira classe, 
lagoda escreveu: “As regiões Nordeste e Leningrado não cumpriram nossas instruções ou então não querem 
compreendê-las; devemos obrigá-las a compreender. Não estamos limpando os territórios dos popes, comerciantes e 
outros. Se eles dizem 'outros', isso quer dizer que eles não sabem quem eles prendem. Teremos todo o tempo para nos 
livrarmos dos popes e dos comerciantes, devemos hoje atingir precisamente o alvo: os kulaks e os kulaks contra- 
revolucionários.” Quantos indivíduos presos durante a operação de “liquidação dos kulaks de primeira categoria” foram 
executados? Até hoje, nenhum dado encontra-se disponível. 

Os kulaks de “primeira categoria” constituíram, sem dúvida, uma parte notável dos primeiros contingentes de 
detidos transferidos para os campos de trabalho. No verão de 1930, a GPU já havia implantado uma vasta rede desses 
campos. O conjunto penitenciário mais antigo, o das ilhas Solovki, continuou sua propagação sobre o litoral do Mar 
Branco, da Carélia à região de Arkhangelsk. Mais de 40 mil detidos construíam a estrada Kem-Ukhta e asseguravam a 
maior parte da produção de madeiras exportadas pelo porto de Arkhangelsk. O grupo dos campos do Norte, contando- 
se em média 40 mil detidos, trabalhava na construção de uma via férrea de 300 quilómetros, entre Ust, Sysolsk e 
Piniug, e de uma estrada de 290 quilómetros, entre Ust, Sysolsk e Ukhta. No grupo dos campos do extremo oriente, os 
15 mil detidos constituíam a mão-de-obra exclusiva do canteiro de obras da linha ferroviária de Bogutchatchinsk. Um 
quarto conjunto, chamado conjunto da Vitchera e que contava com 20 mil detidos em média, fornecia a mão-de-obra do 
canteiro do grande complexo químico de Berezniki, no Ural. Enfim, o grupo dos campos da Sibéria, ou seja, cerca de 
24 mil detidos, contribuía na construção da linha ferroviária Tomsk-Ienisseisk e do complexo metalúrgico de Kuznetsk. 

Em um ano e meio, do fim de 1928 ao verão de 1930, a mão-de-obra penal explorada nos campos da GPU fora 
multiplicada por 3,5, passando de 40 mil a cerca de 140 mil detidos. Os sucessos da exploração dessa força de trabalho 
encorajaram o poder a empreender novos grandes projetos. Em junho de 1930, o governo decidiu construir um canal de 
240 quilómetros de comprimento, cavado na maior parte numa rocha granítica, que ligaria o Mar Báltico ao Mar 
Branco. Na falta de meios técnicos e de máquinas, esse proje-to faraónico necessitava de uma mão-de-obra de pelo 
menos 120 mil detidos, usando como únicos instrumentos de trabalho enxadas, pás e carrinhos de mão. Mas, no verão 
de 1930, com a deskulakização atingindo seu auge, a mão-de-obra penal poderia ser tudo, menos um produto 
deficitário! 

Na realidade, a massa de deskulakizados era tal - mais de 700.000 pessoas no fim de 1930; mais de 1.800.000 
no fim de 1931 - que as “estruturas de enquadramento” não conseguiam “acompanhar”. Era de improviso e na mais 
completa anarquia que se desenvolviam as operações de deportação da imensa maioria dos kulaks, ditos de “segunda” 
ou de “terceira” categoria. Elas levaram a uma forma sem precedentes de “deportação-abandono”, a uma rentabilidade 
econômica nula para as autoridades, ainda que um dos objetivos principais da deskulakização fosse a valorização, pelos 
deportados, das regiões inóspitas do país, ricas no entanto em recursos naturais. 

As deportações dos kulaks de segunda categoria começaram desde a primeira semana de fevereiro de 1930. 
Segundo o plano aprovado pelo Politburo, 60.000 famílias deveriam ser deportadas durante uma primeira fase que 
deveria estar terminada no fim de abril. A região Norte deveria acolher 45.000 famílias; o Ural, 15.000. Entretanto, 
desde 16 de fevereiro, Stalin telegrafou a Eikhe, primeiro secretário do Comitê Regional do partido da Sibéria 
Ocidental: “É inadmissível que a Sibéria e o Cazaquistão pretendam não estar prontos para receber os deportados. A 
Sibéria deve receber imperativamente 15.000 famílias, daqui até o fim de abril”. Em resposta, Eikhe enviou a Moscou 
um “orçamento” estimativo dos custos para a “instalação” do contingente planificado de deportados, chegando a 40 
milhões de rublos, soma que ele não recebeu jamais!1 6 

As operações de deportação também foram marcadas por uma ausência completa de coordenação entre os 
diferentes elos da cadeia. Os camponeses presos foram amainados durante semanas em locais improvisados - casernas, 
prédios administrativos, estações - de onde um grande número deles conseguiu escapar. A GPU havia previsto, para a 
primeira fase, 240 comboios de 53 vagões. Segundo as normas definidas pela GPU, cada comboio era composto por 40 
vagões de transporte de animais, cada vagão devendo levar 40 deportados, e por oito vagões para o transporte de 
ferramentas, víveres e de alguns bens pertencentes aos deportados, dentro do limite de 480 quilos por família, além de 
um vagão de transportes de guardas. Como testemunha a correspondência ácida entre a GPU e o Comissariado do Povo 
para os Transportes, os comboios chegavam em conta-gotas. Nos grandes centros de triagem, em Vologda, Kotlas, 
Rostov, Sverdlovsk e Omsk, eles permaneciam imobilizados durante semanas com seu carregamento humano. O 
estacionamento prolongado desses comboios de reprovados, onde mulheres, crianças e idosos eram numerosos, 


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geralmente não passava despercebido pela população local, como o atestam as numerosas cartas coletivas enviadas a 
Moscou, assinadas pelo “conjunto dos trabalhadores e empregados de Vologda” ou pelos “ferroviários de Kotlas”, 
denunciando o “massacre dos inocentes”. 

Nesses comboios imobilizados em pleno inverno em alguma via de garagem, à espera de um lugar de afetação 
onde os deportados pudessem ser instalados, o frio, a falta de higiene e as epidemias provocavam, de acordo com a 
particularidade de cada comboio, uma mortalidade sobre a qual dispomos de poucos dados numéricos para os anos de 
1930-1931. 

Uma vez levados em comboios ferroviários até uma estacão, os homens em boas condições de saúde eram 
frequentemente separados de suas famílias - instaladas provisoriamente em acampamentos edificados às pressas - e 
enviados sob escolta para as “unidades de colonização” situadas, como previam as instruções oficiais, “afastadas das 
vias de comunicação”. Então, o interminável périplo continuava ainda por centenas de quilómetros, com ou sem 
família, seja durante o inverno em comboios de trenós, ou durante o verão, em carroças ou a pé. De um ponto de vista 
prático, essa última etapa do périplo dos “kulaks de segunda categoria” se aparentava frequentemente à deportação dos 
“kulaks de terceira categoria” deslocados para “terras necessitando de uma bonificação no interior de suas regiões” - 
regiões que cobriam, na Sibéria ou no Ural, várias centenas de milhares de quilómetros quadrados. Como o relatavam, 
em 7 de março de 1930, as autoridades do distrito de Tomsk, na Sibéria Ocidental, “os primeiros comboios de kulaks 
de terceira categoria chegaram a pé, na ausência de cavalos, de trenós, de selas. [...] Em geral, os cavalos destinados aos 
comboios são absolutamente inaptos para deslocamentos de mais de 300 quilómetros, pois, no momento da formação 
dos comboios, todos os bons cavalos pertencentes aos deportados foram substituídos por pangarés. Tendo em vista a 
situação, não se considera a possibilidade de transportar os pertences e os víveres para dois meses aos quais os kulaks 
têm direito. Além disso, o que fazer das crianças e dos velhos, que representam mais de 50% do contingente?” 

Em um outro relatório de mesma natureza, o Comitê Executivo Central da Sibéria Ocidental demonstrava a 
impossibilidade de executar as instruções da GPU concernentes à deportação de 4.902 kulaks de terceira categoria de 
dois distritos da província de Novossibirsk, por seu caráter absurdo. “O transporte de 8.560 toneladas de cereais e de 
feno aos quais os deportados teoricamente tinham direito 'para sua viagem e instalação”, através de 370 quilómetros de 
estradas execráveis, acarretavam a mobilização de 28.909 cavalos e 7.227 supervisores (um supervisor para cada quatro 
cavalos).” O relatório concluía que “a realização de uma tal operação comprometia a campanha de plantio da 
primavera, uma vez que os cavalos, exaustos, necessitariam de um longo período de repouso. [...] Torna-se assim 
indispensável diminuir as provisões que os deportados estão autorizados a levar”.” 

Era assim sem provisões e ferramentas, na maioria das vezes sem abrigo, que os deportados deviam se instalar; 
um relatório proveniente da região de Arkhangelsk reconhecia, em setembro de 1930, que, das 1.641 habitações 
“programadas” para os deportados, apenas sete tinham sido construídas! Os deportados “se instalavam” em qualquer 
pedaço de terra, no meio da estepe ou da taiga. Os mais sortudos, que tiveram a possibilidade de levar algumas 
ferramentas, podiam tentar confeccionar para si um abrigo rudimentar, na maioria das vezes a tradicional zemlianka, 
um simples buraco na terra coberto de galhos. Em certos casos, uma vez que os milhares de deportados eram obrigados 
a residir perto de um grande canteiro de obras ou de uma unidade industrial em construção, eles eram alojados em 
acampamentos sumários, em leitos de três andares, com centenas por barraca. 

Das 1.803.392 pessoas oficialmente deportadas a título da “deskulaki-zação” em 1930-1931, quantas 
pereceram de frio e de fome durante os primeiros meses de sua “nova vida”? Os arquivos de Novossibirsk conservaram 
um documento impressionante, o relatório enviado a Stalin em maio de 1933 por um instrutor do Comitê do partido de 
Narym na Sibéria Ocidental, sobre a sorte reservada a dois comboios, compreendendo mais de seis mil pessoas, vindos 
de Moscou e de São Petersburgo. Embora tardio e dizendo respeito a um outro tipo de deportados - não os camponeses 
mas “elementos desclassificados” expulsos da nova “cidade socialista”, a partir do fim de 1932 -, esse documento 
ilustra uma situação que, sem dúvida, não era excepcional e que se poderia qualificar como “deportação-abandono”. 

Eis alguns exemplos desse terrível testemunho: 

“Dias 29 e 30 de abril, dois comboios de elementos desclassificados nos foram enviados por trem, de Moscou 
e de Leningrado. Uma vez em Tomsk, esses elementos foram postos em balsas e desembarcados, nos dias 18 e 26 de 
maio, na ilha de Nazino, situada na confluência dos rios Ob e Nazina. O primeiro comboio comportava 5.070 pessoas, 
o segundo 1.044, ou seja, ao todo 6.114 pessoas. As condições de transporte eram assustadoras: comida insuficiente e 
execrável; falta de ar e de espaço; vexames sofridos pelos mais fracos. [...] Resultado: uma mortalidade de 35-40 
pessoas por dia. Contudo, essas condições de existência revelaram-se um verdadeiro luxo, comparadas ao que esperava 
os deportados na ilha de Nazino (de onde eles deveriam ser expedidos, em grupos, até seu destino final, para setores de 
colonização situados mais acima do rio Nazina). A ilha de Nazino é um lugar totalmente virgem, sem a mínima 
habitação [...] Nenhuma ferramenta, semente ou alimento... A nova vida começou. No dia seguinte à chegada do 
primeiro comboio, 19 de maio, começou a nevar, o vento a soprar. Famintos, emagrecidos, sem teto, sem ferramentas 
[...] os deportados encontraram-se em uma situação sem saída. Eles eram capazes apenas de acender fogos, para tentar 


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escapar do frio. As pessoas começaram a morrer. [...] No primeiro dia, 295 cadáveres foram enterrados. [...] Somente 
no quarto ou quinto dia após a chegada dos deportados à ilha, as autoridades enviaram, por barco, um pouco de farinha, 
à razão de algumas poucas centenas de gramas por pessoa. Tendo recebido sua magra ração, as pessoas corriam até a 
margem e tentavam dissolver um pouco dessa farinha com água, em seu chapka, em sua calça ou paletó. Mas a maior 
parte dos deportados tentava engolir a farinha tal qual e, com frequência, morriam sufocados. Durante toda a sua estada 
na ilha, os deportados receberam no total apenas um pouco de farinha. Os mais habilidosos tentaram cozinhá-la, mas 
não havia sequer um recipiente. [...] Logo apareceram casos de canibalismo. [...] 

No fim do mês de junho, começou o envio dos deportados para os assim chamados povoados de colonização. 
Esses lugares situavam-se em média a 200 quilómetros da ilha, subindo o rio Nazina, em plena taiga. Em matéria de 
povoado, era a natureza virgem. Conseguiu-se contudo instalar um forno primitivo, o que permitiu fabricar uma espécie 
de pão. Mas, quanto ao resto, havia pouca mudança em relação à vida na ilha de Nazino: mesma ociosidade, mesmo 
desânimo, mesmo desfecho. A única diferença era uma espécie de pão, distribuído uma vez a cada tantos dias. A 
mortalidade continuava. Um único exemplo. Das 78 pessoas embarcadas para a ilha, em direção ao quinto setor de 
colonização, 12 chegaram com vida. Em breve, as autoridades reconheceram que esses locais não eram colonizáveis, e 
todo o contingente sobrevivente foi mandado de volta, de barco, rio abaixo. As evasões multiplicaram-se. [...] Nos 
novos locais de instalação, os deportados sobreviventes, aos quais se haviam dado enfim algumas ferramentas, se 
puseram a construir, a partir da segunda quinzena de julho, abrigos enterrados pela metade no solo. [...] Houve ainda 
alguns casos de canibalismo. [...] Mas a vida progressivamente retomava seus rumos: as pessoas recomeçaram a 
trabalhar, mas seus organismos estavam tão fracos, que, mesmo quando elas recebiam 750-1.000 gramas de pão por 
dia, elas continuavam a cair doentes, a passar fome, a comer grama, pasto, folhas, etc. O resultado de tudo isso: em 20 
de agosto, dos 6.100 deportados que partiram de Tomsk (aos quais se devem somar 500-700 pessoas enviadas à região, 
vindas de outros lugares), apenas cerca de 2.200 pessoas permaneceram vivas.” 

Quantos Nazinos há, quantos casos similares de deportação-abandono? Alguns números dão a medida das 
perdas. Entre fevereiro de 1930 e dezembro de 1931, um pouco mais de 1.800.000 deskulakizados foram deportados. 
Ora, em ?º de janeiro de 1932, quando as autoridades fizeram uma primeira contagem geral, apenas 1.317.022 pessoas 
foram recenseadas. As perdas atingiram meio milhão, ou seja, 30% dos deportados. Certamente, o número daqueles 
que haviam conseguido fugir era, sem dúvida, elevado. Em 1932, a evolução dos “contingentes” foi pela primeira vez 
objeto de um estudo sistemático por parte da GPU; esta última era, desde o verão de 1931, a única responsável pelos 
deportados, doravante etiquetados como “colonos especiais”, em todas as pontas da cadeia, desde a deportação até a 
gestão dos “povoados de colonização”. De acordo com esse estudo, houve mais de 210.000 evadidos e cerca de 90.000 
mortos. Em 1933, ano da grande fome, as autoridades recensearam 151.601 mortes sobre 1.142.022 colonos especiais 
contabilizados em 1º de janeiro de 1933. A taxa de mortalidade anual era de 6,8% em média em 1932, de 13,3% em 
1933. Para os anos 1930-1931, dispomos somente de dados parciais, mas eles são eloquentes: em 1931, a mortalidade 
era de 1,3% entre os deportados do Cazaquistão, de 0,8% por mês entre os da Sibéria Ocidental. Quanto à mortalidade 
infantil, ela oscilava entre 8 e 12%... por mês, com picos de 15% por mês em Magnitogorsk. De 1º de junho de 1931 a 1º 
de junho de 1932, a mortalidade entre os deportados da região de Narym, na Sibéria Ocidental, atingiu 11,7% ao ano. 
Globalmente, é pouco provável que em 1930-1931 a taxa de mortalidade tenha sido inferior às taxas de 1932: ela sem 
dúvida chegou próximo ou mesmo ultrapassou os 10% ao ano. Assim, em três anos, podemos estimar que cerca de 
300.000 deportados morreram na deportação. 

Para as autoridades centrais, preocupadas em “rentabilizar” o trabalho daqueles que elas designavam com o 
termo de “deslocados especiais”, ou “colonos de trabalho”, a partir de 1932, a deportação-abandono era apenas um mal 
inevitável imputável, como escrevia N. Puzitski - um dos dirigentes da GPU encarregado dos colonos de trabalho -, “à 
negligência criminal e à miopia política dos responsáveis locais que não assimilaram a idéia de colonização pelos ex- 
kulaks”. 

Em março de 1931, para pôr fim ao “insuportável desperdício de mão-de-obra deportada”, foi instalada uma 
comissão especial, diretamente ligada ao Politburo, presidida por V. Andreiev, e na qual lagoda desempenhava um 
papel-chave. O objetivo principal dessa comissão era “uma gestão racional e eficaz dos colonos de trabalho”. As 
primeiras pesquisas feitas pela comissão haviam, de fato, revelado a produtividade quase nula da mão-de-obra 
deportada. Assim, dos 300 mil colonos de trabalho instalados no Ural, apenas 8% eram, em abril de 1931, destinados 
“aos cortes de madeira e outros trabalhos produtivos”; o resto dos adultos em boas condições de saúde “construíam 
alojamentos por si mesmos e se viravam para sobreviver”. Um outro documento reconhecia que o conjunto de 
operações de deskulakização havia sido deficitário para o Estado: o valor médio dos bens confiscados aos kulaks em 
1930 elevava-se a 564 rublos por unidade produtiva, soma derrisória (equivalente a uma quinzena do mês de salário 
operário), que era eloquente sobre a pretensa “abastança” do kulak. Quanto às despesas engajadas para a deportação 
dos kulaks, elas elevavam-se a mais de 1.000 rublos por família. 


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Para a comissão Andreiev, a racionalização da gestão dos colonos de trabalho passava primeiro por uma 
reorganização administrativa das estruturas responsáveis pelos deportados. Durante o verão de 1931, a GPU recebeu o 
monopólio da gestão administrativa dos “povoamentos especiais” que dependiam até então das autoridades locais. 
Toda uma rede de komandatures foi implantada, verdadeira administração paralela que permitia à GPU beneficiar-se de 
uma espécie de exterritorialidade e controlar inteiramente imensos territórios, nos quais os colonos constituíam, 
doravante, o essencial da população local. Estes últimos estavam submetidos a um regulamento interno muito estrito. 
Reclusos em suas residências, eles eram destinados pela administração, seja a uma empresa do Estado, seja a uma 
“cooperativa agrícola ou arte-sanal com estatuto especial, dirigida pelo comando local da GPU”, seja ainda a trabalhos 
de construção e de manutenção das estradas ou de desmatamento. Obviamente, jornadas e salários também recebiam 
um tratamento especial: em média, as jornadas eram de 30% a 50% superiores às dos trabalhadores livres; quanto aos 
salários, quando eles eram pagos, eles sorriam uma retenção de 15% a 25%, diretamente destinada à administração da 
GPU. 

Na realidade, como testemunham os documentos da comissão Andreiev, a GPU se felicitava por ter um “custo 
de assentamento” dos colonos de trabalho nove vezes inferior âquele dos detidos nos campos; assim, em junho de 1933, 
os 203.000 colonos especiais da Sibéria Ocidental, divididos em 83 komandatures, eram supervisionados por apenas 
971 pessoas. A GPU tinha por objetivo fornecer, contra o depósito de uma comissão - composta por uma porcentagem 
sobre os salários e por uma quantia por contrato de empreitada -, a sua mão-de-obra a um certo número de grandes 
combinados, encarregados da exploração dos recursos naturais das regiões setentrionais e orientais do país, como 
Urallesprom (exploração de floresta), Uralugol, Vostugol (carvão), Vostokstal (siderúrgicas), Tsvetmetzoloto (minerais 
não ferrosos), Kuznetzstroi (metalurgia), etc. Em princípio, a empresa encarregava-se de garantir a infra-estrutura de 
hospedagem, de escolarização e de abastecimento dos deportados. Na realidade, como os próprios funcionários da GPU 
reconheciam, as empresas tinham tendência a considerar essa mão-de-obra de estatuto ambíguo, meio-livre, meio- 
detida, como um recurso grátis. Os colonos de trabalho frequentemente não recebiam nenhum salário, uma vez que as 
somas que eles ganhavam eram em geral inferiores às retidas pela administração, para a construção de acampamentos, 
ferramentas, as cotiza-ções obrigatórias em favor dos sindicatos, do empréstimo do Estado, etc. 

Inscritos na última categoria do racionamento, verdadeiros párias, eles eram submetidos permanentemente à 
escassez e à fome, mas também a todos os tipos de vexames e de abusos. Entre os abusos mais escandalosos destacados 
nos relatórios da administração: instauração de normas irrealizáveis, salários não pagos, deportados espancados ou 
trancados em pleno inverno em cárceres improvisados sem a mínima calefação, deportadas “trocadas pelos 
comandantes da GPU contra mercadorias” ou enviadas gratuitamente como empregadas “para todo serviço” às casas 
dos pequenos chefes locais. Essa observação de um diretor de empresa de exploração de florestas do Ural, que 
empregava colonos de trabalho, citada e criticada num relatório da GPU de 1933, resumia bem o estado de espírito de 
inúmeros dirigentes em relação a uma mão-de-obra penalizável: “Nós poderíamos liquidá-los todos, e de todo modo a 
GPU nos enviará, em seu lugar, uma nova fornada de cem mil como vocês!” 

Pouco a pouco, a utilização dos colonos de trabalho tornou-se, do ponto de vista estrito da produtividade, mais 
racional. Desde 1932, assistiu-se a um abandono progressivo das “zonas de povoamento” ou de “ colonização” mais 
inóspitas, em favor dos grandes canteiros de obras, dos pólos de minerais e industriais. Em certos setores, a parte da 
mão-de-obra deportada, que trabalhava nas mesmas empresas e nos mesmos canteiros de obra que os trabalhadores 
livres e vivia nos acampamentos contíguos, era mais importante, senão predominante. Nas minas do Kuzbass, no fim 
de 1933, mais de 41.000 colonos de trabalho representavam 47% do conjunto dos mineiros. Em Magnitogorsk, os 
42.462 deportados, recenseados em setembro de 1932, constituíam dois terços da população local. Obrigados a 
residirem em quatro zonas de povoamento especiais, a uma distância de dois a seis quilómetros da unidade principal de 
construção, eles trabalhavam nas mesmas equipes dos trabalhadores livres, situação que tinha tendência a confundir em 
parte as fronteiras entre os estatutos diferentes de uns e de outros. Pela força das coisas, ou, dito de outro modo, pelos 
imperativos econômicos, os deskulakizados de ontem, tornados colonos de trabalho, reintegravam uma sociedade 
marcada por uma penalização geral das relações sociais e na qual ninguém sabia quem seriam os próximos excluídos. 


8. A grande fome 


A grande fome de 1932-1933 - que representou, segundo fontes hoje incontestáveis, mais de seis milhões de 
vítimas! - fez parte, durante muito tempo, das “lacunas” do regime soviético. Entretanto, essa catástrofe não foi uma 
fome como as outras, as que se sucediam, com intervalos regulares, na Rússia czarista. Ela foi uma consequência direta 
do novo sistema de “exploração feu-dal-militar” do campesinato - de acordo com a expressão do dirigente bolchevique 
antistalinista Nikolai Bukharin -, instaurada durante a coletivização forcada, e uma ilustração trágica do impressionante 
retrocesso social que acompanhou o assalto perpetrado pelo poder soviético ao campo no fim dos anos 20. 


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Ao contrário da fome de 1921-1922, reconhecida pelas autoridades soviéticas que apelaram constantemente à 
ajuda internacional, a de 1932-1933 sempre foi negada pelo regime que encobriu com sua propaganda as poucas vozes 
que, do exterior do país, chamavam a atenção para essa tragédia. Para tanto, ele recebeu a ajuda de “testemunhos” 
solicitados, como o do deputado francês e líder do Partido Radical, Édouard Herriot, que, viajando pela Ucrânia no 
verão de 1933, alardeava que havia apenas “hortas nos kolkhozes admiravelmente irrigados e cultivados” e “colheitas 
decididamente admiráveis”, antes de concluir, peremptório: “Atravessei a Ucrânia. Pois bem!, afirmo-lhes que a vi tal 
qual um jardim em plena floração.” Essa cegueira era, inicialmente, o resultado de uma fantástica farsa montada pela 
GPU para os hóspedes estrangeiros cujo itinerário era marcado por kolkhozes e jardins de infância modelo. Essa 
cegueira era, evidentemente, corroborada por considerações políticas, especialmente da parte dos dirigentes franceses 
então no poder, que tinham o cuidado de não interromper a aproximação esboçada com a União Soviética em face de 
uma Alemanha cada dia mais ameaçadora como consequência da recente chegada ao poder de Adolf Hitler. 

Entretanto, um bom número de dirigentes políticos de alto escalão, em particular alemães e italianos, tomaram 
conhecimento, com notável precisão, da fome de 1932-1933. Os relatórios dos diplomatas italianos sediados em 
Kharkov, Odessa ou Novorossisk, recentemente descobertos e publicados pelo historiador italiano Andrea Graziosi,3 
mostram que Mussolini, que lia esses textos com cuidado, estava perfeitamente informado da situação, mas não os 
utilizou na propaganda anticomunista. Ao contrário, o verão de 1933 foi marcado pela assinatura de um tratado de 
comércio ítalo-soviético, seguido de um pacto de amizade e de não-agressão. Negada, ou pelo menos sacrificada sobre 
o altar da razão de Estado, a verdade sobre a grande fome, evocada em publicações de baixa tiragem das organizações 
ucranianas estrangeiras, somente começou a impor-se a partir da segunda metade dos anos 80, em seguida à publicação 
de uma série de trabalhos e de investigações, tanto por historiadores ocidentais quanto por pesquisadores da ex-União 
Soviética. 

Evidentemente, não se pode compreender a fome de 1932-1933 sem situá-la no contexto das novas relações 
entre o Estado soviético e a totalidade dos camponeses, oriundas da coletivização forçada do campo. No campo 
coletivizado, o papel do kolkhoz era estratégico. Ele tinha a função de assegurar ao Estado o fornecimento fixo de 
produtos agrícolas, através de cotas cada vez mais altas sobre a colheita “coletiva”. A cada outono, a campanha de cole- 
ta transformava-se numa verdadeira queda de braço entre o Estado e os camponeses, que tentavam a todo custo guardar 
para si uma parte da colheita. Algo de crucial estava em jogo: para o Estado, uma antecipação sobre a colheita, para o 
camponês, a sobrevivência. Quanto mais fértil era a região, mais elevada era a sua cota. Em 1930, o Estado coletou 
30% da produção agrícola na Ucrânia, 38% nas ricas planícies do Kuban, no Cáucaso do Norte, e 33% da colheita do 
Cazaquistão. Em 1931, para uma colheita bem inferior, essas percentagens atingiram, respectivamente, 41,5%, 47% e 
39,5%. Uma tal antecipação só poderia desorganizar completamente o circuito produtivo. Basta lembrar que sob a NEP 
os camponeses comercializavam somente de 15% a 20% de sua colheita, reservando 12% a 15% para o plantio, 20% a 
30% para o rebanho e o restante para seu próprio consumo. Entre os camponeses, decididos a usar de todos os 
estratagemas para conservarem parte de sua colheita, e as autoridades locais, obrigados a cumprir a todo custo um 
plano cada vez mais irreal - em 1932, o plano de coleta era 32% superior ao de 1931 -, o conflito era inevitável. 

A campanha de coleta de 1932 começou muito lentamente. Desde que se começou a nova ceifa, os 
kolkhozianos se esforçaram para esconder, ou ainda para “roubar”, durante a noite, uma parte da colheita. Constituiu-se 
um verdadeiro “fronte de resistência passiva”, fortalecido pelo acordo tácito e recíproco que ia, com fregiiência, do 
kolkhoziano ao chefe da guarda, do chefe da guarda ao contador, do contador ao diretor do kolkhoz, ele próprio 
recentemente promovido, do diretor ao secretário local do Partido. Para “tomar os cereais”, as autoridades centrais 
tiveram de enviar novas “tropas de choque”, recrutadas nas cidades entre komsomols e comunistas. 

Dentro de um verdadeiro clima de guerra que reinava no campo, eis o que um instrutor do Comitê Executivo 
Central, enviado em missão a um distrito cerealista do Baixo Volga, escrevia aos seus superiores: 

“As prisões e revistas são feitas por qualquer um: pelos membros do soviete rural, emissários de todo tipo, 
membros de tropas de choque ou qualquer komsomol que estiver disposto. Este ano, 12% dos cultivadores do distrito 
passaram pela corte do tribunal, sem contar os kulaks deportados, os camponeses punidos com multas, etc. Segundo 
cálculos do antigo procurador adjunto do distrito, no decorrer do último ano, 15% da população adulta foram vítimas de 
algum tipo de repressão. Se acrescentarmos que no decorrer do último mês cerca de 800 cultivadores foram expulsos 
dos kolkhozes, vocês terão uma idéia da dimensão da repressão no distrito. [...] Se excluímos os casos em que a 
repressão em massa foi realmente justificada, é preciso dizer que a eficácia das medidas repressivas não cessa de 
diminuir, uma vez que, quando elas ultrapassam um certo limiar, torna-se difícil pô-las em prática. [...] Todas as prisões 
estão abarrotadas. A prisão de Balachevo contém cinco vezes mais pessoas do que o previsto, e em Elan há 610 pessoas 
na pequena prisão do distrito. Durante o mês passado, a prisão de Balachevo '-devolveu' a Elan 78 condenados, sendo 
que 48 dos quais tinham menos de dez anos; 21 foram imediatamente soltos. [...] Para terminar com esse célebre 
método, o único utilizado até agora - o método da força -, vejam-se dois exemplos individuais de camponeses para 
quem tudo o que é feito visa desviá-los da semeadura e da produção. 


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O exemplo seguinte mostra a que ponto os indivíduos camponeses estão aterrorizados: em Mortsy, um 
indivíduo camponês, que havia, entretanto, preenchido 100% de sua cota, veio ver o camarada Formitchev, presidente 
do Comitê executivo do distrito, pedindo-lhe para ser deportado para o Norte, pois, de toda maneira, ele explicou, 'não 
podemos mais viver nessas condições”. Igualmente exemplar é a petição, assinada por 16 indivíduos camponeses do 
soviete rural de Ale-xandrov, na qual esses camponeses pedem para serem deportados para fora de sua região! [...] 
Resumindo, a única forma de 'trabalho de massa! é 'o assalto": tomam-se de assalto" as sementes, os créditos, as criações 
em rebanhos, Vai-se ao assalto' do trabalho, etc. [...] O 'cerco' é feito durante a noite, de 21-22 horas até a aurora. O 
'assalto' se desenrola da seguinte maneira: a 'tropa de choque', sediada em uma isba, 'convoca' uma a uma as pessoas 
que não cumpriram com esta ou aquela obrigação ou plano e 'convence-as', através de diversos meios, a honrarem suas 
obrigações. Faz-se, assim, o 'cerco' de cada pessoa da lista, e depois tudo recomeça, durante toda a noite.” 

No arsenal repressivo, uma lei famosa, promulgada em 7 de agosto de 1932, no momento mais tenso da guerra 
entre os camponeses e o regime, tinha um papel decisivo. Ela previa a condenação a dez anos em campos de 
concentração ou à pena de morte “todo roubo ou dilapidação da propriedade socialista”. Ela era conhecida pelo povo 
sob o nome de “lei das espigas”, pois as pessoas condenadas com mais fregiiência haviam roubado algumas espigas de 
trigo ou de centeio nos campos kolkhozianos. Essa lei perversa permitiu a condenação, entre agosto de 1932 e 
dezembro de 1933, de mais de 125.000 pessoas, das quais 5.400 à pena capital. 

Apesar dessas medidas draconianas, o trigo não “aparecia”. Em meados de outubro de 1932, o plano de coleta 
para as principais regiões cerealistas do país só havia sido cumprido em 15%-20%. Assim, em 22 de outubro de 1932, o 
Politburo decidiu enviar à Ucrânia e ao Cáucaso do Norte duas comissões extraordinárias, uma dirigida por Viatcheslav 
Molotov e outra por Lazar Kaganovitch, com o objetivo de “acelerar as coletas”. Em 2 de novembro, a comissão de 
Lazar Kaganovitch, da qual fazia parte Genrikh lagoda, chegou a Rostov-sobre-o-Don. Uma reunião de todos os 
secretários de distrito do Partido da região do Cáucaso do Norte foi de imediato convocada, no final da qual foi adotada 
a seguinte resolução: “Como consequência do fracasso particularmente vergonhoso do plano de coleta de cereais, 
obrigar as organizações locais do Partido a interromper a sabotagem organizada pelos elementos kulaks contra- 
revolucionários, aniquilar a resistência dos comunistas rurais e dos presidentes de kolkhozes que tomaram a frente 
dessa sabotagem”. Para um certo número de distritos inscritos no “quadro negro” (segundo a terminologia oficial) 
foram tomadas as seguintes medidas: retirada de todos os produtos das lojas, interdição total do comércio, reembolso 
de todos os créditos correntes, imposição excepcional, prisão de todos os “sabotadores”, “elementos estranhos” e 
“contra-revolucionários”, sendo utilizados procedimentos acelerados, sob a égide da GPU. Em caso de prosseguimento 
da sabotagem, a população era passível de deportação em massa. 

Apenas do decorrer do mês de novembro de 1932, primeiro mês de “luta contra a sabotagem”, 5.000 
comunistas rurais foram julgados “criminal-mente complacentes” em face da “sabotagem” da campanha de coleta, e 
15.000 kolkhozianos foram presos nessa região de grande importância estratégica do ponto de vista da produção 
agrícola que era o Cáucaso do Norte. Em dezembro, começaram as deportações em massa, não mais apenas dos kulaks, 
mas de povoados inteiros, principalmente de stanitsy cossacos que já haviam sido vítimas de medidas semelhantes em 
1920. O número de colonos especiais rapidamente recomeçou a subir. Se, para 1932, os dados da administração do 
Gulag davam conta da chegada de 71.236 deportados, o ano de 1933 registrou um afluxo de 268.091 novos colonos 
especiais. 

Na Ucrânia, a comissão Molotov tomou medidas análogas: inscrição no “quadro negro” dos distritos que não 
haviam cumprido o plano de coleta, com todas as consequências previamente descritas: limpeza das organizações 
locais do Partido, prisões em massa não somente de kolkhozianos, mas também de administradores de kolkhozes, 
suspeitos de “minimizarem a produção”. Tais medidas foram imediatamente estendidas a outras regiões produtoras de 
cereais. 

Podiam essas medidas repressivas permitir ao Estado ganhar a guerra contra os camponeses? Não, destacava o 
cônsul italiano em Novorossijsk num relatório particularmente perspicaz: 

“O aparelho soviético, excessivamente armado e potente, se encontra, de fato, na impossibilidade de encontrar 
a vitória em uma ou várias batalhas campais; o inimigo não está agrupado, ele está disperso, o que acarreta o desgaste 
numa série de minúsculas operações: aqui, um campo que não está mondado, ali, alguns quintais de trigo que estão 
escondidos; isso sem falar de um trator inoperante, um segundo voluntariamente sucateado, um terceiro vadeando em 
vez de trabalhar... E constata-se, em seguida, que um depósito foi roubado, que os livros de contas, pequenos ou 
grandes, são mal conservados ou falsificados, que os diretores de kolkhozes, por medo ou má vontade, não declaram a 
verdade em seus relatórios... E assim por diante, ao infinito, e sempre e mais uma vez nesse imenso território! [...] O 
inimigo, é preciso procurá-lo de casa em casa, povoado por povoado. É como carregar água num jarro furado!” 

Assim, para vencer “o inimigo”, havia somente uma solução: esfomeá-lo. 

Os primeiros relatórios sobre os riscos de uma “situação alimentar crítica” para o inverno de 1932-1933 
chegaram a Moscou a partir do verão de 1932. Em agosto de 1932, Molotov relatou ao Politburo que existia “uma real 


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ameaça de fome, mesmo nos distritos em que a colheita havia sido excelente”. Entretanto, ele propôs que o plano de 
coleta fosse concluído custasse o que custasse. Nesse mesmo mês de agosto, o presidente do Conselho de Comissários 
do Povo do Cazaquistão, Issaev, alertou Stalin sobre a gravidade da fome naquela república, onde a coletivização- 
sedentarização havia desorganizado completamente a economia nómade tradicional. Mesmo os stalinistas mais duros, 
tais como Stanislas Kossior, primeiro secretário do Partido da região de Dniepropetrovk, pediram a Stalin que fosse 
diminuído o plano de coleta. “Para que, no futuro, a produção possa aumentar de acordo com as necessidades do Estado 
proletário, escreveu Khataievitch a Molotov em novembro de 1932, devemos considerar as necessidades mínimas dos 
kolkho-zianos, na ausência dos quais, não haverá ninguém para semear e assegurar a produção.” 

“A sua posição, respondeu Molotov, é profundamente incorreta, não bolchevique. Nós, bolcheviques, não 
podemos colocar as necessidades do Estado - necessidades definidas com precisão pelas resoluções do Partido -em 
décimo e nem mesmo em segundo lugar.” 

Alguns dias mais tarde, o Politburo enviava às autoridades locais uma circular ordenando que os kolkhozes 
que ainda não houvessem completado seu plano fossem imediatamente despojados de “todos os grãos que eles 
detivessem, incluídas as supostas reservas para o plantio”! 

Tendo sido obrigados a entregar sob ameaça, ou mesmo sob tortura, suas magras reservas, não tendo nem os 
meios nem a possibilidade de comprar o que quer que seja, milhões de camponeses das regiões agrícolas mais ricas da 
União Soviética foram entregues à fome e não tiveram outra saída a não ser partir para as cidades. Ora, o governo 
acabava de instaurar, em 27 de novembro de 1932, o passaporte interior e o registro obrigatório para os citadinos, 
visando impedir o êxodo rural, “liquidar o parasitismo social” e “combater a infiltração dos elementos kulaks nas 
cidades”. Diante dessa fuga de camponeses em direção a sua sobrevivência, foi editada, em 22 de janeiro de 1933, uma 
circular que condenava a uma morte programada milhões de famintos. Assinada por Stalin e Molotov, ela ordenava às 
autoridades locais, e em particular à GPU, que fosse impedida “por todos os meios a partida em massa dos camponeses 
da Ucrânia e do Cáucaso do Norte para as cidades. Após a prisão dos elementos contra-revolucionários, os outros 
fugitivos devem ser reconduzidos ao local de sua residência”. A circular explicava assim a situação: “O Comitê Central 
e o governo têm provas de que esse êxodo em massa de camponeses é organizado pelos inimigos do poder soviético, os 
contra-revolucionários e os agentes poloneses, com o objetivo de propaganda contra o sistema kolkhoziano em 
particular e o poder soviético em geral.” 

Em todas as regiões atingidas pela fome, a venda de passagens de trem foi imediatamente suspensa; barreiras, 
controladas pelas unidades especiais da GPU, foram instaladas para impedir os camponeses de deixarem seu distrito. 
No início do mês de março de 1933, um relatório da polícia política explicava que, no período de um mês, 219.460 
pessoas haviam sido interceptadas durante as operações destinadas a limitar o êxodo de camponeses famintos em 
direção às cidades, que 186.588 haviam sido “reconduzidos a sua região de origem”, e que o restante havia sido detido 
e julgado. Mas o relatório se calava sobre o estado das pessoas expulsas das cidades. 

Sobre esse ponto, eis o testemunho do cônsul italiano de Kharkov, no coração de uma das regiões mais 
atingidas pela fome: 

“Há uma semana, foi organizado um serviço para recolher as crianças abandonadas. Com efeito, além dos 
camponeses que se dirigem para as cidades por não terem mais nenhuma esperança de sobreviverem no campo, há 
crianças que foram trazidas aqui e depois abandonadas por seus pais, os quais retornam aos povoados para lá morrerem. 
Estes últimos esperam que na cidade alguém tomará conta de sua progenitura. [...] Há uma semana, foram mobilizados 
os dvorniki [zeladores de prédios] que com suas camisas brancas patrulham a cidade e levam as crianças aos postos de 
polícia mais próximos. [...] Por volta da meia-noite, começa-se a transportá-los em caminhões para a estação ferroviária 
de cargas de Severo Donetz. É onde também são reunidas as crianças encontradas nas estações e nos trens, as famílias 
de camponeses, as pessoas idosas e sozinhas, recolhidas na cidade durante o dia. Há a presença de médicos [...] que 
fazem a “seleção”. Os que ainda não estão inchados e têm alguma chance de sobrevivência são conduzidos aos 
acampamentos de Holodnaia Gora, onde, em celeiros e sobre a palha, agoniza uma população de cerca de 8.000 almas, 
composta principalmente por crianças. [...] As pessoas inchadas são transportadas em trens de carga ao campo e 
abandonadas a 50-60 quilómetros da cidade para que elas morram sem que ninguém as veja. [...] Na chegada aos locais 
de descarga, cavam-se grandes fossas e os monos são retirados dos vagões.” 

No campo, a mortalidade atinge o seu auge na primavera de 1933. O tifo se junta à fome; em burgos de vários 
milhares de habitantes, os sobreviventes não são mais do que algumas dezenas. Casos de canibalismo são assinalados 
tanto nos relatórios da GPU como naqueles dos diplomatas italianos lotados em Kharkov: 

“Em Kharkov, são recolhidos a cada noite cerca de 250 cadáveres de pessoas mortas de fome ou de tifo. Nota- 
se que um número muito grande dentre eles não possuía mais fígado, que parecia ter sido extraído através de um grande 
corte. A polícia acabou encontrando alguns dos misteriosos 'am-putadores', que confessaram que com essa carne eles 
preparavam o recheio dos pirojki [pequenos patês] que em seguida eram vendidos no mercado.” 


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Em abril de 1933, o escritor Mikhail Cholokhov, de passagem por um burgo de Kuban, escreveu duas cartas a 
Stalin explicando detalhadamente a maneira pela qual as autoridades locais haviam extorquido, sob tortura, todas as 
reservas dos kolkhozianos, abandonando-os à fome. Ele pedia ao primeiro secretário que enviasse uma ajuda alimentar. 
Em sua resposta ao escritor, Stalin desvendou sem rodeios sua posição: os camponeses estavam justamente sendo 
punidos por terem feito “greve e sabotagem”, por terem “praticado uma guerra de trincheiras contra o poder soviético, 
uma guerra de morte.” Enquanto que nesse ano de 1933 milhões de camponeses morriam de fome, o governo soviético 
continuava a exportar 18 milhões de quintais de trigo para atender “as necessidades da industrialização”. 

Os arquivos demográficos e os recenseamentos de 1937 e 1939, mantidos em segredo até bem recentemente, 
permitem avaliar a extensão da fome de 1933. Geograficamente, a “zona de fome” cobria a totalidade da Ucrânia, urna 
parte da zona das terras negras, as ricas planícies do Kuban e do Cáucaso do Norte, e uma grande parte do Cazaquistão. 
Cerca de 40 milhões de pessoas foram atingidas pela fome e pela miséria. Nas regiões mais afetadas, como nas zonas 
rurais em torno de Kharkov, a mortalidade de janeiro a junho de 1933 foi multiplicada por dez com relação à média: 
100.000 mortes em junho de 1933 na região de Kharkov, contra 9.000 em junho de 1932. É preciso levar ainda em 
consideração que muitos dos decessos não eram nem mesmo registrados. As zonas rurais foram, sem dúvida, mais 
duramente atingidas do que as cidades, mas estas últimas também não foram poupadas. Kharkov perdeu, em um ano, 
mais de 120.000 habitantes, Krasnodar 40.000 e Stavro-pol 20.000. 

Além da “zona de fome”, as perdas demográficas, devidas em parte à indigência, não são negligenciáveis. Nas 
zonas rurais da região de Moscou, a mortalidade aumentou em 50% entre janeiro e junho de 1933; em Ivanovo, teatro 
dos tumultos provocados pela fome de 1932, a mortalidade aumentou em 35% no decorrer do primeiro semestre de 
1933. Para o ano de 1933 e a totalidade do país, observa-se um aumento de decessos superior a seis milhões. Uma vez 
que a imensa maioria desse aumento deve-se à fome, pode-se estimar em cerca de seis milhões de vítimas o balanço 
dessa tragédia. Os camponeses da Ucrânia arcaram com o tributo mais elevado, com, pelo menos, quatro milhões de 
mortos. No Cazaquistão, cerca de um milhão de mortos, principalmente entre a população nómade, privada, depois da 
coleti-vização, de todos os rebanhos e coletivizada à força. No Cáucaso do Norte e na região das terras negras, um 
milhão de mortos... 


Extratos da carta enviada a Stalin por Mikhail Cholokhov, autor de Don paisible [o Don pacífico], em 4 de 
abril de 1933. 


“Camarada Stalin! 

O distrito de Vechenski, como muitos outros distritos do Cáucaso do Norte, não conseguiu completar o plano 
de entrega de cereais. Não por causa de alguma 'sabotagem kulak", mas pek má direção local do Partido... 

Em dezembro último, o Comitê Regional do Partido enviou, para acelerar a campanha de coleta, um 
plenipotenciário”, o camarada Ovtchinnikov. Este último tomou as seguintes medidas: 1) requisitar todos os cereais 
disponíveis, inclusive o 'adiantamento' dado pela direção dos kolkhozes aos kolkhozianos para a semeadura da próxima 
colheita; 2) dividir entre os habitantes as entregas que deveriam ser feitas ao Estado por cada kolkhoz. Quais foram os 
resultados dessas medidas? Quando começaram as requisições, os camponeses se puseram a esconder e a enterrar o 
trigo. Agora, algumas palavras sobre os resultados numéricos de todas essas requisições. Cereais 'encontrados": 5.930 
quintais... E eis alguns dos métodos empregados para obter essas 593 toneladas, das quais uma parte estava enterrada... 
desde 1918! 

O método do frio... Os kolkhozianos são despidos e postos 'ao frio', com-pletamente nus, num celeiro. Muitas 
vezes, são bandos inteiros de kolkhozianos que são postos 'ao frio”. 

O método do calor. Os pés e as barras das saias das kolkhozianas são regados com gasolina e, em seguida, 
ateia-se fogo, que depois é apagado para começar de novo... 

No kolkhoz de Napolovski, um tal de Plotkin, 'plenipotenciário' do Comitê do Distrito, forçava os 
kolkhozianos interrogados a deitarem-se sobre um forno em brasa, depois ele os 'esfriava' trancando-os nus num 
celeiro... 

No kolkhoz de Lebiajenski, os kolkhozianos eram alinhados ao longo de um muro, e uma execução era 
simulada... 

Eu poderia multiplicar ao infinito esse tipo de exemplos. Não são 'abusos', não, é o método usual de coleta do 
trigo... 

Se lhe parece que minha carta é digna de reter a atenção do Comitê Central, envie-nos verdadeiros comunistas 
que tenham a coragem de desmascarar todos os que deram um golpe mortal na construção kolkhoziana desse distrito... 
Toda a nossa esperança se deposita em Stalin. 

Seu, Mikhail Cholokhov.” 

(Arquivos presidenciais, 45/1/827/7-22) 


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E a resposta de Stalin a M. Cholokhov, 6 de maio de 1933. 


“Caro camarada Cholokhov, 

Eu recebi suas duas cartas. A ajuda pedida foi concedida. Enviei o camarada Chkiriatov para resolver os casos 
mencionados. Peco-lhe que o ajude. É isso. Mas, camarada Cholokhov, não é isto o que eu queria dizer. Com efeito, 
suas cartas desenham um quadro que eu qualificaria de não objetivo, e, a esse respeito, eu gostaria de escrever-lhe 
algumas palavras. 

Agradeci-lhe por suas cartas que revelam uma pequena doença de nosso aparelho, que mostram que alguns dos 
funcionários do nosso Partido, querendo fazer bem feito, ou seja, desarmar nossos inimigos, atacam nossos amigos, 
chegando mesmo a tornarem-se francamente sádicos. Mas essas observações não significam que eu esteja 
INTEIRAMENTE de acordo com você. Sua visão limita-se a um aspecto das coisas, e é uma visão muito boa. Mas é 
SOMENTE UM aspecto das coisas. Para não cometer enganos em política - e suas cartas não são literatura, são política 
pura -, é preciso saber ver O OUTRO aspecto da realidade. E o outro aspecto é que os respeitados lavradores do seu 
distrito - e não somente do seu -faziam greve, faziam sabotagens e estavam prontos a deixar os operários e o Exército 
Vermelho sem pão! O fato de essa sabotagem ser silenciosa e aparentemente pacífica (sem derramamento de sangue) - 
esse fato em nada muda na essência do caso, a saber que os respeitados lavradores praticavam uma guerra de 
trincheiras contra o poder soviético. Uma guerra de morte, caro camarada Cholokhov! 

Certamente, essas especificidades não podem justificar os abusos que, segundo suas cartas, foram cometidos 
por nossos funcionários. E os culpados deverão responder por seu comportamento. Mas é claro como o dia que nossos 
respeitados lavradores não são ovelhinhas inocentes, como se poderia pensar ao ler suas cartas. 

Bom. Fique bem. Um aperto de mão. Seu, J. Stalin.” 

(Arquivos presidenciais, 3/61/549/194) 


Cinco anos antes do Grande Terror que atingiu em primeiro lugar a intelligentsia e os executivos da economia 
do Partido, a grande fome de 1932-1933, apogeu do segundo ato da guerra anticamponesa começada em 1929 pelo 
Partido-Estado, aparece como um episódio decisivo na instalação de um sistema repressivo experimentado por etapas, 
e, de acordo com as oportunidades políticas do momento, contra este ou aquele grupo social. Com seu cortejo de 
violências, de torturas, de mortandade de populações inteiras, a grande fome traduz uma impressionante regressão, ao 
mesmo tempo política e social. Vêem-se tiranos e déspotas locais se multiplicarem, prontos a tudo para extorquir dos 
camponeses suas últimas provisões, e a barbárie se instalar. Os excessos cometidos são erigidos como práticas 
cotidianas, as crianças são abandonadas, o canibalismo reaparece com as epidemias e a bandidagem; “acampamentos 
de morte” são instalados, os camponeses conhecem uma nova forma de servidão, sob a autoridade severa do Partido- 
Estado. Como escreveu com perspicácia Sergo Ordjonikidze a Serguei Kirov, em janeiro de 1934: “Os nossos 
executivos que conheceram a situação de 1932-1933 e que permaneceram incólumes têm verdadeiramente a têmpera de 
aço. Penso que com eles nós construiremos um Estado que a História não viu jamais”. 

Será preciso ver nessa fome, como o fazem atualmente alguns publicitários e historiadores ucranianos, um 
“genocídio do povo ucraniano”217 É inegável que os camponeses ucranianos foram as principais vítimas da fome de 
1932-1933 e que esse “assalto” foi precedido, desde 1929, por várias ofensivas contra a intelligentsia ucraniana, 
acusada inicialmente de “desvio nacionalista”, e depois, a partir de 1932, contra uma parte dos comunistas ucranianos. 
Sem contestação, pode-se, retomando a expressão de Andrei Sakharov, falar da “ucraniofobia de Stalin”. Todavia, é 
também importante notar que, proporcionalmente, a repressão através da fome atingiu da mesma maneira os cossacos 
do Kuban e do Don, e o Cazaquistão. Nesta última república, desde 1930, a coletivização e a sedentarização forçada 
dos nómades tiveram consequências desastrosas; 80% dos rebanhos foram dizimados em dois anos. Privados de seus 
bens, entregues à fome, dois milhões de cazacos emigraram, cerca de meio milhão para a Ásia Central e um milhão e 
meio para a China. 

De fato, em várias regiões, como a Ucrânia, os países cossacos, e mesmo alguns distritos da região das terras 
negras, a fome aparece como último episódio do confronto, iniciado em 1918-1922, entre o Estado bolchevique e o 
campesinato. Constatamos, com efeito, uma notável coincidência entre as zonas de forte resistência às requisições de 
1918-1921 e à coletivização de 1929-1930, e as zonas atingidas pela fome. Das 14.000 rebeliões e revoltas camponesas 
recenseadas pela GPU em 1930, mais de 85% ocorreram em regiões “punidas” com a fome em 1932-1933. São as 
regiões agrícolas mais ricas e mais dinâmicas - essas que tinham, ao mesmo tempo, mais para dar ao Estado e mais a 
perder para o sistema de extorsão da produção agrícola implantada no final da coletivização forçada - que foram as 
mais afetadas pela grande fome de 1932-1933. 


9. “Elementos estranhos à sociedade” e ciclos repressivos 


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Se a totalidade dos camponeses pagou o tributo mais pesado ao proje-to voluntarista stalinista de 
transformação radical da sociedade, outros grupos sociais, qualificados de “estranhos” à “nova sociedade socialista”, 
foram, a títulos diversos, exilados da sociedade, privados de seus direitos civis, expulsos de seu trabalho e de sua 
moradia, retrogradados na escala social, exilados: “especialistas burgueses”, “aristocratas”, membros do clero, 
profissionais liberais, pequenos empresários privados, comerciantes e artesãos foram as principais vítimas da 
“revolução anticapitalista” lançada no início dos anos 30. Mas a “gente comum” das cidades, que não entrava na 
categoria canónica do “proletariado-operário-construtor-do-socialismo”, também sofreu sua parcela de medidas 
repressivas, que visavam fazer progredir - e em conformidade com a ideologia - uma sociedade julgada insubmissa à 
marcha para ao progresso. 

O famoso processo de Chakhty marcara claramente o fim da trégua entre o regime e os “especialistas”, 
iniciada em 1921. Às vésperas do lançamento do primeiro plano quinquenal, a lição política do processo de Chakhty 
era clara: o ceticismo, a indecisão, a indiferença em relação à obra empreendida pelo Partido só poderiam conduzir à 
“sabotagem”. Duvidar já era trair. A spetzeedstvo - literalmente, “a perseguição ao especialista” - estava 
profundamente enraizada na mentalidade bolchevista, e o sinal político dado pelo processo de Chakhty foi 
perfeitamente recebido pela base. Os spetzy, especialistas, iriam tornar-se o bode expiatório para as derrotas 
econômicas assim como para as frustrações engendradas pela queda brutal do nível de vida. Desde o fim de 1928, 
milhares de quadros industriais e de engenheiros “burgueses” foram despedidos, privados de cartões de racionamento, 
de acesso aos serviços médicos, às vezes expulsos de sua moradia. Em 1929, milhares de funcionários do Gosplan, do 
Conselho Supremo da Economia Nacional, dos Comissariados do Povo para as Finanças, para o Comércio e para a 
Agricultura foram expurgados sob pretexto de “desvio direitista”, de “sabotagem” ou de pertencerem a uma “classe 
estranha à sociedade”. É verdade que 80% dos altos funcionários das Finanças haviam servido ao Antigo Regime. 

A campanha de expurgo de certas administrações recrudesceu a partir do verão de 1930, quando Stalin, 
desejoso de acabar definitivamente com os “direitistas” - principalmente com Rykov, que ainda ocupava o cargo de 
chefe do governo - decidiu demonstrar as ligações mantidas por esses com “especialistas-sabotadores”. Em agosto- 
setembro de 1930, a GPU multiplicou as prisões de especialistas de renome ocupando cargos importantes no Gosplan, 
no Banco do Estado e nos Comissariados do Povo para as Finanças, para o Comércio e para a Agricultura. Entre as 
personalidades presas figuravam principalmente o professor Kondratiev - inventor dos ramosos “ciclos Kondratiev”, e 
ministro-adjunto para o Abastecimento no Governo Provisório de 1917, que dirigia o Instituto de Conjuntura no 
Comissariado do Povo para as Finanças -, os professores Markarov e Tchaianov, que ocupavam importantes cargos no 
Comissariado do Povo para a Agricultura, o professor Sadyrine, membro da direção do Banco do Estado da URSS, o 
professor Ramzine, Groman, um dos economistas-estatísticos mais conhecidos do Gosplan, e outros especialistas 
eminentes. 

Devidamente instruída por Stalin, que acompanhava particularmente os casos dos “especialistas burgueses”, a 
GPU havia preparado dossiês destinados a demonstrar a existência de uma rede de organizações anti-soviéticas, ligadas 
entre si no interior de um pretenso “Partido Camponês do Trabalho” dirigido por Kondratiev, e de um pretenso “Partido 
Industrial” dirigido por Ramzine. Os investigadores conseguiram extorquir “confissões” de um certo número de 
pessoas presas, tanto sobre seus contatos com os “direitistas” Rykov, Bukharin e Syrtsov, quanto sobre sua participação 
em complôs imaginários que visavam eliminar Stalin e derrubar o regime soviético com a ajuda de organizações anti- 
soviéticas emigradas e dos serviços de informação estrangeiros. Indo ainda mais longe, a GPU arrancou de dois 
instrutores da Academia Militar “confissões” sobre a preparação de um complô dirigido pelo Chefe de Estado Maior do 
Exército Vermelho, Mikhail Tukhatchevski. Como prova a carta que ele dirigiu a Sergo Ordjonikidze, Stalin preferiu 
não correr o risco, nesse momento, de mandar prender Tukhatchevski, limitando-se a outros alvos, os “especialistas- 
sabotadores”. 

Esse episódio significativo mostra claramente que as técnicas e os mecanismos de fabricação de casos sobre 
pretensos “grupos terroristas” aos quais estariam ligados os comunistas opostos à linha stalinista estavam perfeitamente 
afinados desde 1930. Por hora, Stalin não queria e não podia ir mais rápido. No final das contas, todas as provocações e 
as manobras desse período perseguiam alvos bastante modestos: desencorajar os últimos opositores à linha stalinista no 
interior do Partido, amedrontar todos os indecisos e hesitantes. 

Em 22 de setembro de 1930, o Pravda publicou as “confissões” de 48 funcionários dos Comissariados do Povo 
para o Comércio e para as Finanças, que tinham se reconhecido culpados “por dificuldades de fornecimento nos países 
e pelo desaparecimento de moedas de prata”. Alguns dias antes, em uma carta endereçada a Molotov, Stalin havia dado 
instruções a respeito desse caso: “Precisamos: a) expurgar radicalmente o aparelho do Comissariado do Povo para as 
Finanças e do Banco do Estado, não obstante as gritarias dos comunistas duvidosos do tipo Piatakov-Briukhanov; b) 
fuzilar necessariamente duas ou três dezenas de sabotadores infiltrados nesses aparelhos. [...]; c) continuar, em todo o 


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território da URSS, as operações da GPU visando recuperar as moedas de prata em circulação”. Em 25 de setembro de 
1930, os 48 especialistas foram executados. 

Nos meses que se seguiram, vários processos idênticos foram inteiramente montados. Alguns deles se 
desenrolaram a portas fechadas, como os processos dos “especialistas do Conselho Supremo da Economia Nacional” 
ou do “Partido Industrial”, no curso do qual oito dos acusados “confessaram” ter montado, instigados por embaixadas 
estrangeiras, uma ampla rede contando com dois mil especialistas e encarregada de organizar a subversão econômica. 
Esses processos alimentaram o mito da sabotagem que, junto com o do complô, iria estar no centro da montagem 
ideológica stalinista. 

Em quatro anos, de 1928 a 1931, 138.000 funcionários foram excluídos da função pública, dos quais 23.000, 
classificados na categoria I (“inimigos do povo soviético”), foram privados de seus direitos civis. A caça aos 
especialistas assumiu uma amplitude ainda maior nas empresas, submetidas a uma pressão produtivista que 
multiplicava os acidentes, a fabricação de refugo, as panes das máquinas. De janeiro de 1930 a junho de 1931, 48% dos 
engenheiros do Donbass foram destituídos ou presos; apenas no setor de transportes, 4.500 “especialistas sabotadores” 
foram “desmascarados” no curso do primeiro semestre de 1931. Essa caça aos especialistas, junto ao empreendimento 
descontrolado de construções com objetivos irrealizáveis, a uma forte queda da produtividade e da disciplina do 
trabalho, e ao desprezo pelas exigências econômicas, terminou por desorganizar permanentemente o andamento das 
empresas. 

Diante da amplitude da crise, a direção do Partido teve que se resolver a adotar alguns “corretivos”. Em 10 de 
julho de 1931, o Politburo tomou uma série de medidas tendendo a limitar a arbitrariedade de que os spetzy eram 
vítimas desde 1928: liberação imediata de vários engenheiros e técnicos, “prioritariamente na metalurgia e nas minas de 
carvão”, supressão de todas as discriminações que limitavam o acesso ao ensino superior para seus filhos, interdição 
feita à GPU de prender um especialista sem o acordo prévio do comissariado do povo do qual ele dependia. O simples 
enunciado dessas medidas testemunhava a amplitude das discriminações e da repressão da qual haviam sido vítimas, 
desde o processo de Chakhty, dezenas de milhares de engenheiros, agrónomos, técnicos e administradores de todos os 
níveis. 

Entre as outras categorias sociais excluídas da “nova sociedade socialista” figuravam principalmente os 
membros do clero. Os anos 1929-1930 viram se desenvolver, após a de 1918-1922, a segunda grande ofensiva do 
Estado Soviético contra a Igreja. No fim dos anos 20, apesar da contestação, por um certo número de prelados, da 
declaração de fidelidade feita pelo me-tropolita Serge, sucessor do Patriarca Tikhon, ao poder soviético, a importância 
da Igreja Ortodoxa na sociedade permanecia forte. Das 54.692 igrejas ativas em 1914, cerca de 39.000 ainda estavam 
abertas ao culto no início de 1929-7 Emelian laroslavski, presidente da Liga dos Sem-Deus fundada em 1925, 
reconhecia que menos de dez milhões de pessoas, dos 130 milhões com que contava o país, “haviam rompido” com a 
religião. 

A ofensiva anti-religiosa de 1929-1930 desenvolveu-se em duas etapas. A primeira, na primavera e no verão 
de 1929, foi marcada pelo recrudesci-mento e a reativação da legislação anti-relígiosa dos anos 1918-1922. Em 8 de 
abril de 1929 foi promulgado um importante decreto que acentuava o controle das autoridades locais sobre a vida das 
paróquias e acrescentava novas restrições à atividade das organizações religiosas. A partir de então, toda atividade “que 
ultrapassasse os limites da própria satisfação das aspirações religiosas” caía sob o jugo da lei e principalmente sob a 
alínea 10 do temível artigo 58 do Código Penal que estipulava que “toda utilização dos preconceitos religiosos das 
massas [...] que vise enfraquecer o Estado” era passível de “uma pena que ia de um mínimo de três anos de detenção até 
a pena de morte”. Em 26 de agosto de 1929, o Governo instituiu a semana de trabalho contínuo de cinco dias - cinco 
dias de trabalho, um de repouso - que eliminava o domingo como dia de repouso comum ao conjunto da população. 
Essa medida deveria “facilitar a luta pela erradicação da religião”. 

Esses diversos decretos não eram mais que o prelúdio de ações mais diretas, segunda etapa da ofensiva anti- 
religiosa. Em outubro de 1929 foi ordenada a captura dos sinos: “O som dos sinos infringe o direito ao repouso das 
grandes massas atéias das cidade e do campo”. Os adeptos do culto foram assimilados aos kulaks: sobrecarregados de 
impostos - a taxação dos popes decuplicou entre 1928 e 1930 -, privados de seus direitos civis, o que significava 
principalmente que eles estavam desse momento em diante privados de seus cartões de racionamento e toda a 
assistência médica, eles foram frequentemente presos, depois exilados e deportados. Segundo dados incompletos, mais 
de 13 mil adeptos do culto foram “deskulakizados” em 1930. Em muitos povoados e burgos, a coletivização começou 
simbolicamente com o fechamento da igreja e a deskulakização pelo pope. Um fato significativo é que cerca de 14% 
das rebeliões e sublevações camponesas registradas em 1930 tiveram como causa primeira o fechamento das igrejas e o 
confisco do sinos. A campanha anti-religiosa atingiu seu apogeu durante o inverno de 1929-1930. Em 19 de março de 
1930, 6.715 igrejas haviam sido fechadas ou destruídas. Ora, após o famoso artigo de Stalin de 2 de março de 1930, “A 
vertigem do sucesso”, uma resolução do Comitê Central condenou cinicamente “os desvios inadmissíveis na luta contra 
os preconceitos religiosos, particularmente o fechamento administrativo das igrejas sem o consentimento dos 


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habitantes”. Contudo, essa condenação formal não teve nenhuma incidência sobre a sorte dos adeptos do culto 
deportados. 

Ao longo dos anos seguintes, as grandes ofensivas contra a Igreja cederam lugar a uma perseguição 
administrativa cotidiana dos adeptos do culto e das organizações religiosas. Interpretando livremente os 65 artigos do 
decreto de 8 de abril de 1929, ultrapassando suas prerrogativas em matéria de fechamento de igreja, as autoridades 
locais continuaram a guerrilha, pelos mais variados motivos: vetustez ou “estado anti-sanitário” dos edifícios, “falta de 
cobertura de seguro”, não-pagamento de impostos e de outras inúmeras contribuições impostas aos membros das 
organizações religiosas. Privados de seus direitos civis, de seu magistério, da possibilidade de ganhar a vida exercendo 
um trabalho assalariado, tributados de modo arbitrário como “elementos parasitas vivendo de fontes de renda não 
assalariadas”, um certo número de adeptos do culto não tiveram outra solução a não ser tornarem-se “popes errantes”, 
levando uma vida clandestina à margem da sociedade. Desenvolveram-se assim movimentos cismáticos, em oposição à 
política de fidelidade ao poder soviético pregada pelo metropolita Serge, principalmente nas províncias de Voronezh e 
de Tambov. 

Os fiéis de Alexei Bui, bispo de Voronezh preso em 1929 por sua intransigência diante de qualquer 
compromisso entre a Igreja e o regime, se organizaram em uma igreja autónoma, a “Verdadeira Igreja Ortodoxa”, com 
seu clero próprio, frequentemente “errante”, ordenado fora da Igreja patriarcal sergueiviana. Os adeptos dessa “Igreja 
do deserto”, que não possuíam sedes próprias para seu culto, se reuniam para rezar no lugares mais diversos: domicílios 
privados, eremitérios, grotas. Esses “verdadeiros cristãos ortodoxos”, como eles se chamavam, foram particularmente 
perseguidos; vários milhares dentre eles foram presos e deportados como colonos especiais ou enviados aos campos de 
concentração. Quanto à Igreja Ortodoxa, o número de seus lugares de culto e de seus servidores conheceu, diante da 
pressão constante das autoridades, uma diminuição muito clara, mesmo se, como o recenseamento anulado de 1937 iria 
demonstrá-lo, 70% dos adultos continuavam a dizer-se crentes. Em 1º de abril de 1936, não restavam mais que 15.835 
igrejas ortodoxas em atividade (28% do número de antes da revolução), 4.830 mesquitas (32% do número de antes da 
revolução) e algumas dezenas de igrejas católicas e protestantes. Quanto ao número de adeptos do culto devidamente 
registrados, ele não era mais que de 17.857, contra 112.629 em 1914 e ainda cerca de 70.000 em 1928. O clero não era 
nada mais, para retomar uma fórmula oficial, do que “um resquício de classes moribundas”. 

Os kulaks, os spetzy e os membros do clero não foram as únicas vítimas da “revolução anticapitalista” do 
começo dos anos 30. Em janeiro de 1930, as autoridades lançaram uma grande campanha de “evicção dos empresários 
privados”. Essa operação visava particularmente aos comerciantes, aos artesãos e a alguns membros das profissões 
liberais, no total, cerca de um milhão e meio de ativos, que, sob a NEP, haviam atuado no setor privado, mas de um 
modo muito modesto. Esses empresários privados, cujo capital médio no comércio não ultrapassava 1.000 rublos, e dos 
quais 98% não empregavam nenhum assalariado, foram rapidamente espoliados, através da decuplicação de seus 
impostos, do confisco de seus bens; depois, enquanto “elementos desclassificados”, “desocupados” ou “elementos 
estrangeiros”, eles foram privados de seus direitos civis na mesma qualidade de um conjunto disparatado de 
“aristocratas” e outros “membros das classes abastadas e do aparelho de Estado czarista”. Um decreto de 12 de 
dezembro de 1930 recenseou mais de 30 categorias de lichentsy, cidadãos privados de seus direitos civis: “ex- 
proprietários de terra”, “ex-comerciantes”, “ex-nobres”, “ex-poli-ciais”, “ex-funcionários czaristas”, “ex-kulaks”, “ex- 
locatários ou proprietários de empresas privadas”, “ex-oficiais brancos”, servidores, monges, freiras, “ex-membros de 
partidos políticos”, etc. As discriminações de que eram vítimas os lichentsy - que, em 1932, representavam 4% dos 
eleitores, ou seja, junto com suas famílias, cerca de sete milhões de pessoas - não se limitavam evidentemente à simples 
privação do direito de voto. Em 1929-1932, essa privação se acompanhou da perda de todo o direito à moradia, aos 
serviços de assistência e aos cartões de racionamento. Em 1933-1934, foram tomadas medidas ainda mais severas, 
chegando até o desterro no contexto das operações de “passaportização” destinadas a expurgar as cidades de seus 
“elementos desclassificados”. 

Atingindo as estruturas sociais e os modos de vida rurais na raiz, a coletivização forcada do campo, substituída 
pela industrialização acelerada, engendrara uma formidável migração camponesa em direção às cidades. A Rússia 
camponesa se transformou em um país de vagabundos, Rusbro-djaschaia. Do fim de 1928 ao fim de 1932, as cidades 
soviéticas foram submergidas por um fluxo de camponeses, estimado em 12 milhões de pessoas, fugindo da 
coletivização e da deskulakização. Somente as regiões de Moscou e Leningrado “acolheram” mais de três milhões e 
meio de migrantes. Entre estes figuravam um bom número de camponeses empresários que haviam preferido fugir de 
seu povoado ou, quando necessário “autodeskulakizar-se”, de preferência a entrar no kolkhoz. Em 1930-1931, os 
incontáveis canteiros de obras absorveram essa mão-de-obra pouco exigente. Mas, a partir de 1932, as autoridades 
começaram a se preocupar com esse afluxo maciço e descontrolado de uma população vagabunda que “ruralizava” a 
cidade, lugar de poder e vitrine da nova ordem socialista, colocando em perigo todo o sistema de racionamento 
arduamente elaborado desde 1929, cujo número de “beneficiários” passou de 26 milhões no início de 1930 a cerca de 
40 milhões no fim de 1932, transformando as fábricas em imensos “acampamentos de nómades”. Não estariam os 


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recém-chegados na origem de toda uma série de “fenómenos negativos” que, segundo as autoridades, desorganizavam 
permanentemente a produção: absenteísmo, queda vertiginosa da disciplina do trabalho, vandalismo, fabricação de 
refugo, desenvolvimento do alcoolismo e da criminalidade? 

Para combater essa stikhia - termo que designa ao mesmo tempo os elementos naturais, a anarquia e a 
desordem -, as autoridades tomaram, em novembro-dezembro de 1932, uma série de medidas repressivas que iam de 
uma penalização sem precedentes das relações de trabalho a uma tentativa de expurgar as cidades de seus “elementos 
socialmente estrangeiros”. A lei de 15 de novembro de 1932 sancionava severamente o absenteísmo no trabalho e 
previa de forma notável a dispensa imediata, a retirada dos cartões de racionamento e a expulsão dos contraventores de 
sua moradia. Seu objetivo declarado era permitir desmascarar os “pseudo-operários”. O decreto de 4 de dezembro de 
1932, que dava às empresas a responsabilidade da entrega dos novos cartões de racionamento, tinha como principal 
objetivo eliminar todas as “almas mortas” e os “parasitas” devidamente inscritos nas listas municipais de racionamento 
menos bem mantidas. 

Mas a viga mestra do dispositivo foi a introdução, em 27 de dezembro de 1932, do passaporte interior. A 
“passaportização” da população respondia a vários objetivos explicitamente definidos no preâmbulo do decreto: 
liquidar o “parasitismo social”, restringir a “infiltração” dos kulaks nos centros urbanos e sua atividade nos mercados, 
limitar o êxodo rural, salvaguardar a pureza social das cidades. Todos os cidadãos adultos, isto é, com mais de 16 anos 
de idade, não privados de seus direitos civis, assim como os ferroviários, os assalariados permanentes dos canteiros de 
obras de construções, os trabalhadores agrícolas das fazendas de Estado, recebiam um passaporte emitido pelos 
serviços de polícia. Esse passaporte só era válido quando continha um carimbo oficial certificando o endereço legal 
(propiska) do citadino. O pro-piska regia inteiramente o estatuto do citadino com suas vantagens específicas: cartão de 
racionamento, seguros sociais e direito à moradia. As cidades foram divididas em duas categorias: “abertas” ou 
“fechadas”. As cidades “fechadas” - Moscou, Leningrado, Kiev, Odessa, Minsk, Kharkov, Rostov-sobre-o-Don, 
Vladivostok num primeiro tempo - eram cidades com estatuto privilegiado, mais bem abastecidas, onde o domicílio 
definitivo só podia ser obtido por filiação, casamento ou emprego específico dando direito ao propiska. As cidades 
“abertas” estavam submetidas a um propiskã de obtenção mais fácil. 

As operações de “passaportização” da população, que se prolongaram durante todo o ano de 1933 - 27 milhões 
de passaportes foram entregues -, permitiram às autoridades expurgar as cidades dos elementos indesejáveis. Iniciada 
em Moscou, em 5 de janeiro de 1933, a primeira semana de passaportização de 20 grandes empresas industriais da 
capital resultou na descoberta de 3.450 “ex-guardas brancos, ex-kulaks e outros elementos criminosos”. No total, nas 
“cidades fechadas”, mais de 385.000 pessoas tiveram o passaporte recusado e foram constrangidas a deixar seu local de 
residência num prazo de dez dias, com proibição de se instalarem numa outra cidade, mesmo “aberta”. “Devem-se, é 
claro, acrescentar a esse número, reconhecia o Chefe do Departamento de Passaportes do NKVD em seu relatório de 13 
de agosto de 1934, todos aqueles que, quando foi anunciada a operação de 'passaportização', preferiram deixar as 
cidades por sua própria decisão, sabendo que não lhes seria dado um passaporte. Em Magnitogorsk, por exemplo, cerca 
de 35.000 pessoas deixaram a cidade. [...] Em Moscou, durante os dois primeiros meses da operação, a população 
diminuiu em 60.000 pessoas. Em Leningrado, em um mês, 54.000 pessoas desapareceram do ar.” Nas cidades 
“abertas”, a operação permitiu expulsar mais de 42.000 pessoas. 

Controle de polícia e detenções de indivíduos sem documentos resultaram no exílio de centenas de milhares de 
pessoas. Em dezembro de 1933, Genrikh lagoda ordenou a seus serviços que “limpassem” a cada semana as estações de 
trem e as feiras nas cidades “fechadas”. No curso dos oito primeiro meses de 1934, apenas nas cidades “fechadas”, 
mais de 630.000 pessoas foram interpeladas por infração ao regime de passaportes. Entre elas, 65.661 foram 
encarceradas por via administrativa, em seguida geralmente deportadas como “elementos desclassificados” com o 
estatuto de colono especial; as outras se livraram com uma simples multa. 

Foi durante o ano de 1933 que tiveram lugar as operações mais espeta-cidares: de 28 de junho a 3 de julho, 
prisão e deportação de 5.470 ciganos de Moscou para os “povoados de trabalho” siberianos;16 de 8 a 12 de julho, 
prisão e deportação de 4.750 “elementos desclassificados” de Kiev; em abril, junho e julho de 1933, detenção- 
deportação de três contingentes de “elementos desclassificados” de Moscou e de Leningrado, isto é, mais de 18.000 
pessoas no total. O primeiro desses contingentes foi enviado à ilha de Nazino, onde, em um mês, pereceram dois terços 
dos deportados. 

Sobre a identidade de alguns desses pretensos “elementos desclassificados” deportados após um simples 
controle da polícia, eis o que escrevia, em seu relatório já citado, o instrutor do partido de Narvm: 

“Eu poderia multiplicar os exemplos de deportação totalmente injustificada. Infelizmente, todas essas pessoas, 
que eram próximos, operários, membros do Partido, estão mortas, pois eles eram os menos adaptados às condições: 
Novojilov Vladimir, de Moscou. Motorista da fábrica Compressor de Moscou, três vezes premiado. Esposa e filho em 
Moscou. Preparava-se para ir ao cinema com sua esposa. Enquanto ela se arrumava, ele desceu, sem documentos, para 
buscar cigarros. Foi detido na rua; Vinogradova, kolkhoziana. Ta à casa de seu irmão, chefe de milícia do 8.º setor, em 


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Moscou. Foi detida na descida do trem, em uma das estacões ferroviárias da cidade, deportada; Voikine, Nikolai 
Vassilievitch, membro do komsomol desde 1929, operário na fabrica O Operário Têxtil Vermelho de Serpukhov. Três 
vezes premiado. Ia domingo a um jogo de futebol. Havia esquecido de pegar seus documentos. Detido, deportado. - 
Matveev, I. M. Operário da construção, no canteiro de obra de fabricação de pão nº 9. Possuía um passaporte de 
trabalhador sazonal, válido até dezembro de 1933. Detido com seu passaporte. Tinha dito que ninguém quis sequer dar 
uma olhada em seus documentos...” 

O expurgo das cidades do ano de 1933 foi acompanhado de inúmeras outras operações pontuais empreendidas 
com o mesmo espírito, tanto nas administrações quanto nas empresas. Nos transportes ferroviários, setor estratégico 
dirigido com mão de ferro por Andreiev, em seguida por Kaganovitch, 8% do conjunto do pessoal, ou seja, cerca de 
20.000 pessoas, foram expurgadas na primavera de 1933. Sobre o desenrolar dessas operações, eis uma passagem 
extraída do relatório do Chefe de Departamento de Transporte da GPU sobre “a eliminação de elementos contra- 
revolucionários e anti-soviéticos das ferrovias”, datado de 5 de janeiro de 1933: 

“As operações de limpeza efetuadas pelo Departamento de Transportes da GPU da oitava região deram os 
resultados seguintes: Penúltima operação de expurgo, 700 pessoas presas e deferidas diante dos tribunais, entre as 
quais: saqueadores de encomendas: 325; vândalos (ladrôezinhos) e elementos criminosos: 221; bandidos: 27; elementos 
contra-revolucionários: 127; e 73 saqueadores de encomendas fazendo parte de bandos organizados foram fuzilados. 
Durante a última operação de expurgo [...] 200 pessoas em média foram presas. São principalmente elementos kulaks. 
Outrossim, 300 pessoas duvidosas foram despedidas por via administrativa. Assim, no curso dos últimos quatro meses, 
são 1.270 pessoas que, de uma maneira ou de outra, foram cassadas da rede. A limpeza continua.” 

Na primavera de 1934, o governo tomou uma série de medidas repressivas em relação aos numerosos jovens 
vagabundos e pequenos delinquentes que se multiplicaram nas cidades desde a deskulakização, a fome e a brutali-zação 
geral das relações sociais. Em 7 de abril de 1935, o Politburo editou um decreto que previa “submeter à justiça, para 
aplicar-lhes todas as sanções penais previstas pela lei, os adolescentes, a contar de 12 anos, autores de furtos, atos de 
violência, lesões corporais, atos de mutilação e de assassinato”. Alguns dias mais tarde, o governo enviou uma 
instrução secreta ao tribunal, especificando que as sanções penais aos adolescentes “também comportavam a medida 
suprema de defesa social”, isto é, a pena de morte. Em consequência, as antigas disposições do Código Penal que 
proibiam aplicar a pena de morte aos menores foram revogadas. Paralelamente, o NKYD foi encarregado de 
reorganizar as “casas de recepção e de destino de menores”, dependentes até então do Comissariado do Povo para a 
Instrução, e de desenvolver uma rede de “colônias de trabalho” para menores. 

Contudo, diante da amplitude crescente da delinquência juvenil e da vagabundagem, essas medidas não 
tiveram nenhum efeito. Como observava um relatório sobre “a liquidação da vagabundagem de menores durante o 
período de 19 de julho de 1935 a 1.º de outubro de 1937”: 

“Apesar da reorganização dos serviços, a situação não melhorou em nada. [...] A partir de fevereiro de 1937, 
foi notado um forte fluxo de vagabundos das zonas rurais, principalmente das regiões atingidas pela má colheita de 
1936. [...] As saídas em massa de crianças do campo por causa de dificuldades materiais temporárias que afetam suas 
famílias se explicam não somente pela má organização das caixas de auxílio mútuo dos kolkhozes, mas também pelas 
práticas criminosas dos dirigentes dos kolkhozes que, desejosos de se livrarem dos jovens mendicantes e dos 
vagabundos, dão a estes últimos "atestados de vagabundagem e mendicância' e os expedem em direção às estações 
ferroviárias e às cidades mais próximas. [...] Outrossim, a administração ferroviária e a milícia das estradas de ferro, ao 
invés de prenderem os menores vagabundos e de dirigi-los para os centros de recepção e de repartição do NKVD, se 
limitavam a colocá-los à força nos trens de passagem 'para que o seu setor fosse limpo" [...] e os vagabundos se viam 
mais uma vez nas grandes cidades.” 

Alguns números dão uma idéia da dimensão do fenómeno. Apenas durante o ano de 1936, mais de 125.000 
menores vagabundos passaram pelos “centros de recepção” do NKVD; de 1935 a 1939, mais de 155.000 menores 
foram encerrados nas colônias de trabalho do NK VD, e 92.000 crianças de 12 a 16 anos compareceram à Justiça apenas 
nos anos de 1936-1939. Em 1º de abril de 1939, mais de 10.000 menores estavam encarcerados no sistema de campos 
do Gulag. 

Na primeira metade dos anos 30, a amplitude da repressão praticada pelo Partido-Estado contra a sociedade 
conheceu variações de intensidade, com os ciclos alternando momentos de violenta confrontação, com seu cortejo de 
medidas terroristas e de expurgos em massa, e momentos de pausa que permitiam reencontrar um certo equilíbrio, ou 
mesmo suspender o caos que ameaçava engendrar um confronto permanente, causador de derrapagens descontroladas. 

A primavera de 1933 marcou sem dúvida o apogeu de um primeiro grande ciclo de terror que havia começado 
no fim de 1929 com o lançamento da deskulakização. As autoridades foram então confrontadas com problemas 
realmente inéditos. E primeiro, como assegurar, nas regiões devastadas pela fome, os trabalhos no campo para a 
colheita futura? “Se nós não levamos em consideração as necessidades mínimas dos kolkhozianos, prevenira um 
importante responsável do Partido no outono de 1932, não haverá mais ninguém para semear e assegurar a produção.” 


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Em seguida, o que fazer com os milhares de acusados que entupiam as prisões e que o sistema de campos de 
concentração não estava sequer em medida de explorar? “Que efeitos podiam ter nossas leis super-repressivas sobre a 
população, interrogava-se um outro responsável local do Partido em março de 1933, quando se sabe que, sob proposta 
do tribunal, centenas de kolkhozianos, condenados mês passado a dois anos e mais de prisão por sabotagem do plantio, 
já foram liberados” 

As respostas dadas pelas autoridades a essas duas situações-limite, durante o verão de 1933, revelavam duas 
orientações diferentes cuja mistura alternância e frágil equilíbrio iam caracterizar o período do verão de 1933 ao outono 
de 1936, antes do início do Grande Terror. 

À primeira questão - como assegurar os trabalhos no campo para a futura colheita, nas regiões devastadas pela 
fome? -, as autoridades responderam do modo mais expeditivo, organizando imensas detenções da população urbana, 
enviada aos campos de concentração manu militari. 

“A mobilização das forcas citadinas, escrevia em 20 de julho de 1933 o cônsul italiano de Kharkov, tomou 
proporções enormes. [...] Esta semana, pelo menos 20.000 pessoas foram enviadas diariamente para o campo. [...] 
Anteontem, o bazar foi cercado, pegaram todas as pessoas válidas, homens, mulheres, meninos e meninas adolescentes, 
levaram-nos à estação ferroviária, enquadrados pela GPU, e os expediram aos campos de concentração.” 

A chegada em massa ao campo desses citadinos famintos não deixou de criar tensões. Os camponeses 
incendiavam os acampamentos onde estavam jogados como gado os “mobilizados” - que haviam sido devidamente 
prevenidos pelas autoridades para não se aventurarem pelos povoados “cheios de canibais”. Contudo, graças a 
condições meteorológicas excepcionalmente favoráveis à mobilização de toda mão-de-obra citadina disponível e ao 
instinto de sobrevivência dos citadinos poupados - que, consignados em seus povoados, não tinham outra alternativa 
senão trabalhar essa terra que não lhes pertencia ou morrer -, as regiões atingidas pela fome de 1932-1933 deram, no 
outono de 1933, uma colheita sobretudo honorável. 

À segunda questão - o que fazer do fluxo de detidos que entupiam as prisões? -, as autoridades responderam de 
maneira pragmática, liberando várias centenas de milhares de pessoas. Uma circular confidencial do Comitê Central de 
8 de maio de 1933 reconheceu a necessidade de “regulamentar as prisões [...] efetuadas por qualquer um, de 
“desentupir os locais de detenção” e de “reduzir, num prazo de dois meses, o número total de detidos, com exceção dos 
campos de concentração, de 800.000 para 400.000”. A operação de “desentupimento” durou cerca de um ano, e 
aproximadamente 320.000 pessoas detidas foram liberadas. 

O ano de 1934 foi marcado por uma certa calmaria na política repressiva. Como prova a grande diminuição do 
número de condenações referentes a casos seguidos pela GPU, que caíram a 79.000, contra 240.000 em 1933. A polícia 
política foi reorganizada. Conforme o decreto de 10 de julho de 1934, a GPU tornava-se um departamento do Novo 
Comissariado do Povo para o Interior unificado em toda a URSS. Ele parecia assim dissolver-se em outros 
departamentos menos temíveis, como a milícia operária e camponesa, as guardas de fronteira, etc. Portando a partir de 
então a mesma sigla que o Comissariado do Povo para o Interior - Narodnyi Komissariat Vnutrennykh Diel, ou NKVD 
-, a “nova” polícia política perdia uma parte de suas atribuições judiciárias; ao fim da instrução, os dossiês deveriam ser 
“transmitidos aos órgãos jurídicos competentes”, e ela não tinha mais a possibilidade de ordenar as execuções capitais 
sem o aval das autoridades políticas centrais. Era igualmente criado um procedimento de apelação: todas as 
condenações à morte deveriam ser confirmadas por uma comissão do Politburo. 

Contudo, essas disposições, apresentadas como medidas “reforçando a legalidade socialista”, tiveram apenas 
efeitos muito limitados. O controle das decisões de prisão pelo tribunal revelou-se sem alcance, pois o Procurador 
Geral Vychinski deixou grande margem aos órgãos repressores. Outros-sim, desde setembro de 1934, o Politburo 
desrespeitou os procedimentos que ele próprio estabelecera a propósito das condenações à pena capital, autorizando os 
responsáveis por um certo número de regiões a não se referirem a Moscou para as condenações à morte no nível local. 
A calmaria foi de curta duração. 

O assassinato de Serge Kirov, membro do Politburo e Primeiro Secretário da Organização do Partido em 
Leningrado, abatido em 1? de dezembro de 1934 por Leonid Nikolaiev, um jovem comunista exaltado que conseguira 
penetrar armado no Instituto Smolny, sede da direção do Partido de Leningrado, iniciou um novo ciclo repressivo. 

Durante décadas, a hipótese da participação direta de Stalin no assassinato de seu principal “rival” político 
prevaleceu, principalmente após as “revelações” feitas por Nikita Kruschev em seu “Relatório secreto” apresentado na 
noite de 24 a 25 de fevereiro de 1956, diante dos delegados soviéticos presentes ao XX Congresso do PCUS. Essa 
hipótese foi recentemente contestada, principalmente na obra de Alia Kirilina, que se baseia em fontes de arquivos 
inéditas. No entanto, o assassinato de Kirov foi amplamente utilizado por Stalin para fins políticos. Ele materializava, 
com efeito, de modo categórico, a figura do complô, figura central da retórica stalinista. Ele permitia alimentar um 
clima de crise e de tensão. Ele podia servir, a qualquer momento, como prova tangível - em realidade, de um único 
elemento - da existência de uma ampla conspiração que ameaçava o país, seus dirigentes e o socialismo. Ele fornecia, 
durante um bom tempo, uma excelente explicação para as fraquezas do sistema: se as coisas iam mal, se a vida era 


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difícil, enquanto ela devia ser, segundo a famosa declaração de Stalin, “alegre e feliz”, era “culpa dos assassinos de 
Kirov”. 

Algumas horas após o anúncio do assassinato, Stalin redigiu um decreto, conhecido pelo nome de “lei de 1º de 
dezembro”. Essa medida extraordinária, posta em funcionamento sob decisão pessoal de Stalin, e que foi legitimada 
pelo Politburo somente dois dias mais tarde, ordenava a redução para dez dias do período de instrução dos processos 
nos casos de terrorismo, que os julgamentos fossem feitos na ausência das partes e que as sentenças de morte fossem 
aplicadas imediatamente. Essa lei, que marcava uma ruptura radical com os procedimentos estabelecidos alguns meses 
antes, seria o instrumento ideal para a aplicação do Grande Terror.? 

Nas semanas que se seguiram, um grande numero de antigos opositores de Stalin no interior do Partido foram 
acusados de atividades terroristas. Em 22 de dezembro de 1934, a imprensa anunciou que o “crime odioso” era obra de 
um “grupo terrorista clandestino” compreendendo, além de Niko-laiev, 13 antigos “zinovievistas” arrependidos, e 
dirigido por um pretenso “Centro de Leningrado”. Todos os membros desse grupo foram julgados a portas fechadas em 
28 e 29 de dezembro, condenados à morte e imediatamente executados. Em 9 de janeiro de 1935, abriu-se o processo 
do mítico “Centro Contra-revolucionário Zinovievista de Leningrado” implicando 77 pessoas, entre as quais numerosos 
militantes eminentes do Partido que se opuseram no passado à linha stalinista e que foram condenados a pequenas 
penas de prisão. A descoberta do Centro de Leningrado permitiu colocar a mão em um “Centro de Moscou” incluindo 
19 pretensos participantes, entre os quais Zinoviev e Kamenev em pessoa, que foram acusados de “cumplicidade 
ideológica” com os assassinos de Kirov e julgados em 16 de janeiro de 1935- Zinoviev e Kamenev admitiram que a 
“antiga atividade de oposição não podia, por força das circunstâncias objetivas, senão estimular a degenerescência 
desses criminosos”. O reconhecimento dessa assombrosa “cumplicidade ideológica”, que vinha após tantos 
arrependimentos e renegações públicos, deveria levar os dois antigos dirigentes a figurar como vítimas expiatórias em 
uma futura paródia de justiça. Enquanto isso, ela lhes valeu, respectivamente, cinco e dez anos de reclusão criminal. No 
total, em dois meses, de dezembro de 1934 a fevereiro de 1935, 6.500 pessoas foram condenadas segundo os novos 
procedimentos previstos pela lei de 19 de dezembro sobre o terrorismo. 

No dia seguinte à condenação de Zinoviev e de Kamenev, o Comitê Central endereçou a todas as organizações 
do Partido uma circular secreta intitulada “Lições dos acontecimentos ligados ao assassinato ignóbil do camarada 
Kirov”. Esse texto afirmava a existência de um complô dirigido por “dois centros zinovievistas [...] forma encoberta de 
uma organização de guardas brancos” e lembrava que a história do partido havia sido e continuava sendo um combate 
permanente contra os “grupos anti-Partido”: trotskis-tas, “centralistas-democráticos”, “desviacionistas de direita”, 
“direito-esquer-distas”, etc. Eram então suspeitos todos aqueles que um dia ou outro tinham se pronunciado contra a 
direção stalinista. A caça aos antigos opositores se intensificou. No fim de janeiro de 1935, 988 antigos partidários de 
Zinoviev em Leningrado foram exilados em lakútia e na Sibéria. O Comitê Central ordenou a todas as organizações 
locais do Partido que estabelecessem listas de comunistas excluídos em 1926-1928 por pertencerem ao “bloco trotskis- 
ta e trotskista-zinovievista”. Foi com base nessas listas que foram executadas, em seguida, as prisões. Em maio de 
1935, Stalin enviou às instâncias locais do Partido uma nova carta do Comitê Central ordenando uma verificação 
minuciosa da carteira de cada comunista. 

A versão oficial do assassinato de Kirov, perpetrado por um indivíduo que havia penetrado no Smolny graças 
a uma falsa carteira do partido, demonstrava de modo categórico “a imensa importância política” da campanha de 
verificação das carteiras. Essa campanha durou mais de seis meses, desenrolou-se com a participação ativa do aparelho 
da polícia política, o NKVD, que forneceu às instâncias do partido dossiês sobre os comunistas “duvidosos”, e as 
organizações do Partido, que, por sua vez, transmitiram ao NKVD as informações sobre os partidários excluídos 
durante a campanha de “verificação”. Essa campanha resultou na exclusão de 9% dos membros do partido, isto é, cerca 
de 250.000 pessoas. De acordo com os dados incompletos citados diante do plenário do Comitê Central reunido no fim 
de dezembro de 1935 por Nikolai lejov, chefe do Departamento Central de Quadros e responsável pela operação, 
15.218 “inimigos” excluídos do Partido foram presos durante essa campanha. Contudo, segundo lejov, esse expurgo 
desenrolou-se muito mal. Ele havia durado três vezes o tempo previsto por causa da “má vontade, que chegava às raias 
da sabotagem”, de um grande número de “elementos burocratizados instalados nos aparelhos”. Apesar dos apelos das 
autoridades centrais ao desmascaramento dos trotskis-tas e zinovievistas, somente 3% dos excluídos pertenciam a essa 
categoria. Os dirigentes locais do Partido foram com freqiiência reticentes “em fazer contato com os órgãos do NKVD 
e em dar ao Centro uma lista individual de pessoas a serem exiladas sem demora por decisão administrativa”. Em 
resumo, segundo lejov, a campanha de verificação de carteiras revelara a que ponto a “caução solidária” dos aparelhos 
locais do Partido impedia qualquer controle eficaz das autoridades centrais sobre o que se passava realmente no país. 
Aí estava um ensinamento crucial, do qual Stalin ainda se lembraria. 

À onda de terror que se abateu desde o dia seguinte ao assassinato de Kirov não levou apenas os antigos 
opositores no interior do Partido. Com o pretexto de que “elementos terroristas, guardas brancos, haviam atravessado a 
fronteira ocidental da URSS”, o Politburo decretou, em 27 de dezembro de 1934, a deportação de duas mil “famílias 


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anti-soviéticas” dos distritos fronteiriços da Ucrânia. Em 15 de março de 1935, medidas análogas foram tomadas para a 
deportação de “todos os elementos pouco confiáveis dos distritos fronteiriços da região de Leningrado e da república 
autónoma da Carélia [...] para o Cazaquistão e para a Sibéria Ocidental”. Tratava-se principalmente de finlandeses, 
primeiras vítimas das deportações étnicas que iriam atingir seu apogeu durante a guerra. Essa primeira grande 
deportação de cerca de dez mil pessoas com base em critérios de nacionalidade foi seguida, na primavera de 1936, por 
uma segunda, que atingiu mais de 15 mil famílias e cerca de 50 mil pessoas, poloneses e alemães da Ucrânia 
deportados da região de Karaganda para o Cazaquistão e instalados em kolkhozes.i 

Como prova o número de condenações pronunciadas nos casos referentes ao NKVD - 267.000 em 1935, mais 
de 274.000 em 193632 -, o ciclo repressivo experimentou uma novo aquecimento ao longo desses dois anos. Algumas 
raras medidas de apaziguamento foram adotadas durante esse período, tais como a supressão da categoria dos lichentsy, 
a anulação das condenações levemente inferiores a cinco anos pronunciadas contra os kol-khozianos, a liberação 
antecipada de 37.000 pessoas condenadas nos termos da lei de 7 de agosto de 1932, o restabelecimento dos direitos dos 
colonos especiais deportados, a ab-rogação das discriminações que proibiam o acesso ao ensino superior dos filhos dos 
deportados. Mas essas medidas eram contraditórias. Assim os kulaks deportados, restabelecidos em princípio em seus 
direitos civis ao fim de cinco anos de deportação, finalmente não obtiveram o direito de deixar o local de sua residência 
forçada. Logo que eles foram restabelecidos em seus direitos, os deportados começaram a voltar a seu povoado, o que 
trouxe uma série de problemas inextricáveis. Poder-se-ia deixá-los entrar no kolkhoz? Onde hospedá-los, já que seus 
bens e suas casas haviam sido confiscados? A lógica da repressão permitia apenas pausas; ela não permitia que se 
retrocedesse. 

As tensões entre o regime e a sociedade cresceram mais ainda quando o poder decidiu recuperar o movimento 
stakhanovista, nascido após o famoso “recorde” estabelecido pelo mineiro Andei Stakhanov, que havia multiplicado 
por 14 as normas de extração de carvão graças a uma formidável organização de equipe, e promover uma vasta 
campanha produtivista. Em novembro de 1935, apenas dois meses após o famoso recorde de Stakhanov, teve lugar em 
Moscou uma conferência de trabalhadores de vanguarda. Sta-lin sublinhou o caráter “profundamente revolucionário de 
um movimento liberado do conservadorismo dos engenheiros, dos técnicos e dos dirigentes de empresas”. Nas 
condições de funcionamento da industria soviética de então, a organização de jornadas, de semanas, de décadas 
stakhanovistas desorganizaram por muito tempo a produção; o equipamento era deteriorado; os acidentes de trabalho se 
multiplicavam; e os “recordes” eram seguidos por um período de queda da produção. Reatando com o spetzeedstvo dos 
anos 1928-1931, as autoridades imputaram naturalmente as dificuldades econômicas a pretensos sabotadores infiltrados 
entre os quadros, os engenheiros e os especialistas. Uma declaração imprudente que escapasse em relação aos 
stakhanovistas, rupturas de ritmos de produção ou um incidente técnico eram considerados como sendo ações contra- 
revolucionárias. Ao longo do primeiro semestre de 1936, mais de 14 mil quadros da industria foram detidos por 
sabotagem. Stalin utilizou a campanha stakhanovista para recrudescer ainda mais sua política repressiva e uma nova 
onda de terror sem precedentes, que iria entrar na História com o nome de o “Grande Terror”. 


10. O Grande Terror (1936-1938) 


Muito já foi escrito sobre o “Grande Terror”, que os soviéticos também chamam Iejovschina, “o tempo de 
lejov”. De fato, durante os dois anos em que o NKVD foi dirigido por Nikolai lejov (de setembro de 1936 a novembro 
de 1938) a repressão ganhou uma amplitude sem precedentes, atingindo todas as camadas da população soviética, dos 
dirigentes do Politburo aos simples cidadãos que eram detidos nas ruas, simplesmente para que as cotas de “elementos 
contra-revolucionários” fossem preenchidas. Por várias décadas, a tragédia do Grande Terror permaneceu sob silêncio. 
No Ocidente, apenas se retiveram desse período os três espetaculares processos públicos de Moscou: o de agosto de 
1936, o de janeiro de 1937 e o de março de 1938, no decorrer dos quais os mais prestigiados companheiros de Lenin 
(Zinoviev, Kamenev, Krestinski, Rykov, Piatakov, Radek, Bukharin e outros) confessaram os piores crimes: a 
organização de “centros terroristas” de obediência “trotsko-zinovie-vista” ou “trotsko-direitista”, tendo como objetivo 
derrubar o poder soviético, assassinar seus dirigentes, restaurar o capitalismo, executar atos de sabotagem, minar a 
potência militar da URSS, desmembrar a União Soviética, separando, em proveito de Estados estrangeiros, a Ucrânia, a 
Bielo-Rússia, a Geórgia, a Arménia, o Extremo Oriente soviético, etc. 

Excepcional evento-espetáculo, os processos de Moscou foram também eventos-fachada que desviaram a 
atenção dos observadores estrangeiros convidados ao espetáculo de tudo o que se passava ao lado e atrás: a repressão 
em massa de todas as categorias sociais. Para esses observadores, que já haviam guardado silêncio sobre a 
deskulakização, a fome e o desenvolvimento do sistema de campos de concentração, os anos 1936-1938 foram apenas 
o último ato da luta política que opuseram, por mais de seis anos, Stalin a seus principais rivais; ou, ainda, o fim do 


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Stéphane Courtois e outros - O Livro Negro do Comunismo - Crimes, Terror e Repressão — by PapaiNoel 


confronto entre a “burocracia termidoriana stalinista” e a “velha guarda leninista” que permanecera fiel aos 
compromissos revolucionários. 

Retomando os principais temas da obra de Trotski, publicada em 1936, A revolução traída, o editorialista do 
grande jornal francês Lê Temps escreveu (em 27 de julho de 1936): 

“A Revolução Russa chegou a seu Termidor. Stalin mediu a inanição da pura ideologia marxista e do mito da 
revolução universal. Bom socialista, decerto, mas antes de tudo patriota, ele sabe o perigo que essa ideologia e esse 
mito fazem o seu país correr. Seu sonho é provavelmente o de um despotismo esclarecido, de um tipo de paternalismo 
em tudo afastado do capitalismo, mas também afastado das quimeras do comunismo.” 

E L'Écho de Paris exprimiu, em 30 de janeiro de 1937, com termos mais figurados e menos respeitosos, a 
mesma ideia: 

“O georgiano de cabeça baixa junta-se sem querer a Ivan, o Terrível, Pierre, o Grande, e Catarina II. Os outros, 
os que ele massacrou, são os revolucionários que permaneceram fiéis a sua fé diabólica, neuróticos à beira de um furor 
permanente de destruição.” 

Será preciso esperar o “Relatório secreto de Kruschev, no XX Congresso do PCUS, em 25 de fevereiro de 
1956, para que enfim se levante o véu sobre os numerosos atos de violação da legalidade socialista cometidos, nos anos 
1936-1938, contra os dirigentes e executivos do Partido”. Nos anos que se seguiram, um certo número de responsáveis, 
principalmente militares, foram reabilitados. Porém, o silêncio permaneceu total sobre as vítimas “comuns”. É bem 
verdade que, durante o XXII Congresso do PCUS, em outubro de 1961, Kruschev reconheceu publicamente que 
“repressões em massa [...] haviam sido praticadas contra simples e honestos cidadãos soviéticos”, mas ele não disse 
nada a respeito da dimensão dessas repressões, pelas quais ele havia sido diretamente responsável, como tantos outros 
dirigentes de sua geração. 

No fim dos anos 60, a partir de testemunhos dos soviéticos exilados no Ocidente e de publicações tanto de 
emigrantes quanto de soviéticos do período do “degelo kruscheviano”, um historiador como Robert Conquest pôde 
reconstituir, em suas grandes linhas, a trama geral do Grande Terror, porém, com algumas extrapolações por vezes 
imprudentes sobre os mecanismos de tomada de decisão e uma superestimação bastante importante do número de 
vítimas. 

A obra de Robert Conquest suscita um grande número de discussões, especialmente sobre o grau de 
centralização do terror, sobre os papéis respectivos de Stalin e de lejov, e sobre o número de vítimas. Alguns 
historiadores da escola revisionista americana, por exemplo, contestaram a idéia segundo a qual Stalin havia planejado 
com precisão o desenrolar dos eventos de 1936 a 1938. Insistindo, ao contrário, no crescimento da tensão entre as 
autoridades centrais e os aparelhos locais cada vez mais potentes, assim como nas “derrapagens” de uma repressão 
amplamente descontrolada, eles explicaram a amplitude excepcional das repressões dos anos 1936-1938 pelo fato de 
que, desejosos de desviar do golpe que lhes estava destinado, os aparelhos locais dirigiram o terror contra inúmeros 
“bodes expiatórios”, demonstrando ao Centro, assim, sua vigilância e sua intransigência na luta contra os inimigos por 
todos os lados. 

Outro ponto de divergência: o número de vítimas. Para Conquest e seus discípulos, o Grande Terror teria como 
saldo pelo menos seis milhões de prisões, três milhões de execuções e dois milhões de mortes nos campos de 
concentração. Para os historiadores revisionistas, esses números são bastante supe-ravaliados. 

A abertura - ainda parcial - dos arquivos soviéticos nos permite hoje fazer uma nova avaliação sobre o Grande 
Terror. Não se trata de retraçar, nestas poucas páginas, a história extraordinariamente complexa e trágica dos dois anos 
mais sangrentos do regime soviético segundo outros historiadores, mas de tentar esclarecer as questões que suscitaram 
tanta polêmica no decorrer dos últimos anos - especialmente sobre o grau de centralização do terror, sobre suas 
categorias e o número de vítimas. 

No que diz respeito ao grau de centralização do terror, os documentos do Politburo atualmente acessíveis4 
confirmam que a repressão em massa foi de fato o resultado de uma iniciativa decidida pela mais alta instância do 
Partido, o Politburo, e pelo próprio Stalin em particular. A organização e depois o desenrolar da mais sangrenta das 
grandes operações de repressão, a operação de “liquidação de ex-kulaks, criminosos e outros elementos anti- 
soviéticos”,5 que teve lugar de agosto de 1937 a maio de 1938, trazem esclarecimentos bastante reveladores sobre o 
papel respectivo do Centro e do local na repressão, mas também sobre a lógica dessa operação, que supostamente 
resolveria de modo definitivo - pelo menos em princípio - um problema que não pudera ser resolvido no decorrer dos 
anos precedentes. 

Desde 1935-1936, a questão do destino posterior dos ex-kulaks deportados estava na ordem do dia. Apesar da 
interdição, que lhes era regularmente relembrada, de deixarem os locais de residência que lhes foram designados, os 
“colonos especiais” se misturavam aos trabalhadores livres. Num relatório de agosto de 1936, Rudolf Berman, o diretor 
do Gulag, escreveu: “Vários colonos especiais, aproveitando-se de uma vigilância bastante frouxa, que vêm 
trabalhando há bastante tempo em equipes mistas com operários livres, deixaram seu lugar de residência. É cada vez 


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Stéphane Courtois e outros - O Livro Negro do Comunismo - Crimes, Terror e Repressão — by PapaiNoel 


mais difícil recuperá-los. Com efeito, eles se especializaram, a administração das empresas quer mante-los, algumas 
vezes eles se viraram para arranjar um passaporte, se casaram com colegas livres, muitos têm casa.. .” 

Se vários dos colonos especiais com residências designadas perto de centros industriais tinham a tendência a 
se misturarem à classe operária local, outros fugiam para mais longe. Um grande número desses “fugitivos”, sem 
documentos e sem teto, juntavam-se a bandos de marginais sociais e de pequenos delinquentes cada vez mais 
numerosos nas periferias das cidades. As inspeções feitas no outono de 1936 em algumas komandatures revelam uma 
situação “intolerável” aos olhos das autoridades: assim, na região de Arkhangelsk, somente 37.000 dos 89.700 colonos 
especiais permaneciam nos locais de residência que lhes foram supostamente determinados! 

A obsessão do “kulak-sabotador-infiltrado-nas-empresas” e do “kulak-bandido-rondando-as-cidades” explica 
que essa “categoria” talvez tenha sido designada prioritariamente como vítima expiatória da grande operação de 
repressão decidida no início do mês de julho de 1937 por Stalin. 

Em 2 de julho de 1937, o Politburo enviou às autoridades locais um telegrama, ordenando-lhes que “fossem 
presos imediatamente todos os kulaks e criminosos [...], de fuzilar os mais hostis entre eles após o exame 
administrativo do seu caso por uma troika [uma comissão de três membros, composta pelo primeiro secretário regional 
do Partido, pelo procurador e pelo diretor regional do NKVD] e de deportar os elementos menos ativos, mas que são, 
porém, hostis ao regime [...]. O Comitê Central propõe que seja apresentada num prazo de cinco dias a composição das 
troiki, assim como o número de indivíduos a serem flizilados e aqueles a serem deportados”. 

Assim, o Centro recebeu, nas semanas que se seguiram, os “números indicativos” fornecidos pelas autoridades 
locais, com base nos quais lejov preparou a ordem operacional nº 00447, com data de 30 de julho de 1937, que foi 
submetida, no mesmo dia, ao Politburo para a ratificação. Durante essa “operação”, 259.450 pessoas foram detidas, das 
quais 72.950, fuziladas. De fato, esses dados eram incompletos, pois na lista estabelecida faltava toda uma série de 
regiões, que ainda não tinham, segundo parece, enviado a Moscou suas “estimativas”. Como já havia acontecido 
durante a deskulakização, todas as regiões receberam cotas para cada uma das duas categorias (1º categoria: a executar; 
2º categoria: a deportar). 

Notemos que os elementos visados pela operação pertenciam a um espectro sociopolítico bem mais amplo que 
as categorias listadas em princípio: ao lado dos “ex-kulaks” e dos “elementos criminosos” havia os “elementos 
perigosos à sociedade” e os “elementos dos partidos anti-soviéticos”, os antigos “funcionários czaristas”, os “guardas 
brancos”, etc. Essas “designações” eram, naturalmente, atribuídas a um suspeito qualquer, quer ele pertencesse ao 
Partido, à intelligentsia ou à “gente comum”. Quanto às listas de suspeitos, os serviços competentes da GPU, depois do 
NKVD, tiveram todo o tempo para prepará-las, mante-las em dia e para atualizá-las há vários anos. 

A ordem operacional de 30 de julho de 1937 dava aos dirigentes locais o direito de pedir a Moscou listas 
complementares de indivíduos a serem reprimidos. As famílias das pessoas condenadas a penas em campos de 
concentração ou executadas podiam ser presas “acima das cotas”. 

Desde o fim do mês de agosto, o Politburo foi alvo de vários pedidos de elevação de cotas. De 28 de agosto a 
15 de dezembro de 1937, ele ratificou diversas proposições de aumentos de cotas para um total de 22.500 indivíduos a 
serem executados e 16.800 a serem enviados aos campos de concentração. Em 31 de janeiro de 1938, foi adotado, 
atendendo a uma demanda do NKVD, um novo “acréscimo” de 57.200 pessoas, das quais 48.000 deveriam ser 
executadas. A totalidade das operações devia ter terminado em 15 de março de 1938. Mas, ainda uma vez, as 
autoridades locais, que haviam sido várias vezes “expurgadas” e renovadas desde o ano anterior, julgaram oportuno 
mostrar todo o seu zelo. De 1? de fevereiro a 29 de agosto de 1938, o Politburo ratificou contingentes suplementares de 
90.000 indivíduos a serem reprimidos. 

Assim, a operação, que devia em princípio durar quatro meses, estendia-se por mais de um ano e atingiu pelo 
menos 200.000 pessoas acima das cotas aprovadas inicialmente. Todo indivíduo suspeito de “más” origens sociais era 
uma vítima em potencial. Eram particularmente vulneráveis também todas as pessoas que habitassem as zonas 
fronteiriças, ou que houvessem mantido, de uma maneira ou de outra, contatos com o exterior do país, quer tenham 
sido prisioneiros de guerra ou que tivessem parentes, mesmo distantes, fora da URSS. Essas pessoas, assim como 
radioamadores, filatelistas ou esperantistas, tinham grandes chances de serem acusados de praticarem espionagem. De 6 
de agosto a 21 de dezembro de 1937, pelo menos dez operações, do mesmo tipo daquela iniciada em seguida à ordem 
operacional nº 00447, foram lançadas pelo Politburo e pelo NKVD, seu representante nessa matéria, visando “liquidar”, 
nacionalidade por nacionalidade, pretensos grupos de “espiões” e de “diversionistas”: alemães, poloneses, japoneses, 
romenos, finlandeses, lituanos, estonianos, letões, gregos e turcos. Nos 15 meses que duraram essas operações 
“antiespionagem”, de agosto de 1937 a novembro de 1938, várias centenas de milhares de pessoas foram presas. 

Entre as operações sobre as quais dispomos atualmente de informações - ainda bastante lacunares, pois os 
arquivos da ex-KGB e os arquivos presidenciais em que são conservados os documentos mais confidenciais 
permanecem inacessíveis aos pesquisadores - podemos citar: 


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- a operação de “liquidação dos contingentes de alemães que trabalha vam nas empresas da Defesa Nacional”, 
de 20 de julho de 1937; 

- a operação de “liquidação das atividades terroristas, de diversão e de espionagem da rede japonesa de 
repatriados de Kharbin”, lançada em 19 de setembro de 1937; 

- a operação de “liquidação da organização direitista nipônico-militar dos cossacos”, lançada em 4 de agosto 
de 1937; de setembro a dezembro de 1937, mais de 19.000 pessoas foram reprimidas durante essa operação; 

- a operação de “repressão das famílias dos inimigos do povo que foram presos”, requisitada pela ordem 
operacional do NKVD de n P 00486, de 15 de agosto de 1937. 

Essa breve enumeração, bastante incompleta, de uma pequena parte das operações decididas pelo Politburo e 
postas em prática pelo NKVD, é suficiente para ressaltar o caráter centralizado da repressão em massa dos anos 1937- 
1938. É bem verdade que essas operações, como todas as grandes ações repressivas executadas sob a ordem do Centro 
pelos funcionários locais - quer seja a deskulakização, o expurgo das cidades ou a caça aos especialistas -, não ocorriam 
sem derrapagens ou excessos. Após o Grande Terror, apenas uma comissão foi enviada ao campo, ao Turcomenistão, 
para investigar os excessos da lejovschina. Nessa pequena república de 1.300.000 habitantes (0,7% da população 
soviética), 13.259 pessoas haviam sido condenadas pelas troiki do NKVD, de agosto de 1937 a setembro de 1938, 
apenas como consequência da operação de “liquidação dos ex-kulaks criminosos e outros elementos anti-soviéticos”. 
Desse total de pessoas condenadas, 4.037 haviam sido fuziladas. As cotas fixadas por Moscou eram de 6.277 (número 
total de condenações) e de 3.225 (número total de execuções). Podemos supor que tenha havido excessos e semelhantes 
extrapolações em outras regiões do país. Elas decorriam do próprio princípio das cotas, das ordens planejadas vindas do 
Centro e dos reflexos burocráticos, bem assimilados e inculcados havia vários anos, que consistiam em antecipar os 
desejos dos superiores hierárquicos e as diretivas de Moscou. 

Uma outra série de documentos confirma o caráter centralizado desses assassinatos em massa ordenados por 
Stalin e pelo Politburo. Trata-se das listas de personalidades a serem condenadas, estabelecidas pela Comissão de Casos 
Judiciários do Politburo. As penas de personalidades que deviam comparecer diante do colégio militar da Suprema 
Corte, dos tribunais militares ou da Conferência Especial do NKVD eram predeterminadas pela Comissão de Casos 
Judiciários do Politburo. Essa comissão, da qual lejov fazia parte, submeteu pelo menos 383 listas - que contavam com 
mais de 44.000 nomes de dirigentes e quadros do Partido, do exército e da economia - às assinaturas de Stalin e dos 
membros do Politburo. Mais de 39.000 dessas pessoas foram condenadas à pena de morte. A assinatura de Stalin 
aparece em 362 listas, a de Molotov em 373 listas, a de Vorochilov em 195 listas, a de Kaganovitch em 191 listas, a de 
Jdanov em 177 listas, e a de Mikoian em 62 listas. 

A partir do verão de 1937, todos os dirigentes conduziram pessoalmente os expurgos nas organizações locais 
do Partido: assim, Kaganovitch foi enviado para expurgar Donbass e as regiões de Tcheliabinsk, de Yaroslav, de 
Ivanovo e de Smolensk. Jdanov, depois de expurgar sua região, Leningrado, partiu para Oremburgo, Bachkirie, 
Tatarstan. Andreiev dirigiu-se ao Cáucaso do Norte, ao Uzbequistão e ao Tadjiquistão. Mikoian foi à Arménia, e 
Kruschev à Ucrânia. 

Ainda que a maioria das instruções sobre a repressão em massa tenham sido ratificadas como resoluções de 
todo o Politburo, parece, à luz dos documentos dos arquivos hoje acessíveis, que Stalin foi pessoalmente o autor e o 
iniciador da maior parte das decisões repressivas em todos os níveis. Tomando um único exemplo: quando, em 27 de 
agosto de 1937, às 17 horas, o secretariado do Comitê Central recebeu uma comunicação de Mikhail Korotchenko, 
secretário do Comitê regional do Partido da Sibéria Oriental, sobre os desdobramentos de um processo contra 
agrónomos “culpados de atos de sabotagem”, o próprio Stalin telegrafou às 17h1 Omin: “Aconselho-os a condenarem os 
sabotadores do distrito de Andreiev à pena de morte e publicarem a notícia de sua execução na imprensa.” 

Todos os documentos atualmente disponíveis (protocolos do Politburo, a agenda de compromissos de Stalin e 
a lista dos visitantes recebidos por Stalin no Kremlin) demonstram que ele controlava e dirigia minuciosamente as ati- 
vidades de lejov. Ele corrigia as principais instruções do NKVD, acertava o desenvolvimento dos períodos de instrução 
de culpa nos grandes processos políticos, chegando a definir o seu enredo. Durante a instrução do caso do “complô 
militar”, que questionava o marechal Tukhatchevski e outros grandes altos dirigentes do Exército Vermelho, Stalin 
recebeu lejov todos os dias. Em todas as etapas da lejovschina, Stalin manteve o controle político de todos os eventos. 
Foi ele quem decidiu a nomeação de lejov para o cargo de comissário do povo para o Interior, enviando a Sotchi o 
famoso telegrama de 25 de setembro de 1936 ao Politburo: “É absolutamente necessário e urgente que o camarada 
lejov seja designado para o cargo de comissário do povo para o Interior, lagoda manifestamente não se mostrou à altura 
de sua incumbência de desmascarar o bloco trotskista-zinovievista. A GPU tem quatro anos de atraso nesse caso.” Foi 
também Stalin quem decidiu acabar com os “excessos do NKVD”. Em 177 de novembro de 1938, um decreto do Comitê 
Central pôs um fim (provisoriamente) à organização de “operações em massa de prisões e deportações”. Uma semana 
mais tarde, lejov foi demitido de seu cargo de comissário do povo para o Interior e substituído por Beria. O Grande 
Terror acabou da mesma maneira que havia começado: através de uma ordem de Stalin. 


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Pode-se fazer um balanço documentado do número e das categorias das vítimas da lejovschiruê 

Dispomos atualmente de alguns documentos ultraconfidenciais preparados por Nikita Kruschev e os principais 
dirigentes do Partido durante a desestalinização, principalmente um longo estudo sobre “as repressões cometidas 
durante a época do culto da personalidade”, realizado por uma comissão dirigida por Nikolai Chvernik, criada após o 
XXII Congresso do PCUS. Os pesquisadores podem confrontar esses dados a diversas outras fontes estatísticas da 
administração do Gulag, as do Comissariado do Povo para a Justiça e as do Ministério Público, atualmente acessíveis. 

Assim, parece que apenas durante os anos de 1937 e 1938, 1.575.000 pessoas foram presas pelo NKVD; 
1.345.000 (ou seja, 85,4%) foram condenadas no decorrer desses anos; 681.692 (ou seja, 51% das pessoas condenadas 
em 1937-1938) foram executadas. 

As pessoas presas eram condenadas segundo procedimentos diversos. Os casos de pessoas pertencentes aos 
“quadros” políticos, econômicos e militares, de membros da intelligentsia - categoria mais facilmente identificável e 
mais bem conhecida - eram julgados pelos tribunais militares e as “Conferências Especiais do NKVD”. Diante da 
dimensão das operações, o governo instaurou, em fins de julho de 1937, algumas “troiki” regionais, compostas pelo 
procurador e por chefes do NKVD e da direção da polícia. Essas troiki funcionavam segundo procedimentos 
extremamente expeditivos, já que elas respondiam a cotas antecipadamente fixadas pelo Centro. Bastava “reativar” as 
listas dos indivíduos já fichados pelos serviços. O período de instrução de culpa era reduzido a sua mais simples 
expressão; as troiki faziam com que várias centenas de dossiês fossem vistos por dia - como confirma, por exemplo, a 
recente publicação do anuário Martirológio de Leningrado, que registrava mês a mês, a partir de agosto de 1937, os 
leningradenses presos e condenados à morte com base no artigo 58 do Código Penal. O tempo habitualmente decorrido 
entre a prisão e a condenação à morte ia de alguns dias a algumas semanas. A sentença, sem apelação, era aplicada num 
prazo de poucos dias. Durante essas operações específicas de “liquidação de espiões e diversionistas”, tanto quanto nas 
grandes operações de repressão - tais como a operação de “liquidação de kulaks...”, lançada em 30 de julho de 1937, a 
operação de “liquidação de elementos criminosos”, lançada em 12 de setembro de 1937, a operação de “repressão às 
famílias dos inimigos do povo”, etc. -, as chances de ser preso, mesmo que simplesmente para completar uma cota, 
deviam-se a toda uma série de acasos. Acasos “geográficos” (as pessoas que habitavam as zonas fronteiriças eram bem 
mais expostas), itinerário individual ligado, de uma maneira ou de outra, a um país estrangeiro, origens estrangeiras, 
problemas de homonímia, etc. Para “completar as normas”, se a lista de pessoas fichadas fosse insuficiente, as 
autoridades locais “se arranjavam”. Assim, para dar um exemplo, para completar a categoria de “sabotadores”, o 
NKVD da Turcomênia arrumou o pretexto de um incêndio em uma empresa para prender todas as pessoas que se 
encontravam no local e os forçou a nomear seus “cúmplices”.” Programada por instâncias superiores, designando 
arbitrariamente categorias de inimigos “políticos”, o Terror gerava, por sua própria natureza, derrapagens que diziam 
muito a respeito da cultura da violência dos aparelhos repressivos de base. 

Todos esses números - que nos lembram, entre outras coisas, que os quadros do Partido eram somente uma 
pequena proporção das 681.692 pessoas executadas - não pretendem ser exaustivos. Eles não incluem as deportações 
efetuadas no decorrer desses anos (como, por exemplo, a operação de deportação para o Extremo-Oriente soviético de 
172.000 coreanos, transferidos, entre maio e outubro de 1937, para o Cazaquistão e o Uzbequistão). Eles não levam em 
conta nem as pessoas presas e mortas sob tortura durante sua estada na prisão ou sua transferência para os campos de 
concentração (dados desconhecidos), nem os detentos mortos nos campos durante esses anos (cerca de 25.000 em 1937 
e mais de 90.000 em 1938). Mesmo corrigidos por baixo em relação às extrapolações retiradas dos testemunhos dos 
sobreviventes, esses dados mostram a terrível dimensão desses assassinatos em massa, às centenas de milhares, 
dirigidos contra toda a sociedade. 

Atualmente, seria possível ir mais longe na análise das categorias das vítimas desses assassinatos em massa? 
Dispomos de alguns dados estatísticos, que apresentaremos mais adiante, sob os detentos do Gulag no fim dos anos 30. 
Essas informações, que dizem respeito à totalidade dos detentos (e não somente aos presos durante o Grande Terror), 
trazem somente elementos e respostas parciais sobre as vítimas condenadas a penas em campos de concentração 
durante a lejovschina. Assim, nota-se um grande aumento proporcional de detentos com formação superior (+ 70% 
entre 1936 e 1939), o que confirma que o Terror do fim dos anos 30 era exercido particularmente contra as elites cultas, 
quer elas pertencessem ou não ao Partido. 

A repressão aos quadros do Partido, por ter sido a primeira a ser denunciada (desde o XX Congresso), é um 
dos aspectos mais bem conhecidos do Grande Terror. Em seu “Relatório Secreto”, Kruschev estendeu-se longamente 
sobre esse aspecto da repressão, que atingiu cinco membros do Politburo, todos stalinistas fiéis (Postychev, Rudzutak, 
Eikhe, Kossior e Tchubar), 98 dos 139 membros do Comitê Central e 1.108 dos 1.996 delegados do XVII Congresso do 
Partido (1934). Os quadros dirigentes do Komsomol foram igualmente atingidos: 72 dos 93 membros do Comitê 
Central foram presos, assim como 319 dos 385 secretários regionais e 2.210 dos 2.270 secretários de distrito. De uma 
maneira geral, os aparelhos regionais e locais do Partido e do Komsomol, suspeitos pelo Centro de “sabotarem” as 
decisões necessariamente “corretas” de Moscou, de impedirem todo controle eficaz das autoridades centrais sobre o 


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que se passava no país, foram totalmente renovados. Em Leningrado, cidade suspeita por excelência - onde o Partido 
havia sido dirigido por Zinoviev e Kirov havia sido assassinado -, Jdanov e Zakovski, o chefe regional do NKVD, 
prenderam mais de 90% dos quadros do Partido. Porém, estes últimos não eram senão uma pequena parte dos 
leningradenses reprimidos em 1936-1939. Para estimular os expurgos, os emissários do Centro, acompanhados por 
tropas do NKVD, foram enviados às províncias com a missão de, segundo a expressão do Pravda, “atear fogo e destruir 
os ninhos pestilentos dos trotsko-fascistas”. 

Algumas regiões, das quais dispomos somente de estatísticas parciais, foram mais especialmente 
“expurgadas”: em primeiro lugar está, mais uma vez, a Ucrânia. Apenas durante o ano de 1938, após a nomeação de 
Kruschev para a liderança do Partido Comunista ucraniano, mais de 106.000 pessoas foram presas na Ucrânia (tendo 
sido, em sua maioria, executadas). Dos 200 membros do Comitê Central do Partido Comunista ucraniano, três 
sobreviveram. O mesmo panorama repetiu-se em todas as instâncias regionais e locais do Partido, onde foram 
organizadas dezenas de processos públicos contra dirigentes comunistas. 

Diferentemente dos processos a portas fechadas ou das seções secretas das troiki, nos quais o destino de um 
acusado era resolvido em poucos minutos, os processos públicos tinham uma forte coloração populista e cumpriam 
uma função importante de propaganda. Supostamente, eles deveriam fortalecer a aliança entre a “gente comum, o 
simples militante, os que tinham a solução mais justa” e o Guia, denunciando os dirigentes locais, esses “novos 
senhores, sempre satisfeitos consigo próprios [...] e que, por sua atitude desumana, produzem artificialmente uma 
grande quantidade de descontentes e raivosos, criando, assim, um exército de reserva para os trotskistas” (Stalin, 
discurso de 3 de março de 1937). Como os grandes processos de Moscou, mas dessa vez em escala distrital, esses 
processos públicos, cujas audiências eram amplamente reproduzidas na imprensa local, davam lugar a uma excepcional 
mobilização ideológica, popular e populista. Por desmascararem um complô, figura essencial da ideologia, por 
assumirem uma função carnavalesca (os poderosos tornavam-se vilões, e as “pessoas simples” eram reconhecidas como 
“portadores da solução mais justa”), esses processos públicos constituíam, retomando a expressão de Annie Kriegel, 
“um formidável mecanismo de profilaxia social”. 

Naturalmente, as repressões aos responsáveis locais do Partido representavam apenas a ponta do iceberg. 
Tomemos o exemplo de Oremburgo, província sobre a qual dispomos de um relatório detalhado do departamento 
regional do NKVD “sobre as medidas operacionais de grupos clandestinos trotskistas e bukharinianos, assim como 
outras formações contra-revolucioná-rias, praticadas de 1º de abril a 18 de setembro de 1937”, ou seja, antes da missão 
de Jdanov, destinada a “acelerar” os expurgos. 

No espaço de cinco meses, foram detidos nessa província: 

- 420 “trotskistas”, todos dos quadros políticos e econômicos de primeiro plano; 

- 120 “direitistas”, todos dirigentes locais importantes. 

Esses 540 dirigentes do Partido representavam cerca de 45% da nomenklatura local. Em seguida à missão de 
Jdanov em Oremburgo, 598 outros dirigentes foram presos e executados. Nessa província, como em todas as outras, 
desde o outono de 1937, a quase-totalidade dos dirigentes políticos e econômicos foi eliminada e substituída por uma 
nova geração, a dos “promovidos” ao primeiro plano, pessoas como Brejnev, Kossyguine, Ustinov, Gromyko, aqueles 
que formariam o Politburo dos anos 70. 

Entretanto, ao lado desse milhar de quadros presos, havia uma massa de sem-patente, demais membros do 
Partido, ex-comunistas - particularmente vulneráveis, portanto - ou simples cidadãos fichados havia muitos anos e que 
constituíram o principal grupo de vítimas do Grande Terror. 

Retomemos o relatório do NKVD de Oremburgo: 

- “um pouco mais de 2.000 membros da organização direitista nipônico-militar dos cossacos” (dos quais 1.500 
foram executados); 

- “mais de 1.500 oficiais e funcionários czaristas exilados em 1935 de Leningrado para Oremburgo” (tratava- 
se dos “elementos estranhos à socieda de” exilados em diversas regiões do país após o assassinato de Kirov); 

- “cerca de 250 pessoas presas durante o caso dos poloneses”; 

- “cerca de 95 pessoas presas [...] durante o caso dos elementos originários de Kharbin”; 

- “3.290 pessoas durante a operação de liquidação dos ex-kulaks”; 

- “1.399 pessoas [...] durante a operação de liquidação dos elementos criminosos...”. 

Assim, contando ainda com os cerca de 30 komsomols e 50 cadetes da escola de instrução militar local, em 
cinco meses, mais de 77.500 pessoas haviam sido presas pelo NKVD nessa província, antes mesmo da intensificação da 
repressão consecutiva à missão de Andrei Jdanov. Por mais espetacular que ela tenha sido, a prisão de 90% dos 
membros da nomenklaturulocal representou somente uma percentagem negligenciável do número total de pessoas 
reprimidas, quase todas classificadas em uma das categorias visadas no decorrer das operações específicas definidas e 
aprovadas pelo Politburo, e por Stalin em particular. 


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Algumas categorias de quadros e dirigentes foram especialmente dizimadas: os diplomatas e os funcionários 
do Comissariado do Povo para as Relações Exteriores, que caíram, naturalmente, sob a acusação de espionagem, ou 
ainda os funcionários dos ministérios econômicos e diretores de fábrica, suspeitos de “sabotagem”. Entre os diplomatas 
de alto escalão presos - e, em sua maioria, executados - figuravam Krestinski, Sokolnikov, Bogomolov, lureniev, 
Ostrovski, Antonov-Ovseenko, lotados, respectivamente, em Berlim, Londres, Pequim, Tóquio, Bucareste e Madri. 

Em alguns ministérios, todos os funcionários, quase sem exceção, foram vítimas da repressão. Assim, no 
obscuro Comissariado do Povo para Máquinas e Ferramentas, toda a administração foi renovada; foram também presos 
todos os diretores de fábrica (exceto dois) que dependiam desse setor, além da quase-totalidade dos engenheiros e 
técnicos. O mesmo ocorreu nos outros setores industriais, principalmente na construção aeronáutica, na construção 
naval, na metalurgia, assim como nos transportes, setores sobre os quais dispomos de estudos fragmentários. Após o 
fim do Grande Terror, Kaganovitch reconheceu, no XVIII Congresso, em março de 1939, que “em 1937 e 1938 a 
direção da indústria pesada fora inteiramente renovada, milhares de novos homens foram nomeados para cargos de 
dirigentes no lugar dos sabotadores desmascarados. Em alguns setores, foi necessário demitir várias camadas de 
sabotadores e de espiões [...]. Agora temos quadros que aceitarão todo tipo de tarefa que lhes for designada pelo 
camarada Stalin”. 

Entre os quadros do Partido mais duramente atingidos durante a lejovschina figuravam os dirigentes dos 
partidos comunistas estrangeiros e os quadros da Internacional Comunista, instalados no Hotel Lux, em Moscou. 
Assim, entre as personalidades do Partido Comunista alemão presos, figuravam: Heinz Neumann, Hermann Remmele, 
Fritz Schulte, Hermann Schubert, todos antigos membros do Politburo; Leo Flieg, secretário do Comitê Central, 
Heinrich Susskind e Werner Hirsch, redatores-chefes do jornal Rote Fahne, Hugo Eberlein, delegado do Partido alemão 
na conferência fundadora da Internacional Comunista. Em setembro de 1939, após a conclusão do Pacto Germano- 
soviético, 570 comunistas alemães encarcerados nas prisões de Moscou foram entregues à Gestapo, sobre a ponte na 
fronteira de Brest-Litovsk. 

Entre as vítimas do Grande Terror, uma maioria esmagadora de anónimos. Extraio de um “simples” dossiê do 
ano de 1938 

Dossiê nº 24.0 

1. Nome: Sidorov. 

2. Prenome: Vassili Klementovitch. 

3. Local e data de nascimento: Setchevo, região de Moscou, 1893. 

4. Endereço: Setchevo, distrito Kolomenskii, região de Moscou. 

5. Profissão: empregado de cooperativa. 

6. Filiação sindical: sindicato dos empregados de cooperativa. 

7. Patrimônio no momento da prisão (descrição detalhada): 1 casa de madeira, de 8 metros por 8, telhado de 
zinco, um pátio parcialmente coberto, de 20 metros por 7, 1 vaca, 4 ovelhas, 2 porcos, aves. 

8. Patrimônio em 1929: o mesmo, mais um cavalo. 

9. Patrimônio em 1917: 1 casa de madeira, 8 metros por 8; 1 pátio parcialmente coberto, de 30 metros por 20; 
2 granjas, 2 celeiros, 2 cavalos, 2 vacas, 7 ovelhas. 

10. Situação social no momento da prisão: empregado. 

11. Serviço no exército czarista: em 1915-1916, soldado de infantaria de segunda classe no 6º RI do 
Turquestão. 

12. Serviço no Exército Branco: nenhum. 

13. Serviço no Exército Vermelho: nenhum. 

14. Origem: considero-me como um filho de camponês médio. 

15. Passado político: sem partido. 

16. Nacionalidade, cidadania: russo, cidadão de Moscou. 

17. Filiação ao PC(b)R: não. 


18. Nível escolar: primário. 

19. Situação militar atual: reservista. 

20. Condenações passadas: nenhuma. 

21. Estado de saúde: hérnia. 

22. Situação familiar: casado. Esposa: Anastasia Fedorovna, 43 anos, kol- khoziana; filha: Nina, 24 anos. 
Preso em 13 de fevereiro de 1938 pela direção de distrito do NKVD. 

2. Extratos do protocolo de interrogatório. 

Questão: Dê-nos explicações concernentes a sua origem social e seu patrimônio antes e após 1917. 


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Resposta: Sou originário de uma família de comerciantes. Até mais ou menos 1904, meu pai possuía uma 
pequena loja em Moscou, na rua Zolo-torojskaia, onde, segundo me disse meu pai, ele fazia comércio sem ter um 
empregado sequer. Após 1904, meu pai teve de fechar a loja, pois ele não podia concorrer com os grandes 
comerciantes. Ele retornou ao campo, a Sytchevo, onde arrendou seis hectares de terras prontas para a lavoura e dois 
hectares de pasto. Havia um empregado, um certo Goriatchev, que trabalhou com meu pai durante longos anos, até 
1916. Após 1917, mantivemos nossa terra, mas perdemos nossos cavalos. Trabalhei com meu pai até 1925, e depois de 
sua morte eu e meu irmão dividimos aterra. 

Não me reconheço como culpado de nada. 

3. Extratos do ato de acusação. 

[...] Sidorov, mal-intencionado em relação ao poder soviético em geral e o Parado em particular, praticava 
sistematicamente uma propaganda anti-soviética, dizendo: “Stalin e seu bando não querem deixar o poder, Stalin matou 
um monte de gente, mas ele não quer ir-se embora. Os bolcheviques mantêm o poder, prendem as pessoas honestas, e 
mesmo disso não podemos falar, senão somos jogados num campo de concentração por 25 anos”. 

O acusado Sidorov declarou-se não culpado, mas foi desmascarado por várias testemunhas. O caso foi levado 
a julgamento por uma troika. 

Assinado: Salakhaiev, subtenente de milícia do distrito de Kolomenskoje. 

Acordado por: Galkine, tenente da Segurança de Estado, chefe do destacamento da Segurança de Estado do 
distrito de Kolomenskoie. 

4. Extratos do protocolo da decisão da troika, 16 de julho de 1938. 

[...] Caso Sidorov, V. K. Antigo comerciante, possuía com seu pai uma loja. Acusado de ter praticado, entre os 
kolkhozianos, uma propaganda contra-revolucionária, caracterizada por expressões derrotistas, acompanhada de 
ameaças aos comunistas e de críticas à política do Partido e do governo. 

Veredicto: fuzilar Sidorov Vassili Klementovitch e confiscar todos os seus bens. 

A sentença foi executada em 3 de agosto de 1938. 

Reabilitado a título póstumo em 24 de janeiro de 1989. 

(Fonte: Volia, 1994, nºs. 2-3, pp. 45-6.) 

A purificação também causou seus estragos entre os comunistas húngaros. Bela Kun, o instigador da 
Revolução Húngara de 1919, foi preso e executado, assim como 12 outros comissários do povo do efémero governo 
comunista de Budapeste, todos refugiados em Moscou. Cerca de 200 comunistas italianos foram presos (entre os quais 
Paolo Robotti, o cunhado de Togliatti), ao mesmo tempo que uma centena de comunistas iugoslavos (entre eles Gorkic, 
o secretário-geral do Partido, Vlada Copie, secretário na organização e dirigente das brigadas internacionais, assim 
como três quartos dos membros do Comitê Central). 

Mas foram os poloneses os que pagaram o tributo mais pesado. Á situação dos comunistas poloneses era 
especial: o Partido Comunista polonês -que havia sido admitido em 1906, sob uma base de autonomia, no seio do 
Partido Operário Social Democrata da Rússia - derivava do Partido Social Democrata dos reinos da Polônia e da 
Lituânia. As ligações entre o Partido russo e o Partido polonês, do qual um dos dirigentes de antes de 1917 era o 
próprio Feliks Dzerjinski, eram bastante estreitas. Vários dos social-democra-tas poloneses haviam feito carreira no 
Partido Bolchevique: Dzerjinski, Menjinski, Unschlikht (todos dirigentes da GPU), Radek... para citar apenas os nomes 
mais conhecidos. 

Em 1937-1938, o Partido Comunista polonês foi totalmente liquidado. Os 12 membros poloneses do Comitê 
Central presentes na URSS foram executados, assim como todos os representantes poloneses das instâncias da 
Internacional Comunista. Em 28 de novembro de 1937, Stalin assinou um documento propondo a “limpeza” do Partido 
Comunista polonês. Em geral, após ter feito expurgar um partido, Stalin escolhia um novo grupo dirigente pertencente 
a uma das facções rivais surgidas durante o expurgo. No caso do Partido Comunista polonês, todas as facções foram 
acusadas de “seguirem as instruções dos serviços secretos contra-revolucionários poloneses”. Em 16 de agosto de 1938, 
o Comitê Executivo da Internacional votou a dissolução do Partido Comunista polonês. Como explicou Manuilski, “os 
agentes do fascismo polonês se arranjaram para ocupar todos os postos-chave do Partido Comunista polonês”. 

Tendo sido “enganados”, tendo falhado na “vigilância”, os responsáveis soviéticos pela Internacional 
Comunista foram, naturalmente, as próximas vítimas do expurgo: quase todos os quadros soviéticos da Internacional 
(entre os quais Knorin, membro do Comitê Executivo, Mirov-Abramovy, chefe do departamento de comunicações com 
o estrangeiro, Alikhanov, chefe do departamento de quadros), ou seja, várias centenas de pessoas, foram liquidadas. 
Somente alguns raros dirigentes, totalmente leais a Stalin, como Manuilski ou Kuusinen, sobreviveram ao expurgo da 
Internacional. 

Entre as outras categorias duramente afetadas durante os anos 1937-1938, e sobre as quais dispomos de dados 
precisos, figuram os militares. Em 11 de junho de 1937, a imprensa anunciou que um tribunal militar, reunido a portas 
fechadas, condenara à morte, por traição e espionagem, o Marechal Tukhatchevski, vice-comissário para a Defesa e 


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principal artífice da modernização do Exército Vermelho, que repetidos diferendos haviam oposto a Stalin e a 
Vorochilov desde a campanha da Polônia de 1920, assim como sete generais de exército, lakir (Comandante da Região 
Militar de Kiev), Uborevitch (Comandante da Região Militar da Bielo-Rússia), Eideman, Kork, Putna, Feldman e 
Prímakov. Nos dez dias seguintes, 980 oficiais superiores foram presos, entre os quais 21 generais de quatro estrelas e 
37 generais de divisão. O caso do “complô militar”, imputado a Tukhatchevski e a seus “cúmplices”, havia sido 
preparado há vários meses. Os principais inculpados foram presos durante o mês de maio de 1937. Submetidos a 
interrogatórios “forçados” (examinados 20 anos mais tarde, à época da reabilitação de Tukhatchevski, várias páginas do 
depoimento do marechal continham traços de sangue), conduzidos por lejov em pessoa, os acusados passaram às 
confissões pouco tempo antes de seu julgamento. Stalin supervisionou pessoalmente toda a instrução dos processos. Ele 
recebera, por volta de 15 de março, através do embaixador soviético em Praga, um dossiê falsificado, estabelecido 
pelos serviços secretos nazistas, contendo cartas falsificadas, supostamente trocadas por Tukhatchevski e pelos 
membros do alto comando alemão. Os serviços alemães haviam sido, por sua vez, manipulados pelo NK VD. 

Em dois anos, o expurgo do Exército Vermelho eliminou: 

- 3 dos 5 marechais (Tukhatchevski, legorov e Blúcher, estes dois últimos tendo sido eliminados, 
respectivamente, em fevereiro e outubro de 1938); 

- 13 dos 15 generais de cinco estrelas; 

- 8 dos 9 almirantes; 

- 50 dos 57 generais de quatro estrelas; 

- 154 dos 186 generais de divisão; 

- 16 dos 16 comissários de exército; 

- 25 dos 28 comissários de divisão de exército. 

De maio de 1937 a setembro de 1938, 35.020 oficiais foram presos ou expulsos do exército. Ainda não 
sabemos quantos foram executados. Cerca de 11.000 (entre os quais os generais Rokossovski e Gorbatov) foram 
chamados de volta entre 1939 e 1941. Mas, após setembro de 1938, ocorreram novos expurgos, de forma que o número 
total de prisões do Grande Terror no exército atingiu, segundo as estimativas mais sérias, cerca de 30.000 quadros, 
sobre um total de 178.000. Proporcionalmente menos importante do que se pensava, o “expurgo” do Exército 
Vermelho, principalmente em seus escalões mais elevados, se fez sentir durante a guerra russo-finlandesa de 1940 e o 
início da guerra germano-soviética, e constituiu uma das mais pesadas desvantagens para o Exército Vermelho. 

Apesar da ameaça hitlerista - que ele levava muito menos a sério do que outros dirigentes bolchevistas, como 
Bukharin ou Litvinov, comissário do povo para os negócios estrangeiros até abril de 1939 - Stalin não hesitou em 
sacrificar a maior parte dos melhores oficiais do Exército Vermelho em benefício de um escalonamento totalmente 
novo, que não guardasse nenhuma memória dos episódios controvertidos que implicavam Stalin como “chefe militar” 
durante a guerra civil, e que não seria tentado a contestar, como poderiam ter feito homens como o marechal 
Tukhatchevski, um certo número de decisões militares e políticas tomadas por Stalin no fim dos anos 30, 
principalmente a aproximação com a Alemanha nazista. 

A intelligentsia representa um outro grupo social vítima do Grande Terror sobre o qual dispomos de 
informações relativamente abundantes. Desde sua constituição como grupo social reconhecido, a intelligentsia russa 
estivera, a partir da metade do século XIX, no centro da resistência ao despotismo e ao assujeitamento do pensamento. 
Era natural que o expurgo lhe atingisse particularmente, na continuidade das primeiras ondas de repressão - em 
comparação, muito moderadas - de 1922 e de 1928-1931. Em março-abril de 1937, uma campanha de imprensa 
condenou o “desviacionismo” nos campos da economia, da história e da literatura. Na realidade, todos os ramos do 
saber e da criação foram visados, com os pretextos doutrinários e políticos servindo sobretudo para cobrir rivalidades e 
ambições. Assim, em história, foram presos todos os discípulos de Pokrovski, morto em 1932. Os professores, que 
deviam continuar a fazer conferências públicas e que eram assim suscetíveis de influenciar um amplo auditório de 
estudantes, eram particularmente vulneráveis; o menor de seus propósitos podia ser relevado por delatores zelosos. 
Universidades, institutos e academias foram dizimados, principalmente na Bielo-Rússia (onde 87 dos 105 académicos 
foram presos como “espiões poloneses”) e na Ucrânia. Nesta república, um primeiro expurgo de “nacionalistas 
burgueses” acontecera em 1933: vários milhares de intelectuais ucranianos foram presos por terem “transformado em 
antros nacionalistas burgueses e contra-revolucionários a Academia Ucraniana de Ciências, o Instituto Chevtchenko, a 
Academia Agrícola, o Instituto Ucraniano do Marxismo-Leninismo, assim como os Comissariados do Povo para a 
Educação, para a Agricultura e para a Justiça” (discurso de Postychev, 22 de junho de 1933). O grande expurgo de 
1937-1938 terminou nesse ponto uma operação iniciada quatro anos antes. 

Os meios científicos que tinham relação, mesmo distante, com a política, a ideologia, a economia ou a defesa 
também foram atingidos. As maiores sumidades da indústria aeronáutica, como Tupolev (o construtor do famoso avião) 
ou Korolev (que estivera na origem do primeiro programa espacial soviético), foram presas e enviadas para uma das 
unidades de pesquisa do NKVD descritas por Soljenitsyne em O Primeiro Circulo. Também foram presos quase todos 


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(27 dos 29) os astrónomos do grande Observatório de Pulkovo; quase todos os estatísticos da Direção Central da 
Economia Nacional, que acabavam de realizar o recenseamento de janeiro de 1937, anulado por “violação profunda dos 
fundamentos elementares da ciência estatística e das instruções do governo”; inúmeros linguistas, que se opunham à 
teoria do “linguista” marxista Marr, aprovada oficialmente por Stalin; e várias centenas de biólogos, que rejeitavam o 
charlatanismo do “biólogo oficial” Lyssenko. Entre as vítimas mais conhecidas figuravam o professor Levit, dire-tor do 
Instituto de Medicina Geral, Tulaikov, diretor do Instituto dos Cereais, o botânico lanata e o académico Vavilov, 
presidente da Academia Lenin das Ciências Agrícolas, preso em 6 de agosto de 1940 e morto na prisão em 26 de 
janeiro de 1943. 

Acusados de defenderem pontos de vista “estranhos” ou “hostis”, de se desviarem das normas do “realismo 
socialista”, escritores, publicitários, gente de teatro e jornalistas pagaram um pesado tributo à lejovschina. Cerca de 
dois mil membros da União dos Escritores foram presos, deportados para o campo ou executados. Entre as vítimas mais 
famosas constavam o autor dos Contos de Odessa e de Cavalaria Vermelha, Isaac Babel (fuzilado em 27 de janeiro de 
1940), os escritores Boris Pilniak, luri Olecha, Panteleimon Romanov, os poetas Nikolai Kliuev, Nikolai Zabolotski, 
Ossip Mandelstam (morto em um campo de transferência siberiano, em 26 de dezembro de 1938), Gurgen Maari, 
Titsian Tabidze. Também foram presos músicos (o compositor Jeliaiev, o maestro Mikoladze) e gente de teatro, entre 
os quais membros do primeiro escalão, como o grande diretor Vsevolod Meyerhold. No início de 1938, o Teatro 
Meyerhold foi fechado como “estranho à arte soviética”. Tendo se recusado a fazer publicamente sua autocrítica, 
Meyerhold foi preso em junho de 1939, torturado e executado em 2 de fevereiro de 1940. 

Durante esses anos, as autoridades tentaram “liquidar definitivamente” - para retomar uma expressão em voga 
à época - os “últimos resquícios clericais”. Como o recenseamento anulado de janeiro de 1937 revelara que a grande 
maioria da população - cerca de 70% - respondera positivamente à questão “Você é crente?”, apesar das pressões de 
natureza diversa exercidas sobre ela, os dirigentes soviéticos decidiram lançar um terceiro e último assalto contra a 
Igreja. Em abril de 1937, Malenkov enviou uma nota a Stalin, na qual ele julgava ultrapassada a legislação sobre os 
cultos e propunha a anulação do decreto de 8 de abril de 1929. “Este último, explicava ele, criara uma base legal para a 
implantação de uma organização ramificada de 600 indivíduos hostis ao poder soviético, pela parte mais ativa do clero 
e dos membros das seitas. Já é tempo, concluía ele, de acabar com as organizações clericais e com a hierarquia 
eclesiástica.” Milhares de sacerdotes e quase todos os bispos retomaram o caminho do campo, mas, dessa vez, um 
grande número deles foi executado. Das 20 mil igrejas e mesquitas ainda em atividade em 1936, menos de mil ainda 
estavam abertas ao culto no início de 1941. Quanto ao número de adeptos do culto oficialmente registrados, ele teria se 
elevado, no início de 1941, a 5.665 (dos quais a metade oriunda dos territórios bálticos, poloneses, ucranianos e 
moldávios incorporados em 1939-1941), enquanto que ele ainda era superior a 24.000 em 1936. 

O Grande Terror, operação política iniciada e conduzida do início ao fim pelas mais altas instâncias do 
Partido, ou seja, por Stalin, que então dominava totalmente seus colegas do Politburo, atingiu seus dois maiores 
objetivos. 

O primeiro era implantar uma burocracia civil e militar às ordens de Stalin, constituída por jovens quadros 
formados no espírito stalinista dos anos 30, que “aceitarão qualquer tarefa que lhes for designada pelo Camarada 
Stalin”, segundo as palavras de Kaganovitch no XVIII Congresso. Até esse momento, as diversas administrações - 
mistura heterogénea de “especialistas burgueses” formados sob o Antigo Regime e de quadros bolcheviques, em geral 
pouco competentes, formados na militância durante a guerra civil - tentaram preservar seu profissionalismo, suas 
lógicas administrativas ou, simplesmente, sua autonomia e suas redes clientelistas, sem se dobrarem cegamente ao 
voluntarismo ideológico e às ordens do Centro. As dificuldades da campanha de “ verificação das carteiras do Partido” 
de 1935, que se confrontara com a resistência passiva dos dirigentes comunistas locais, assim como com a recusa, 
expressa pela maioria dos estatísticos, de “embelezar” os resultados do recenseamento de janeiro de 1937, colocando-os 
em conformidade com os desejos de Stalin, representavam dois exemplos significativos que interpelavam os dirigentes 
stalinistas sobre a natureza da administração de que dispunham para governar o país. Era evidente que uma parte 
importante dos quadros, fossem eles comunistas ou não, não estava disposta a seguir qualquer ordem que emanasse do 
Centro. Assim, para Stalin, era urgente substituí-los por pessoas mais “eficazes”, ou seja, mais obedientes. 

O segundo objetivo do Grande Terror era concluir, radicalmente, a eliminação de todos os “elementos 
perigosos à sociedade”, uma noção com contornos muito amplos. Como indicava o Código Penal, era reconhecido 
corno socialmente perigoso todo indivíduo “tendo cometido um ato perigoso para a sociedade, ou cujas relações com 
um meio criminal, ou a atividade pregressa apresentavam um perigo”. Todo o vasto bando dos “ex” foi definido como 
perigosos à sociedade segundo esses princípios; na maioria das vezes, eles haviam sido objeto de medidas repressivas 
no passado: ex-kulaks, ex-crimino-sos, ex-funcionários czaristas, ex-membros dos Partidos Menchevique, Socialista- 
Revolucionário, etc. Todos esses “ex” foram eliminados durante o Grande Terror conforme a teoria stalinista, expressa 
principalmente durante o plenário do Comitê Central de fevereiro-março de 1937, segundo a qual “quanto mais se 
avança em direção ao socialismo, mais ferrenha é a luta dos resquícios das classes moribundas”. 


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Durante seu discurso ao plenário do Comitê Central de fevereiro-março de 1937, Stalin insistiu 
particularmente na idéia do cercamento da URSS, único país “que construiu o socialismo”, por potências inimigas. 
Essas potências limítrofes - a Finlândia, os Países Bálticos, a Polônia, a Roménia, a Turquia, o Japão -, ajudadas pela 
França e pela Grã-Bretanha, enviaram à URSS “exércitos de diversionistas e de espiões”, encarregados de sabotar a 
construção do socialismo. Estado único, sacralizado, a URSS possuía fronteiras “sagradas”, que eram também linhas de 
frente contra um inimigo exterior onipresente. Não é surpreendente que, nesse contexto, a caça aos espiões -todos 
aqueles que tiveram o mais leve contato com “o outro mundo”- e a eliminação de uma potencial e mítica “quinta 
coluna” tenham estado no centro do Grande Terror. 

Através das grandes categorias de vítimas - quadros e especialistas, elementos estranhos à sociedade (os “ex”, 
espiões - compreendemos as principais funções do paroxismo da condenação à morte de 700 mil pessoas em dois anos. 


11. O império dos campos de concentração 


Os anos 30, marcados por uma repressão sem precedentes à sociedade, viram um crescimento espetacular do 
sistema concentracionário. Os arquivos do Gulag, atualmente acessíveis, permitem delimitar com precisão sua evolução 
ao longo desses anos, suas diferentes reorganizações, o fluxo e o número de detentos, sua importância econômica, a 
repartição por tipo de condenações, sexo, idade, nacionalidade e nível de instrução. Decerto, as zonas de sombra 
subsistem; a burocracia do Gulag funcionava muito bem na contabilização dos prisioneiros que chegavam a seu 
destino. Mas, em termos estatísticos, não sabemos quase nada sobre os que nunca chegaram ao seu destino, quer eles 
tenham morrido na prisão ou durante as intermináveis transferências, apesar de não faltarem descrições do calvário 
entre o momento da prisão e a condenação. 

Em meados de 1930, cerca de 140.000 detentos já trabalhavam nos campos geridos pela GPU. O imenso 
canteiro de obras do canal Báltico-Mar Branco, que necessitava de uma mão-de-obra servil de 120.000 indivíduos 
apenas para seu próprio desenvolvimento, acelerou a transferência das prisões para os campos de dezenas de milhares 
de presos, enquanto o fluxo de condenações não cessava de aumentar: 56.000 condenados, em 1929, nos casos 
conduzidos pela GPU e mais de 208.000 em 1930 (contra 1.178.000 condenados por casos que não diziam respeito à 
GPU e 1.238.000 em 1931). No início de 1932, mais de 300.000 detentos cumpriam pena nos grandes canteiros de 
obras da GPU, onde a taxa de mortalidade anual chegava a 10%, como foi o caso do canal Báltico-Mar Branco. 

Em julho de 1934, durante a reorganização da GPU em NKVD, o Gulag - principal unidade administrativa dos 
campos de concentração - absorveu 780 pequenas colônias penitenciárias que reuniam cerca de 212.000 detentos, 
Julgados pouco produtivos e mal geridos e que dependiam até então do Comissariado do Povo para a Justiça. Para ser 
produtivo, e à imagem do país, o campo deveria ser grande e especializado. Imensos complexos penitenciários, 
reunindo dezenas de milhares de presos cada um, iriam ocupar um lugar primordial na economia da URSS stalinista. 
Em 1º de janeiro de 1935, o sistema a partir de então unificado do Gulag reunia mais de 965.000 presos, dos quais 
725.000 nos “campos de trabalho” e 240.000 nas “colônias de trabalho”, unidades menores onde eram colocados os 
indivíduos “menos perigosos para a sociedade”, em geral condenados a penas inferiores a três anos. 

Nessa data, o mapa do Gulag já estava, em suas grandes linhas, traçado pelas duas próximas décadas. O 
conjunto penitenciário das ilhas Solovki, que contava com cerca de 45.000 presos havia alastrado seus “campos 
móveis” que se deslocavam em função dos canteiros de corte de madeira ao mesmo tempo na Carélia, no litoral do Mar 
Branco e na região de Vologda. O grande conjunto do Svirlag, reunindo cerca de 43.000 presos, tinha como tarefa 
abastecer de lenha toda a aglomeração de Leningrado, enquanto que o de Temnikovo, com 35.000 presos, estava 
encarregado de funções idênticas para a aglomeração de Moscou. 

A partir da encruzilhada estratégica de Kotlas, uma “via Norte-Leste” expandia seus trilhos, seu corte de 
madeira e suas minas em direção a Oeste-Vym, Ukhta, Petchora e Vorkuta. O Ukhtpetchlag empregava 51.000 presos 
na construção de estradas, nas minas de carvão e nos campos petrolíferos dessa região do extremo norte. Uma outra 
ramificação partia em direção ao norte do Ural e aos complexos químicos de Solikamsk e Berezniki, enquanto que 
rumava para o sudoeste o conjunto de campos da Sibéria Ocidental, com seus 63.000 presos, fornecendo mão-de-obra 
gratuita para o complexo carbonífero de Kuzbassugol. 

Mais ao sul, na região de Karaganda, no Cazaquistão, os “campos agrícolas” do Steplag, que contavam com 
30.000 presos, experimentavam uma nova fórmula para a valorização das estepes. Segundo parece, o regime nesse 
campo era menos rigoroso do que o do maior canteiro de obras de meados dos anos 30, o Dmitlag (196.000 presos), 
encarregado, após o término do canal Báltico-Mar Branco em 1933, da construção do segundo grande canal stalinista, o 
canal Moscou-Volga. 

Um outro grande e faraónico canteiro de obras era o BAM (Baikalo-Amurskaia Magistral), a estrada de ferro 
que deveria duplicar o Transiberiano do lago Baikal até o Amur. No início de 1935, cerca de 150.000 presos do 


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conjunto concentracionário do Bamlag, divididos em cerca de 30 “divisões”, trabalhavam sobre um primeiro tronco da 
via férrea. Em 1939, o Bamlag era, com 260.000 presos, o mais vasto conjunto concentracionário soviético. 

Enfim, desde 1932, um conjunto de campos de concentração (o Sewostlag, os campos do Noroeste) trabalhava 
para um complexo de grande importância estratégica, o Dalstroi, encarregado da produção do ouro exportado para 
comprar o equipamento necessário à industrialização. As jazidas de ouro estavam situadas numa região particularmente 
inóspita, a Kolyma. Completamente isolada, uma vez que o acesso a ela só era possível através do mar, a Kolyma se 
tornaria a região símbolo do Gulag. Sua capital Magadan, porto de entrada para os proscritos, foi edificada pelos 
próprios presos. Sua “rua calcada”, artéria vital, também ela construída pelos próprios presos, servia apenas como 
ligação entre os campos, cujas condições de vida particularmente desumanas foram magistralmente descritas nos 
romances de Variam Chalamov. De 1932 a 1939, a produção do ouro extraído pelos presos de Kolyma - eles eram 
138.000 em 1939 - passou de 276 quilos para 48 toneladas, ou seja, 35% da produção soviética deste último ano. 

Em junho de 1935, o governo lançou um novo grande projeto, que não podia ser concretizado sem o uso de 
uma mão-de-obra penal, a construção de um grande complexo de produção de níquel em Norilsk, para além do círculo 
polar. O conjunto concentracionário de Norilsk contaria, no apogeu do Gulag, no início dos anos 50, com até 70.000 
presos. A função produtiva do campo de concentração dito de “trabalho corretivo” estava claramente refleti-da nas 
estruturas internas do Gulag. As direções centrais não obedeciam a princípios geográficos nem funcionais, mas 
econômicos: direção das construções hidroelétricas, direção de construções ferroviárias, direção de pontes e estradas, 
etc. Entre essas direções penitenciárias e as direções dos ministérios industriais, o preso ou o colono especial era uma 
mercadoria que funcionava como moeda de troca. 

Na segunda metade dos anos 30, a população do Gulag dobrou, passando de 965.000 presos no início de 1935 
para 1.930.000 no início de 1941. Apenas no decorrer do ano de 1937, houve um crescimento de 700.000 pessoas. O 
afluxo em massa de novos presos desorganizou a tal ponto a produção daquele ano, que seu valor diminuiu 13% em 
relação a 1936! Ela continuou estagnada em 1938 até que o novo comissário do povo para o Interior, Lavrenti Beria, 
tomou medidas enérgicas para “racionalizar” o trabalho dos presos. Em uma nota de 10 de abril de 1939 dirigida ao 
Politburo, Beria expôs seu “programa de reorganização do Gulag”. Segundo ele, seu predecessor, Nikolai lejov, havia 
privilegiado a “caça aos inimigos” em detrimento de uma “gestão economicamente sã”. A norma de alimentação dos 
presos, que era de 1.400 calorias por dia, havia sido calculada para “pessoas sentadas na prisão”. Assim, o número de 
indivíduos aptos para o trabalho havia desmoronado no decorrer dos anos precedentes; em 1? de março de 1939, 
250.000 presos estavam inaptos para o trabalho e 8% da totalidade dos presos morreram apenas no decorrer do ano de 
1938. Para poder realizar o plano de produção reservado ao NKVD, Beria propunha o aumento das rações alimentares, 
a supressão de todas as libertações antecipadas, a punição exemplar de todos os mandriões e outros “desorganizadores 
da produção” e, enfim, o prolongamento do tempo de trabalho, que seria aumentado para 11 horas por dia, com três 
dias de repouso por mês, a fim de “explorar ao máximo todas as capacidades físicas dos presos”. 

Contrariamente a uma idéia amplamente aceita, os arquivos do Gulag revelam que a rotação dos presos era 
bastante grande, pois de 20% a 35% dentre eles eram soltos a cada ano. Essa rotação se explica pelo número 
relativamente elevado de penas inferiores a cinco anos, representando cerca de 57% dos presos em campos de 
concentração no início de 1940. A total arbitrariedade de uma administração e de uma jurisdição de exceção, 
principalmente para os “políticos” encarcerados em 1937-1938, chegou a ponto de, dez anos mais tarde, prorrogar as 
penas que chegavam a seu fim. Entretanto, a entrada em um campo de concentração não significava, em regra geral, 
uma passagem sem volta. Aliás, toda uma série de “penas anexas”, tais como a fixação de residência ou o exílio, 
estavam previstas para o “pós-campo”! 

Contrariamente também a uma outra opinião corrente, os campos de concentração do Gulag estavam longe de 
acolher uma maioria de políticos, condenados por “atividades contra-revolucionárias” referidas em uma das 14 alíneas 
do tristemente célebre artigo 58 do Código Penal. O contingente de políticos oscilava, de acordo com o ano em questão, 
entre um quarto e um terço dos efetivos do Gulag. O que não significa que todos os outros detentos fossem prisioneiros 
comuns, no sentido habitual desse termo. Eles foram parar no campo de concentração por terem infringido uma das 
várias leis repressivas que cada centro de atividades sancionava, indo desde a “dilapidação da propriedade socialista”, a 
“infração à lei dos passaportes”, o “vandalismo”, a “especulação”, até o “abandono do posto de trabalho”, a 
“sabotagem” ou ainda o “não-cumprimento de um número mínimo de jornadas de trabalho” nos kolkhozes. Nem 
políticos, nem prisioneiros comuns no sentido habitual do termo, a grande maioria dos presos do Gulag era formada 
simplesmente por “simples” cidadãos vítimas da penalização geral das relações de trabalho e de um número crescente 
de comportamentos sociais. Tal era o resultado de uma década de repressão praticada pelo Partido-Estado contra os 
mais amplos setores da sociedade. 

Tentemos esboçar um balanço provisório dos diversos aspectos dessa repressão que, naturalmente, não se 
situam no mesmo plano. 


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- 6 milhões de mortos como consequência da fome de 1932-1933, uma catástrofe amplamente imputada à 
política de coletivização forcada e de antecipação predatória feita pelo Estado sobre as colheitas dos kolkhozes; 

- 720.000 execuções, das quais mais de 680.000 apenas nos anos de 1937-1938, subsequentes a uma paródia 
de julgamento feita por umajurisdição especial da GPU-NKVD; 

- 300.000 óbitos atestados nos campos de concentração entre 1934 e 1940; cerca de 400.000 para toda a 
década, números que, sem dúvida, podemos generalizar para os anos de 1930-1933, anos sobre os quais não dispomos 
de dados precisos, sem contar o número inverifi- cável de pessoas mortas entre o momento de sua prisão e seu registro 
como “os que entram” pela burocracia penitenciária; 

- cerca de 600.000 óbitos atestados entre os deportados, “deslocados” e colonos especiais; 

- cerca de 2.200.000 deportados, deslocados ou colonos especiais; 

- um número acumulado de 7 milhões de pessoas que deram entrada nos campos de concentração e colônias 
do Gulag entre 1934 e 1941, com dados insuficientes para os anos 1930-1933. 

Em 1º de janeiro de 1940, 53 conjuntos de “campos de trabalho corre-tivo” e as 425 “colônias de trabalho 
corretivo” reuniam 1.670.000 presos; eles chegaram a ser 1.930.000 no ano seguinte. As prisões encarceravam cerca de 
200.000 pessoas que esperavam seu julgamento ou sua transferência para um campo de concentração. Enfim, 1.800 
komandatures do NKVD geravam mais de 1.200.000 colonos especiais. Esses poucos números, mesmo fortemente 
revisados por baixo em relação a algumas estimativas recentemente apresentadas por historiadores e testemunhas, que 
com frequência confundiam o fluxo da entrada no Gulag e o número de presos presentes em tal ou tal data, mostram a 
dimensão da repressão da qual foram vítimas as mais variadas camadas da sociedade soviética no decorrer dos anos 30. 

Do fim de 1939 ao verão de 1941, os campos de concentração, as colônias e os povoamentos especiais do 
Gulag sofreram um novo afluxo de proscritos. Esse movimento estava ligado à sovietização de novos territórios e a 
uma criminalização sem precedentes dos comportamentos sociais, especialmente no mundo do trabalho. 

Em 24 de agosto de 1939, o mundo estupefato soube da notícia da assinatura, na véspera, de um tratado de 
não-agressão entre a URSS stalinista e a Alemanha hiderista. O anúncio do pacto produziu um verdadeiro choque nos 
países europeus diretamente implicados pela crise, cuja opinião pública não havia sido preparada para o que parecia 
uma reversão total das alianças, poucas mentes tendo então compreendido o que podia unir dois regimes de ideologias 
tão opostas. 

Em 21 de agosto de 1939, o governo soviético havia adiado as negociações conduzidas com a missão franco- 
inglesa, que viera a Moscou, em 11 de agosto, com o objetivo de concluir um acordo de engajamento recíproco das três 
partes no caso de uma agressão alemã a uma delas. Desde o início do ano de 1939, a diplomacia soviética, dirigida por 
Viatcheslav Molotov, esquivava-se gradativamente da idéia de um acordo com a França e com a Grã-Bretanha, 
suspeitas de estarem prontas a concluírem novos Munique à custa dos poloneses, o que deixaria o leste livre para os 
alemães. Enquanto as negociações entre soviéticos, de uma parte, e britânicos e franceses, de outra parte, patinavam em 
problemas insolúveis - por exemplo, como, em caso de agressão alemã contra a França, o Exército Vermelho poderia 
atravessar a Polônia para atacar a Alemanha? - os contatos entre representantes soviéticos e alemães em diversos níveis 
tomavam um novo contorno. Em 14 de agosto, o ministro alemão de relações exteriores, Ribbentrop, propôs uma visita 
a Moscou para concluir um amplo acordo político com os dirigentes soviéticos. Stalin aceitou prontamente. 

No dia 19, alemães e soviéticos assinaram um acordo comercial que estava sendo negociado desde o fim de 
1938 e que se mostrava bastante vantajoso para a URSS. Na mesma noite, os soviéticos aceitaram que Ribbentrop 
viesse a Moscou para assinar um pacto de não-agressão já elaborado pelo lado soviético e transmitido imediatamente a 
Berlim. O ministro alemão, dotado de “plenos poderes extraordinários”, chegou em Moscou na tarde do dia 23, e o 
tratado de não-agressão assinado durante a noite foi tornado público no dia 24. Válido por dez anos, ele entrava 
imediatamente em vigor. A parte mais importante do acordo, que delimitava as esferas de influência e as anexações de 
dois países do Leste Europeu, permaneceu, evidentemente, secreta. Até 1989, os dirigentes soviéticos negavam, contra 
a evidência, a existência desse “protocolo secreto”, verdadeiro “crime contra a paz” cometido pelas duas potências 
signatárias. Nos termos desse texto, a Lituânia entrava na esfera de interesse da Alemanha; a Estónia, a Letónia, a 
Finlândia e a Bessarábia, na esfera soviética. Quanto à Polônia, se a questão da manutenção de um resto de Estado 
polonês permanecia em suspenso, a URSS devia, o que quer que acontecesse, recuperar, após a intervenção militar dos 
alemães e dos soviéticos contra a Polônia, os territórios bielo-russos e ucranianos cedidos em seguida ao tratado de 
Riga, em 1920, assim como uma parte dos territórios “histórica e etnicamente poloneses” nas províncias de Lublin e de 
Varsóvia. 

Oito dias após a assinatura do pacto, as tropas nazistas atacaram a Polônia. Uma semana mais tarde, em 9 de 
setembro, diante do desmoronamento da resistência polonesa e com a insistência dos alemães, o governo soviético fez 
saber a Berlim sua intenção de ocupar rapidamente os territórios que lhe cabiam segundo os termos do acordo secreto 
de 23 de agosto. Em 177 de setembro o exército russo penetrou na Polônia sob o pretexto de “ajudar os irmãos de sangue 
ucranianos e bielo-russos” ameaçados pela “desagregação do Estado polonês”. A intervenção soviética num momento 


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em que o exército polonês estava praticamente aniquilado encontrou pouca resistência. Os soviéticos fizeram 230.000 
prisioneiros de guerra, dos quais 15.000 eram oficiais. 

A idéia de deixar um Estado-tampão polonês, esboçada durante algum tempo por alemães e soviéticos, foi 
rapidamente abandonada, o que tornou ainda mais delicada a fixação da fronteira entre a Alemanha e a URSS. Prevista 
em 22 de setembro, sobre o traçado do rio Vístula, em Varsóvia, ela foi prorrogada em direção a leste até o rio Bug, 
durante a vinda de Ribbentrop a Moscou em 28 de setembro. Em troca dessa “concessão” soviética em relação aos 
termos do protocolo secreto de 23 de agosto, a Alemanha incluía a Lituânia na esfera dos interesses soviéticos. A 
partilha da Polônia permitiu à URSS anexar amplos territórios de 124 mil quilómetros quadrados, povoados por 12 
milhões de habitantes, bielo-russos, ucranianos e poloneses. Em 1? e 2 de novembro, após o simulacro de uma consulta 
ao povo, esses territórios foram anexados às repúblicas soviéticas da Ucrânia e da Bielo-Rússia. 

Nessa data, a “limpeza” dessas regiões pelo NKVD já estava em estágio bem adiantado. Os primeiros visados 
foram os poloneses, detidos e deportados em massa como “elementos hostis”. Entre os mais expostos figuravam os 
proprietários rurais, industriais, comerciantes, funcionários, policiais e “colonos especiais” (osadnicy wojskowi) que 
haviam recebido do governo polonês um quinhão de terra nas regiões fronteiriças como recompensa por serviços 
prestados durante a guerra soviético-polonesa de 1920. De acordo com estatísticas do departamento de colonos 
especiais do Gulag, em fevereiro de 1940 e junho de 1941, 381.000 civis poloneses, somente nos territórios anexados 
pela URSS em setembro de 1939, foram deportados como colonos especiais para a Sibéria, a região de Arkhangelsk, o 
Cazaquistão e outras regiões afastadas da URSS. Os números considerados pelos historiadores poloneses são bem mais 
altos, elevando-se à ordem de um milhão de pessoas deportadas. Infelizmente, não dispomos de nenhum dado preciso 
sobre as prisões e as deportações de civis praticadas entre setembro de 1939 e janeiro de 1940. 

Para o período posterior, os documentos de arquivo atualmente acessíveis dão conta de três grandes “ondas de 
deportações”, em 9 e 10 de fevereiro, em 12 e 13 de abril e em 28 e 29 de junho de 1940. Eram necessários dois meses 
para que os comboios realizassem uma viagem de ida e volta entre a fronteira polonesa e a Sibéria, o Cazaquistão ou o 
extremo Norte. No que concerne aos prisioneiros de guerra poloneses, apenas 82.000 dos 230.000 sobreviveram até o 
verão de 1941. As perdas entre os colonos especiais poloneses também foram bastante elevadas. Com efeito, em agosto 
de 1941, após o acordo com o governo polonês no exílio, o governo soviético concedeu uma “anistia” aos poloneses 
deportados a partir de novembro de 1939, mas só eram encontráveis 243.100 colonos especiais, enquanto que pelo 
menos 381.000 haviam sido deportados entre fevereiro de 1940 e junho de 1941. No total, 388.000 poloneses 
prisioneiros de guerra, refugiados internos e deportados civis foram beneficiados por essa anistia. Várias centenas de 
milhares haviam desaparecido no decorrer dos dois anos precedentes. Um grande número dentre eles foi executado sob 
o pretexto de serem “inimigos ferozes e determinados do poder soviético”. 


Carta de L. Beria, comissário do povo para negócios interiores, a Stalin, em 5 de março de 1940, ultra-secreta. 

Ao camarada Stalin. 

Um grande número de antigos oficiais do exército polonês, antigos funcionários da polícia e dos serviços de 
informação poloneses, membros de partidos nacionalistas contra-revolucionários, membros de organizações de 
oposição con-tra-revolucionárias devidamente desmascaradas, desertores e outros, todos inimigos jurados do poder 
soviético, plenos de ódio contra o sistema soviético, estão atualmente presos nos campos de prisioneiros de guerra do 
NKVD da URSS e nas prisões situadas nas regiões ocidentais da Ucrânia e da Bielo-Rússia. 

Os oficiais do exército e da polícia prisioneiros nos campos de concentração tentam prosseguir com suas 
atividades contra-revolucionárias e mantêm uma agitação anti-soviética. Cada um deles espera somente pela libertação 
para entrar ati-vamente na luta contra o poder soviético. 

Os órgãos do NKVD das regiões ocidentais da Ucrânia e da Bielo-Rússia descobriram um grande número de 
organizações rebeldes contra-revolucionárias. Os antigos oficiais do exército e da polícia poloneses, assim como os 
policiais militares, têm um papel ativo na liderança de todas essas organizações. 

Entre os antigos desertores e os que violaram as fronteiras do Estado está um bom número de pessoas que 
foram identificadas como pertencentes a organizações contra-revolucionárias de espionagem e de resistência. 

14.736 antigos oficiais, funcionários, proprietários de terras, policiais, policiais militares, carcereiros, colonos 
instalados nas regiões fronteiriças (psadnikí) e agentes de informação (dos quais mais de 97% são poloneses) 
encontram-se presos nos campos de prisioneiros de guerra. Esse número não compreende nem os simples soldados, 
nem os suboficiais. 

Podem-se contar entre eles: 

- Generais, coronéis e tenentes-coronéis = 295 

- Comandantes e capitães = 2.080 

- Tenentes, subtenentes e aspirantes = 6.049 

- Oficiais e suboficiais da polícia, das guardas de fronteira e da polícia militar = 1.030 


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- Agentes de polícia, policiais militares, carcereiros e agentes de informação = 5.138 

- Funcionários, proprietários de terra, padres e colonos instalados nas regiões fronteiriças = 144 

Outrossim, 18.632 homens estão presos nas prisões das regiões ocidentais da Ucrânia e da Bielo-Rússia (dos 
quais 10.685 poloneses). 

Podem-se contar entre eles: 

- Antigos oficiais = 1.207 

- Antigos agentes de informação, da polícia e da polícia militar = 5.141 

- Espiões e sabotadores =347 

-Antigos proprietários de terras, proprietários de fábricas e funcionários = 465 

- Membros de diversas organizações contra-revolucionárias de resistência e elementos diversos = 5.345 

-Desertores = 6.127 

Uma vez que todos esses indivíduos são ferozes e irredutíveis inimigos do poder soviético, o NKVD da URSS 
considera que é necessário: 

1. Ordenar ao NKVD da URSS julgar perante tribunais especiais: 

a) 14.700 oficiais, funcionários, proprietários de terra, agentes de polícia, agentes de informação, policiais 
militares, colonos de regiões fronteiriças e carce reiros presos nos campos de prisioneiros de guerra; 

b) assim como 11.000 membros de diversas organizações contra-revolucio nárias de espiões e sabotadores, 
antigos proprietários de terra, proprietários de fabricas, antigos oficiais do exército polonês, funcionários e desertores 
que foram detidos e estão presos nas regiões ocidentais da Ucrânia e da Bielo-Rússia, para APLICAR-LHES O 
CASTIGO SUPREMO: A PENA DE MORTE POR FUZILAMENTO. 

2. O estudo dos dossiês individuais será feito sem o comparecimento dos presos e sem ata de acusação. As 
conclusões da investigação e da sentença final serão apresentadas como se segue: 

a) sob a fornia de certificados produzidos pela administração dos casos dos prisioneiros de guerra do NKVD 
da URSS para os indivíduos presos nos campos de prisioneiros de guerra; 

b) sob a forma de certificados produzidos pelo NKVD da RSS da Ucrânia e pelo NKVD da RSS da Bielo- 
Rússia para as outras pessoas presas. 

3. Os dossiês serão examinados, e as sentenças pronunciadas pelo tribunal composto por três pessoas, os 
camaradas Merkulov, Kobulov e Bachtalov. 

O comissário do povo para o interior da URSS, L. Beria. 


Entre estes últimos, figuravam principalmente os 25.700 oficiais e civis poloneses para os quais Beria havia, 
numa carta endereçada a Stalin em 5 de março de 1940, proposto o fuzilamento. Uma parte dos ossuários contendo os 
corpos dos supliciados foi descoberta, em abril de 1943, pelos alemães, na floresta de Katyn. Várias fossas comuns 
continham os restos de 4.000 oficiais poloneses. As autoridades soviéticas tentaram imputar o massacre aos alemães, e 
foi somente em 1992, durante uma visita de Boris Yeltsin a Varsóvia, que as autoridades russas reconheceram a 
responsabilidade direta de Stalin e dos demais membros do Politburo na eliminação da elite polonesa em 1940. 

Imediatamente após a anexação das regiões pertencentes à Polônia, e conforme os acordos feitos com a 
Alemanha nazista, o governo soviético convocou os chefes dos governos estoniano, letão e lituano a Moscou, e impôs- 
lhes “tratados de assistência mútua” em virtude dos quais esses países “concediam" bases militares à URSS. Logo em 
seguida, 25.000 soldados soviéticos se instalaram na Estónia, 30.000 na Letónia e 20.000 na Lituânia. Esses efetivos já 
ultrapassavam, em larga medida, os dos exércitos desses países oficialmente ainda independentes. A instalação de 
tropas soviéticas em outubro de 1939 marcou verdadeiramente o fim da independência dos países bálticos. A partir de 
11 de outubro, Beria deu a ordem para “extirpar todos os elementos anti-soviéticos e anti-sociais” desses países. Desde 
então, a polícia militar soviética multiplicou as prisões de oficiais e de funcionários, de intelectuais considerados como 
pouco “seguros” em relação aos objetivos posteriores da URSS. 

Em junho de 1940, no dia seguinte ao vitorioso ataque-relâmpago das tropas alemãs à França, o governo 
soviético decidiu concretizar todas as cláusulas do protocolo secreto de 23 de agosto de 1939. Em 14 de junho, 
pretextando “atos de provocação contra as guarnições soviéticas”, um ultimato foi dirigido aos dirigentes bálticos, 
intimando-os à formação de “um governo disposto a garantir uma aplicação honesta do tratado de assistência e uma 
repressão enérgica aos adversários do dito tratado”. Nos dias que se seguiram, várias centenas de milhares de soldados 
soviéticos ocuparam os países bálticos. Stalin enviou às capitais bálticas seus representantes encarregados de 
empreender a sovietização das três repúblicas, o procurador Vychinski a Riga, Jdanov a Tallinn e o dirigente da polícia 
política Dekanozov, vice-ministro das relações exteriores da URSS, a Kaunas. Os parlamentos e as instituições locais 
foram dissolvidos, e a maioria de seus membros foi detida. O Partido Comunista foi o único partido autorizado a 
apresentar candidatos às eleições que tiveram lugar em 14 e 15 de julho de 1940. 


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Nas semanas precedentes a esse simulacro, o NKVD, sob a direção do general Serov, prendeu entre 15.000 e 
20.000 “elementos hostis”. Somente na Letónia, 1.480 opositores foram executados sumariamente no começo do mês 
de julho. Os parlamentos eleitos solicitaram a admissão de seus países no seio da URSS, pedido que foi naturalmente 
“concedido” no começo de agosto pelo Soviete Supremo, que proclamou o nascimento de três novas repúblicas 
socialistas soviéticas. Enquanto que, em 8 de agosto, o Pravda escrevia: “A partir de hoje, o sol da grande Constituição 
stalinista derrama seus raios benéficos sobre novos territórios e novos povos”. Começava para os bálticos um período 
de prisões, deportações e execuções. 

Os arquivos conservaram detalhes do desenrolar de uma grande operação de deportação de elementos hostis à 
sociedade dos países bálticos, da Moldávia, da Bielo-Rússia e da Ucrânia Ocidental, realizada na noite de 13 a 14 de 
junho de 1941, sob as ordens do general Serov. Essa operação havia sido planejada algumas semanas mais cedo, em 16 
de maio de 1941, com Beria enviando a Stalin seu último projeto de “operação de limpeza dos elementos anti- 
soviéticos, criminosos e estranhos à sociedade das regiões recentemente integradas à URSS”. No total, 85-716 pessoas 
foram deportadas em junho de 1941, entre os quais 25.711 bálticos. Em seu relatório de 17 de julho de 1941, Merkulov, 
o número dois do NK VD, fez o balanço da parte báltica da operação. Durante a noite de 13 e 14 de junho de 1941, 
11.038 membros das famílias de “nacionalistas burgueses”, 3.240 membros de famílias de ex-policiais e policiais 
militares, 7.124 membros de famílias de ex-proprietários rurais, industriais e funcionários, 1.649 membros de famílias 
de ex-oficiais e, enfim, 2.907 “diversos” foram deportados. Fica claro através desse documento que os chefes de 
família haviam sido previamente detidos e, provavelmente, executados. A operação de 13 de junho não visava, com 
efeito, senão os “membros das famílias” julgadas “estranhas à sociedade”. 

Cada família teve direito a cem quilos de bagagens, incluindo a comida para a viagem, pois o NKVD não se 
responsabilizava pela alimentação durante a transferência! Os comboios só chegaram a seu destino - que era, para a 
maioria, a província de Novossibirsk ou o Cazaquistão - no final do mês de julho de 1941. Alguns só chegaram a seu 
lugar de deportação, a região de Altai, em meados de setembro! Quantos deportados morreram no decorrer de seis a 12 
semanas de viagem, lotados em número de 50 pessoas por cada vagão de transporte de animais, com o que eles 
puderam levar como roupas e alimentos durante a noite de sua detenção? Uma outra operação de grande envergadura 
estava planejada por Beria para a noite de 27 para 28 de julho de 1941. A escolha desta data confirma que os mais altos 
dirigentes do Estado soviético não desconfiavam do ataque alemão de 22 de junho. A operação Barba-roxa adiou por 
alguns anos o prosseguimento da “limpeza” pelo NKVD dos países bálticos. 

Alguns dias após a ocupação dos países bálticos, o governo soviético enviou à Roménia um ultimato exigindo 
o “retorno” imediato à URSS da Bessarábia, que havia feito parte do Império czarista e havia sido mencionada no 
protocolo secreto soviético-alemão de 23 de agosto de 1939. Eles exigiam, entre outras coisas, a transferência para a 
URSS da Bukovina do None, que nunca havia feito parte do Império czarista. Abandonados pelos alemães, os romenos 
se submeteram. A Bukovina e uma parte da Bessarábia foram incorporadas pela Ucrânia; o resto da Bessarábia tornou- 
se a República Socialista Soviética da Moldávia, proclamada no dia 2 de agosto de 1940. Nesse mesmo dia, Kobulov, 
adjunto de Beria, assinava uma ordem de deportação de 31.699 “elementos anti-soviéticos” que viviam no território da 
RSS da Moldávia, e de 12.191 outros “elementos anti-soviéticos” das regiões romenas incorporadas à RSS da Ucrânia. 
Todos esses “elementos” haviam sido, em poucos meses, devidamente fichados segundo uma técnica já bem utilizada. 
Na véspera, 19 de agosto de 1940, Molotov havia esboçado diante do Soviete Supremo um quadro triunfante das 
aquisições do acordo germano-soviético: em um ano, 23 milhões de habitantes haviam sido incorporados à União 
Soviética. 

Mas o ano de 1940 também foi notável por outra razão: o número de presos do Gulag, de deportados, de 
pessoas encarceradas nas prisões soviéticas e de condenações penais atingiu seu apogeu. Em 1º de janeiro de 1941, os 
campos do Gulag contavam com 1.930.000 presos, ou seja, um aumento de 270.000 presos em um ano; mais de 
500.000 pessoas dos territórios “soviéticos” haviam sido deportadas, juntando-se aos 1.200.000 colonos especiais 
contabilizados no fim de 1939; as prisões soviéticas, com uma capacidade teórica de 234.000 lugares, encarceravam 
mais de 462.000 indivíduos; enfim, o número total de condenações penais sofreu nesse ano um crescimento 
excepcional, passando, em um ano, de cerca de 700.000 para quase 2,3 milhões. 

Esse aumento espetacular também era resultado de uma penalização sem precedentes das relações sociais. Para 
o mundo do trabalho, o ano de 1940 ficou na memória coletiva como aquele do decreto de 26 de junho “sobre a adoção 
da jornada de oito horas, da semana de sete dias e da proibição ao operário de deixar a empresa por sua própria 
iniciativa”. A partir de então, toda ausência injustificada, começando por um atraso superior a 20 minutos, era 
sancionada penalmente. O contraventor era passível de “trabalhos corretivos” sem a privação da liberdade e de retenção 
de 25% de seu salário, pena que poderia ser agravada com um aprisionamento de dois a quatro anos. 

Em 10 de agosto de 1940, um outro decreto trouxe sanções de um a três anos em campo de concentração para 
punir “atos de vandalismo”, a produção de refugos e os pequenos roubos no local de trabalho. Nas condições de 
funcionamento da indústria soviética, todo operário poderia ser penalizado por essa nova “lei celerada”. 


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Esses decretos, que permaneceriam em vigor até 1956, marcavam uma nova etapa da penalização do direito do 
trabalho. No decorrer dos seis primeiros meses de sua aplicação, mais de um milhão e meio de pessoas foram 
condenadas, das quais mais de 400.000 a penas de prisão; o que explica o importante crescimento do número de 
detentos nas prisões a partir do verão de 1940. O número de vândalos condenados a penas em campos de concentração 
passou de 108.000 em 1939 a 200.000 em 1940. 

Portanto, o fim do Grande Terror foi marcado por uma nova ofensiva, sem precedentes desde 1932, contra a 
gente comum que se recusava a curvar-se à disciplina da fábrica e do kolkhoz. Como respostas às leis celeradas do 
verão de 1940, um bom número de operários, a julgar pelos relatórios dos informantes do NKVD, deram provas de 
“estado de espírito malsão”, principalmente durante as primeiras semanas de invasão nazista. Eles desejavam 
claramente “a eliminação dos judeus e dos comunistas” e difundiam, de acordo com esse operário moscovita cujas 
afirmações foram transmitidas ao NKVD, “rumores provocadores”: “Quando Hitler toma nossas cidades, ele distribui 
cartazes dizendo: 'Eu não farei com que os operários passem diante de um tribunal, como faz o seu governo, quando 
eles chegam com um atraso de vinte minutos ao trabalho.“ Tais afirmações eram punidas com a mais extrema 
severidade, como indica um relatório do procurador geral militar sobre “os crimes e delitos cometidos nas estradas de 
ferro entre 22 de junho e 1? de setembro de 1941”, causando 2.524 condenações, das quais 204 à pena capital. Entre 
essas condenações, não se contavam menos de 412 por “difusão de rumores contra-revolucionários”. Por esse crime, 
110 trabalhadores em estradas de ferro foram condenados à morte. 

Uma coletânea de documentos recentemente publicada sobre “o espírito público” em Moscou durante os 
primeiros meses da guerra?0 destaca a desordem da “gente comum” diante do avanço alemão do verão de 1941. Os 
moscovitas pareciam dividir-se em três grupos - um de “patriotas”, um “movediço” onde nasciam e se difundiam os 
rumores, e um de “derrotistas” que desejava a vitória dos alemães sobre os “judeus e bolcheviques”, assemelhados e 
detestados. Em outubro de 1941, durante o desmonte das fábricas visando à evacuação em direção ao leste do país, 
ocorreram “desordens anti-soviéticas” nas empresas têxteis da região de Ivanovo. As afirmações derrotistas mantidas 
por alguns operários eram reveladoras do estado de desespero no qual se encontrava uma parte do mundo operário, 
submetido desde 1940 a uma legislação cada vez mais dura. 

Entretanto, já que a barbárie nazista não acenava com nenhum futuro promissor aos sub-homens soviéticos, 
votados ao extermínio, ou melhor, à escravidão, ela acabou por reconciliar, num grande sobressalto patriótico, a gente 
comum com o regime. Com bastante habilidade, Stalin soube reafirmar com força os valores russos, nacionais e 
patrióticos. Em seu célebre discurso radiodifundido em 3 de julho de 1941, ele retomou, para dirigir-se à Nação, o 
velho apelo que havia consolidado a comunidade internacional através dos séculos: “Irmãos e irmãs, um grave perigo 
ameaça a nossa pátria”. As referências “à grande Nação russa de Plekhanov, de Lenin, de Puchkin, de Tolstoi, de 
Tchaikovski, de Tchekhov, de Lermontov, de Suvorov e de Kutuzov” deviam servir como suporte para a “guerra 
sagrada”, a “Grande Guerra Patriótica”. Em 77 de novembro de 1941, passando em revista os batalhões de voluntários 
que partiam para o fronte, Stalin conjurou-os a lutarem sob a inspiração do “glorioso exemplo dos ancestrais Alexandre 
Nevski e Dimitri Donskoi”; o primeiro havia salvo a Rússia dos cavaleiros teutônicos no século XIII, e o segundo, um 
século mais tarde, pusera fim ao jugo tártaro. 


12. O avesso de uma vitória 


Entre as inúmeras “lacunas” da história soviética figurou durante muito tempo, como um segredo 
particularmente bem-guardado, o episódio da deportação de povos inteiros durante a “Grande Guerra Patriótica”, 
coletiva-mente suspeitos de “diversionismo, espionagem e colaboração” com o ocu-pante nazista. Foi somente a partir 
do fim dos anos 50 que as autoridades reconheceram que houve “excessos” e “generalizações” na acusação de 
“colaboração coletiva”. Nos anos 60, foi restabelecida a existência jurídica de um certo número de repúblicas 
autónomas riscadas do mapa por colaboração com o ocupante. Contudo, foi somente em 1972 que os membros dos 
povos deportados receberam enfim a autorização teórica de “escolherem livremente seu local de domicílio”. E foi 
somente em 1989 que os tártaros da Criméia foram plenamente “reabilitados”. Até meados dos anos 60, a eliminação 
progressiva das sanções infligidas aos “povos punidos” foi cercada do maior segredo, e os decretos anteriores a 1964 
jamais foram publicados. Foi necessário esperar pela “declaração do Soviete Supremo”, de 14 de novembro de 1989, 
para que o Estado soviético reconhecesse enfim “a ilegalidade criminosa de atos bárbaros cometidos pelo regime 
stalinista em relação aos povos deportados em massa”. 

Os alemães foram o primeiro grupo étnico deportado coletivamente, algumas semanas após a invasão da 
URSS pela Alemanha nazista. De acordo com o recenseamento de 1939, 1.427.000 alemães viviam na URSS; em sua 
maioria, eles descendiam dos colonos alemães chamados por Catarina II, ela mesma originária de Hesse, para povoar 
os vastos espaços vazios do sul da Rússia. Em 1924, o governo soviético criara uma República autónoma dos alemães 
do Volga. Esses “alemães do Volga”, que contavam em média 370.000 pessoas, representavam apenas cerca de um 


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quarto da população de origem alemã, repartida tanto na Rússia (nas regiões de Saratov, de Stalingrado, de Voronezh, 
Moscou, Leningrado, etc.) e na Ucrânia (390.000 pessoas) quanto no Cáucaso do Norte (nas regiões de Krasnodar, de 
Ordjonikidze, de Stavropol), na Criméia ou na Geórgia. Em 28 de agosto de 1941, o Presidium do Soviete Supremo 
expediu um decreto, segundo o qual toda a população alemã da República autónoma do Volga, das regiões de Saratov e 
de Stalingrado devia ser deportada para o Cazaquistão e para a Sibéria. De acordo com esse texto, essa decisão era 
somente uma medida humanitária preventiva! 


Extratos do decreto do Presidium do Soviete Supremo de 28 de agosto de 1941 sobre a deportação coletiva dos 
alemães. 


De acordo com informações dignas de fé recebidas pelas autoridades militares, a população alemã instalada na 
região do Volga abriga milhares e dezenas de milhares de sabotadores e espiões que devem, ao primeiro sinal recebido 
da Alemanha, organizar atentados nas regiões onde vivem os alemães do Volga. Ninguém advertiu as autoridades 
soviéticas da presença de uma tal quantidade de sabotadores e de espiões entre o alemães do Volga; consequentemente, 
a população alemã do Volga esconde em seu seio inimigos do povo e do poder soviético... 

Se ocorrerem atos de sabotagem na República dos alemães do Volga ou nos distritos vizinhos, cometidos pelos 
sabotadores e pelos espiões alemães por ordem da Alemanha, o sangue correrá, e o Governo soviético, conforme as leis 
dos tempos de guerra, será obrigado a tomar medidas punitivas contra toda a população alemã do Volga. Para evitar 
uma situação tão lamentável e graves derramamentos de sangue, o Presidium do Soviete Supremo da URSS julgou 
necessário transferir toda a população alemã que vive na região do Volga para outros distritos, fornecendo-lhe terras e 
uma ajuda do Estado para se instalar nesses novos condados. 

Os distritos abundantes em terras das regiões de Novossibirsk e de Omsk, do território do Altai, do 
Cazaquistão e de outras regiões limítrofes são afetados por essa transferência. 


Enquanto o Exército Vermelho recuava em todas as frentes de batalha, perdendo a cada dia dezenas de 
milhares de mortos e prisioneiros, Beria destacou cerca de 14.000 homens das tropas do NKVD para essa operação, 
dirigida pelo vice-comissário do povo para o Interior, general Ivan Serov, que já se destacara ilustre por ocasião da 
“limpeza” dos países bálticos. As operações foram conduzidas com sucesso, levando-se em conta as circunstâncias e a 
derrota sem precedentes do Exército Vermelho. De 3 a 20 de setembro de 1941, 446.480 alemães foram deportados em 
230 comboios de 50 vagões em média, isto é, cerca de 2.000 pessoas por comboio! A uma velocidade média de alguns 
quilómetros por hora, esses comboios levaram entre quatro e cinco semanas para chegar a seu lugar de destino, as 
regiões de Omsk e de Novossibirsk, a região de Barnaul, no sul da Sibéria, e o território de Krasnoiarsk na Sibéria 
Oriental. Como na época das deportações precedentes do Báltico, as “pessoas transferidas” tiveram, segundo as 
instruções oficiais, “um prazo determinado [sic] para levar com elas víveres por um período de no mínimo um mês”! 

Enquanto essa “operação principal” de deportação se desenrolava, outras “operações secundárias” se 
multiplicavam, ao sabor das vicissitudes militares. Desde 29 de agosto de 1941, Molotov, Malenkov e Jdanov 
propuseram a Stalin “limpar” a região e a cidade de Leningrado de 96.000 indivíduos de origem alemã e finesa. Em 30 
de agosto, as tropas alemãs atingiram o rio Neva, cortando as ligações ferroviárias entre Leningrado e o resto do país. A 
ameaça de um cerco à cidade se tornava mais evidente a cada dia, e as autoridades competentes não haviam tomado 
nenhuma medida para evacuar a população civil de Leningrado nem a mínima medida para constituir estoques de 
alimentos. Contudo, no mesmo dia 30 de agosto, Beria redigiu uma circular ordenando a deportação de 132.000 
pessoas da região de Leningrado, 96.000 por trem e 36.000 por via fluvial. O NKVD teve apenas o tempo necessário 
para prender e deportar 11.000 cidadãos soviéticos de nacionalidade alemã. 

Durante as semanas seguintes, foram empreendidas operações similares nas regiões de Moscou (9.640 alemães 
deportados em 15 de setembro), de Tuia (2.700 deportados em 21 de setembro), de Gorki (3.162 deportados em 14 de 
setembro), de Rostov (38.288, de 10 a 20 de setembro), de Zaporojie (31.320 deportados, de 25 de setembro a 10 de 
outubro), de Krasnodar (38.136 deportados em 15 de setembro), de Ordjonikidze (77.570 deportados em 20 de 
setembro). Durante o mês de outubro de 1941, a deportação atingiu mais de 100.000 alemães residentes na Geórgia, na 
Arménia, no Azerbaidjão, no Cáucaso do Norte e na Criméia. Um balanço contábil da transferência dos alemães mostra 
que, em 25 de dezembro de 1941, 894.600 pessoas haviam sido deportadas, a maior parte para o Cazaquistão e a 
Sibéria. Levando-se em conta os alemães deportados em 1942, chega-se a um total de 1.209.430 deportados em menos 
de um ano, de agosto de 1941 a junho de 1942. Lembremos que, de acordo com o recenseamento de 1939, a população 
alemã na URSS era de 1.427.000 pessoas. 

Assim, mais de 82% dos alemães dispersos pelo território soviético foram deportados, embora a situação 
catastrófica de um país à beira do aniquilamento exigisse que todo o esforço militar e policial se dirigisse para a luta 
armada contra o inimigo e não para a deportação de centenas de milhares de cidadãos soviéticos inocentes. A proporção 


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dos cidadãos soviéticos de origem alemã deportados era, em realidade, ainda mais significativa, levando-se em conta as 
dezenas de milhares de soldados e oficiais de origem alemã retirados das unidades do Exército Vermelho e enviados 
aos batalhões disciplinares do “Exército do Trabalho”, para Vorkuta, Kotlas, Kemerovo, Tcheliabinsk; apenas nesta 
cidade, mais de 25.000 alemães trabalhavam na construção do complexo metalúrgico. Quanto às condições de trabalho 
e de sobrevivência nos batalhões disciplinares do Exército do Trabalho, elas não eram sob nenhum aspecto melhores 
que no Gulag. 

Quantos deportados desapareceram durante sua transferência? Não dispomos hoje de nenhum balanço total e, 
no contexto da guerra e das violências do apocalipse desse período, é impossível acompanhar os dados esparsos sobre 
este ou aquele comboio. Mas quantos comboios nunca chegaram a seu destino, no caos do outono de 1941? No fim de 
novembro, 29.600 deportados alemães deveriam, “de acordo com o plano”, ganhar a região de Karaganda. Ora, em 1º 
de janeiro de 1942, a contagem atestava que apenas 8.304 haviam chegado. O “plano” para a região de Novossibirsk 
era de 130.998 indivíduos, mas foram contados apenas 116.612. Onde foram parar os outros? Morreram a caminho? 
Foram expedidos para outros lugares? A região do Alçai, “planejada” para 11.000 deportados, viu afluírem 94.799! 
Ainda mais veementes que essa aritmética sinistra, todos os relatórios do NKVD sobre a instalação dos deportados 
enfatizavam, unanimemente, “que as regiões de recepção estavam despreparadas”. 

Por causa do segredo, as autoridades locais só foram prevenidas da chegada de dezenas de milhares de 
deportados na última hora. Como nenhum alojamento havia sido previsto, eles foram encaixados em qualquer lugar, em 
acampamentos, estábulos, ou ao ar livre, embora o inverno chegasse. Como a mobilização enviara ao fronte uma 
grande parte da mão-de-obra masculina, e as autoridades, em dez anos, haviam adquirido uma certa experiência no 
assunto, a “destinação econômica” dos novos deportados se fez todavia mais rapidamente que a dos kulaks deportados 
em 1930 e abandonados em plena taiga. No fim de alguns meses, a maioria dos deportados foi destinada a viver como 
os outros colonos especiais, isto é, em condições de alojamento, de trabalho e de abastecimento particularmente duras e 
precárias, para um kolkhoz, um sovkhoz ou para um empreendimento industrial, no interior de uma komandatura do 
NKVD. 

A deportação dos alemães foi seguida por uma segunda onda de deportação, de novembro de 1943 a junho de 
1944, durante a qual seis povos - chechenos, inguches, tártaros da Criméia, karachais, balkars e kalmuks - foram 
deportados para a Sibéria, o Cazaquistão, o Uzbequistão e o Quirguizistão, sob pretexto de “colaboração em peso com 
o ocupante nazista”. Essa principal onda de deportação, que atingiu cerca de 900.000 pessoas, foi seguida, de julho a 
dezembro de 1944, por outras operações destinadas a “limpar” a Criméia e o Cáucaso de várias outras nacionalidades 
Julgadas “duvidosas”: gregos, búlgaros, arménios da Criméia, turcos meskhetianos, curdos e khem-chines do Cáucaso. 

Arquivos e documentos recentemente acessíveis não trazem nenhum dado novo e preciso sobre a pretensa 
“colaboração” com os nazistas dos povos montanheses do Cáucaso, dos kalmuks e dos tártaros da Criméia. Assim, 
nessa questão, estamos limitados a considerar somente um certo número de fatos que apenas induzem a existência - na 
Criméia, na região kalmk, na região karachai e na República autónoma kabardino-balkar - de núcleos restritos de 
colaboradores, mas não de uma colaboração geral erigida como uma verdadeira política. Os episódios colaboracionistas 
mais controversos situam-se após a perda de Rostov-sobre-o-Don pelo Exército Vermelho, em julho de 1942, e a 
ocupação alemã do Cáucaso, do verão de 1942 à primavera de 1943- Na ausência de poder entre a partida dos 
soviéticos e a chegada dos nazistas, um certo número de personalidades locais levantaram “Comitês nacionais” em 
Mikoian-Chakhar, na região autónoma dos karachais-cherkesses, em Naltchik, na República autónoma kabardino- 
balkar, e em Elista, na República autónoma dos kalmuks. O exército alemão reconheceu a autoridade desses Comitês 
locais que durante alguns meses dispuseram de autonomia religiosa, política e econômica. Como a experiência 
caucasiana havia reforçado o “mito muçulmano” em Berlim, os tártaros da Criméia foram autorizados a criar seu 
“Comitê central muçulmano” instalado em Simferopol. 

Entretanto, por temor de ver renascer o movimento pan-uraniano, destruído pelo poder soviético no início dos 
anos 20, as autoridades nazistas jamais concederam aos tártaros da Criméia a autonomia da qual se beneficiaram 
kalmuks, karachais e balkars durante alguns meses. Em contrapartida da autonomia, que lhes fora concedida, avaliada 
mediocremente, as autoridades locais destacaram algumas tropas para combater os maquis de partidários locais que 
permaneceram fiéis ao regime soviético. Ao todo, alguns milhares de homens que compunham unidades com efetivos 
reduzidos: seis batalhões tártaros na Criméia e um corpo de cavalaria kalmuk. 

Quanto à República autónoma da Chechênia-Inguche, ela foi apenas parcialmente ocupada pelos 
destacamentos nazistas, durante somente uma dezena de semanas, entre o início de setembro e meados de novembro de 
1942. Não houve a mínima promessa de colaboração. Mas é verdade que os chechenos, que resistiram várias décadas 
durante a colonização russa antes de capitular em 1859, permaneceram um povo insubmisso. O poder soviético já havia 
lançado várias expedições punitivas: em 1925, para confiscar uma parte das armas detidas pela população; depois, em 
1930-1932, para tentar quebrar a resistência dos chechenos e dos inguches à coletivização. Em sua luta contra os 
“bandidos”, as tropas especiais do NKVD apelaram à artilharia e à aviação, em março-abril de 1930 e, em seguida, em 


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abril-maio de 1932. Uma forte resistência opunha então o poder central a esse povo independente que sempre recusara 
a tutela de Moscou. 

As cinco grandes operações de “prisão em massa e deportação”, que ocorreram durante o período 
compreendido entre novembro de 1943 e maio de 1944, se desenrolaram de forma bem-articulada e, diferentemente das 
primeiras deportações dos kulaks, “com uma notável eficácia operacional”, segundo os próprios termos de Beria. A 
fase de “preparação logística” foi cuidadosamente organizada durante várias semanas, sob a supervisão pessoal de 
Beria e de seus auxiliares Ivan Serov e Bogdan Kobulov, presentes nos locais de deportação, em seu trem especial 
blindado. Tratava-se de montar um número impressionante de comboios: 46 comboios de 60 vagões para a deportação 
de 93.139 kalmuks em quatro dias, de 27 a 30 de dezembro de 1943, e 194 comboios de 65 vagões para a deportação, 
em seis dias, de 23 a 28 de fevereiro de 1944, de 521.247 chechenos e inguches. Para essas operações excepcionais, o 
NKVD não economizava meios; para a prisão em massa dos chechenos e dos inguches, não menos que 119.000 
homens das tropas especiais do NKVD foram mobilizados, em um momento em que a guerra atingia seu auge! 

As operações, programadas hora a hora, começavam pela prisão dos “elementos potencialmente perigosos”, 
entre 1% e 2% de uma população composta majoritariamente de mulheres, crianças e idosos, já que uma grande parte 
dos homens em plena maturidade havia sido convocada para a guerra. A crer nos “relatórios operacionais” enviados a 
Moscou, as operações se desenvolviam muito rapidamente. Assim, na tarde do primeiro dia da operação de limpeza dos 
tártaros da Criméia, de 18 a 20 de maio de 1944, Kobulov e Serov, responsáveis pela operação, telegrafaram a Beria: 
“Hoje, às 20 horas, efe-tuamos a transferência de 90.000 indivíduos em direção às estacões ferroviárias. Dezessete 
comboios já levaram 48.400 indivíduos para os lugares de destino. Vinte e cinco comboios estão sendo carregados. O 
desenrolar da operação não deu lugar a nenhum acidente. A operação continua”. No dia seguinte, 19 de maio, Beria 
informou a Stalin que, no fim desse segundo dia, 165.515 indivíduos haviam sido reunidos nas estações ferroviárias, 
dos quais 136.412 carregados em comboios que partiram em direção “ao destino fixado nas instruções”. No terceiro 
dia, 20 de maio, Serov e Kobulov telegrafaram a Beria para lhe anunciar que a operação tivera fim às 16h30min. Ao 
todo, 63 comboios levando 173.287 pessoas já estavam em movimento. Os quatro últimos comboios transportando os 
6.727 restantes deveriam partir na mesma tarde. 

Ao ler os relatórios da burocracia do NKVD, todas essas operações de deportação de centenas de milhares de 
pessoas parecem ter sido apenas uma mera formalidade; cada operação tendo obtido mais “sucesso” e tendo sido mais 
“eficaz” e “econômica” que a precedente. Após a deportação dos chechenos, dos inguches e dos balkars, um certo 
Milstein, funcionário do NKVD, redigiu um longo relatório sobre... “as economias de vagões, de tábuas, de baldes e de 
pás [...] realizadas na época das últimas deportações em relação às operações precedentes”. 

“A experiência do transporte dos karachais e dos kalmuks, escrevia ele, nos deu a possibilidade de tomar 
certas disposições que permitiram reduzir as exigências de comboios e diminuir o número de trajetos a serem 
efetuados. Instalamos em cada vagão para transporte de animais 45 pessoas ao invés de 40, como fazíamos 
anteriormente, e como nós os instalamos com suas bagagens pessoais, economizamos um número importante de 
vagões, ao todo, 37.548 metros corridos de tábuas, 11.834 baldes e 3.400 fogareiros.” 

Qual era a pavorosa realidade da viagem por trás da visão burocrática de uma operação de perfeito sucesso, do 
ponto de vista do NKVD? Eis alguns testemunhos de tártaros sobreviventes, recolhidos no fim dos anos 70: “A viagem 
até a estação ferroviária de Zerabulak, na região de Samarkand, durou 24 dias. De lá, nos levaram para o kolkhoz 
Pravda. Forçaram-nos a consertar as caleças. [...] Nós trabalhávamos e tínhamos fome. Muitos entre nós vacilávamos 
sobre as pernas. Do nosso povoado haviam sido deportadas trinta famílias. Restaram um ou dois sobreviventes em 
cinco famílias. Todos os outros morreram de fome ou de doença”. Um outro sobrevivente contou: “Nos vagões 
hermeticamente fechados, as pessoas morriam como moscas, por causa da fome e da falta de ar: não nos davam nem de 
comer nem de beber. Nas cidadezinhas que nós atravessávamos, a população havia sido insuflada contra nós; haviam 
lhes dito que transportavam traidores da pátria, e choviam pedras com um barulho retumbante contra as portas dos 
vagões. Quando nós abrimos as portas dos vagões no meio das estepes do Cazaquistão, nos deram de comer rações 
militares sem nos dar de beber, nos ordenaram que jogássemos os mortos na beira da via férrea, sem enterrá-los, e 
depois repartimos.” 

Assim que chegavam “ao destino”, no Cazaquistão, no Quirguizistão, no Uzbequistão ou na Sibéria, os 
deportados eram destinados para kolkhozes ou para empresas. Problemas de alojamento, de trabalho, de sobrevivência 
eram seu quinhão quotidiano, como testemunham todos os relatórios enviados ao Centro pelas autoridades locais do 
NKVD e conservados no rico fundo dos “povoamentos especiais” do Gulag. Assim, em setembro de 1944, um relatório 
proveniente do Quirguizistão menciona que somente 5.000 famílias, das 31.000 deportadas havia pouco tempo, tinham 
recebido uma moradia. Sem mencionar o fato de que a noção de moradia era muito relativa! Com efeito, ao ler com 
atenção o texto, sabemos que no distrito de Kameninski, as autoridades locais instalaram 900 famílias em... 18 
apartamentos de um sov-khoz, isto é, 50 famílias por apartamento! Esse número inimaginável significa que as famílias 


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deportadas do Cáucaso, que contavam frequentemente um grande número de crianças, dormiam uma de cada vez tanto 
nesses “apartamentos” quanto ao ar livre, às vésperas do inverno. 

Em novembro de 1944, isto é, cerca de um ano após a deportação dos kalmuks, o próprio Beria reconhecia, em 
uma carta a Mikoian, que eles “encontravam-se em condições de existência e em uma situação sanitária 
excepcionalmente difíceis; a maioria deles não possuía nem lençóis, nem roupas, nem sapatos”. Dois anos mais tarde, 
dois responsáveis pelo NKVD relatavam que “ % dos kalmuks aptos para o trabalho não trabalhavam, por falta de 
sapatos. A ausência total de adaptação ao clima severo e às condições estranhas, assim como o desconhecimento da 
língua se fazem sentir e trazem dificuldades suplementares”. Desenraizados, famintos, distribuídos em kolkhozes que 
não conseguiam sequer garantir a sobrevivência de seu pessoal habitual, ou designados para postos de trabalhos em 
empresas para os quais não estavam formados, os deportados eram, em geral, trabalhadores medíocres. “A situação dos 
kalmuks deportados para a Sibéria é trágica, escrevia a Stalin D. P. Piurveiev, antigo presidente da República autónoma 
kalmuk. Eles perderam seu gado. Eles chegaram à Sibéria desprovidos de tudo. [...] Eles estão pouco adaptados às 
novas condições de sua existência de produtores. [...] Os kalmuks repartidos nos kolkhozes não recebem nenhum 
abastecimento, pois os próprios habitantes dos kolkhozes não têm nada. Quanto aos que foram designados para 
empresas, eles não conseguiram assimilar sua nova existência de trabalhadores, daí sua insolvência que não lhes 
permite obter um abastecimento normal.” Dizendo claramente, os kalmuks, criadores nómades, desorientados diante 
das máquinas, viam a totalidade de seus salários partir em multas! 

Alguns números dão uma idéia da hecatombe entre os deportados. Em janeiro de 1946, a administração dos 
povoamentos especiais recenseou 70.360 kalmuks sobre os 92.000 deportados dois anos antes. Em 1º de julho de 1944, 
35.750 famílias tártaras, representando 151.424 pessoas, haviam chegado ao Uzbequistão; seis meses antes, havia 818 
famílias a mais e 16.000 pessoas a menos! Das 608.749 pessoas deportadas do Cáucaso, 146.892 estavam mortas em 1º 
de outubro de 1948, isto é, cerca de uma pessoa em cada quatro, e somente 28.120 haviam nascido nesse período. Das 
228.392 pessoas deportadas da Criméia, 44.887 estavam mortas ao fim de quatro anos, e apenas 6.564 nascimentos 
foram recenseados. A mortalidade excessiva aparece com mais evidência quando se sabe que as crianças de menos de 
16 anos representavam entre 40% e 50% dos deportados. A “morte natural” representava apenas uma parte ínfima dos 
óbitos. Quanto aos jovens que sobreviviam, que futuro eles podiam esperar? Das 89.000 crianças em idade escolar 
deportadas para o Cazaquistão, menos de 12.000 estavam escolarizadas em 1948, isto é, quatro anos após sua 
deportação. Aliás, as instruções oficiais estipulavam que o ensino dos filhos de “transferidos oficiais” deveria ser feito 
somente em russo. 

Durante a guerra, as deportações coletivas atingiram ainda outros povos. Alguns dias após o fim da operação 
de deportação dos tártaros da Criméia, Beria escreveu a Stalin, em 29 de maio de 1944: “O NKVD julga razoável [sic] 
expulsar da Criméia todos os búlgaros, os gregos e os arménios”. Os primeiros eram recriminados por terem “ajudado 
ativamente na fabricação de pão e de produtos alimentícios destinados ao exército alemão durante a ocupação” e por 
“terem colaborado com as autoridades alemãs na busca de soldados do Exército Vermelho e de partidários”. Os 
segundos haviam “criado pequenas empresas industriais, após a chegada dos ocupantes; as autoridades alemãs 
ajudaram os gregos a fazer comércio, transportar mercadorias, etc.”. Quanto aos arménios, eles eram acusados de 
criarem uma organização de colaboradores em Simferopol, chamada Dromedar, presidida pelo general arménio Dro, 
que “se ocupava, além das questões religiosas e políticas, de desenvolver o pequeno comércio e a indústria”. Essa 
organização, segundo Beria, havia “coletado fundos para as necessidades militares dos alemães e para ajudar na 
constituição de uma legião arménia”. 

Quatro dias mais tarde, em 2 de junho de 1944, Stalin assinou um decreto do Comitê de Estado para a Defesa, 
que ordenava “completar a expulsão dos tártaros da Criméia com a expulsão de 37.000 búlgaros, gregos e arménios, 
cúmplices dos alemães”. Como para os outros contingentes de deportados, o decreto fixava arbitrariamente cotas para 
cada “região de recepção”: 7.000 para a província de Guriev no Cazaquistão, 10.000 para a província de Sverdlov, 
10.000 para a província de Molotov no Ural, 6.000 para a província de Kemerovo, 4.000 para o país balkar. Segundo os 
termos consagrados, “a operação foi conduzida com sucesso”, dias 27 e 28 de junho de 1944. Durante esses dois dias, 
41.844 pessoas foram deportadas, “isto é, 111% do plano”, destacava o relatório. 

Após ter “expurgado” a Criméia de seus alemães, de seus tártaros, de seus búlgaros, de seus gregos e de seus 
arménios, o NKVD decidiu “limpar” as fronteiras do Cáucaso. Remetendo à mesma sacralização obsessiva das 
fronteiras, essas operações em grande escala eram apenas o prolongamento natural, sob uma forma mais sistemática, 
das operações “antiespiões” dos anos 1937-1938. Em 21 de julho de 1944, um novo decreto do Comitê de Estado para 
a Defesa, assinado por Stalin, ordenou a deportação de 86.000 turcos meskhetianos, curdos e khemchines das regiões 
fronteiriças da Geórgia. Dada a configuração montanhosa dos territórios onde esses povos do império otomano estavam 
instalados há séculos e tendo em conta o modo de vida nómade de uma parte dessas populações - que tinham o hábito 
de passar livremente de um lado a outro da fronteira turco-soviética -, os preparativos para essa operação de prisão em 
massa e deportação foram particularmente longos. A operação durou cerca de dez dias, de 15 a 25 de novembro de 


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1944, e foi conduzida por 14.000 homens das tropas especiais do NKVD. Ela mobilizou 900 caminhões Studebaker, 
fornecidos pelos americanos em regime pré-contra-tual, ao fim do qual os Estados Unidos forneciam material de guerra 
à maioria dos Aliados! 

Em 28 de novembro, em um relatório enviado a Stalin, Beria se orgulhava de ter transferido 91.095 pessoas 
em dez dias, “em condições particularmente difíceis”. Todos esses indivíduos, entre os quais as crianças de menos de 
16 anos, representavam 49% dos deportados, eram espiões turcos em potencial, explicou Beria: “Uma parte importante 
da população dessa região está ligada por laços familiares aos habitantes dos distritos fronteiriços da Turquia. Essa 
gente fazia contrabando, manifestava uma tendência para querer imigrar e fornecia recrutas aos serviços de informação 
turcos, assim como aos grupos de bandidos que operam ao longo da fronteira”. No período dessa operação, o numero 
total de pessoas deportadas para o Cazaquistão e o Quirguizistão teria sido elevado a 94.955, segundo as estatísticas do 
Departamento dos Povoamentos Especiais do Gulag. Entre novembro de 1944 e julho de 1948, 19.540 meskhetianos, 
curdos e khemchines, isto é, cerca de 21% dos deportados, morreram na deportação. Essa taxa de mortalidade de 20% a 
25% dos contingentes em quatro anos era mais ou menos a mesma entre todas as nacionalidades “punidas” pelo 
regime. 

Com a chegada em massa de centenas de milhares de pessoas deportadas com base em um critério étnico, o 
contingente de colonos especiais experimentou, durante a guerra, uma renovação e um crescimento consideráveis, 
passando de aproximadamente 1.200.000 a mais de 2.500.000. Quanto aos deskulakizados que, antes da guerra, 
constituíam a maior parte dos colonos especiais, seu número caiu de aproximadamente 936.000 no início da guerra a 
622.000 em maio de 1945. Com efeito, dezenas de milhares de deskulakizados adultos do sexo masculino, com 
exceção dos chefes de família deportados, foram convocados para a guerra. As esposas e os filhos dos convocados 
recuperavam seu status de cidadãos livres e eram riscados das listas de colonos especiais. Mas, nas condições da 
guerra, eles não podiam em nenhuma hipótese deixar seu lugar de residência designado, uma vez que todos os seus 
bens, incluindo suas casas, haviam sido confiscados. 

Indubitavelmente, as condições de sobrevivência dos prisioneiros do Gulag nunca foram tão terríveis quanto 
nos anos 1941-1944. Fome, epidemias, amontoamento, exploração inumana foram o quinhão de cada zek (detido) que 
sobreviveu à fome, à doença, às normas de trabalho cada vez mais elevadas, às denúncias do exército de informadores 
encarregados de desmascarar as “organizações contra-revolucionárias de prisioneiros”, aos julgamentos e às execuções 
sumárias. 

O avanço alemão dos primeiros meses da guerra obrigou o NKVD a evacuar uma grande parte de suas prisões, 
de suas colônias de trabalho e de seus campos de concentração que corriam o risco de cair nas mãos do inimigo. De 
julho a dezembro de 1941, 210 colônias, 135 prisões e 27 campos, isto é, ao todo, 750.000 prisioneiros, foram 
transferidos para o leste. Fazendo um balanço da “atividade do Gulag durante a Grande Guerra Patriótica”, o chefe do 
Gulag, Nassedkine, afirmava que “a evacuação dos campos de concentração se fez globalmente de maneira 
organizada”. Contudo, ele acrescentava: “Por causa da falta de meios de transporte, a maioria dos prisioneiros foram 
evacuados a pé, ao longo de distâncias que frequentemente ultrapassavam mil quilómetros.” Pode-se imaginar em que 
estados os prisioneiros chegavam a seu destino! Quando faltava tempo para evacuar o campo, como ocorreu com 
frequência nas primeiras semanas da guerra, os prisioneiros eram fuzilados sumariamente. Esse foi o caso 
principalmente na Ucrânia Ocidental, onde, no fim do mês de junho de 1941, o NKVD massacrou 10.000 prisioneiros 
em Lviv, 1.200 na prisão de Lutsk, 1.500 em Stanyslaviv, 500 em Dubno, etc. Em sua chegada, os alemães 
descobriram dezenas de ossários nas regiões de Lviv, de Jitomir e de Vinnitsa. Usando como pretexto as “atrocidades 
judaico-bolchevistas”, os Sonderkommandos nazistas apressaram-se em massacrar imediatamente dezenas de milhares 
de judeus. 

Todos os relatórios da administração do Gulag para os anos de 1941-1944 reconheciam a espantosa 
degradação das condições de existência nos campos durante a guerra. Nos campos superpovoados, a “superfície 
habitável” alceada para cada detento caiu de 1,5 para 0,7m2 por pessoa, o que significava, claramente, que os 
prisioneiros revezavam-se para dormir sobre tábuas e que os estrados eram daí em diante um “luxo” reservado aos 
“trabalhadores braçais”. A “norma calórica de alimentação” caiu em 65% em 1942 em relação à de antes da guerra. Os 
prisioneiros foram levados à fome, e, em 1942, o tifo e a cólera fizeram sua reaparição nos campos; de acordo com os 
números oficiais, cerca de 19.000 prisioneiros morreram em consequência dessas doenças nesse ano. Em 1941, com 
mais de 101.000 óbitos registrados apenas nos campos de trabalho, sem contar as colônias, a taxa de mortalidade anual 
aproximava-se de 8%. Em 1942, a administração dos campos do Gulag registrou 249.000 óbitos, isto é, uma taxa de 
mortalidade de 18%; em 1943, 167.000 óbitos, ou seja, 17%. Levando em conta as execuções de prisioneiros, os óbitos 
nas prisões e nas colônias de trabalho, podemos estimar em aproximadamente 600.000 o número de mortos do Gulag 
apenas durante os anos 1941-1943. Quanto aos sobreviventes, eles estavam em estado lastimável. De acordo com os 
dados da administração, no fim de 1942, apenas 19% dos prisio neiros estavam aptos para um trabalho físico “pesado”, 
17% para um trabalho físico “médio”, e 64% estavam ou aptos para um “trabalho físico leve”, ou inválidos. 


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Relatório do chefe-adjunto do Departamento Operacional do Gulag sobre o estado do campo do Siblag, 2 de 
novembro de 1941. 

De acordo com informações recebidas pelo Departamento Operacional do NKVD da região de Novossibirsk, 
um forte aumento da mortalidade dos prisioneiros foi percebido nos departamentos de Akhlursk, de Kuznetsk e de 
Novossibirsk do Siblag... 

A causa dessa alta mortalidade, acompanhada de um aumento significativo de doenças entre os prisioneiros, é 
incontestavelmente um emagrecimento generalizado devido a uma carência alimentar sistemática nas condições de 
trabalhos físicos lamentáveis, acompanhado de pelagra e de um enfraquecimento da atividade cardíaca. 

O atraso nos cuidados médicos dispensados aos doentes e a dificuldade das tarefas executadas pelos 
prisioneiros, com jornada de trabalho prolongada e ausência de alimentação complementar, constituem um outro 
conjunto de causas que explicam as enormes taxas de morbidez e mortalidade... 

Constatamos numerosos casos de mortalidade, de magreza pronunciada e de epidemias entre os prisioneiros 
escoltados dos diferentes centros de triagem para os campos. Assim, entre os prisioneiros transportados do centro de 
triagem de Novossibirsk para o departamento Marinskoie, em 8 de outubro de 1941, mais de 30% de 539 pessoas 
apresentavam uma extrema magreza de origem avitamínica e estavam cobertas de pulgas. Além dos deportados, seis 
cadáveres foram conduzidos ao destino. Na noite de 8 a 9 de outubro, outras cinco pessoas desse comboio morreram. 
Dia 20 de setembro, no comboio vindo do mesmo centro de triagem, no departamento de Marinskoie, 100% dos 
prisioneiros estavam cobertos de pulgas, e um grande número deles não usava roupa de baixo-Nos últimos tempos, 
descobrimos, nos campos do Siblag, inúmeras sabotagens da parte do corpo médico composto por prisioneiros. Assim, 
o auxiliar de enfermagem do campo Ahjer (departamento de Taiginsk), condenado com base no artigo 58-10, organizou 
um grupo de quatro prisioneiros encarregado de sabotar a produção. Os membros desse grupo enviaram prisioneiros 
doentes para as tarefas mais árduas, não lhes medicando a tempo, esperando assim impedir o campo de cumprir as 
normas de produção. 

Chefe-adjunto do Departamento Operacional do Gulag, 

capitão das forças de segurança, Kogenman. 


Essa “situação sanitária fortemente degradada do contingente”, para retomar um eufemismo da administração 
do Gulag, parece não ter impedido as autoridades de espremer, até o esgotamento total, os prisioneiros. “De 1941 a 
1944, o chefe do Gulag escrevia em seu relatório, o valor médio de um dia de trabalho aumentou de 9,5 para 21 
rublos.” Várias centenas de milhares de prisioneiros foram destinados às fábricas de armamentos, em substituição à 
mão-de-obra mobilizada pelo exército. O papel do Gulag na economia de guerra revelou-se muito importante. Segundo 
as estimativas da administração penitenciária, a mão-de-obra detida garantiu cerca de um quarto da produção em um 
certo número de setores-chave das indústrias de armamento, metalúrgica e de extração mineral. 

Apesar do “bom comportamento patriótico” (sic) dos prisioneiros, dos quais estavam engajados na 
competição socialista”, a repressão, principalmente em relação aos “políticos”, não foi relaxada. Em virtude de um 
decreto estabelecido pelo Comitê Central em 22 de junho de 1941, nenhum “ “- condenado segundo o artigo 58 do 
Código Penal, que sancionava os “crimes contra-revolucionários” -, mesmo tendo chegado ao fim de sua pena, podia 
ser liberado até o fim da guerra. A administração do Gulag isolou em campos especiais “de regime forçado”, situados 
nas regiões mais duras (a Kolima e o Ártico), uma parte dos políticos condenados por “pertencerem a uma organização 
trotskista ou de direita”, a um “partido contra-revolucioná-rio”, por “espionagem”, “terrorismo” ou “traição”. Nesses 
campos, a taxa de mortalidade anual atingia 30%. Um decreto de 22 de abril de 1943 instaurou “prisões de regime 
forcado”, verdadeiros campos de morte, onde os prisioneiros eram explorados em condições que não lhes deixavam 
nenhuma chance de sobreviver: um trabalho estafante, de 12 horas por dia, em minas de ouro, de carvão, de chumbo e 
de rádio, principalmente nas regiões de Kolyma e de Vorkuta. 

Em três anos, de julho de 1941 a julho de 1944, os tribunais especiais dos campos condenaram a novas penas 
mais de 148.000 prisioneiros, dos quais 10.858 foram executados. Entre estes últimos, 208 por “espionagem”, 4.307 
por “atos de diversionismo terrorista”, 6.016 por “organizarem uma sublevação ou motim no campo de concentração”. 
Segundo o NKVD, 603 “organizações de prisioneiros” foram desmanteladas durante a guerra nos campos do Gulag. Se 
esse número deveria confirmar em primeira instância a “vigilância” de um enquadramento que era amplamente 
renovado - com a destinação de uma boa parte das tropas especiais que guardavam os campos para outras tarefas, 
principalmente para as deportações -, também é um fato que foi durante os anos de guerra que ocorreram as primeiras 
invasões coleti-vas e as primeiras revoltas importantes nos campos. 

Em realidade, a população do Gulag mudou consideravelmente durante guerra. Após o decreto de 12 de julho 
de 1941, segundo confessaram as próprias autoridades, mais de 557.000 prisioneiros condenados “por delitos 
insignificantes, como ausências injustificadas ao trabalho ou pequenos furtos”, foram liberados e imediatamente 


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despejados nas fileiras do Exército Vermelho. Durante a guerra, contando os prisioneiros cuja pena chegava a seu fim, 
1.068.800 passaram diretamente do Gulag para o fronte. Os prisioneiros mais fracos e menos adaptados às condições 
implacáveis dos campos de concentração fizeram parte das quase 600.000 pessoas que morreram no Gulag somente 
durante os anos de 1941-1943. Enquanto que os campos e as colônias se esvaziavam de uma multidão de condenados a 
penas leves, permaneceram e sobreviveram os indivíduos mais sólidos, assim como os mais duros, entre os prisioneiros 
políticos e os de direito comum. A proporção de condenados a penas longas (mais de oito anos), com base no artigo 58 
do Código Penal, teve um forte crescimento, passando de 27% a 43% do total de prisioneiros. Nascida no início da 
guerra, essa evolução da população penal iria se acentuar ainda mais a partir de 1944-1945, dois anos durante os quais, 
após um curto período de diminuição, o Gulag experimentaria um formidável aumento de seus efetivos: um salto de 
mais de 45% entre janeiro de 1944 e janeiro de 1946. 

Do ano de 1945 na União Soviética, o mundo guardou geralmente o lado dourado da moeda, todo em glória de 
um país certamente devastado, mas triunfante. “Em 1945, grande Estado vitorioso, escrevia François Furet, a URSS 
soma a força material ao messianismo do homem novo.” Não se via - não se queria ver - o outro lado do cenário, 
decerto cuidadosamente escondido. Ora, como mostram os arquivos do Gulag, o ano da vitória também foi o ano de um 
novo apogeu do sistema concentracionário soviético. A paz recuperada no fronte exterior não trouxe, no interior, um 
relaxamento, uma pausa no controle do Estado sobre uma sociedade martirizada por quatro anos de guerra. Ao 
contrário, 1945 já foi um ano de retomada tanto das regiões reincorporadas à União Soviética, à medida que o Exército 
Vermelho avançava em direção ao oeste, quanto de milhões de soviéticos que estiveram por um tempo “fora do 
sistema”. 

Os territórios anexados em 1939-1940 - países bálticos, Bielo-Rússia ocidental, Moldávia, Ucrânia Ocidental - 
, que durante a maior parte do tempo da guerra ficaram fora do sistema soviético, foram submetidos a uma segunda 
“sovietização”, após a de 1939-1941. Neles se desenvolveram movimentos nacionais de oposição à sovietização, o que 
suscitou um encadeamento de resistência armada, de perseguição e de repressão. A resistência à anexação foi 
particularmente forte na Ucrânia Ocidental e nos países bálticos. 

A primeira ocupação da Ucrânia Ocidental, de setembro de 1939 a junho de 1941, suscitara a formação de 
uma organização armada clandestina bastante poderosa, a OUN - Organização dos Nacionalistas Ucranianos. Alguns 
dos membros da OUN se engajaram como suplentes nas unidades SS para combater os judeus e os comunistas. Em 
julho de 1944, com a chegada do Exército Vermelho, a OUN constituiu um Conselho Supremo de Libertação da 
Ucrânia. Roman Chukhovitch, chefe da OUN, tornou-se comandante do Exército Ucraniano Insurgente (UPA), que, 
segundo fontes ucrania-nas, contaria com mais de 20.000 combatentes no outono de 1944. Em 31 de março de 1944, 
Beria assinou um decreto ordenando a prisão e a deportação para a região de Krasnoiarsk de todos os membros das 
famílias dos resistentes da OUN e do UPA. De fevereiro a outubro de 1944, 100.300 civis - mulheres, crianças e idosos 
- foram deportados por essa razão. Quanto aos 37.000 combatentes feitos prisioneiros durante esse período, eles foram 
enviados ao Gulag. Após a morte, em novembro de 1944, de Monsenhor Chtcheptitski, metropolita da Igreja Uniata da 
Ucrânia, as autoridades soviéticas obrigaram essa Igreja a fundir-se com a Igreja Ortodoxa. 

Para cortar pela raiz toda resistência à sovietização, os agentes do NKVD iam às escolas, onde, após consultar 
as listas e as notas dos alunos escolarizados durante os anos anteriores à guerra, quando a Ucrânia Ocidental fazia parte 
da Polônia “burguesa”, organizavam listas de indivíduos a serem presos preventivamente, começando pelos alunos 
mais talentosos que eles julgavam “potencialmente hostis ao poder soviético”. Segundo um relatório de Kobulov, um 
dos adjuntos de Beria, mais de 100.000 “desertores” e “colaboradores” foram presos, entre setembro de 1944 e março 
de 1945, na Bielo-Rússia Ocidental, outra região considerada, a exemplo da Ucrânia Ocidental, como “recheada de 
elementos hostis ao regime soviético”. Estatísticas muito parciais atestam, para o período de 1º de janeiro a 15 de 
março de 1945, 2.257 “operações de limpeza”, apenas na Lituânia. 

Essas operações resultaram na morte de mais de 6.000 “bandidos”, e na prisão de mais de 775.000 “bandidos, 
membros de grupos nacionalistas e desertores”. Em 1945, mais de 38.000 “membros das famílias de elementos 
estranhos à sociedade, de bandidos e de nacionalistas” foram deportados da Lituânia. De maneira significativa, durante 
os anos 1944-1946, a proporção de ucranianos e de bálticos entre os prisioneiros do Gulag experimentou um 
crescimento espetacular: respectivamente, + 140% e + 420%. No fim de 1946, os ucranianos representavam 23% dos 
prisioneiros dos campos, e os bálticos cerca de 6%, uma porcentagem muito superior à participação respectiva dessas 
nacionalidades na população soviética. 

O crescimento do Gulag em 1945 se fez igualmente por conta de centenas de milhares de indivíduos que 
foram para ali transferidos, oriundos dos “campos de controle e de filtragem”. Esses campos foram instituídos desde o 
fim de 1941, paralelamente aos campos de trabalho do Gulag. Eles estavam destinados a acolher os prisioneiros de 
guerra soviéticos liberados ou fugitivos das mãos do inimigo e imediatamente suspeitos de serem espiões ou, pelo 
menos, indivíduos “contaminados” por sua estada fora do “sistema”. Esses campos recebiam igualmente os homens em 
idade de serem mobilizados, oriundos dos territórios que haviam sido ocupados pelo inimigo, também eles 


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contaminados, e os starostes e outras pessoas que haviam desempenhado uma função de autoridade durante a ocupação, 
por menor que ela tivesse sido. Segundo dados oficiais, de janeiro de 1942 a outubro de 1944, mais de 421.000 pessoas 
passaram pelos campos de controle e de filtragem. 

Com o avanço do Exército Vermelho em direção ao oeste, a retomada dos territórios ocupados há dois ou três 
anos pelos alemães e a liberação de milhões de prisioneiros de guerra soviéticos e de deportados do trabalho, a questão 
das modalidades de repatriamento dos militares e civis soviéticos assumiu uma amplitude sem precedentes. Em outubro 
de 1944, o governo soviético criou uma Direção de Repatriamento, sob a responsabilidade do general Golikov. Em uma 
entrevista publicada pela imprensa em 11 de novembro de 1944, esse general afirmava principalmente: “O poder 
soviético está preocupado com a sorte de seus filhos, caídos sob a escravidão nazista. Eles serão dignamente recebidos 
em casa como filhos da pátria. O governo soviético considera que mesmo os cidadãos soviéticos, que, sob a ameaça do 
terror nazista, cometeram crimes contrários aos interesses da URSS não terão que responder por seus atos se eles estão 
prontos a cumprir honestamente seu dever de cidadão, em sua volta à pátria.” Esse género de declaração, amplamente 
difundido, não deixou de enganar os aliados. Como explicar de outro modo o zelo com o qual estes últimos aplicaram 
uma das cláusulas dos acordos de Yalta sobre o repatriamento de todos os cidadãos soviéticos “presentes fora das 
fronteiras de sua pátria”? Enquanto os acordos previam que só seriam enviados de volta à força aqueles que haviam 
usado o uniforme alemão ou colaborado com o inimigo, todos os cidadãos soviéticos “fora das fronteiras” foram 
entregues aos agentes do NK VD encarregados de enquadrar seu retorno. 

Três dias após a cessação das hostilidades, em 11 de maio de 1945, o governo soviético ordenou a criação de 
100 novos campos de controle e de filtragem, cada um com capacidade para 10.000 lugares. Os prisioneiros de guerra 
soviéticos repatriados deviam ser todos “controlados” pela organização de contra-espionagem, a SMERCH, enquanto 
que os civis eram filtrados pelos serviços adhocão NKVD Em nove meses, de maio de 1945 a fevereiro de 1946, mais 
de 4.200.000 soviéticos foram repatriados: 1.545.000 prisioneiros de guerra sobreviventes dos cinco milhões 
capturados pelos nazistas e 2.655.000 civis deportados do trabalho ou pessoas que haviam fugido para o oeste no 
momento dos combates. Após uma passagem obrigatória por um campo de filtragem e controle, 57,8% dos repatriados, 
em sua maioria mulheres e crianças, foram autorizados a voltar para casa: 19,1% foram enviados ao exército, com 
fregiiência para batalhões disciplinares; 14,5% foram destinados, em geral por um período de dois anos, aos “batalhões 
de reconstrução”; 8,6%, isto é, cerca de 360.000 pessoas, foram enviadas ao Gulag, a maioria por traição à pátria, o que 
valia de dez a 20 anos de campo, ou para uma komandatura do NKVD com o estatuto de colono especial. 

Destino particular foi reservado aos vlassovtsy, soldados soviéticos que haviam se juntado ao general soviético 
Andrei Vlassov, comandante do II Exército, feito prisioneiro pelos alemães em julho de 1942. Por convicções anti- 
stalinistas, o general Vlassov aceitara colaborar com os nazistas para liberar seu país da tirania bolchevique. Com a 
aprovação das autoridades alemãs, Vlassov formara um “Comitê Nacional Russo” e levantara duas divisões de um 
“Exército de Libertação Russo”. Após a derrota da Alemanha nazista, o general Vlassov e seus oficiais foram entregues 
aos soviéticos pelos aliados e executados. Quanto aos soldados do exército de Vlassov, eles foram, após o decreto de 
anistia de novembro de 1945, enviados em deportação por seis anos para a Sibéria, o Cazaquistão e o extremo Norte. 
No início de 1946, 148.079 vlassovtsy figuravam nas listas do Departamento de Transferidos e Colonos especiais do 
Ministério do Interior. Vários milhares de vlassovtsy, essencialmente suboficiais, foram enviados, sob a acusação de 
traição, para os campos de trabalho do Gulag. 

No total, jamais os “povoamentos especiais”, os campos de concentração e colônias do Gulag, os campos de 
controle e de filtragem e as prisões soviéticas haviam contado tantos pensionistas quanto nesse ano da vitória: cerca de 
5,5 milhões de pessoas, incluindo todas as categorias. Um recorde longamente eclipsado pelas festividades da vitória e 
pelo “efeito Stalingrado”. Com efeito, o fim da Segunda Guerra Mundial havia aberto um período que iria durar 
aproximadamente uma década, durante o qual o modelo soviético iria exercer, mais do que em qualquer outro 
momento, uma fascinação partilhada por dezenas de milhões de cidadãos de um grande número de países. O feto de a 
URSS ter pago o mais pesado tributo humano à vitória sobre o nazismo mascarava o caráter próprio da ditadura 
stalinista e exonerava o regime da suspeita que pairara sobre ele no tempo - tempo que então parecia tão distante - dos 
processos de Moscou ou do pacto germano-soviético. 


13. Apogeu e crise do Gulag 


Nenhum grande processo público, nenhum Grande Terror marcou os últimos anos do stalinismo. Mas, sob o 
clima conservador e pesado do pós-guerra, a criminalização dos comportamentos sociais atingiu seu auge. Castigada 
pela guerra, as esperanças da sociedade de ver o regime se liberalizar duraram muito tempo. “O povo havia sofrido 
muito, e o passado não podia se repetir”, escrevera em suas memórias Ilyá Ehrenburg, em 9 de maio de 1945; 
conhecendo bem e por dentro as engrenagens e a natureza do regime, ele logo acrescentou: “Contudo, a perplexidade e 
a angústia me invadem”. Esse pressentimento iria se revelar exato. 


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“A população está dividida entre o desespero diante de uma situação material difícil e a esperança de que 
'alguma coisa vai mudar", podemos ler em vários relatórios enviados a Moscou pelos instrutores do Comitê Central em 
visita de inspeção pelas províncias, em setembro-outubro de 1945-Segundo os relatórios, a situação no país continuava 
“caótica”. Um imenso movimento espontâneo de imigração de milhões de trabalhadores transferidos para o Leste, 
durante a evacuação de 1941-1942, perturbava a retomada da produção. Uma onda de greves, de amplitude nunca antes 
experimentada pelo regime, sacudia a indústria metalúrgica do Ural. Em toda a URSS, a miséria era indescritível. O 
país contava com 25 milhões de desabrigados, e a ração de pão dos trabalhadores pesados não ultrapassava uma libra 
por dia. No fim do mês de outubro de 1945, os responsáveis pelo Comitê Regional do partido de Novossibirsk 
chegaram a propor que os trabalhadores da cidade não desfilassem por ocasião do aniversário da Revolução de 
Outubro, “pois a população carece de roupas e sapatos”. Em meio a essa miséria e essa carência absolutas, os rumores 
corriam soltos, sobretudo aqueles que se relacionavam à liquidação “iminente” dos kolkhozes, que vinham mais uma 
vez demonstrar sua incapacidade de remunerar os camponeses, ainda que fosse com alguns puds de trigo por uma 
estacão de trabalho. 

Era no “fronte agrícola” que a situação permanecia sendo a mais dramática. Nos campos devastados pela 
guerra, atingidos por uma grave seca, carentes de máquinas e de mão-de-obra, a colheita do outono de 1946 foi 
catastrófica. Mais uma vez o governo teve de adiar para mais tarde o fim do racionamento proposto por Stalin em seu 
discurso de 9 de fevereiro de 1946. Recusando-se a ver as razões do fiasco agrícola, imputando os problemas a um 
“incentivo de ganho sobre os quinhões individuais”, o governo decidiu “liquidar as violações do estatuto dos 
kolkhozes” e expulsar “os elementos hostis e estrangeiros que sabotam a colheita, os ladrões e os dilapidadores das 
colheitas”. Em 19 de setembro de 1946, ele criou uma Comissão de Negócios dos Kolkhozes, presidida por Andreiev, 
encarregada de recuperar as terras “ilegalmente apropriadas” pelos kolkhozianos durante a guerra. Em dois anos, a 
administração recuperou cerca de dez milhões de hectares “mordidos” pelos camponeses que, para sobreviver, haviam 
tentado arredondar seu magro quinhão individual. 

Em 25 de outubro de 1946, um decreto do governo de título explícito - “Sobre a defesa dos cereais do Estado”- 
ordenou ao Ministério da Justiça que ele instruísse todos os casos de furto em um prazo de dez dias e que aplicasse 
severamente a lei de 7 de agosto de 1932, então fora de uso. Em novembro-dezembro de 1946, mais de 53.300 pessoas, 
em sua maioria kolkhozianos, foram julgados e, na maior pane dos casos, condenados a pesadas penas de campo de 
concentração por roubo de espiga ou de pão. Milhares de presidentes de kolkhozes foram presos por “sabotagem da 
campanha de coleta”. Durante esses dois meses, a realização do “plano de colheita” passou de 36% a 77%. Mas a que 
preço! O eufemismo “atraso na campanha de colheita” escondia com frequência uma realidade dramática: a fome. 

A fome do outono-inverno de 1946-1947 atingiu particularmente as regiões mais castigadas pela seca do verão 
de 1946: as províncias de Kursk, de Tambov, de Voronezh, de Orei e a região de Rostov. Ela fez pelo menos 500.000 
vítimas. Como a fome de 1932, a de 1946-1947 foi silenciada. A recusa em diminuir as contribuições obrigatórias 
sobre uma colheita que atingia apenas dois quintais e meio por hectare nas regiões dominadas pela seca contribuiu de 
modo decisivo para transformar uma situação de escassez em verdadeira fome. Os kolkhozianos famintos só tiveram 
uma solução para sobreviver: roubar as magras reservas estocadas aqui e acolá. Em um ano, o número de furtos 
aumentou 44%. 

Em 5 de junho de 1947, a imprensa publicou o texto de dois decretos editados pelo governo na véspera, e que, 
muito próximos à famosa lei de 7 de agosto de 1932 no espírito e na letra, estipulavam que todo “atentado contra a 
propriedade do Estado ou de um kolkhoz” era passível de penas de cinco a 25 anos de campo, caso o roubo fosse 
cometido individualmente, coletiva-mente, pela primeira vez ou fosse recidivo. Toda pessoa que estivesse informada 
sobre a preparação de um roubo ou que soubesse do roubo, mas não o denunciasse à polícia, era passível de pena de 
dois a três anos de campo. Uma circular confidencial lembrava ainda aos tribunais que os pequenos furtos nos locais de 
trabalho, até então passíveis de uma pena máxima de um ano de privação de liberdade, caíam deste dia em diante sob o 
jugo dos decretos de 4 de junho de 1947. 

Durante o segundo semestre de 1947, mais de 380.000 pessoas foram condenadas, das quais 21.000 
adolescentes de menos de 16 anos, em virtude dessa nova “lei celerada”. Por ter roubado alguns quilos de centeio, 
recebia-se frequentemente de oito a dez anos de campo. Eis um extraio do veredicto do tribunal popular do distrito de 
Suzdal, na província de Vladimir, datado de 10 de outubro de 1947: “Encarregados da guarda noturna dos cavalos do 
kolkhoz, N. A. e B. S., menores de 15 e 16 anos, foram surpreendidos em flagrante delito de furto de três pepinos na 
horta do kolkhoz. [...] Condenar N. A. e B. S. a oito anos de privação de liberdade numa colônia de trabalho de regime 
comum.” Em seis anos, 1.300.000 pessoas foram condenadas, das quais 75% a mais de cinco anos, por causa dos 
decretos de 4 de junho de 1947; em 1951, elas representavam 53% dos prisioneiros de direito comum do Gulag e cerca 
de 40% do número total de prisioneiros. No fim dos anos 40, a estrita aplicação dos decretos de 4 de junho de 1947 
aumentou conside-ravelmente a duração das condenações infligidas pelos tribunais ordinários; a proporção de penas de 


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mais de cinco anos passou de 2% em 1940 a 29% em 1949! Nesse apogeu do stalinismo, a repressão “comum”, dos 
“tribunais populares”, substituiu a repressão “extrajudicial”, do NKVD, que floresceu nos anos 30. 

Entre as pessoas condenadas por furtos encontravam-se inúmeras mulheres, viúvas de guerra, mães de família 
com crianças recém-nascidas, submetidas à mendicância e ao roubo. No fim de 1948, o Gulag contava com mais de 
500.000 prisioneiros, isto é, duas vezes mais do que em 1945, e 22.815 crianças de menos de 4 anos, mantidas em 
“casas para recém-nascidos” ligadas aos campos de concentração para mulheres. Esse numero iria ultrapassar os 35.000 
no início de 1953. Para evitar que o Gulag se transformasse em uma grande casa de bonecas - resultado da legislação 
ultra-repressiva implantada em 1947 -, o governo foi obrigado a decretar uma anistia parcial em abril de 1949, que 
possibilitou a liberação de cerca de 84.200 mulheres e crianças recém-nascidas. Contudo, o afluxo permanente de 
centenas de milhares de pessoas condenadas por pequenos furtos manteve um forte percentual de mulheres no Gulag 
até 1953, entre 25% e 30% dos prisioneiros. 

Em 1947-1948, o arsenal repressivo foi completado por vários outros textos reveladores do clima da época: 
um decreto sobre a proibição do casamento entre soviéticos e estrangeiros, em 15 fevereiro de 1947, e um decreto sobre 
“a responsabilidade pela divulgação dos segredos de Estado ou pela perda de documentos contendo segredos de 
Estado”, em 9 de junho de 1947. O mais conhecido é o decreto de 21 de fevereiro de 1948, segundo o qual “todos os 
espiões trotskistas, diversionistas, direitistas, mencheviques, socialistas-revo-lucionários, anarquistas, nacionalistas, 
russos brancos e outros elementos anti-soviéticos” deviam ser, “independentemente de suas penas de campo, exilados 
nas regiões da Kolyma, da província de Novossibirsk e de Krasnoiarsk [...] e em certas regiões distantes do 
Cazaquistão”. Preferindo colocar sob boa guarda esses “elementos anti-soviéticos”, a administração penitenciária 
decidiu, na maioria das vezes, revalidar por mais dez anos, sob outra forma de processo, a pena infligida a centenas de 
milhares de “58” condenados em 1937-1938. 

Ainda em 21 de fevereiro de 1948, o Presidium do Soviete Supremo adotou um outro decreto ordenando a 
deportação de “todos os indivíduos que se recusavam a cumprir o número mínimo de “jornadas de trabalho' nos 
kolkhozes e levavam uma vida de parasita” para fora da RSS da Ucrânia. Em 2 de junho de 1948, essa medida foi 
estendida a todo o país. Considerando o estado de abandono dos kolkhozes, em sua maioria incapazes de garantir a 
mínima remuneração a seus trabalhadores em troca das jornadas de trabalho, inúmeros kolkhozianos não cumpriam o 
número mínimo de jornadas de trabalho imposto pela administração. Milhões deles podiam então cair no jugo dessa 
nova lei. Compreendendo que uma estrita aplicação do “decreto sobre o parasitismo” desorganizaria ainda mais a 
produção, as autoridades locais aplicaram a lei com laxismo. Contudo, apenas no ano de 1948, mais de 38.000 
“parasitas” foram deportados e destinados à residência nas komandaturas do NKVD. Todas as medidas repressivas 
eclipsaram a abolição simbólica e efémera da pena de morte, decidida pelo decreto de 26 de maio de 1947. Em 12 de 
janeiro de 1950, a pena capital foi restabelecida para possibilitar, principalmente, a execução dos acusados do “caso de 
Leningrado”. 

Nos anos 30, a questão do “direito de volta” dos transferidos e colonos especiais dera lugar a políticas 
frequentemente incoerentes e contraditórias. No fim dos anos 40, essa questão foi resolvida de maneira radical. Foi 
decidido que todos os povos deportados em 1941-1945, o haviam sido “em regime perpétuo”. O problema do destino 
dos filhos de deportados que atingiam a maioridade não se colocava mais; eles e seus descendentes seriam colonos 
especiais para sempre! 

Durante os anos de 1948-1953, o número desses colonos especiais não parou de aumentar, passando de 
2.342.000 no início de 1946 a 2.753.000 em janeiro de 1953. Esse crescimento era o resultado de várias novas ondas de 
deportação. Em 22 e 23 de maio de 1948, em uma Lituânia que ainda resistia à coletivização forcada de terras, o 
NKVD lançou uma imensa operação de prisão em massa batizada de “Operação Primavera”. Em 48 horas, 36.932 
homens, mulheres e crianças foram presos e deportados em 32 comboios. Todos estavam catalogados como “bandidos, 
nacionalistas e membros da família dessas duas categorias”. Após uma viagem de quatro a cinco semanas, eles foram 
repartidos por diversas komandaturas do NKVD na Sibéria Oriental e designados para complexos florestais onde o 
trabalho era particularmente duro. “As famílias lituanas enviadas como força de trabalho para o complexo florestal de 
Igara (território de Krasnoiarsk), podemos ler em uma nota do NKVD, são repartidas por locais não adaptados para 
habitação: tetos que deixam entrar água, janelas sem vidros, nenhum móvel, nenhuma cama. Os deportados dormem no 
chão estendendo grama e feno sobre ele. Esse amontoamento e a não-observância de regras sanitárias fizeram aparecer 
casos de tifo e de disenteria entre os colonos especiais, algumas vezes mortais.” Somente durante o ano de 1948, 
aproximadamente 50.000 lituanos foram deportados como colonos especiais e 30.000 enviados para campos do Gulag. 
Contudo, segundo dados do ministério do Interior, 21.259 lituanos foram mortos durante “operações de pacificação” 
nessa república, que recusava com obstinação a sovietização e a coletivização. No final de 1948, apesar das pressões 
cada vez mais fortes das autoridades, menos de 4% das terras haviam sido coletivizadas nos países bálticos. 

No início de 1949, o governo soviético decidiu acelerar o processo de sovietização dos países bálticos e 
“erradicar definitivamente o banditismo e o nacionalismo” nas repúblicas recentemente anexadas. Em 12 de janeiro, o 


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Conselho de Ministros editou um decreto “Sobre a expulsão e a deportação dos kulaks e de suas famílias, das famílias 
dos bandidos e dos nacionalistas que se encontram em situação ilegal, das famílias de bandidos abatidos durante 
enfren-tamentos armados, condenados ou anistiados e que continuavam a desenvolver uma atividade hostil, assim 
como das famílias de cúmplices de bandidos, para fora das RSS da Lituânia, da Letónia e da Estónia”. As operações de 
deportação desenrolaram-se de março a maio de 1949 e atingiram cerca de 95.000 pessoas, deportadas dos países 
bálticos para a Sibéria. Entre esses “elementos hostis e perigosos para a ordem soviética”, contavam-se, segundo o 
relatório endereçado por Kruglov a Stalin em 18 de maio de 1949, 27.084 crianças de menos de 16 anos, 1.785 crianças 
recém-nascidas sem família, 146 inválidos e 2.850 “velhos decrépitos”! Em setembro de 1951, novas operações de 
prisão em massa enviaram cerca de 177.000 pretensos kulaks bálticos para a deportação. Para os anos de 1940-1953, o 
número de bálticos deportados é estimado em mais de 200.000, dos quais 120.000 lituanos, 50.000 letônios e um pouco 
mais de 30.000 estônios. A esses números devemos acrescentar o total de bálticos nos campos do Gulag: mais de 
75.000 em 1953, dos quais 44.000 em campos “especiais” reservados aos presos políticos mais duros; os bálticos 
representavam assim um quinto do contingente desses campos. Ao todo, 10% da população adulta dos países bálticos 
foram deportados ou estavam em campos de concentração. 

Entre as outras nacionalidades recentemente incorporadas à força à URSS estavam os moldávios, que também 
resistiam à sovietização e à coletivização. No fim de 1949, as autoridades decidiram proceder a uma vasta operação de 
prisão em massa e deportação dos “elementos hostis e estranhos à sociedade”. A operação foi supervisionada pelo 
primeiro secretário do Partido Comunista da Moldávia, Leonid Ilitch Brejnev, futuro secretário-geral do Partido 
Comunista da URSS. Um relatório de Kruglov a Stalin, datado de 17 de fevereiro de 1950, estabelecia em 94.792 o 
número de moldávios deportados “para a eternidade” como “colonos especiais”. Admitindo-se uma taxa de mortalidade 
durante a transferência deles idêntica à dos outros deportados, seria possível chegar a um cifra na ordem de 120.000 
moldáveis deportados, isto é, cerca de 7% da população moldávia. Entre outras operações do mesmo tipo, citamos, 
ainda no ano de 1949, a deportação para o Cazaquistão e o Altai de 57.680 gregos, arménios e turcos do litoral do Mar 
Negro. 

Durante a segunda metade dos anos 40, os partidários da OUN e da UPA capturados na Ucrânia continuaram a 
fornecer importantes contingentes de colonos especiais. De julho de 1944 a dezembro de 1949, as autoridades 
soviéticas apelaram sete vezes aos insurgentes para que depusessem as armas, prometendo-lhes uma anistia, mas sem 
resultados tangíveis. Em 1945-1947, os campos da Ucrânia Ocidental - a “verdadeira Ucrânia” - eram amplamente 
controlados pelos insurgentes, apoiados por camponeses que recusavam toda idéia de coletivização. As forças 
insurgentes operavam nos confins da Polônia e da Checoslováquia, passando de um país a outro para escapar às 
perseguições. Podemos julgar a importância desse movimento, com base no acordo que o governo soviético teve que 
assinar com a Polônia e a Checoslováquia para coordenar as lutas contra os “bandos” ucranianos. Após esse acordo e 
para privar a rebelião de suas bases naturais, o governo polonês deslocou a população ucraniana em direção ao noroeste 
da Polônia. 

A fome de 1946-1947, que obrigou dezenas de milhares de camponeses da Ucrânia Oriental a fugir para a 
Ucrânia Ocidental, menos atingida, forneceu novos recrutas para a rebelião ainda por algum tempo. A julgar pela 
última proposta de anistia assinada pelo ministro ucraniano do Interior, em 30 de dezembro de 1949, os “bandos de 
insurgentes” não recrutavam seus membros unicamente entre os camponeses. Com efeito, o texto mencionava, entre as 
categorias de bandidos, os “jovens que haviam fugido das fábricas, das minas do Donetz e das escolas industriais”. A 
Ucrânia ocidental só foi definitivamente “pacificada” no fim de 1950, após a coletivização forçada de terras, o 
deslocamento de povoados inteiros e a deportação ou a prisão de cerca de 300.000 pessoas. Segundo as estatísticas do 
Ministério do Interior, entre 1944 e 1952, cerca de 172.000 “membros do OUN e da UPA” foram deportados para o 
Cazaquistão e a Sibéria como colonos especiais, frequentemente com suas famílias. 

As operações de deportação de “contingentes diversos”, segundo a classificação do Ministério do Interior, 
continuaram até a morte de Stalin. Assim, durante os anos de 1951-1952, foram deportados, a título de operações 
específicas de pequeno porte, 11.685 mingrélios e 4.707 iranianos da Geórgia, 4.365 testemunhas de Jeová, 4.431 
kulaks da Bielo-Rússia Ocidental, 1.445 kulaks da Ucrânia Ocidental, 1.415 kulaks da região de Pskov, 995 pessoas da 
seita dos “verdadeiros cristãos ortodoxos”, 2.795 basmatchis do Tadjiquistão e 591 “vagabundos”. A única diferença 
em relação aos deportados pertencentes aos diversos povos “punidos” era que esses contingentes não eram deportados 
“em regime perpétuo”, mas por um período de 10 a 20 anos. 

Como provam os arquivos do Gulag recentemente exumados, o início dos anos 50 foi marcado ao mesmo 
tempo pelo apogeu do sistema concentracionário - jamais houve tantos prisioneiros nos campos de trabalho e tantos 
colonos especiais nos “povoados de colonização”- e por uma crise sem precedentes desse sistema. 

No início de 1953, o Gulag contava aproximadamente com 2.750.000 prisioneiros, repartidos por três tipos de 
estabelecimento: 


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- cerca de 500 “colônias de trabalho”, presentes em cada região, com portando cada uma de mil a três mil 
prisioneiros em média, majoritariamente presos de direito comum, a metade condenada a penas inferio res a cinco anos; 

- cerca de 60 grandes complexos penitenciários, os “campos de traba lho”, situados principalmente nas regiões 
setentrionais e orientais do país, cada um reunindo várias dezenas de milhares de prisioneiros, de direito comum e 
políticos, em sua maioria condenados a penas superio res a dez anos; 

- 15 “campos de regime especial” criados após uma instrução secreta do Ministério do Interior de 7 de 
fevereiro de 1948, nos quais eram detidos exclusivamente presos políticos considerados “particularmente perigosos”, 
isto é, cerca de 200.000 pessoas. 

Esse imenso universo concentracionário incluía 2.750.000 prisioneiros aos quais se somavam os 2.750.000 
colonos especiais que dependiam de uma outra direção do Gulag. Esse conjunto não apresentava apenas sérios 
problemas de enquadramento e vigilância, mas também de rentabilidade econômica. Em 1951, o general Kruglov, 
ministro do Interior, preocupado com a diminuição constante da produtividade da mão-de-obra penal, lançou uma 
grande campanha de inspeção do estado do Gulag. As comissões enviadas aos locais revelaram uma situação muito 
tensa. 

Em primeiro lugar, é certo que nos campos de “regime especial”, onde os “políticos” que chegaram após 1945 
- “nacionalistas” ucranianos e bálticos habituados à guerrilha, “elementos estranhos” das regiões recentemente 
incorporadas, “colaboradores” reais ou supostos e outros “traidores da pátria” - eram prisioneiros incontestavelmente 
mais determinados que os “inimigos do povo” dos anos 30, uma vez que esses antigos quadros do Partido estavam 
convencidos de que seu internamento era fruto de algum terrível mal-entendido. Condenados a penas de 20 a 25 anos, 
sem esperança de libertação antecipada, esses prisioneiros não tinham nada mais a perder. Além do mais, seu 
isolamento em campos especiais os havia livrado da presença cotidiana dos prisioneiros de direito comum. Ora, como 
destacou Alexandre Soljenitsyne, era precisamente a promiscuidade dos prisioneiros políticos e de direito comum que 
constituía o principal obstáculo à eclosão de um clima de solidariedade entre os detentos. Afastado esse obstáculo, os 
campos especiais se tornaram rapidamente focos de resistência e de revolta contra o regime. As redes ucranianas e 
bálticas, montadas na clandestinidade dos maquis, foram particularmente ativas nesses campos. Recusas ao trabalho, 
greves de fome, evasões em grupo e motins se multiplicaram. Somente para o período compreendido entre os anos 
1950-1952, as pesquisas ainda incompletas recensearam 16 rebeliões e revoltas importantes, cada uma delas 
envolvendo centenas de prisioneiros. 

As “inspeções Kruglov” de 1951 revelaram igualmente a degradação da situação nos campos “comuns”, que 
se traduzia por um “relaxamento generalizado da disciplina”. Em 1951, um milhão de jornadas de trabalho foram 
perdidas pela “recusa a trabalhar” dos prisioneiros. E assistiu-se ao crescimento da criminalidade no interior dos 
campos, à multiplicação dos incidentes entre os prisioneiros e os vigilantes e à queda da produtividade do trabalho 
penal. Segundo a administração, esta situação era devida, em grande parte, ao enfrentamento entre bandos rivais de 
prisioneiros, que opunham os “ladrões legais” - que se recusavam a trabalhar para respeitar a “regra do ambiente”- aos 
“cadelas” - que se submetiam ao regulamento dos campos. A multiplicação das facções e das rixas acabava com a 
disciplina e gerava “desordem”. A partir de então, era muito mais fácil morrer com uma facada do que de fome ou de 
doença. A conferência dos responsáveis pelo Gulag realizada em Moscou em janeiro de 1952 reconheceu que a 
“administração, que até o momento soubera habilmente tirar vantagem das contradições entre os vários grupos de 
prisioneiros, está perdendo o controle dos processos internos. [...] Em alguns campos, as facções estão quase tomando 
em mãos os negócios interiores”. Para destruir grupos e facções, a administração era obrigada a recorrer a incessantes 
transferências de prisioneiros, a reorganizações permanentes no interior das diversas seções dos imensos complexos 
penitenciários, que reuniam com fregiiência de 40.000 a 60.000 prisioneiros. 

Contudo, além dos problemas das facções, cuja amplitude chama a atenção, os relatórios de inspeção 
estabelecidos em 1951-1952 concluem pela necessidade de uma reorganização completa das estruturas penitenciárias e 
produtivas, assim como por importantes reduções de efetivos. 

Assim, em seu relatório de janeiro de 1952, endereçado ao general Dol-guikh, o chefe do Gulag, coronel 
Zwerev, responsável pelo grande complexo concentracionário de Norilsk - que incluía 69.000 detidos -, preconizava as 
seguintes medidas: 

1. isolar os membros das facções. “Mas, explicava Zverev, por cau sa do grande número de prisioneiros que 
participam ativamente de uma ou outra das duas facções [...] só conseguimos isolar os chefes, o que já foi muito 
difícil”; 

2. liquidar as imensas zonas de produção nas quais milhares de prisioneiros pertencentes a facções rivais 
trabalham atualmente sem a menor escolta; 

3. criar unidades de produção menores para assegurar uma melhor vigilância dos prisioneiros; 

4. aumentar o pessoal de segurança. “Mas, acrescentava Zverev, é impossível organizar essa vigilância como 
seria preciso, uma vez que a penúria de pessoal atinge 50%”; 


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5. separar os prisioneiros dos trabalhadores livres nas unidades de produção. “Mas as ligações tecnológicas 
entre as diferentes empresas do complexo de Norilsk, a necessidade de uma produção continuada e os problemas 
agudos de alojamento não permitem isolar os prisioneiros dos trabalhadores livres de modo satisfatório. [...] De modo 
geral, o problema da produtividade e da coerência do processo produtivo não podia ser resolvido, a não ser através da 
liberação antecipada de 15.000 prisioneiros, que seriam, no entanto, obrigados a permanecer no Iocal.” 


Esta última proposição de Zverev estava longe de ser incongruente no contexto da época. Em janeiro de 1951, 
o ministro do interior Kruglov pedira a Beria a liberação antecipada de 6.000 prisioneiros que deviam ser enviados 
como trabalhadores livres para o imenso canteiro de obras da central hidrelétrica de Stalingrado, onde mais de 25.000 
prisioneiros cumpriam pena, aparentemente de maneira muito ineficaz. A prática de uma liberação antecipada, 
principalmente entre trabalhadores qualificados, era muito frequente no início dos anos 50. Ela colocava a questão 
principal da rentabilidade econômica de um sistema concentracionário hipertrofiado. 

Confrontada a uma explosão dos efetivos menos facilmente maleáveis que no passado e a problemas de 
enquadramento e de vigilância - o Gulag empregava um pessoal de cerca de 208.000 pessoas -, a enorme máquina 
administrativa tinha cada vez mais dificuldades em desmascarar a tufta -balanços falsos - e em garantir uma 
rentabilidade sempre problemática. Para resolver esse problema permanente, a administração tinha de escolher entre 
duas soluções: explorar a mão-de-obra penal ao máximo, sem considerar as perdas humanas, ou empregá-la de modo 
mais racional, prolongando sua sobrevivência. De modo geral, até 1948, predominou a primeira solução. No fim dos 
anos 40, a tomada de consciência pelo regime da amplitude da penúria de mão-de-obra em um país sangrado pela 
guerra levou as autoridades penitenciárias a explorar os prisioneiros de maneira mais “econômica”. Para tentar 
estimular a produtividade, foram introduzidos prémios e “salários”, as rações alimentares daqueles que conseguiam 
cumprir as normas aumentaram, e a taxa anual de mortalidade caiu para 2%-3%. Essa “reforma” chocou-se 
rapidamente com a realidade do mundo concentracionário. 

No início dos anos 50, as infra-estruturas de produção já tinham mais de 20 anos e não haviam se beneficiado 
de nenhum investimento recente. As imensas unidades penitenciárias reunindo dezenas de milhares de prisioneiros, 
implantadas nos anos precedentes com a perspectiva de uma utilização extensiva da mão-de-obra, eram estruturas 
pesadas e dificilmente reformáveis, apesar das inúmeras tentativas feitas de 1949 a 1952 para fragmentá-las em 
unidades de produção menores. Os salários módicos distribuídos aos prisioneiros, que chegavam a algumas centenas de 
rublos por ano, isto é, de 15 a 20 vezes menos que o salário médio de um trabalhador livre, não serviam de modo algum 
como um estimulante que garantisse uma produtividade de trabalho mais elevada, tudo isso em um momento em que 
um número cada vez maior de prisioneiros se recusava a trabalhar e se organizava em bandos, exigindo, 
consequentemente, uma vigilância aumentada. No fim das contas, mais bem pago ou mais bem vigiado, o prisioneiro, 
tanto aquele que se submetia às regras administrativas quanto o refratário que preferia obedecer à “lei do meio”, 
custava cada vez mais caro. 

Os dados parciais dos relatórios de inspeção dos anos 1951-1952 vão todos na mesma direção: o Gulag havia 
se tornado uma máquina cada vez mais difícil de ser gerida. Aliás, havia atrasos consideráveis nos últimos grandes 
canteiros de obras stalinistas que se tinham utilizado da mão-de-obra penal em larga escala: as centrais hidrelétricas de 
Kuibychev e de Stalingrado, o canal do Turcomenistão e o canal do Volga-Don. Para acelerar as obras, as autoridades 
foram obrigadas a transferir para o local inúmeros trabalhadores livres ou liberar antes do prazo os prisioneiros mais 
motivados.” 

A crise do Gulag lança uma nova luz sobre a anistia decretada por Beria em 277 de março de 1953, apenas três 
semanas após a morte de Stalin, e que atingiu 1.200.000 prisioneiros. Não se poderiam abstrair as razões econômicas, e 
não apenas políticas, que levaram os candidatos à sucessão de Stalin a proclamar essa anistia parcial; eles estavam 
informados sobre as imensas dificuldades de gestão de um Gulag superpovoado e cada vez menos “rentável”. Contudo, 
no mesmo momento em que a administração penitenciária pedia uma “diminuição” dos contingentes de prisioneiros, 
Stalin, que envelhecia, vítima de uma paranóia cada vez mais pronunciada, preparava um novo grande expurgo, um 
segundo Grande Terror. No clima pesado e perturbado do fim do stalinismo, as “contradições” se multiplicavam... 


14. O último complô 


Em 13 de janeiro de 1953, o Pravda anunciou a descoberta do “grupo dos médicos terroristas”, composto por 
nove e depois por 15 médicos reno-mados, dos quais mais da metade eram judeus. Eles eram acusados de se 
aproveitarem de suas importantes funções junto ao Kremlin para “abreviar a vida” de Andrei Jdanov, membro do 
Politburo morto em agosto de 1948, e de Alexandre Chtcherbakov, morto em 1950, e de terem tentado o assassinato de 
grandes chefes militares soviéticos, sob a ordem da Intelligence Service e de uma organização de assistência judia, a 
American Joint Distribution Committee. Enquanto que sua denunciadora, a doutora Timachuk, recebia solenemente a 


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Ordem de Lenin, os acusados, devidamente interrogados, acumulavam “confissões”. Como em 1936-1938, ocorreram 
vários manifestos para exigir o castigo dos culpados, a multiplicação das investigações e o retorno a uma verdadeira 
“vigilância bolchevique”. Nas semanas que se seguiram à descoberta do “complô dos jalecos brancos”, uma enorme 
campanha na imprensa reatualizou os temas dos anos do Grande Terror, exigindo “que se terminasse de uma vez por 
todas com o descuido criminoso nas fileiras do Partido e que a sabotagem fosse definitivamente liquidada”. 
Encaminhava-se a idéia de uma vasta conspiração que reunia intelectuais, judeus, militares, quadros superiores do 
Partido e da economia e funcionários das repúblicas não russas, relembrando os piores momentos da lejovschina. 

Como confirmam os documentos hoje acessíveis sobre esse caso, o complô dos jalecos brancos foi um dos 
momentos decisivos do stalinismo pós-guerra. Esse complô marcava tanto o coroamento da campanha 
“anticosmopolita” - ou seja, anti-semita - iniciada no começo de 1949, mas cujas primeiras aparições remontam a 1946- 
1947, quanto o provável esboço de um novo expurgo geral, de um novo Grande Terror que apenas a morte de Stalin, 
algumas semanas após o anúncio público do complô, iria impedir. A essas duas dimensões acrescia-se uma terceira: a 
luta entre as diferentes facções dos ministérios do Interior e da Segurança de Estado, separados após 1946 e submetidos 
a remanejamentos constantes. Esses confrontos dentro da polícia política eram em realidade reflexos da luta nos altos 
escalões dos aparelhos políticos, com cada um dos potenciais herdeiros de Stalin já se situando na perspectiva da 
sucessão. Há ainda uma última e perturbadora dimensão desse “Caso”: ao se exumar o velho fundo anti-semita do 
czarismo combatido pelos bolcheviques, oito anos depois da revelação pública dos campos de extermínio nazistas, o 
caso dos jalecos brancos punha em evidência uma deriva da última fase do stalinismo. 

Não se pretende aqui recuperar o fio da meada desse caso, ou melhor, dos casos que convergiram para esse 
momento final do stalinismo. Assim, nos contentaremos em relembrar rapidamente as principais etapas que conduziram 
a esse último complô. Em 1942, o governo soviético, desejoso de exercer alguma pressão sobre os judeus americanos, a 
fim de que eles forçassem o governo americano a abrir mais rapidamente um “segundo fronte” na Europa contra a 
Alemanha nazista, criou um Comitê Antifascista Judeu-Soviético, presidido por Salomon Mikhoels, o diretor do 
famoso teatro iídiche de Moscou. Centenas de intelectuais judeus desenvolveram várias atividades nesse Comitê: o 
romancista Ilyá Ehremburg, os poetas Samuel Marchak e Peretz Markish, o pianista Emil Guilels, o escritor Vassili 
Grossman, o grande físico Piotr Kapitza, pai da bomba atômica soviética, entre outros. Rapidamente, o Comitê 
ultrapassou seu papel de organismo de propaganda oficiosa soviética para ocupar o lugar de congregador da 
comunidade judia, um organismo representativo do judaísmo soviético. Em fevereiro de 1944, os dirigentes do Comitê, 
Mikhoels, Fefer e Epstein, chegaram a enviar uma carta a Stalin, na qual propunham a instauração de uma república 
judia autónoma na Criméia, suscetível de apagar a lembrança da experiência do “Estado nacional judeu” do Birobidjan, 
tentada nos anos 30, e que aparecia como um fracasso patente - em dez anos, menos de 40.000 judeus haviam se 
instalado nessa região perdida, pantanosa e desértica do extremo oriente siberiano, nos confins da China! 

Do mesmo modo, o Comitê se dedicou à coleta de testemunhos sobre os massacres dos judeus pelos nazistas e 
sobre “os fenómenos anormais concernindo os judeus”, eufemismo que designava as manifestações de anti-semitis-mo 
da população. Ora, estas últimas eram em grande número. As tradições anti-semitas permaneciam fortes na Ucrânia e 
em algumas regiões ocidentais da Rússia, principalmente na antiga “zona de residência” do Império Russo, onde os 
judeus haviam sido autorizados a residir pelas autoridades czaristas. As primeiras derrotas do Exército Vermelho 
revelaram a amplitude do anti-semitismo popular. Como reconheciam alguns relatórios do NKVD sobre “o estado de 
espírito da retaguarda”, amplas camadas da população eram sensíveis à propaganda nazista segundo a qual os alemães 
só estavam em guerra contra os judeus e os comunistas. Nas regiões ocupadas pelos alemães, especialmente na 
Ucrânia, os massacres dos judeus, todos já vistos e conhecidos pela população, parecem ter suscitado muito pouca 
indignação. Os alemães recrutaram cerca de 80.000 soldados suplementares entre os ucranianos, dos quais alguns 
participaram do massacre dos judeus. Para fazer frente a essa propaganda nazista e mobilizar o fronte e a retaguarda em 
torno do tema da luta de todo povo soviético por sua sobrevivência, os ideólogos bolcheviques se recusaram, num 
primeiro momento, a reconhecer a especificidade do holocausto. Foi sobre esse terreno que se desenvolveu o anti- 
sionismo, e depois o anti-semitismo oficial, particularmente virulento, segundo parece, nos meios do Agit-prop 
(Agitação-propaganda) do Comitê Central. Já em 1942, esse departamento havia redigido uma nota interna sobre “o 
lugar dominante dos judeus nos meios artísticos, literários e jornalísticos”. 

O ativismo do Comitê não tardou a indispor as autoridades. A partir do início de 1945, o poeta judeu Peretz 
Markish foi proibido de publicar; o lançamento do Livro Negro sobre as atrocidades nazistas contra os judeus foi 
anulado, sob o pretexto de que “o fio condutor de todo o livro é a idéia de que os alemães só entraram em guerra com a 
URSS com o único objetivo de aniquilar os judeus”. Em 12 de outubro de 1946, o ministro da Segurança de Estado, 
Abakumov, enviou ao Comitê Central uma nota “Sobre as tendências nacionalistas do Comitê Antifascista Judeu”. 
Stalin, que por razões de estratégia internacional desejava prosseguir com uma política exterior favorável à criação do 
Estado de Israel, não reagiu imediatamente. Foi somente após a URSS ter votado na ONU o plano de partilha da 
Palestina, em 29 de novembro de 1947, que Abakumovy recebeu carta branca para empreender a liquidação do Comitê. 


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Em 19 de dezembro de 1947, vários de seus membros foram detidos. Algumas semanas mais tarde, em 13 de 
janeiro de 1948, Salomon Mikhoels foi encontrado assassinado em Minsk. Segundo a versão oficial, ele teria sido 
vítima de um acidente de automóvel. Alguns meses mais tarde, em 21 de novembro de 1948, o Comitê Antifascista 
Judeu foi dissolvido, sob o pretexto de ter se tornado um “centro de propaganda anti-soviética”. Suas diversas 
publicações, especialmente o jornal iídiche Einikait, com o qual5 colaborava a elite dos intelectuais judeus soviéticos, 
foram proibidas. Nas semanas que se seguiram, todos os membros do Comitê foram detidos. Em fevereiro de 1949, a 
imprensa iniciou uma ampla campanha “anticosmopolita”. Os críticos de teatro judeus foram denunciados por sua 
“incapacidade de compreender o caráter nacional russo”: “Que visão um Gurvitch ou um luzovski podem ter do caráter 
nacional do homem russo?”, escrevia o Pravda em 2 de fevereiro de 1949. No decorrer dos primeiros meses de 1949, 
centenas de intelectuais judeus foram detidos, especialmente em Leningrado e Moscou. 

A revista Neva publicou recentemente um documento exemplar desse período: a sentença do Colégio 
Judiciário do Tribunal de Leningrado, promulgada em 7 de julho de 1949, condenando Aquilles Grigorievitch Leniton, 
Hyá Zeikovitch Serman e Rulf Alexandrovna Zevina a penas de dez anos em campos de concentração. Os acusados 
foram reconhecidos como culpados de terem “criticado a resolução do Comitê Central sobre as revistas Zvezda e 
Leningrada. partir de posições anti-soviéticas [...]; interpretado as idéias internacionais de Marx sob um prisma contra- 
revolucionário; elogiado os escritores cosmopolitas [...]; e caluniado a política soviética sobre a questão das 
nacionalidades”. Após terem recorrido contra a sentença, os acusados foram condenados a 25 anos pelo Colégio 
Judicial da Suprema Corte, que assim justificou seu veredicto: “A pena infligida pelo Tribunal de Leningrado não levou 
em consideração a gravidade do crime ocorrido. [...] Com efeito, os acusados praticaram uma agitação contra- 
revolucionária ao se utilizarem de preconceitos nacionais e ao afirmarem a superioridade de uma nação sobre as outras 
nações da União Soviética!” 

Os judeus foram sistematicamente afastados de seus trabalhos, especialmente nos meios ligados à cultura, à 
informação, à imprensa, à edição, à medicina, ou seja, nas profissões em que eles ocupavam cargos de 
responsabilidade. As detenções se multiplicaram, atingindo os mais diversos meios, tanto um certo grupo de 
“engenheiros-sabotadores” - judeus em sua maioria, presos no complexo metalúrgico de Stalino, condenados à morte e 
executados em 12 de abril de 1952 - quanto a esposa judia de Molotov, Paulina Jemtchujina - importante responsável 
pela indústria têxtil, detida em 21 de janeiro de 1949 por “perda de documentos que continham segredos de Estado”, 
julgada e enviada a um campo de concentração por cinco anos -, ou ainda a esposa do secretário pessoal de Stalin, 
Alexandre Poskrebychev, ela também judia, acusada de espionagem e fuzilada em julho de 19527 Molotov e 
Poskrebychev continuaram a servir a Stalin como se nada tivesse acontecido. Entretanto, o período de instrução do 
processo contra os acusados do Comitê Antifascista Judeu se arrastava. O processo, a portas fechadas, só foi iniciado 
em maio de 1952, ou seja, dois anos e meio após a prisão dos acusados. De acordo com a documentação ainda lacunar 
hoje disponível, dois elementos podem explicar com segurança a excepcional duração desse período de instrução. 
Nesse momento, e sempre no maior segredo, Stalin orquestrava um outro caso, dito de “Leningrado”, etapa importante 
que deveria preparar, junto com o dossiê do Comitê Antifascista Judeu, o grande expurgo final. Paralelamente, ele 
procedia a uma profunda reorganização dos serviços de Segurança - cujo episódio central foi a prisão de Abakumov em 
julho de 1951 -, então dirigidos pelo todo-poderoso Beria, vice-presidente do Conselho de Ministros e membro do 
Politburo. O caso do Comitê Antifascista Judeu estava no centro das lutas de influência e de sucessão, no coração do 
dispositivo que deveria desembocar no caso dos jalecos brancos e em um segundo Grande Terror. 

De todos os casos, aquele dito de “Leningrado”, que foi finalizado pela execução, mantida em segredo, dos 
principais dirigentes da segunda mais importante organização do Partido Comunista da União Soviética, permanece 
sendo o mais misterioso. Em 15 de fevereiro de 1949, o Politburo adotou uma resolução “Sobre as ações antipartido de 
Kuznetsov, Rodionov e Popkov”, três importantes dirigentes do Partido. Eles foram demitidos de suas funções, assim 
como Voznessenski, presidente do Gosplan, o órgão de planejamento do Estado, e a maior parte dos membros do 
aparelho do Partido de Leningrado, cidade sempre suspeita aos olhos de Stalin. Em agosto-setembro de 1949, todos 
esses dirigentes foram presos, sob a acusação de terem organizado um grupo “antipartido”, ligado à... Intelligence 
Service. Abakumov lançou então uma verdadeira caça aos “veteranos do Partido de Leningrado” instalados em cargos 
de responsabilidade em outras cidades ou outras repúblicas. Centenas de comunistas de Leningrado foram presos, e 
cerca de 2.000 excluídos do Partido e expulsos de seus trabalhos. A repressão ganhou formas surpreendentes, atingindo 
a cidade considerada como entidade histórica. Assim, em agosto de 1949, as autoridades formaram o Museu da Defesa 
de Leningrado, consagrado à gesta heróica do bloqueio da cidade durante a “Grande Guerra Patriótica”. Alguns meses 
mais tarde, Mikhail Suslov, responsável pela ideologia, foi encarregado pelo Comitê Central de instalar uma “comissão 
de liquidação” do museu, que funcionou até o fim de fevereiro de 1953. 

Os principais acusados do caso de Leningrado - Kuznetsov, Rodionov, Popkov, Voznessenski, Kapustin e 
Lazutin - foram julgados a portas fechadas em 30 de setembro de 1950 e executados no dia seguinte, uma hora após o 
pronunciamento do veredicto. Todo o caso ocorreu no mais absoluto segredo. Ninguém fora informado, nem mesmo a 


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filha de um dos principais acusados, que era, porém, a nora de Anastase Mikoian, ministro e membro do Politburo! No 
decorrer do mês de outubro de 1950, outras paródias de julgamento condenaram à morte dezenas de quadros dirigentes 
do Partido, todos tendo pertencido à organização de Leningrado: Soloviev, primeiro secretário do Comitê Regional da 
Criméia; Badaiev, segundo secretário do Comitê Regional de Leningrado; Verbitski, segundo secretário do Comitê 
Regional de Murmansk; Bassov, primeiro vice-presidente do Conselho de Ministros da Rússia, etc. 

Teria sido a depuração dos “leningradenses” simplesmente o acerto de contas entre as diferentes frações do 
aparelho ou apenas um elo numa corrente de casos, que iam da liquidação do Comitê Antifascista Judeu ao complô dos 
jalecos brancos, passando pela prisão de Abakumov “e o complô nacionalista mingrélio”? A segunda hipótese parece 
ser a mais provável. Sem dúvida, o caso de Leningrado foi uma etapa decisiva na preparação de um grande expurgo, do 
qual o sinal público foi dado em 13 de janeiro de 1953. De maneira significativa, os crimes imputados aos dirigentes 
leningradenses que caíram em desgraça ligavam todo o caso aos sinistros anos 1936-1938. Durante a reunião do 
plenário dos quadros do Partido de Leningrado em outubro de 1949, o novo primeiro secretário, Andrianov, anunciou 
ao auditório embasbacado que os antigos dirigentes haviam publicado a literatura trotskista e zinovievista: “Nos 
documentos que aquelas pessoas levaram para a publicação, eles faziam passar de modo sub-reptício e mascarado 
artigos dos piores inimigos do povo: Zinoviev, Trotski e outros”. Além da acusação grotesca, a mensagem aos quadros 
do aparelho era bastante clara. Era precisamente para um novo 1937 que cada um deveria se preparar. 

Após a execução dos principais acusados do caso de Leningrado, em outubro de 1950, manobras e 
contramanobras se multiplicaram no interior dos serviços de Segurança e do Interior. Passando a desconfiar de Beria, 
Stalin inventou um fantasmático complô nacionalista mingrélio, cujo objetivo era o de anexar a Mingrélia, justamente a 
região da Geórgia da qual Beria era originário, à Turquia. Beria foi obrigado a ele próprio dizimar seus “compatriotas” 
e a executar o expurgo do Partido Comunista georgiano. Em outubro de 1951, Stalin deu ainda um outro golpe em 
Beria, ordenando a prisão de um grupo de velhos quadros judeus da Segurança e do Ministério Público, entre os quais o 
tenente-coronel Eitingon, que havia organizado o assassinato de Trotski em 1940, sob as ordens de Beria; o general 
Leonid Raikhman, que havia participado da montagem do processo de Moscou; o coronel Lev Schwarzmamnn, carrasco 
de Babel e de Meyerhold; o juiz de instrução Lev Cheinin, braço direito do procurador dos grandes processos de 
Moscou de 1936-1938; Vychinski e outros. Todos foram acusados de serem os organizadores de um enorme “complô 
nacionalista judeu” dirigido por ... Abakumov, o ministro da Segurança de Estado e colaborador próximo de Beria. 

Havia alguns meses que Abakumov fora preso e vinha sendo mantido escondido. Inicialmente, ele foi acusado 
de ter provocado deliberadamente o desaparecimento de Jacob Etinguer, médico judeu de renome, preso em 1950 e 
morto na prisão pouco tempo depois. Ao “eliminar” Etinguer - que no decorrer de sua longa carreira havia cuidado de 
pessoas como Serge Kirov, Sergo Ordjonikidze, o marechal Tukhatchevski, Palmiro Togliatti, Tito e Georges Dimitrov 
-, Abakumovy teria tentado “impedir que um grupo de criminosos formado por nacionalistas judeus infiltrados nos mais 
altos escalões do Ministério da Segurança de Estado fosse desmascarado”. Alguns meses mais tarde, o próprio 
Abakumov seria apresentado como o “cérebro” do complô nacionalista judeu! Assim, a prisão de Abakumov, em julho 
de 1951, constituiu uma etapa decisiva na longa montagem de um vasto “complô judeu-sionista”; ela assegurava a 
transição entre a liquidação do Comitê Antifascista Judeu, ainda secreta, e o complô dos jalecos brancos, arranjado para 
tornar-se o símbolo público do expurgo. Assim, foi durante o verão de 1951, e não no fim de 1952, que a história 
ganhou corpo. 

De 11 a 18 de julho de 1952, desenvolveu-se, a portas fechadas e no maior dos segredos, o processo dos 
membros do Comitê Antifascista Judeu. Em 12 de agosto de 1952, 13 acusados foram condenados à morte e 
executados, ao mesmo tempo em que dez outros “engenheiros-sabotadores” da fábrica de automóveis Stalin, todos 
judeus. No total, o “dossiê” do Comitê Antifascista Judeu deu lugar a 125 condenações, das quais 25 condenações à 
morte, todas executadas, e a cem condenações a penas de dez a 25 anos em campos de concentração.” 

No mês de setembro de 1952, o roteiro do complô judeu-sionista já estava pronto. Sua realização foi retardada 
por algumas semanas, período no qual ocorreu o XIX Congresso do PCUS, reunido enfim em outubro de 1952, treze 
anos e meio após o XVHI Congresso. Desde o fim do congresso, a maioria dos médicos judeus acusados nesse evento - 
que se tornaria publicamente conhecido como o caso dos jalecos brancos - foram detidos, presos e torturados. 
Paralelamente a essas prisões, naquele momento ainda secretas, iniciava-se em Praga, em 22 de novembro de 1952, o 
processo de Rudolf Slansky, antigo secretário-geral do Partido Comunista da Checoslováquia, e de 13 outros dirigentes 
comunistas. Onze deles foram condenados à morte e enforcados. Uma das particularidades dessa paródia judiciária, 
inteiramente montada pelos conselheiros soviéticos da polícia política, era seu caráter francamente anti-semita. Onze 
dos 14 acusados eram judeus, e os fatos que lhes eram imputados eram relacionados à constituição de um “grupo 
terrorista trotskista-tito-sionista”. Uma verdadeira caça aos judeus foi empreendida nos aparelhos dos partidos 
comunistas do Leste Europeu durante a preparação do processo. 

Em 4 de dezembro de 1952, um dia após a execução dos 11 condenados à morte do processo Slansky, Stalin 
levou para votação no Presidium do Comitê Central uma resolução intitulada “Sobre a situação no Ministério da 


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Segurança de Estado” e que ordenava às instâncias do Partido “pôr fim ao caráter descontrolado dos organismos da 
Segurança de Estado”. A Segurança estava sendo posta na berlinda; ela dera mostras de “laxismo”, falhara na 
“vigilância” e permitira aos “médicos sabotadores” exercer sua atividade funesta. Um passo suplementar fora dado. A 
verdadeira intenção de Stalin era utilizar o caso dos jalecos brancos contra a Segurança e contra Beria. Grande 
especialista nas intrigas do aparelho, este último não podia ignorar o sentido do que estava sendo preparado. 

O que se passou nas semanas que precederam à morte de Stalin permanece ainda em grande parte 
desconhecido. Por trás da campanha “oficial” que convocava ao “reforço da vigilância bolchevique” e à “luta contra 
toda forma de descuido”, ou ainda das assembléias e reuniões que pediam “um castigo exemplar” para os assassinos 
cosmopolitas”, a instrução e os interrogatórios dos médicos presos prosseguiam. A cada dia, novas prisões ampliavam 
mais ainda o complô. 

Em 19 de fevereiro de 1953, o vice-ministro das relações exteriores, Ivan Maiski, braço direito de Molotov e 
antigo embaixador da URSS em Londres, foi preso. Interrogado ininterruptamente, ele “confessou” ter sido recrutado 
por Winston Churchill como espião britânico, assim como a embaixadora da URSS em Estocolmo até o fim da 
Segunda Guerra Mundial, Alexandra Kollontai, grande figura do bolchevismo, promotora em 1921 da Oposição 
Operária junto com Chliapnikov, executado em 1937. 

Entretanto, apesar desses “avanços” espetaculares na instrução do complô, não podemos deixar de perceber 
que, diferentemente do que se passara em 1936-1938, nenhum dos dignitários do regime se engajou publicamente na 
campanha de denúncia do caso, de 13 de janeiro até a morte de Stalin, em 5 de março. Segundo testemunhos de 
Bulganin tomados em 1970, além de Stalin, principal inspirador e organizador, somente quatro dirigentes “armavam o 
golpe”: Malenkov, Suslov, Riumin e Ignatiev. Conseqíientemente, todos os outros podiam se sentir ameaçados. Ainda 
segundo Bulganin, o processo dos médicos judeus deveria ser iniciado em meados de março e continuar com a 
deportação em massa dos judeus soviéticos para o Birobidjan. No estado atual do conhecimento e da acesso ainda 
bastante limitado aos Arquivos Presidenciais, onde são conservados os dossiês mais secretos e mais “sensíveis”, é 
impossível saber se um tal plano de deportação em massa dos judeus estava em estudo no início de 1953. Apenas uma 
coisa é certa: a morte de Stalin sobreveio para interromper, enfim, a lista de milhões de vítimas de sua ditadura. 


15. A saída do Stalinismo 


O desaparecimento de Stalin marcou uma etapa decisiva na metade das sete décadas de existência da União 
Soviética: o fim de uma época, ou, pelo menos, o fim de um sistema. Como escreveu François Furet, a morte do Guia 
Supremo revelou “o paradoxo de um sistema que se pretendia inscrito nas leis do desenvolvimento social mas no qual 
tudo depende de tal modo de um só homem, que, com o seu desaparecimento, o sistema veio a perder algo que lhe era 
essencial”. Um dos componentes mais importantes desse “algo de essencial” era o alto nível de repressão exercida pelo 
Estado contra a sociedade, sob as mais diversas formas. 

Para os principais colaboradores de Stalin - Malenkov, Molotov, Vorochilov, Mikoian, Kaganovitch, 
Kruschev, Bulganin e Beria-, o problema político posto pela sucessão de Stalin era particularmente complexo. Eles 
deviam, ao mesmo tempo, assegurar a continuidade do sistema, repartir entre si as responsabilidades, encontrar um 
equilíbrio entre a preeminência de apenas um, mesmo que de fornia atenuada, e o exercício do colegiado, 
administrando as ambições individuais e as relações de forcas, e, finalmente, introduzir rapidamente um certo número 
de mudanças, sobre as quais já havia um amplo consenso a respeito de sua necessidade. 

A difícil conciliação entre esses objetivos explica o encaminhamento extremamente complexo e tortuoso do 
curso político entre a morte de Stalin e a eliminação de Beria (preso em 26 de junho de 1953). 

Os resumos estenográficos, hoje acessíveis, das sessões plenárias do Comitê Central, ocorridas em 5 de março 
de 1953 (dia da morte de Stalin) e de 2 a 7 de julho de 19531 (após a eliminação de Beria), tornam claras as razões que 
levaram os dirigentes soviéticos a se engajar nessa “saída do stalinis-mo”, que Nikita Kruschev transformaria em 
“desestalinização”, com seus pontos culminantes - primeiro o XX Congresso do PCUS, em fevereiro de 1956, depois o 
XXII Congresso, em outubro de 1962. 

A primeira dessas razões foi o instinto de sobrevivência, a autodefesa. No curso dos últimos meses da vida de 
Stalin, quase todos os dirigentes haviam sentido a que ponto eles próprios tinham se tornado vulneráveis. Ninguém 
estava a salvo, nem Vorochilov, tratado como “agente da Intelli-gence Service”, nem Molotov, nem Mikoian, ambos 
cassados pelo ditador de seus cargos no Presidium do Comitê Central, nem Beria, ameaçado por intrigas obscuras no 
interior dos serviços de Segurança, manipulados por Stalin. Do mesmo modo, nos escalões intermediários, as elites 
burocráticas que se haviam reconstituído depois da guerra temiam e rejeitavam os aspectos terroristas do regime. A 
onipotência da polícia política constituía um último obstáculo que os impedia de se aproveitarem de uma carreira 
estável. Foi preciso começar pelo desmantelamento do que Martin Malia chamou justamente de “a maquinaria posta 
em prática pelo ditador defunto para o seu próprio uso”, a fim de se assegurar de que ninguém pudesse se servir dela 


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para afirmar sua preeminência, em prejuízo de seus colegas - e rivais - políticos. Bem mais do que divergências de 
fundo sobre as reformas a serem empreendidas, havia o medo do retorno ao poder de um novo ditador capaz de reunir 
numa nova coalizão os “herdeiros de Stalin” contra Beria. Este último aparecia, então, como o dirigente mais poderoso, 
pois dispunha dos enormes aparelhos da Segurança e do Interior. Uma lição se impunha a todos: era necessário que os 
aparelhos repressivos não escapassem mais ao “controle do Partido” - mais claramente, tornando-se a arma de uma 
única pessoa - e ameaçassem a oligarquia política. 

A segunda razão da mudança, mais fundamental, se atinha à percepção da necessidade de reformas 
econômicas e sociais, compartilhada pelos principais dirigentes, tanto Kruschev quanto Malenkov. A gestão 
exclusivamente repressiva da economia, baseada no controle quase total da produção agrícola, na criminalização das 
relações sociais e na hipertrofia do Gulag, levara o país a uma grave crise econômica e a bloqueios sociais que 
excluíam todo progresso da produtividade do trabalho. O modelo econômico posto em prática nos anos 30, contra a 
vontade da imensa maioria da sociedade e que desembocara nos ciclos repressivos descritos anteriormente, estava 
ultrapassado. 

Enfim, a terceira razão da mudança devia-se à própria dinâmica das lutas pela sucessão, que alimentavam uma 
espiral de apostas políticas: foi Nikita Kruschev quem, por um certo número de razões que não analisaremos aqui - 
aceitação pessoal em afrontar-se com seu passado stalinista, remorso autêntico, habilidade política, populismo 
específico, ligação a uma certa forma de fé socialista em um “futuro radioso”, vontade de retorno ao que ele 
considerava como uma “legalidade socialista”, etc. -, acabou por ir mais longe que todos os seus colegas na via de uma 
desestalinização comedida e parcial sobre o plano político, embora radical sobre o plano da vida cotidiana da 
população. 

Quais foram, então, as principais etapas do desmantelamento da maquinaria repressiva, desse movimento que, 
em poucos anos, contribuiu para fazer a União Soviética passar de um sistema marcado por um forte nível de repressão 
judiciário e extrajudiciário a um regime autoritário e policial, no qual a memória do Terror se tornaria, durante toda 
uma geração, um dos esteios da ordem pós-stalinista? 

Menos de duas semanas após a morte de Stalin, o Gulag foi profundamente reorganizado. Ele passou para a 
jurisdição do Ministério da Justiça. Quanto à infra-estrutura econômica, ela foi transferida para os ministérios 
competentes. Porém, mais espetacular do que essas mudanças administrativas, que traduzem claramente um grande 
enfraquecimento da onipotência do Ministério do Interior, foi o anúncio, no Pravda de 28 de março de 1953, de uma 
ampla anistia. Em virtude de um decreto promulgado na véspera pelo Presidium do Soviete Supremo da URSS e 
assinado pelo seu presidente, o marechal Vorochilov, estavam anistiados: 

1. Todos os condenados a penas inferiores a cinco anos; 

2. Todas as pessoas condenadas por prevaricação, crimes econômicos e abusos de poder. 

3. As mulheres grávidas e as mães de crianças menores de dez anos, os menores, os homens de mais de 55 
anos e as mulheres de mais de 50 anos. 

Além disso, o decreto de anistia previa a diminuição da metade das penas ainda por cumprir dos demais 
prisioneiros, exceto os condenados por crimes “contra-revolucionários”, roubo de grandes quantias, banditismo e morte 
com premeditação. 

Em poucas semanas, cerca de 1.200.000 prisioneiros deixaram o Gulag, ou seja, algo em torno da metade de 
toda a população dos campos e colônias penitenciárias. A maior parte deles era composta por pequenos delinquentes, 
condenados por furtos menores, ou mais frequentemente por simples cidadãos que sofreram as consequências de uma 
das inúmeras leis repressivas. Essas leis atingiam quase todas as esferas de trabalho, do “abandono do posto de 
trabalho” à “infração à lei de passaportes interiores”. Essa anistia parcial, que excluía principalmente os prisioneiros 
políticos e os “deslocados especiais”, refletia, por sua própria ambiguidade, as evoluções ainda maldefinidas e os 
encaminhamentos ainda tortuosos em curso durante a primavera de 1953, período de intensas lutas pelo poder, durante 
o qual Lavrenti Beria, primeiro vice-presidente do Conselho de Ministros e ministro do Interior, pareceu vestir a pele 
do “grande reformador”. 

Por quais considerações era ditada essa ampla anistia? De acordo com Amy Knight,2 biógrafa de Lavrenti 
Beria, a anistia de 27 de março de 1953, decidida por iniciativa do próprio ministro do Interior, inscrevia-se em uma 
série de medidas políticas que testemunhavam a “virada liberal” de Beria, engajado nas lutas pela sucessão do poder 
após a morte de Stalin, e preso em uma espiral de apostas políticas. Para justificar essa anistia, Beria enviara ao 
Presidium do Comitê Central, em 24 de março, uma longa nota na qual ele explicava que somente 221.435 dos 
2.526.402 prisioneiros que compunham o Gulag eram “criminosos particularmente perigosos ao Estado”, em sua maior 
parte prisioneiros dos “campos especiais”. Em sua imensa maioria, reconhecia Beria (notável e surpreendente 
confissão!), os prisioneiros não constituíam nenhuma séria ameaça ao Estado. Uma ampla anistia era desejável para 
descongestionar rapidamente um sistema penitenciário excessivamente pesado e pouco rentável. 


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A questão da gestão cada vez mais difícil do imenso Gulag era regularmente evocada desde o início dos anos 
50. A crise do Gulag, reconhecida pela maioria dos dirigentes bem antes da morte de Stalin, traz novos esclarecimentos 
sobre a anistia de 27 de março de 1953. Por conseguinte, razões econômicas - e não somente políticas - conduziam os 
candidatos à sucessão de Stalin, a par das imensas dificuldades de gestão de um Gulag superpovoado e cada vez menos 
“rentável”, a proclamar uma ampla, apesar de parcial, anistia. 

Nesse domínio como em tantos outros, nenhuma medida radical podia ser tomada enquanto Stalin estivesse 
vivo. Segundo a correia fórmula do historiador Moshe Lewin, nos últimos anos do ditador, tudo estava “mumificado”. 

Todavia, com Stalin já morto, “nem tudo ainda era possível”: estava excluída a anistia de todos aqueles que 
haviam sido as principais vítimas da arbitrariedade do sistema: os “políticos”, condenados por atividades contra- 
revolucionárias. 

A exclusão dos políticos da anistia de 27 de março de 1953 esteve na origem de um certo número de tumultos 
e revoltas de prisioneiros nos campos de regime especial do Gulag, do Retchlag e do Steplag. 

Em 4 de abril, o Pravda anunciou que os “assassinos de jaleco branco” haviam sido vítimas de uma cilada e 
que suas confissões tinham sido arrancadas com o uso de “métodos ilegais de interrogatório” (subentendido: sob 
tortura). O evento foi ainda amplificado pela resolução adotada pelo Comitê Central, poucos dias mais tarde, “Sobre a 
violação da legalidade pelos órgãos de Segurança de Estado”. Ficava claro que o caso dos médicos assassinos não fora 
um acidente isolado, que a Segurança de Estado se havia arrogado poderes exorbitantes e que ela havia multiplicado os 
atos ilegais. O Partido rejeitava esses métodos e condenava o poder excessivo da polícia política. A esperança 
engendrada por esses textos provocou imediatamente várias reações: os tribunais foram submergidos por centenas de 
milhares de pedidos de reabilitação. Quanto aos prisioneiros, principalmente aqueles dos campos especiais, 
exasperados pelo caráter limitado e seletivo da anistia de 27 de março e conscientes da confusão dos carcereiros e da 
crise que o sistema repressivo atravessava, eles se recusaram em peso a trabalhar e a obedecer às ordens dos 
comandantes dos campos. Em 14 de maio de 1953, mais de 14 prisioneiros de diferentes seções do complexo 
penitenciário de Norilsk fizeram uma greve e organizaram Comitês compostos por membros eleitos pelos diferentes 
grupos nacionais, nos quais os ucranianos e os bálticos possuíam um papel-chave. As principais reivindicações dos 
prisioneiros eram: a diminuição da jornada de trabalho para nove horas; a supressão do número de matrícula sobre as 
roupas; a ab-rogação das limitações concernentes à correspondência com a família; a expulsão de todos os delatores; e 
a extensão do benefício de anistia aos políticos. 

O anúncio oficial, em 10 de julho de 1953, da prisão de Beria, acusado de ter sido espião inglês e “inimigo 
feroz do povo”, confortou os prisioneiros com a idéia de que alguma mudança importante estava acontecendo em 
Moscou e os tornou intransigentes em suas reivindicações. O movimento de recusa ao trabalho amplificou-se. Em 14 
de julho, foi a vez de mais de 12 mil prisioneiros do complexo penitenciário de Vorkuta iniciarem uma greve. Símbolo 
da mudança dos tempos, tanto em Norilsk quanto em Vorkuta, negociações foram engajadas, e o assalto contra os 
prisioneiros foi adiado por várias vezes. 

Do verão de 1953 até o XX Congresso, em fevereiro de 1956, a agitação permaneceu endémica nos campos de 
regime especial. A revolta mais importante e mais longa estourou em maio de 1954, na terceira seção do complexo 
penitenciário do Steplag, em Kenguir, próximo a Karaganda (Cazaquistão). Ela durou 40 dias e só foi reduzida quando 
as tropas especiais do Ministério do Interior invadiram o campo com tanques. Cerca de 400 prisioneiros foram julgados 
e de novo condenados, enquanto que os seis membros sobreviventes da comissão que havia dirigido a resistência foram 
executados. 

Como sinal da mudança política ocorrida após a morte de Stalin, algumas das reivindicações expressas pelos 
prisioneiros em 1953-1954 foram então satisfeitas: a duração do trabalho diário foi reduzida para nove horas, e 
melhoras significativas foram introduzidas em sua vida cotidiana. 

Em 1954-1955, o governo tomou uma série de medidas que limitavam a onipotência da Segurança de Estado, 
profundamente remanejada após a eliminação de Bería. As troiki - tribunais especiais para o julgamento de casos 
levantados pela polícia política - foram suprimidas. A polícia política foi reorganizada como um organismo que tomou 
o nome de Komitet Gosudarstvennoi Bezopasnosti (KGB, Comitê da Segurança de Estado), expurgada de cerca de 
20% de seus efetivos anteriores a março de 1953 e posta sob a autoridade do general Serov, que havia, sobretudo, 
supervisionado as deportações dos povos durante a guerra. Considerado como próximo a Nikita Kruschev, o general 
Serov encarnava todas as ambiguidades de um período de transição no qual muitos dos responsáveis de ontem 
permaneciam em cargos estratégicos. O governo decretou novas anistias parciais, sendo que a mais importante, em 
setembro de 1955, permitiu a libertação das pessoas que foram condenadas em 1945 pela “colaboração com o invasor” 
e dos prisioneiros de guerra alemães ainda detidos na URSS. Enfim, um certo número de medidas foram tomadas em 
favor dos “colonos especiais”. Principalmente, eles receberam a autorização para se deslocarem por um perímetro mais 
amplo e para comparecerem menos frequentemente à komandatura da qual dependiam. Após as negociações ger-mano- 
soviéticas de mais alto nível, os alemães deportados, que representavam mais de 40% do número total de colonos 


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especiais (um pouco mais de um milhão para cerca de 2.750.000), foram os primeiros a se beneficiarem, a partir de 
setembro de 1955, da abolição das restrições que pesavam sobre essa categoria de proscritos. Entretanto, os textos da 
lei detalhavam que a ab-rogação das restrições jurídicas, profissionais, de estatuto e de residência não poderia acarretar 
“nem a restituição dos bens confiscados nem o direito de retorno aos locais de onde os colonos especiais haviam sido 
retirados”. 

Essas restrições eram bastante significativas dentro do desenrolar do processo, parcial e gradual, do que se 
chamou a “desestalinização”. Conduzida por Nikita Kruschev, um stalinista que havia participado diretamente da 
repressão, como todos os dirigentes de sua geração - deskulakização, expurgos, deportações, execuções -, a 
desestalinização podia somente se limitar à denúncia de alguns excessos do “período de culto da personalidade”. O 
Relatório Secreto, lido na noite de 24 de fevereiro de 1956 por Kruschev, diante dos delegados soviéticos no XX 
Congresso, ainda era bastante seletivo na condenação ao sta-linismo, não recolocando em questão nenhuma das 
grandes escolhas do Partido desde 1917. Esse caráter seletivo também aparece tanto na cronologia do “desvio” 
stalinista - datado de 1934, eram excluídas do capítulo de crimes a coletivização e a fome de 1932-1933 - quanto nas 
escolhas das vítimas mencionadas, todas elas comunistas, geralmente de estrita obediência stalinista, 

5 V. N. Zemskov, “Massovoie osvobozdenie spetzposelentsev i ssylnyx” (“A libertação em massa dos 
deslocados especiais e dos exilados”), embora nunca tenham sido citados os simples cidadãos. Circunscrevendo o 
campo da repressão apenas aos comunistas, vítimas da ditadura pessoal de Stalin, e limitando-o a episódios precisos de 
uma história que só começava após o assassinato de Serge Kirov, o Relatório Secreto elidia a questão central: a da 
responsabilidade total do Partido perante a sociedade, desde 1917. 

O Relatório Secreto foi seguido por um certo número de medidas concretas que completavam a limitação das 
disposições tomadas até esse momento. Em março-abril de 1956, todos os colonos especiais pertencentes a algum dos 
“povos punidos” por uma pretensa colaboração com a Alemanha nazista e deportados em 1943-1945 foram “retirados 
da vigilância administrativa dos órgãos do Ministério do Interior”, sem poder, no entanto, pretender à restituição de 
seus bens confiscados, nem retornar a sua região. Essas semimedidas causaram muita ira entre os deportados; vários 
dentre eles se recusaram a assinar o engajamento por escrito com a administração, que exigia deles não reclamar a 
restituição de seus bens e não retornar às suas regiões de origem. Diante de uma atitude que denotava uma mudança 
notável do clima político e das mentalidades, o governo soviético fez novas concessões, restabelecendo, em janeiro de 
1957, as antigas repúblicas e regiões autónomas dos povos deportados, que haviam sido dissolvidas tão logo começara 
a guerra. Apenas a república autónoma dos tártaros da Criméia não foi restaurada. 

Durante três décadas, os tártaros da Criméia lutariam para que lhes fosse reconhecido o direito de retorno. A 
partir de 1957, os karachais, os kal-muks, os balkars, os chechenos e os inguches tomaram, às dezenas de milhares, o 
caminho de volta. Mas nada lhes foi facilitado pelas autoridades. Ocorreram vários incidentes entre os deportados que 
desejavam reintegrar suas antigas moradias e os colonos russos que haviam sido trazidos das regiões vizinhas em 1945, 
e que ocupavam esses endereços a partir de então. Não tendo propiska - um registro junto à polícia local que dava o 
direito jurídico de habitar apenas em uma dada localidade - os antigos deportados, de volta a sua terra, foram obrigados, 
mais uma vez, a se instalar em barracões improvisados, em favelas, em barracas de lona, sob a ameaça permanente de 
serem presos, a qualquer momento, por infração ao regime de passaportes (o que era passível de dois anos de cadeia). 
Em julho de 1958, a capital chechena, Grozny, foi palco de confrontos sangrentos entre russos e chechenos. Uma calma 
precária só foi estabelecida após a liberação de fundos para a construção de habitações para os ex-deportados pelas 
autoridades russas. 

Oficialmente, a categoria dos colonos especiais só deixou de existir em janeiro de 1960. Os últimos deportados 
libertados de seu estatuto de pária foram os nacionalistas ucranianos e bálticos. Cansados de se defrontarem mais uma 
vez com os obstáculos administrativos ao seu retorno feitos pelas autoridades, menos da metade dos deportados 
bálticos e ucranianos retornou às suas regiões. Os outros sobreviventes “criaram raízes” em seus locais de deportação. 

Foi somente após o XX Congresso que a maioria dos contra-revolucio-nários foi libertada. Em 1954-1955, 
menos de 90.000 entre eles foram soltos. Em 1956-1957, cerca de 310.000 contra-revolucionários deixaram o Gulag. 
Em 1º de janeiro de 1959, ainda havia 11.000 políticos nos campos de concentração.? Para acelerar os procedimentos, 
mais de duzentas comissões especiais de revisão foram enviadas aos campos, e várias anistias foram decretadas. 
Entretanto, a libertação ainda não significava a reabilitação. Em dois anos (1956-1957), menos de 60 mil pessoas foram 
devidamente reabilitadas. A imensa maioria teve de esperar vários anos, e por vezes décadas, antes de obter o precioso 
certificado. Entretanto, o ano de 1956 permanece na memória coletiva como sendo o ano do “retorno”, admiravelmente 
descrito por Vassili Grossman em seu relato, Toutpasse. Esse grande retorno, que ocorria no mais absoluto silêncio 
oficial e que lembrava também que milhões de pessoas não retornariam jamais, só poderia ter provocado uma profunda 
confusão nos espíritos, um amplo traumatismo social e moral e um face a face trágico em uma sociedade na qual, como 
escrevia Lydia Tchukovskaia, “a partir de então, duas Rússias se olhavam nos olhos. A que aprisionou e a que foi 
aprisionada”. Diante dessa situação, a primeira preocupação das autoridades foi a de não atender aos pedidos 


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individuais e coletivos concernentes às perseguições a serem feitas aos funcionários autores de violações à legalidade 
socialista ou de métodos ilegais de interrogatório durante o período de culto da personalidade. A única via de recurso 
eram as comissões de controle do Partido. Sobre o capítulo das reabilitações, as autoridades políticas enviaram aos 
tribunais um certo número de circulares fixando as prioridades: membros do Partido e militares. Não houve nenhuma 
depuração. 

Com a libertação dos políticos, o Gulag pós-stalinista viu seus efetivos se dissolverem, antes de se 
estabilizarem, no fim dos anos 50 e início dos anos 60, em torno de 900.000 prisioneiros, ou seja, um núcleo de 
300.000 prisioneiros comuns e recidivistas pagando longas penas, e 600.000 pequenos delinquentes condenados a 
penas frequentemente desproporcionais em relação aos delitos cometidos, com base nas leis repressivas ainda em vigor. 
Desapareceu pouco a pouco o papel pioneiro do Gulag na colonização e na exploração das riquezas naturais do Grande 
Norte e do Extremo Oriente soviético. Os imensos complexos penitenciários do período stalinista se fragmentaram em 
unidades menores. A geografia do Gulag modificou-se deste modo: a maior parte dos campos de concentração foi 
reinstalada na região europeia da URSS. O aprisionamento retomou aos poucos a função reguladora que ele possui 
normalmente em cada sociedade, mantendo na União Soviética pós-stalinista, todavia, algumas especificidades 
próprias a um sistema que não era o de um Estado de direito. Com efeito, aos criminosos juntaram-se, ao sabor das 
campanhas que reprimiam esporadicamente este ou aquele comportamento que de uma hora para outra passara a ser 
considerado intolerável - alcoolismo, vandalismo, “parasitismo” -, cidadãos “comuns”, assim como uma minoria de 
pessoas (algumas centenas por ano) condenadas principalmente por infração aos artigos 70 e 190 do novo Código 
Penal, promulgado em 1960. 

As diferentes medidas de libertação e as anistias foram complementadas por modificações capitais na 
legislação penal. Entre as primeiras medidas que reformavam a legislação stalinista figurava o decreto de 25 de abril de 
1956, que abolia a lei antioperária de 1940, relativa à proibição aos operários de deixarem sua empresa. Esse primeiro 
passo em direção à descriminação das relações de trabalho foi seguido por vários outros dispositivos. Todas as medidas 
parciais foram sistematizadas com a adoção dos novos “Fundamentos do Direito Penal”, em 25 de dezembro de 1958. 
Esses textos invalidaram os dispositivos centrais da legislação penal dos códigos precedentes, principalmente as noções 
de “inimigo do povo” e de “crime contra-revolucionário”. Aliás, a idade de responsabilidade penal foi elevada de 14 
para 16 anos; a violência e as torturas não podiam mais ser empregadas para arrancar confissões; o acusado devia estar 
obrigatoriamente presente à audiência, defendido por um advogado informado sobre o seu dossiê; salvo exceção, os 
debates deviam ser públicos. Porém, o Código Penal de 1960 mantinha um certo número de artigos que permitiam a 
punição de toda forma de desvio político ou ideológico. Nos termos do artigo 70, todo indivíduo “que promova uma 
propaganda que vise enfraquecer o poder soviético... por meio de asserções caluniosas denegrindo o Estado e a 
sociedade” é passível de uma pena de seis meses a sete anos em campos de concentração, seguido de um exílio interior 
com duração de dois a cinco anos. O artigo 190 condenava toda “não-denúncia” de delito anti-sovié-tico a uma pena de 
um a três anos em campo de concentração ou a uma pena equivalente de trabalhos de interesse coletivo. Nos anos 60 e 
70, esses dois artigos foram amplamente utilizados contra as formas de “desvio” político ou ideológico: 90% das 
poucas centenas de pessoas condenadas a cada ano por “anti-sovietismo” o foram em decorrência desses dois artigos. 

No decorrer desses anos de “degelo” político e de melhora global do nível de vida, mas nos quais a memória 
da repressão ainda permanecia viva, as formas ativas de desacordo ou de contestação permaneceram bastante 
minoritárias: para a primeira metade dos anos 60, os relatórios da KGB reconheciam 1.300 “opositores” em 1961, 
2.500 em 1962, 4.500 em 1964 e 1.300 em 1965. Nos anos 60 e 70, três categorias de cidadãos foram objeto de uma 
“estreita” vigilância pelos serviços da KGB: as minorias religiosas (católicas, batistas, pentecostais, adventistas), as 
minorias nacionais mais atingidas pela repressão durante o período stalinista (bálticos, tártaros da Criméia, alemães, 
ucranianos das regiões ocidentais onde a resistência à sovietização havia sido particularmente forte) e a intelligentsia 
criadora participante do movimento “dissidente” surgido no início dos anos 60. 

Após uma última campanha anticlerical, lançada em 1957, que se limitava na maior parte das vezes ao 
fechamento de um certo número de igrejas reabertas após a guerra, o confronto entre o Estado e a Igreja Ortodoxa deu 
lugar a uma coabitação. A partir desse momento, a atenção dos serviços especializados da KGB estava mais 
particularmente voltada para as minorias religiosas, mais suspeitas por um suposto apoio recebido do exterior do que 
propriamente por suas convicções religiosas. Alguns dados esparsos demonstram o aspecto marginal desse fenómeno: 
em 1973-1975, 116 batistas foram presos; em 1984, 200 batistas pagavam penas em prisões ou em campos de 
concentração, sendo que a duração média das condenações era de um ano. 

Na Ucrânia Ocidental, que fora durante muito tempo uma das regiões mais resistentes à sovietização, uma 
dezena de “grupelhos nacionalistas”, herdeiros da OUN, foram desmantelados em Ternopol, Zaporojie, Ivano- 
Frankovsk e Lviv, nos anos 1961-1973. As penas impostas aos membros desses grupelhos eram geralmente 
escalonadas de cinco a dez anos em campo de concentração. Na Lituânia, outra região brutalmente submetida nos anos 
40, as fontes locais dão conta de um número bastante limitado de prisões nos anos 60 e 70. O assassinato de três padres 


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católicos em 1981, em circunstâncias suspeitas que provavelmente implicavam os serviços da KGB, foi ressentido 
como uma provocação intolerável. 

Até o desaparecimento da URSS, o problema dos tártaros da Criméia, deportados em 1944 e cuja república 
autónoma não fora restabelecida, permaneceu como uma pesada herança do período stalinista. Desde o fim dos anos 
50, os tártaros da Críméia, instalados em sua maior parte na Ásia Central, iniciaram - símbolo de que os tempos 
estavam bastante mudados - uma campanha de petições para a sua reabilitação coletiva e para serem autorizados a 
voltar para a sua região. Em 1966, uma petição com 130.000 assinaturas foi depositada por uma delegação tártara no 
XXIII Congresso do Partido. Em setembro de 1967, um decreto do Presidium do Soviete Supremo anulou a acusação 
de “traição coletiva”. Três meses mais tarde, um novo decreto autorizou os tártaros a se instalarem em uma localidade 
que eles escolhessem, com a condição de respeitarem a legislação sobre os passaportes, o que implicava um contrato de 
trabalho em boa e devida forma. De 1967 a 1978, menos de 15.000 pessoas - ou seja, 2% da população tártara - 
conseguiram regularizar sua situação em relação à lei dos passaportes. O movimento dos tártaros da Críméia foi 
ajudado pelo engajamento do general Grigorenko em favor da causa tártara. Ele foi preso em maio de 1969 em 
Tachkent e transferido para um hospital psiquiátrico, uma forma de aprisionamento que atingiu algumas dezenas de 
pessoas por ano, nos anos 70. 

Os historiadores geralmente datam o início da dissidência pelo primeiro processo público da época pós- 
stalinista: o processo contra os escritores Andrei Siniavski e luri Daniel, em fevereiro de 1966, condenados 
respectivamente a sete e cinco anos em campo de concentração. Em 5 de dezembro de 1965, pouco tempo após a prisão 
dos escritores, uma manifestação de apoio reunindo cerca de 50 pessoas ocorreu na praça Puchkin, em Moscou. Os 
dissidentes - algumas centenas de intelectuais em meados dos anos 60 e entre mil e dois mil uma década mais tarde - 
inauguravam um método radicalmente diferente de contestação. Em lugar de negar a legitimidade do regime, eles 
exigiam o estrito respeito às leis soviéticas, à Constituição e aos acordos internacionais assinados pela URSS. As 
modalidades da ação dissidente estavam em conformidade com este novo princípio: recusa da clandestinidade, 
transparência do movimento, ampla publicidade das ações empreendidas graças à realização, tão frequente quanto 
possível, de entrevistas coletivas com a presença de correspondentes estrangeiros. 

Na relação desproporcional de forças entre algumas centenas de dissidentes e o Estado soviético, o peso da 
opinião internacional tornou-se determinante, principalmente após a aparição, no fim de 1973 no Ocidente, do livro de 
Alexandre Soljenitsyne, O Arquipélago do Gulag, seguida pela expulsão do escritor da URSS. Em alguns anos, graças 
à ação de uma ínfima minoria, a questão dos direitos do homem na URSS tornou-se um tema internacional importante e 
o assunto central da Conferência sobre a Segurança e a Cooperação na Europa, iniciada em 1973, em Helsinque. A ata 
final da Conferência, assinada pela URSS, reforçou a posição dos dissidentes, que organizaram, nas poucas cidades em 
que estavam implantados (Moscou, Leningrado, Kiev, Vilnius, etc.), “Comitês de vigilância dos acordos de 
Helsinque”, encarregados de transmitir toda informação sobre a violação dos direitos do homem. Esse trabalho de 
informação vinha sendo empreendido desde 1968 nas condições as mais difíceis, com a publicação bimestral ou 
trimestral de um boletim clandestino, a Crónica dos Eventos Correntes, que assinalava as mais diversas formas de 
ataque à liberdade. Nesse novo contexto de internacionalização da questão dos direitos do homem na URSS, a 
maquinaria policial foi um pouco refreada. Desde que o opositor era conhecido, sua prisão não passava mais 
despercebida e as informações sobre o que estava acontecendo com ele circulavam rapidamente no exterior. De modo 
significativo, o ciclo policial evoluía, a partir de então, em função direta da eventual diminuição das tensões 
internacionais: as prisões foram mais numerosas em 1968-1972 e 1979-1982 do que nos anos 1973-1976. É impossível, 
dado o Estado da documentação atual, esboçar um balanço preciso do número de pessoas presas por motivos políticos 
nos anos 1960-1985. As fontes dissidentes dão conta de algumas centenas de prisões nos anos mais tensos. Em 1970, a 
Crónica dos Eventos Correntes anuncia 106 condenações, 20 das quais a um “encarceramento profilático” em hospital 
psiquiátrico. Para 1971, os números citados pela Crónica etam respectivamente de 85 e 24. Durante os anos 1979-1981, 
anos de confronto internacional, cerca de 500 pessoas foram presas. 

Em um país onde o poder permanecia sempre alheio à expressão livre de opiniões discordantes, opiniões que 
exprimiriam inclusive seu desacordo sobre a própria natureza desse poder, o fenómeno da dissidência - embora ele 
fosse a expressão de uma oposição radical de uma concepção política diversa, que defendia os direitos do indivíduo em 
face dos direitos da coletividade -não poderia de modo algum levar a uma ação direta sobre o corpus social. A 
verdadeira mudança estava em outro lugar: nas múltiplas esferas de autonomia social e cultural desenvolvidas a partir 
dos anos 60 e 70, e ainda mais em meados dos anos 80, com a tomada de consciência, por uma parte das elites 
políticas, da necessidade de uma mudança tão radical quanto aquela ocorrida em 1953. 


A guisa de conclusão 


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Esta síntese não tem a pretensão de apresentar revelações sobre o exercício da violência de Estado na URSS e 
sobre as formas de repressão postas em prática durante a primeira metade da existência do regime soviético. Essa 
especificidade já foi, há bastante tempo, explorada pelos historiadores, que não esperaram a abertura dos arquivos para 
retraçar as principais sequências e a dimensão do terror. Em contrapartida, o acesso às fontes permite o estabelecimento 
de um primeiro balanço nos seus desdobramentos cronológicos, em seu aspecto quantitativo e em suas formas. Esse 
esboço constitui uma primeira etapa no estabelecimento de um inventário das questões sobre as práticas de violência, 
sua recorrência e seu significado em diferentes contextos. 

Tal método insere-se em um enorme campo de trabalho aberto, já há algumas décadas, tanto no Ocidente 
quanto na Rússia. Desde a abertura -embora parcial - dos arquivos, os historiadores procuraram confrontar, antes de 
mais nada, a historiografia constituída na “anormalidade” às fontes então disponíveis. É assim que, já há alguns anos, 
um certo número de historiadores, sobretudo russos, trouxeram ao conhecimento público materiais hoje fundamentais, 
que serviram de base a todos os estudos recentes e em curso. Vários aspectos foram privilegiados, em particular o 
universo concentra-cional, a confrontação entre o poder e os camponeses e os mecanismos de tomada de decisão nos 
altos escalões. Historiadores como V. N. Zemskov ou N. Bugai, por exemplo, efetuaram um primeiro balanço 
quantitativo das deportações em todo o período stalinista. V. P. Danilov, na Rússia, e A. Graziosi, na Itália, puseram 
em evidência a continuidade e ao mesmo tempo o centralismo dos confrontos entre o novo regime e o campesinato. 
Através dos arquivos do Comitê Central, O. Khlevniuk trouxe um certo número de esclarecimentos sobre o 
funcionamento do “primeiro círculo do Kremlin”. 

Apoiando-me nessas pesquisas, tentei reconstituir, a partir de 1917, o desdobramento desses ciclos de 
violência que estão no coração da história social, ainda com muito a ser escrito, da URSS. Retomando uma trama já 
bastante explorada pelos “pioneiros”, que reconstituíram ex nihilo os muros trágicos dessa história, selecionei as fontes 
que me pareceram as mais exemplares da diversidade das formas de violência e de repressão, das práticas e dos grupos 
de vítimas, mas também das lacunas e das contradições: violência extrema do discurso leninista contra os oponentes 
mencheviques que deveriam ser “todos fuzilados”, mas que, de acordo com os fatos, foram com mais frequência 
aprisionados. Violência extrema dos destacamentos de requisição que, no fim de 1922, continuam a aterrorizar o 
campo, apesar de a NEP já ter sido decretada pelo Centro há mais de um ano. Alternância contraditória, nos anos 30, 
entre as fases espetaculares de prisões em massa e de reposição em liberdade, dentro do contexto de uma campanha de 
“desentupimento das prisões”. Por detrás da multiplicidade de casos apresentados, a intenção foi a de produzir um 
inventário das formas de violência e de repressão que amplie o campo de questionamentos sobre os mecanismos, a 
dimensão e o significado do terror de massa. 

A permanência dessas práticas até a morte de Stalin e sua incidência determinante na história social da URSS 
justificam, segundo me parece, a colocação da história política em segundo plano, pelo menos em uma primeira etapa. 
A esse esforço de reconstituição se junta uma tentativa de síntese que dá conta dos conhecimentos mais antigos ou 
recentemente adquiridos e dos documentos que interpelam e suscitam novas questões. Esses documentos são, na maior 
parte das vezes, relatórios de campo - correspondências de funcionários locais sobre a fome, relatórios da Tcheka local 
sobre as greves de operários em Tuia, prestação de contas da administração dos campos de concentração sobre o estado 
dos prisioneiros - que trazem à cena realidades concretas e situações-limite nesse universo de extrema violência. 

Para poder destacar os diversos questionamentos no coração deste estudo, é preciso, antes de mais nada, 
relembrar os diferentes ciclos de violência e de repressão. 

O primeiro ciclo, do fim de 1917 ao fim de 1922, abre-se com a tomada do poder que, para Lenin, passa 
necessariamente por uma guerra civil. Após uma fase bastante breve de instrumentação das violências espontâneas que 
emanam da sociedade, que agiram também como forças corrosivas da “antiga ordem”, assistimos, a partir da primavera 
de 1918, a uma ofensiva deliberada contra os camponeses que, além de confrontos militares entre “Vermelhos” e 
“Brancos”, servirá de modelo, durante várias décadas, às práticas de terror e condicionará a impopularidade assumida 
pelo poder político. O impressionante, apesar dos riscos ligados à precariedade do poder, é a recusa de toda negociação, 
a aposta na remoção de todo obstáculo, o que particularmente explica as repressões aplicadas aos “aliados naturais” dos 
bolcheviques - os operários; sob esse ponto de vista, a revolta de Kronstadt é apenas 


uma decorrência. Esse primeiro ciclo não se encerra nem com a derrota dos Brancos, nem com a NEP: ele se prolonga 
em uma dinâmica mantida pela base formada por uma violência e só vai se fechar com a fome de 1922, que aniquila as 
últimas resistências dos camponeses. 

Que significado dar a essa curta pausa que, de 1923 a 1927, se interpõe entre dois ciclos de violências? Vários 
elementos falam em favor de uma saída progressiva da cultura da guerra civil: os efetivos da polícia política diminuem 
intensamente, constata-se uma trégua com os camponeses e o início de uma regulamentação jurídica. Porém, a polícia 
política não somente não desaparece como conserva suas funções de controle, de vigilância e de fichamento. A própria 
brevidade dessa pausa relativiza o seu sentido. 


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Se o primeiro ciclo de repressão não se inscreve num contexto de confrontos diretos e generalizados, o 
segundo inicia-se com uma ofensiva assumida do grupo stalinista contra a coletividade camponesa, no contexto de lutas 
políticas nas instâncias superiores do Partido. Por um lado, esse ressurgimento de uma violência extrema é percebido 
como um recomeço. O poder político reata suas ligações com as práticas experimentadas alguns anos antes. Os 
mecanismos ligados à brutalização das relações sociais no decorrer do primeiro ciclo acarretam uma nova dinâmica de 
terror, mas também de regressão, para o próximo quarto de século. Essa segunda guerra declarada aos camponeses é 
decisiva no processo de institucionalização do terror como modo de governo. E por várias razões: ele se estabelece em 
parte sobre uma instrumentalização das tensões sociais, acordando o velho fundo de violência “arcaica” presente no 
mundo rural; ele inaugura sistemas de deportação em massa; ele é o lugar em que se formam os quadros políticos do 
regime. Enfim, ao institucionalizar uma requisição predadora que desorganiza todo o ciclo produtivo, o sistema de 
“exploração feudal-militar”” do campo, segundo a fórmula de Bukharin, desemboca em uma nova forma de servidão e 
abre o caminho para a experiência extrema do stalinismo: a fome de 1933, que ocupa sozinha o lugar mais terrível no 
balanço das vítimas do período stalinista. Após essa situação-limite - não havia mais ninguém para semear nem havia 
mais lugares nas prisões -, um tempo de trégua se esboça brevemente, durante dois anos: pela primeira vez, prisioneiros 
são soltos em massa. Mas as raras medidas de apaziguamento são geradoras de novas tensões: os filhos dos kulaks 
deportados reencontram seus direitos cívicos, mas não são autorizados a retornarem a sua região. 

A partir da guerra camponesa, como se seguem e se articulam as diferentes sequências de terror dos anos 30 e 
da década subsequente? Para distingui-los, podemos apoiar-nos em vários pontos, entre os quais a radicalidade e a 
intensidade das repressões. O tempo do “Grande Terror” concentra, em menos de dois anos (fim de 1936-fim de 1938), 
mais de 85% das condenações à morte pronunciadas por cortes de exceção para todo o período stalinis-ta. Durante 
esses anos, a sociologia das vítimas é um pouco confusa: o grande número de quadros do Partido executados ou presos 
não pode mascarar a grande diversidade sociológica das vítimas, escolhidas ao “acaso” das cotas a serem cumpridas. 
Essa repressão a “todos os azimutes”, cega e bárbara, não significa, nesse apogeu paroxístico do Terror, uma 
incapacidade de contornar um certo número de obstáculos e de resolver os conflitos de outro modo que não fosse 
através da liquidação? 

Uma outra marca das sequências de repressão nos é fornecida pela tipo-logia dos grupos de vítimas. A partir 
de 1938, sobre um fundo de penalização crescente das relações sociais, constatam-se várias ofensivas características no 
decorrer dessa década, sendo que a primeira das quais afeta a “gente comum” das cidades, através de um reforço da 
legislação antioperária. 

A partir de 1940, no contexto da sovietização dos novos territórios anexados, e depois da “Grande Guerra 
Patriótica”, instala-se uma nova sequência de repressão marcada ao mesmo tempo pela designação de novos grupos de 
vítimas, “nacionalistas” e “povos inimigos” e pela sistematização das deportações em massa. As premissas desse novo 
movimento são observáveis desde 1936-1937, principalmente com a deportação dos coreanos num quadro de 
recrudescimento da política de fronteiras. 

A anexação, a partir de 1939, das regiões orientais da Polônia e depois dos países bálticos dá lugar tanto à 
eliminação dos representantes ditos “da burguesia nacionalista” quanto à deportação de grupos minoritários específicos 
- os poloneses da Galícia Oriental, por exemplo. Esta última prática multiplica-se mesmo durante a guerra, desafiando 
as urgências vitais de defesa de um país ameaçado pelo aniquilamento. Deportações em massa de grupos inteiros - 
alemães, chechenos, tártaros, kalmuks, etc. - revelam, entre outras coisas, o domínio adquirido nesse tipo de operações 
desde o início dos anos 30. Essas práticas não estão circunscritas aos períodos de guerra. Elas prosseguem, sob uma 
forma seletiva, durante todo o decorrer dos anos 40, no contexto de um longo processo de pacifícação-sovietização das 
novas regiões incorporadas ao Império. Aliás, durante esse período, o afluxo de grandes contingentes nacionais ao 
Gulag modifica profundamente a configuração do universo dos campos de concentração, onde os representantes dos 
“povos punidos” e os resistentes nacionais ocupam, a partir de então, um lugar de destaque. 

Paralelamente, ao sair da guerra, assiste-se a um novo recrudescimento da penalização dos comportamentos 
sociais, o que tem como consequência o crescimento ininterrupto dos efetivos do Gulag. Assim, esse período de pós- 
guerra marca o apogeu numérico do Gulag, além de marcar o início da crise do universo dos campos de concentração, 
hipertrofiado, atravessado por múltiplas tensões e com uma rentabilidade econômica cada vez mais problemática. 

Aliás, os últimos anos desse grande ciclo stalinista, ainda bastante obscuros, testemunham as derivas 
específicas desse período: sobre o fundo de rea-tivação de um anti-semitismo latente, o retorno à figura do complô põe 
em cena a rivalidade de forças mal-identificadas - clãs no interior da polícia política ou das organizações regionais do 
Partido. Portanto, os historiadores são levados a se interrogar sobre a eventualidade de uma última campanha, um novo 
Grande Terror, da qual a população judia soviética teria sido a vítima potencial. 

Essa breve rememoração dos primeiros 35 anos da história da URSS destaca a permanência das práticas de 
violência extrema como forma de gestão política da sociedade. 


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Não seria agora o momento de retomar a questão clássica da continuidade entre o primeiro ciclo “leninista” e o 
segundo ciclo “stalinista”, um prefigurando o outro? 

A configuração histórica é, nos dois casos, evidentemente, incomparável. O “terror vermelho” se enraíza, no 
outono de 1918, num contexto de confrontos generalizados, e o caráter extremo das repressões engajadas encontra, em 
parte, seu sentido. Em contrapartida, a retomada da guerra camponesa, que está na base do segundo ciclo de violências, 
acontece num país pacificado, e põe em questão a ofensiva durável engajada contra a imensa maioria da sociedade. 
Além da dimensão irredutível dessa diferença contextuai, o exercício do terror como instrumento central a serviço do 
projeto político leninista já está anunciado antes mesmo do início da guerra civil e é assumido como um programa de 
ação que, de fato, pretende ser transitório. Desse ponto de vista, a curta trégua da NEP e os complexos debates entre os 
dirigentes bolcheviques sobre as vias de desenvolvimento continuam sempre a repor a questão de uma possível 
normalização e do abandono das formas de repressão como única forma de resolução das tensões sociais e econômicas. 
Na verdade, durante esses poucos anos, o mundo rural viveu afastado, e a relação entre o poder e a sociedade se 
caracterizou, em grande parte, por uma ignorância recíproca. 

A guerra camponesa que reúne esses dois ciclos de violência se revela aqui corno matricial, no sentido de que 
ela parece despertar as práticas experimentadas e desenvolvidas durante os anos 1918-1922: campanhas de requisições 
forçadas, sobre o fundo da instrumentalização das tensões sociais no interior da comunidade camponesa, confrontos 
diretos e o aumento, encorajado, das formas de brutalidade arcaica. Em ambas as partes, executores e vítimas têm a 
sensação de reviver uma história já conhecida. 

Mesmo que o período stalinista nos mergulhe - por razões evidentes, que se devem à pregnância do terror 
como elemento constitutivo de um modo de governo e de gestão da sociedade - no coração de um universo específico, 
devemos nos perguntar sobre as filiações sugeridas através dos diferentes aspectos da repressão. A esse respeito, 
podemos considerar a questão da deportação através de um primeiro caso de figura: a descossaquização de 1919-1920. 
No contexto da retomada dos territórios cossacos, o governo engaja uma operação de deportação que atinge a totalidade 
da população autóctone. Essa operação se dá como seguinte a uma primeira ofensiva que visara os cossacos abastados, 
mas que havia causado um “extermínio físico em massa”, em razão do zelo demonstrado pelos agentes locais no 
cumprimento de sua tarefa. Por várias razões, esse evento prefigura toda uma série de práticas e encadeamentos que se 
realizarão, numa escala e num contexto bastante diferentes, dez anos mais tarde: aviltamento de um grupo social, 
extrapolação das diretivas num contexto local e, depois, início da erradicação através da deportação. Há, em todos esses 
elementos, semelhanças perturbadoras com as práticas da deskulakização. 

Por outro lado, se ampliamos a reflexão para o fenómeno mais geral da exclusão coletiva, e depois do 
isolamento dos grupos inimigos, tendo como corolário a criação, durante a guerra civil, de todo um sistema de campos 
de concentração, somos levados a destacar, contrariamente, as fortes rupturas entre os dois ciclos de repressão. O 
desenvolvimento dos campos de concentração durante a guerra civil e, nos anos 20, a prática da relegação não podem 
ser comparados, em seus objetivos e em sua realidade, com o universo dos campos de concentração tal como se 
desenvolveu nos anos 30. Com efeito, a grande reforma de 1929 não conduziu somente ao abandono das formas da 
simples detenção; ela põe os fundamentos de um novo sistema, caracterizado, entre outras coisas, pelo trabalho 
forçado. O aparecimento e o desenvolvimento do fenómeno do Gulag nos remetem à questão central da existência ou 
não de um desejo obstinado em excluir e instrumentalizar perenemente a exclusão como um verdadeiro projeto de 
transformação econômica e social. Vários elementos falam em favor dessa tese e foram objeto de importantes 
desenvolvimentos. Em primeiro lugar, o planejamento do terror, tal como ele se manifesta na política de cotas existente 
a partir da deskulakização até o Grande Terror, pode ser interpretado como uma das expressões desse desejo. A 
consulta dos arquivos confirma essa obsessão no cuidado com a contabilidade que anima os vários escalões da 
administração, do mais alto ao mais baixo posto. Balanços numéricos e regulares demonstram, aparentemente, o 
perfeito domínio dos processos de repressão por parte dos dirigentes. Eles também permitem ao historiador a 
reconstituição, em sua complexidade, das escalas de intensidade, sem correr o perigo de cometer excessos 
quantitativos. Em certa medida, a cronologia dos diversos movimentos repressivos, hoje mais bem conhecidos, 
corrobora com a percepção de uma sequência ordenada de operações. 

Entretanto, a reconstituição do conjunto de processos de repressão, da cadeia de transmissão das ordens e da 
maneira pelas quais elas são aplicadas e, finalmente, do desenvolvimento das operações invalida, sob certos aspectos, a 
percepção de um desejo concebido, dominado e inscrito a longo termo. Se abordamos com destaque a questão do 
planejamento repressivo, constatamos vários acontecimentos casuais, falhas recorrentes em diferentes fases das 
operações. Desse ponto de vista, um dos exemplos mais marcantes é o da deportação sem destino dos kulaks, ou seja, 
essa deportação-abandono que dá a medida da improvisação e do caos ambiente. Do mesmo modo, as “campanhas de 
desentupimento” das cadeias destacam a clara ausência de direção. Se abordamos então o processo de transmissão e de 
execução de ordens, só podemos constatar a importância dos fenómenos da antecipação, do “excesso de zelo” ou da 
“deformação da linha” que se manifestam na prática. 


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Se retomamos a questão do Gulag, o interesse e os objetivos do que se tornou sistema são muito mais difíceis 
de discernir à medida que a investigação avança. Diante da visão de uma ordem stalinista, da qual o Gulag seria a face 
“negra”, mais acabada, os documentos atualmente disponíveis sugerem ainda mais contradições que atravessam o 
universo dos campos de concentração: a chegada sucessiva de grupos reprimidos parece contribuir com mais frequência 
para a desorganização do sistema de produção do que para a melhora de sua eficácia; apesar de uma categorização 
bastante elaborada das condições dos reprimidos, as fronteiras entre os vários universos parecem ténues, e mesmo 
inexistentes. Enfim, a questão da rentabilidade econômica desse sistema de administração carcerária permanece posta. 

Diante dessas diferentes constatações quanto às contradições, ao improviso e aos efeitos em cadeia, várias 
hipóteses foram formuladas concernentes às razões que, na cúpula, conduziram à reativação periódica de dinâmicas de 
repressão de massa e de lógicas induzidas pelos próprios movimentos da violência e da instituição do terror. 

Para tentar identificar os motivos que estiveram na origem do grande ciclo stalinista de repressão, os 
historiadores puseram em evidência a parte de improvisação e de enfrentamento de todos os obstáculos na condução da 
“Grande Virada” de modernização. Essa dinâmica de ruptura tem, à primeira vista, o andamento de uma ofensiva de tal 
amplitude, que não há maneira de o poder se dar a ilusão de conseguir controlar, a não ser através de uma radicalização 
crescente das práticas de terror. Encontramo-nos, então, no interior de um movimento de extrema violência, cujos 
mecanismos, efeitos em cadeia e o caráter desmedido continuam a escapar à compreensão dos contemporâneos e, 
também, dos historiadores. O próprio processo de repressão, única resposta aos conflitos e aos obstáculos encontrados, 
gera, por sua vez, movimentos descontrolados que alimentam a espiral de violência. 

Esse fenómeno central do terror na história política e social da URSS põe hoje questões cada vez mais 
complexas. As pesquisas atuais desconstroem, pelo menos em parte, as teses que durante muito tempo dominaram o 
campo da sovietologia. Preservando a ambição de querer trazer uma explicação global e definitiva para um fenómeno 
que, por sua amplitude, resiste à compreensão, essas pesquisas se orientam preferencialmente para a análise dos 
mecanismos e das dinâmicas da violência. 

Nessa perspectiva, as zonas obscuras permanecem numerosas, sendo a mais importante a do papel dos 
comportamentos sociais em jogo no exercício da violência. Se é preciso destacar a parte ausente nesse trabalho de 
reconstrução - quem eram os executores? -, devemos interrogar continuamente a sociedade como um todo, vítima, mas 
também responsável por tudo o que se passou. 


SEGUNDA PARTE 

REVOLUÇÃO MUNDIAL, GUERRA CIVIL E TERROR 
por Stéphane Courtois e Jean-Louis Panné 

1 O Komintern em ação 


Assim que subiu ao poder, Lenin sonhou propagar o incêndio revolucionário pela Europa e depois por todo o 
mundo. Inicialmente, esse sonho respondia ao famoso slogan do Manifesto do Partido Comunista, de Marx, em 1848: 
“Proletários de todos países, uni-vos!” À primeira vista, correspondia também a uma necessidade imperiosa: a 
revolução bolchevique não poderia se manter no poder nem se desenvolver, se não estivesse protegida, apoiada e 
seguida por outras revoluções em países mais desenvolvidos - Lenin pensava sobretudo na Alemanha com o seu 
proletariado bastante organizado e suas enormes capacidades industriais. Essa necessidade conjuntural transformou-se 
rapidamente em um verdadeiro projeto político: a revolução mundial. 

Na época, os eventos pareceram dar razão ao líder bolchevique. A desagregação dos impérios alemão e austro- 
húngaro, consequência da derrota militar de 1918, provocou na Europa uma convulsão política, acompanhada por um 
enorme turbilhão revolucionário. Antes mesmo que os bolcheviques pudessem tomar qualquer iniciativa que não fosse 
verbal e propagandista, a revolução pareceu surgir espontaneamente no rastro da derrota alemã e austro-húngara. 


A revolução na Europa 


A Alemanha foi a primeira a ser afetada, antes mesmo da capitulação, por um motim geral de sua esquadra de 
guerra. A derrota do Reich e a implantação de uma república dirigida pelos social-democratas não conseguiram evitar 
violentos sobressaltos, tanto da parte do exército, da polícia e de diversos grupos ultranacionalistas, quanto dos 
revolucionários que apoiavam a ditadura dos bolcheviques. 

Em dezembro de 1918, Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht publicavam em Berlim o programa do grupo 
Spartakus, deixando o Partido Social Democrata Independente para fundar o Partido Comunista Alemão (KPD) alguns 


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dias mais tarde, fundindo-se com outras organizações. No início de janeiro de 1919, os spartakistas, chefiados por Karl 
Liebknecht - que, muito mais extremista do que Rosa Luxemburgo,1 e, de acordo com o modelo leni-nista, recusava a 
idéia da eleição de uma Assembleia Constituinte -, tentaram uma insurreição em Berlim, sendo esmagados pelos 
militares sob as ordens do governo social-democrata. Presos, os dois líderes foram assassinados em 15 de janeiro. O 
mesmo aconteceu na Baviera, onde, em 13 de abril de 1919, um responsável do KPD, Eugen Levine, tomou a frente de 
uma República de Conselhos, nacionalizou os bancos e começou a formar um exército vermelho. Essa Comuna de 
Munique foi esmagada militarmente em 30 de abril, e Levine, preso em 13 de maio, foi julgado por um tribunal militar, 
condenado à morte e fuzilado em 5 de junho. 

O exemplo mais célebre desse impulso revolucionário foi o da Hungria. Uma Hungria vencida, que aceitou 
mal a amputação da Transilvânia imposta pelos aliados vencedores. Tratou-se do primeiro caso em que os bolcheviques 
puderam exportar sua revolução. No início de 1918, o Partido Bolchevique reuniu em seu interior todos os seus 
simpatizantes não russos, formando uma Federação de Grupos Comunistas Estrangeiros. Assim, havia em Moscou um 
Grupo Húngaro, constituído principalmente por antigos prisioneiros de guerra, que, em outubro de 1918, enviou cerca 
de 20 de seus membros'a Hungria. Em 4 de novembro, foi fundado em Budapeste o Partido Comunista da Hungria 
(PCH), do qual Bela Kun logo tomou a direção. Prisioneiro de guerra, Kun aderira com entusiasmo à Revolução 
Bolchevique, a ponto de tornar-se, em abril de 1918, presidente da Federação de Grupos Estrangeiros. De volta à 
Hungria em novembro, na companhia de 80 militantes, ele foi eleito para a liderança do Partido. Calcula-se que, entre o 
fim de 1918 e o começo de 1919, de 250 a 300 “agitadores” e emissários tenham che gado à Hungria. Graças à 
ajuda financeira dada pelos bolcheviques, os comu nistas húngaros foram sucessivamente capazes de desenvolver a sua 
propagan da e aumentar a sua influência. 

O jornal oficial dos social-democratas, o Nepszava (A Voz do Povo), fazendo forte oposição aos bolcheviques, 
foi atacado em 18 de fevereiro de 

1919 por uma multidão de desempregados e soldados, mobilizados pelos co munistas com a intenção de 
ocupar ou destruir a tipografia. A polícia inter veio; houve oito mortos e uma centena de feridos. Nessa mesma noite, 
Bela Kun e seu estado-maíor foram presos. Levados para uma prisão provisória, eles foram espancados pelos agentes 
da polícia, que queriam assim vingar os colegas mortos durante o assalto ao Nepszava. O presidente húngaro, Michel 
Karolyi, mandou seu secretário informar-se a respeito da saúde do líder comunista, que passou a gozar, a partir de 
então, de um regime bastante liberal, permitindo-lhe que continuasse com sua ação, tão logo a situação se revertesse. 
Em 21 de março, ainda na prisão, Bela Kun obteve um sucesso considerável: a fusão do PCH e do Partido Social 
Democrata. Simultaneamente, a demissão do presidente Karolyi abria o caminho para a proclamação da República dos 
Conselhos, para a libertação dos comunistas aprisionados e para a organização, de acordo com o modelo bolchevique, 
de um Conselho de Estado Revolucionário constituído por comissários do povo. Essa República durou 133 dias, de 21 
de março a 1? de agosto de 1919. 

Logo na primeira reunião, os comissários decidiram criar tribunais revolucionários, presididos por juizes 
escolhidos entre o povo. Através de uma ligação telegráfica regular com Budapeste, estabelecida em 22 de março (com 
218 mensagens trocadas), Lenin, a quem Bela Kun havia saudado como o chefe do proletariado mundial, aconselhava o 
fuzilamento dos social-de-mocratas e dos “pequeno-burgueses”; em sua mensagem aos operários húngaros, em 27 de 
maio de 1919, ele assim justificava o recurso ao terror: “Essa ditadura (do proletariado) implica o exercício de uma 
violência implacável, rápida e determinada, destinada a esmagar a resistência dos exploradores, dos capitalistas, dos 
grandes proprietários rurais e seus partidários. Aquele que não compreendeu isto não é um revolucionário”. 
Imediatamente, os comissários para o comércio, Mátyás Rákosi e, para a economia, Eugen Varga, assim como os 
responsáveis pelos tribunais populares, conquistaram a simpatia dos comerciantes, dos empregados e dos advogados. 
Uma proclamação afixada em todas as paredes resumia o estado de espírito do momento: “Em um Estado proletário, só 
os que trabalham têm o direito a viver!” Trabalhar tornou-se obrigatório, as empresas com mais de 20 operários foram 
expropriadas, seguindo-se as de dez e até mesmo aquelas com menos de dez empregados. 

O exército e a polícia foram desmantelados, constituindo-se um novo exército formado por voluntários seguros 
do ponto de vista revolucionário. Pouco depois, seguiu-se a criação de uma “Tropa do Terror do Conselho 
Revolucionário do Governo”, também conhecida como os “Rapazes de Lenin”. Eles foram responsáveis pela morte de 
cerca de dez pessoas, entre as quais um jovem oficial da marinha, Ladislas Dobsa, um antigo subsecretário de Estado e 
seu filho, diretor das Estradas de Ferro, além de três oficiais da polícia. Os “Rapazes de Lenin” obedeciam às ordens de 
um antigo marinheiro, Jozsef Czerny, que recrutava seus servidores entre os comunistas mais radicais, sobretudo 
prisioneiros de guerra que haviam participado da Revolução Russa. Opondo-se a Bela Kun, que propôs a dissolução 
dos “Rapazes de Lenin”, Czerny aproximou-se de Szamuely, o líder comunista mais radical, e, num gesto de retaliação, 
reuniu seus homens e marchou para a casa dos sovietes, onde Bela Kun recebeu o apoio do social-democrata József 
Haubrich, comissário do povo para a guerra. Finalmente, após uma negociação, os homens de Czerny aceitaram 
integrar o Comissariado do Povo para o Interior ou alistarem-se no exército, o que foi o caso da maioria. 


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Chefiando cerca de 20 “Rapazes de Lenin”, Tibor Szamuely rumou para Szolnok, primeira cidade ocupada 
pelo Exército Vermelho Húngaro, onde mandou executar vários notáveis acusados de colaboração com os romenos, 
considerados como inimigos tanto numa perspectiva nacional (a questão da Transilvânia) quanto política (o regime 
romeno havia feito oposição ao bol-chevismo). Um jovem estudante judeu que viera pedir misericórdia para o pai foi 
executado por ter chamado Szamuely de “besta selvagem”. O comandante do Exército Vermelho tentou em vão refrear 
o ardor terrorista de Szamuely, que circulava pela Hungria com um trem requisitado, enforcando todos os camponeses 
que resistissem às medidas de coletivização. Acusado de ter cometido 150 assassinatos, seu adjunto József Kerekes 
viria a confessar ter fuzilado cinco pessoas e enforcado mais 13 com suas próprias mãos. Não foi possível determinar o 
número exato de execuções. Arthur Koesder afirma que foram menos de 500. No entanto, ele acrescenta: “Não duvido 
de que o comunismo húngaro tenha se degenerado, com o passar do tempo, tornando-se um Estado totalitário e policial, 
seguindo obrigatoriamente o exemplo de seu modelo russo. Porém, essa certeza, adquirida recentemente, não diminui 
em nada o ardor cheio de esperança dos primeiros dias da revolução...” Os historiadores atribuem aos “Rapazes de 
Lenin” 80 das 129 execuções recenseadas, mas há ainda várias centenas de casos a serem levantados. 

Com o crescimento das oposições e a degradação da situação familiar diante das tropas romenas, o governo 
revolucionário recorreu ao anti-semi-tismo. Cartazes denunciavam os judeus, acusando-os de se recusarem a ir para o 
fronte: “Extermine-os se eles não quiserem dar a vida pela causa sagrada da ditadura do proletariado!” Bela Kun 
mandou prender cinco mil judeus poloneses recém-chegados em busca de alimentos. Espoliados de todos os seus bens, 
eles acabaram sendo expulsos. Os radicais do PCH pediram que Szamuely tomasse o poder em mãos; reclamavam 
também um “São Bartolomeu vermelho”, como se essa fosse a única maneira de deter a degradação da República dos 
Conselhos. Czerny tentou reorganizar os seus “Rapazes de Lenin”. Em meados de julho, apareceu no Nepszava o 
seguinte apelo: “Pedimos a todos os antigos membros da tropa terrorista, e a todos que foram desmobi-lizados após a 
sua dissolução, que se apresentem na casa de József Czerny, a fim de serem novamente recrutados...” No dia seguinte, 
foi publicado um desmentido oficial: “Avisamos que toda tentativa de reativação dos antigos Rapazes de Lenin' não 
pode de modo algum ser permitida: eles cometeram crimes tão graves e lesivos à honra do proletariado, que seu novo 
recrutamento ao serviço da República dos Conselho está excluído”. 

As últimas semanas da Comuna de Budapeste foram caóticas. Bela Kun teve de enfrentar uma tentativa de 
golpe dirigida contra a sua vida, muito provavelmente inspirada por Szamuely. No dia 1? de agosto de 1919, ele deixou 
Budapeste sob a proteção de uma missão militar italiana; no verão de 1920 ele refugiou-se na URSS, onde, recém- 
chegado, foi nomeado comissário político do Exército Vermelho, no fronte sul, notabilizando-se então por ter ordenado 
a execução dos oficiais de Wrangel, que se renderam ante a promessa de serem poupados. Szamuely tentou fugir para a 
Áustria, mas, preso em 2 de agosto, suicidou-se. 


Komintern e guerra civil 


No exato momento em que Bela Kun e seus camaradas tentavam fundar uma segunda República dos sovietes, 
Lenin tomou a iniciativa de criar uma organização internacional suscetível de levar a revolução ao mundo inteiro. A 
Internacional Comunista - também denominada Komintern, ou ainda Terceira Internacional - foi fundada em Moscou, 
em março de 1919, e logo surgiu como a rival da Internacional Operária Socialista (a Segunda Internacional, criada em 
1889). No entanto, o Congresso fundador do Komintern atendia mais à satisfação de necessidades propagandistas 
urgentes e à tentativa de captar movimentos espontâneos que abalavam a Europa do que a uma real capacidade de 
organização. A verdadeira fundação do Komintern deve ser considerada como ocorrida durante a realização de seu II 
Congresso, no verão de 1920, com a adoção de 21 condições de admissão, às quais os socialistas que desejassem aderir 
deveriam submeter-se, integrando assim uma organização extremamente centralizada - “o estado-maior da revolução 
mundial” -onde o Partido Bolchevique já possuía o peso determinante relativo ao seu prestígio, à sua experiência e ao 
seu poder de Estado (principalmente nos domínios financeiro, militar e diplomático). 

Logo de início, o Komintern foi concebido por Lenin como um instrumento de subversão internacional entre 
outros - o Exército Vermelho, a diplomacia, a espionagem, etc. -, e a sua doutrina política era estreitamente decalcada 
da dos bolcheviques: era chegado o tempo de substituir a arma da crítica pela crítica das armas. O manifesto adorado 
no II Congresso anunciava orgulhosamente: “A Internacional Comunista é o partido internacional da insurreição e da 
ditadura do proletariado”. Como consequência, a terceira das 21 condições decretava: “Em quase todos os países da 
Europa e da América, a luta armada entra num período de guerra civil. Nessas condições, os comunistas não podem 
confiar na legalidade burguesa. É seu dever criar em todos os lugares, paralelamente à organização legal, um organismo 
clandestino capaz de, nos momentos decisivos, cumprir com o seu dever para com a revolução”. Fórmulas 
eufemísticas: o “momento decisivo” era a insurreição revolucionária, e o “dever para com a revolução” era a obrigação 
de se engajar na guerra civil. Uma política que não se destinava apenas aos países submetidos a ditaduras, mas que se 
aplicava também aos países democráticos, monarquias constitucionais e repúblicas. 


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A 12º condição especificava as necessidades organizacionais ligadas à preparação dessa guerra civil: “Nesses 
tempos de guerra civil obstinada, o Partido Comunista só poderá desempenhar o seu papel se ele for organizado da 
maneira mais centralizada, se houver uma disciplina de ferro próxima da militar, e se seu organismo central estiver 
dotado de plenos poderes, exercendo uma autoridade incontestada e beneficiando-se da confiança unânime dos seus 
militantes”. A 137 condição considerava o caso dos militantes que não fossem “unânimes”: o Partido Comunista [...] 
deve proceder à depuração periódica das suas organizações, a fim de afastar os elementos interesseiros e pequeno- 
burgueses”. 

Durante o II Congresso, reunido em Moscou em junho de 1921, com a participação de vários partidos 
comunistas já constituídos, as orientações foram ainda mais precisas. A “Tese sobre a tática” indicava: O Partido 
Comunista deve inculcar nas mais vastas camadas do proletariado, através da ação e da palavra, a idéia de que todo 
conflito econômico ou político pode, em uma conjuntura favorável, transformar-se em guerra civil, durante a qual a 
tarefa do proletariado será a de tomar o poder político”. E as “Teses sobre a Estrutura, os Métodos, e a Ação dos 
Partidos Comunistas” discorriam longamente sobre as questões da “sublevação revolucionária aberta” e da 
“organização de combate” que cada partido comunista deveria criar secretamente no interior de sua organização; as 
teses especificavam que esse trabalho preparatório era indispensável, uma vez que “não seria esse o momento adequado 
para a formação de um Exército Vermelho regular”. 

Havia apenas um passo a ser dado para se passar da teoria à prática, o que foi feito pela Alemanha em março 
de 1921, quando o Komintern proje-tou uma ação revolucionária de grande envergadura sob a direção de... Bela Kun, 
eleito, nesse meio tempo, membro do Presidium do Komintern. Lançada enquanto os bolcheviques reprimiam a 
Comuna de Kronstadt, “a ação de março”, verdadeira tentativa insurrecional iniciada na Saxônia, fracassou apesar da 
violência dos meios utilizados, como, por exemplo, o ataque com dinamite contra o trem expresso Halle-Leipzig. Esse 
contratempo teve por consequência uma primeira depuração nas fileiras do Komintern. Paul Levi, um dos fundadores e 
presidente do KPD, foi afastado devido às críticas que fazia a esse tipo de “aventureirismo”. Já sob a influência do 
modelo bolchevique, os partidos comunistas - que do ponto de vista “institucional” eram apenas setores nacionais da 
Internacional - afundavam-se cada vez mais na subordinação (que precedia a submissão) política e organizacional ao 
Komintern: era este quem resolvia os conflitos e decidia, em última instância, a linha política de cada um deles. Uma 
tal tendência “insurrecionalista”, que devia muito a Gri-gori Zinoviev, foi criticada pelo próprio Lenin. Mas este 
último, muito embora desse razão a Paul Levi, entregou a direção do KPD aos seus adversários, numa atitude que 
acabou reforçando o peso do aparelho do Komintern. 

Em janeiro de 1923, tropas francesas e belgas ocuparam o Ruhr para exigir da Alemanha o pagamento das 
indenizações previstas no Tratado de Versalhes. Um dos efeitos concretos dessa ocupação foi provocar uma 
aproximação entre nacionalistas e comunistas contra o “imperialismo francês”; outro efeito foi desencadear a 
resistência passiva da região com o apoio do governo. A situação econômica, que já estava instável, degradou-se 
radicalmente; a moeda sofria fortes desvalorizações, e, em agosto, um dólar valia 13 milhões de marcos! Então vieram 
as greves, as manifestações e os motins. Em 13 de agosto, numa atmosfera revolucionária, o governo de Wilhelm Cuno 
caiu. 

Em Moscou, os dirigentes do Komintern perceberam que havia a possibilidade de um novo Outubro. Uma vez 
ultrapassadas as querelas entre os dirigentes - quem encabeçaria essa segunda revolução, Trotski, Zinoviev ou Stalinº -, 
o Komintemn passou a organizar com seriedade uma insurreição armada. Foram enviados comissários à Alemanha 
(August Guralski, Mátyás Rákosi), acompanhados por especialistas em guerra civil (entre os quais o general Alexandre 
Sko-blewski, aliás, Gorev). Para reunirem uma grande quanddade de armas, estava previsto o apoio de governos 
operários em vias de formação, constituídos por social-democratas de esquerda e comunistas. Enviado à Saxônia, 
Rákosi pretendia explodir a ponte ferroviária que ligava essa província à Tchecoslováquia, a fim de provocar sua 
interdição e aumentar ainda mais a confusão. 

A ação deveria ter início durante o aniversário do putsch bolchevique. A excitação tomou conta de Moscou, 
que, acreditando piamente na vitória, posicionou o Exército Vermelho na fronteira ocidental, já preparado para auxiliar 
na revolta. Em meados de outubro, os dirigentes comunistas entraram para os governos da Saxônia e da Turíngia, com 
instruções para reforçar as milícias proletárias (várias centenas), formadas por 25% de operários social-democratas e 
50% de comunistas. Mas, em 13 de outubro, o governo de Gustav Stresemann decretou estado de exceção na Saxônia, 
a partir de então colocada sob o seu controle direto, contando com o apoio e a intervenção da Reichswehr. Apesar 
disso, Moscou incitou os operários a se armarem e, de volta à URSS, Heinrich Brandler decidiu convocar uma greve 
geral para a ocasião de uma conferência das organizações operárias em Chemnitz, no dia 21 de outubro. Á manobra 
fracassou quando os social-democratas de esquerda se recusaram a seguir os comunistas. Estes últimos decidiram então 
retroceder, mas, por razões de comunicação, a informação não chegou aos comunistas de Hamburgo, onde, na manhã 
do dia 23, estourou a revolta: os grupos comunistas de combate (de 200 a 300 homens) atacaram os postos de polícia. 
Passado o efeito-surpresa, os revoltosos não conseguiram atingir seus objeti-vos. A polícia, junto com a Reichswehr, 


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contra-atacou e, ao cabo de 31 horas de combates, a sublevação dos comunistas de Hamburgo, totalmente isolada, foi 
estrangulada. O segundo Outubro, tão desejado por Moscou, não chegou a acontecer. Nem por isso o M-Apparat 
deixou de ser, até os anos 30, uma estrutura importante do KPD, descrita em detalhes por um de seus chefes, Jan Valtin 
(cujo verdadeiro nome era Richard Krebs). 

Depois da Alemanha, foi a vez de a República da Estónia servir de palco a uma tentativa insurrecional. 
Tratava-se da segunda agressão sofrida por esse pequeno país. Com efeito, dia 27 de outubro de 1917, um Conselho de 
Sovietes havia tomado o poder em Tallinn (Reval), dissolvendo a Assembleia e anulando as eleições desfavoráveis aos 
comunistas. Diante da ameaça do corpo expedicionário alemão, os comunistas bateram em retirada. Em 24 de fevereiro 
de 1918, pouco antes da chegada dos alemães, os estonianos proclamaram sua independência. A ocupação alemã durou 
até novembro de 1918. Como consequência da derrota do Kaiser, as tropas alemãs foram, por sua vez, obrigadas a se 
retirarem; os comunistas retomaram bem depressa a iniciativa: em 18 de novembro, foi constituído um governo em 
Petrogrado, e duas divisões do Exército Vermelho invadiram a Estónia. O objetivo dessa invasão foi claramente 
explicado no jornal Sevemaia Kommuna (A Comuna do Norte): “É nosso dever construir uma ponte que ligue a Rússia 
dos sovietes à Alemanha e à Áustria proletárias. [...] A nossa vitória unirá as forças revolucionárias da Europa 
Ocidental às da Rússia, dando uma força irresistível à revolução social universal.” Em janeiro de 1919, o avanço das 
tropas soviéticas, que já se encontravam a apenas 30 quilómetros da capital, foi detido por um contra-ataque estoniano. 
A segunda ofensiva redundou igualmente em fracasso. Em 2 de fevereiro de 1920, os comunistas russos reconheceram 
a independência da Estónia pelo tratado de Tartu. Nas localidades já ocupadas, os bolcheviques passaram à pratica de 
chacinas: em 14 de janeiro de 1920, em Tartu, na véspera de sua retirada, eles assassinaram 250 pessoas, e mais de mil 
no distrito de Rakvere. Logo após a libertação de Wesenberg, em 17 de janeiro, foram abertas três valas comuns (86 
cadáveres). Em Dorpad, os reféns fuzilados em 26 de dezembro de 1919 haviam sido torturados: braços e pernas 
extirpados, e, às vezes, olhos perfurados. Em 14 de janeiro, antes da fuga, os bolcheviques só tiveram tempo de 
executar 20 pessoas, entre as quais o arcebispo Platon, das 200 que estavam sendo mantidas como prisioneiras. Mortas 
com golpes de machado e coronhadas - um oficial foi encontrado com as dragonas do uniforme cravadas em seu corpo 
com pregos! -, as vítimas eram dificilmente identificáveis. 

Derrotados, os soviéticos nem por isso renunciaram a incorporar esse pequeno Estado a sua órbita. Em abril de 
1924, no decorrer dos encontros secretos mantidos em Moscou por Zinoviev, o Partido Comunista estoniano decidiu a 
preparação de uma revolta armada. Os comunistas organizaram meticulosamente grupos de combate estruturados em 
companhias (cerca de mil homens já prontos no outono) e iniciaram um trabalho de desmoralização do exército. Estava 
previsto o desencadear da revolta e depois apoiá-la com uma greve. O Partido Comunista da Estónia, que contava cerca 
de três mil membros e sofria uma repressão severa, tentou, em 19 de dezembro de 1924, tomar o poder em Tallinn e 
proclamar uma República soviética, cujo papel essencial seria o de pedir, tão rápido quanto possível, sua adesão à 
Rússia Soviética, justificando assim o envio do Exército Vermelho. Nesse mesmo dia, o golpe fracassou. Os oficiais 
que se haviam rendido aos revoltosos e se declararam como neutros foram fuzilados, precisamente por terem adotado 
uma atitude de neutralidade: para os golpistas, só a adesão era concebível. Jan Anvelt, o dirigente da operação, 
conseguiu fugir para a URSS. Funcionário do Komintern por muitos anos, ele desapareceu durante os expurgos. 

Após a Estónia, a ação transferiu-se para a Bulgária. Em 1923, esse país havia passado por graves problemas. 
Alexandre Stamboliski, dirigente da coligação formada pelos comunistas e por seu próprio partido, o Partido Agrário, 
fora assassinado em junho de 1923 e substituído no comando por Alexandre Tsankov, que tinha o apoio do exército e 
da polícia. Em setembro, os comunistas iniciaram uma revolta que durou uma semana antes de ser severamente 
reprimida. A partir de abril de 1924, eles mudaram de tática, recorrendo então às ações diretas e aos assassinatos. Em 8 
de fevereiro de 1925, um ataque à subprefeitura de Godetch provocou quatro mortes. Em 11 de fevereiro, em Sofia, o 
deputado Nicolas Mileff, diretor do jornal Slovete presidente do Sindicato dos Jornalistas Búlgaros, foi assassinado. 
Em 24 de março, um manifesto do Partido Comunista Búlgaro (BKP) anunciou prematuramente a inevitável queda de 
Tsankov, revelando assim a ligação entre a ação terrorista e os objetivos políticos dos comunistas. No começo de abril, 
um atentado contra o rei Alexandre I fracassou por muito pouco; no dia 15, o general Kosta Georghieff, um de seus 
colaboradores mais próximos, foi morto. 

Seguiu-se o mais impressionante dos episódios ocorridos durante esses anos de política violenta na Bulgária. 
No dia 17 de abril, durante as cerimónias fúnebres do general Georghieff na catedral de Santa Sofia, uma terrível 
explosão provocou o desabamento da cúpula: contaram-se 140 mortos, entre os quais 14 generais, 16 oficiais superiores 
e três deputados. Na opinião de Victor Serge, o atentado teria sido organizado pela ala militar do Partido Comunista. Os 
presumíveis autores do atentado, Kosta lankov e Ivan Minkov, dois dos dirigentes dessa organização, foram mortos 
com as armas na mão, por ocasião de sua captura. 

O atentado serviu como justificativa para uma repressão feroz: três mil comunistas foram presos e três deles 
enforcados em praça pública. Alguns membros do aparelho do Komintern responsabilizaram o líder dos comunistas 
búlgaros - Georgi Dimitrov, que dirigia clandestinamente o Partido a partir de Viena - por esse atentado. Em dezembro 


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de 1948, diante dos delegados do V Congresso do Partido búlgaro, Dimitrov assumiu a responsabilidade pelo atentado 
em seu nome e no da organização militar.” Segundo outras fontes, o responsável pela destruição da catedral teria sido 
Meir Trilisser, chefe da seção estrangeira da Tcheka e vice-presidente da GPU, condecorado em 1927 com a Ordem da 
Bandeira Vermelha por serviços prestados. Nos anos 30, Trilisser foi um dos secretários do Komintern, assegurando o 
seu controle permanente por parte do NKVD. 

Depois de ter experimentado severos fracassos na Europa, o Komintern, impulsionado por Stalin, descobriu 
um novo campo de batalha: a China, para a qual voltou todas as suas atenções. Em plena anarquia, dilacerado por 
guerras internas e conflitos sociais, mas arrebatado por um formidável sentimento nacionalista, esse imenso país 
parecia maduro para a revolução “antiimperia-lista”. Sinal dos tempos: no outono de 1925, os alunos chineses da 
Universidade Comunista dos Trabalhadores do Oriente (KUTV), fundada em abril de 1921, foram transferidos para 
uma universidade Sun-Yat-Sen. 

Devidamente enquadrado por responsáveis do Komintern e dos serviços soviéticos, o Partido Comunista 
Chinês, ainda sem a liderança de Mão Tsé-tung, foi constrangido, em 1925-1926, a fazer uma estreita aliança com o 
Partido Nacionalista, o Kuomintang, e seu líder, o jovem general Chiang Kai-shek. A tática escolhida pelos comunistas 
consistia em se apoderar do Kuomintang para fazer dele uma espécie de cavalo de Tróia da revolução. O emissário do 
Komintern, Mikhail Borodin, chegou ao posto de conselheiro do Kuomintang. Em 1925, a ala esquerda do Partido 
Nacionalista, que apoiava incondicionalmente a política de colaboração com a União Soviética, conseguiu apoderar-se 
de sua direção. Os comunistas tornaram a sua propaganda mais agressiva, encorajando a agitação social e reforçando a 
sua influência até dominarem o II Congresso do Kuomintang. Mas não tardou para que um obstáculo surgisse em seu 
caminho: Chiang Kai-shek, preocupado com a expansão contínua da influência do comunismo, começou, e com razão, 
a desconfiar de que os comunistas pretendiam afastá-lo. Tomando a iniciativa, Chiang proclamou a lei marcial em 12 
de março de 1926, mandou prender os elementos comunistas do Kuomintang, incluindo os conselheiros militares 
soviéticos - seriam todos libertados alguns dias mais tarde -, afastou o líder da ala esquerda de seu partido e impôs um 
pacto com oito pontos, destinado a limitar as prerrogativas e a ação dos comunistas no seu interior. A partir de então, 
Chiang passou a ser o líder incontestado do Exército Nacionalista. Atento à nova relação de forças, Borodin a ratificou. 

Em 7 de julho de 1926, Chiang Kai-shek, que se beneficiava de uma importante ajuda material da parte dos 
soviéticos, lançou o Exército Nacionalista à conquista do norte da China, ainda em poder dos “senhores da guerra”. No 
dia 29, ele proclamou mais uma vez a lei marcial no Cantão. Os campos chineses de Hunan e Hubei estavam à beira de 
um tipo de revolução agrária que, pela sua própria dinâmica, punha em causa a aliança dos comunistas e nacionalistas. 
Na grande metrópole industrial que Xangai já era naquele tempo, os sindicatos, diante da aproximação do Exército, 
iniciaram uma greve geral. Os comunistas, entre os quais Zhou Enlai, convocaram uma revolta, contando com a entrada 
iminente do Exército Nacionalista na cidade. Nada aconteceu. A sublevação de 22-24 de fevereiro de 1927 fracassou, e 
os grevistas foram ferozmente reprimidos pelo general Li Baozhang. 

Em 21 de março, uma nova greve geral, ainda mais maciça, e uma nova insurreição varreram os poderes 
constituídos. Uma divisão do Exército Nacionalista, cujo general havia sido persuadido a intervir, entrou em Xangai, 
logo seguido por Chiang, decidido a recuperar o controle da situação. Ele realizou tão bem o seu objetivo, que Stalin, 
obnubilado pela política “antiimpe-rialista” de Chiang e de seu exército, ordenou aos comunistas que guardassem as 
armas e se juntassem à frente comum com o Kuomintang. Em 12 de abril de 1927, Chiang reproduziu em Cantão a 
operação de Xangai: os comunistas foram perseguidos e abatidos. 

No entanto, Stalin mudou sua política no pior momento possível: em agosto, para não perder prestígio diante 
dos críticos da oposição, 10 enviou dois emissários “pessoais”, Vissarion Lominadze e Heinz Neumann, com a missão 
de reiniciarem um movimento insurrecional, depois de ter rompido a aliança com o Kuomintang. Apesar do fracasso de 
uma “revolta das colheitas de outono”, orquestrada pelos dois enviados, eles se obstinaram em desencadear uma revolta 
em Cantão, “para oferecer um relatório vitorioso a seu chefe” (Boris Suvarin), no momento exato em que se reunia o 
XV Congresso do Partido Bolchevique que iria excluir os membros da oposição. A manobra era bastante reveladora do 
grau de desprezo pela vida humana a que tinham chegado os bolcheviques, incluindo a vida dos seus próprios 
partidários, o que era uma novidade. A insensata Comuna do Cantão nos oferece um claro testemunho desse fato, mas, 
em sua essência, não era muito diferente das ações terroristas que haviam sido perpetradas na Bulgária alguns anos 
antes. 

Vários milhares de rebeldes enfrentaram, então, durante 48 horas, tropas de cinco a seis vezes mais numerosas. 
Essa Comuna chinesa havia sido mal preparada: ao número insuficiente de armas juntava-se uma conjuntura política 
desfavorável, com os operários cantoneses mantendo-se em uma prudente expectativa. Na noite de 10 de dezembro de 
1927, as tropas leais ao governo se reuniram nos locais previstos pelos Guardas Vermelhos. Tal como acontecera em 
Hamburgo, os revoltosos foram beneficiados por terem tomado a iniciativa, mas essa breve vantagem deixou de existir. 
Na manhã de 12 de dezembro, a proclamação de uma “república soviética” não encontrou nenhum eco na população. 


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Nessa tarde, as forças nacionalistas contra-atacaram. Na manhã seguinte, a bandeira vermelha hasteada no mastro da 
chefatura de polícia foi retirada pelas tropas vitoriosas. A repressão foi selvagem. Milhões de pessoas foram mortas. 

O Komintern deveria ter tirado algum tipo de lição de uma tal experiência, mas era impossível abordar 
questões de política de fundo. Mais uma vez, o uso da violência foi justificado, contra tudo e todos, de tal modo que 
mostrava a impregnação da cultura da guerra civil entre os quadros comunistas. Na obra A Insurreição Armada, pode- 
se ler esta citação de surpreendente autocrítica e de conclusões transparentes: “Nunca nos demos o trabalho de 
neutralizar e eliminar os contra-revolucionários. Durante todo o tempo em que Cantão esteve nas mãos dos rebeldes, 
matamos apenas cem indivíduos. Os prisioneiros só puderam ser executados depois de um julgamento em regra pela 
comissão de luta contra os reacionários. Durante o combate, em plena insurreição, é um procedimento demasiado 
lento.” Lição que foi aprendida. 

Após esse desastre, os comunistas se retiraram das cidades e se reorganizaram nas longínquas zonas 
camponesas até a criação, a partir de 1931, no Hunan e no Kiang-si, de uma “zona livre”, protegida por um Exército 
Vermelho. Para os comunistas chineses, passou a prevalecer, de uma forma muito precoce, a idéia de que a revolução é 
antes de tudo uma questão militar, institucionalizando a função política do aparelho militar, até que Mão resumiu a sua 
concepção nesta famosa fórmula: “O poder está na ponta do fuzil”. A sequência de fatos demonstrou que essa era a 
quinta-essência da visão comunista da tomada do poder e de sua manutenção. 

No entanto, os fracassos europeus no princípio dos anos 20 e o desastre chinês não desencorajaram em nada o 
Komintemn de prosseguir nesse caminho. Todos os partidos comunistas, incluindo os legais e os pertencentes a 
repúblicas democráticas, mantiveram em seu interior a existência de um “aparelho militar” secreto, capaz de vir a 
público quando fosse a ocasião. O modelo copiado foi o do KPD, que, na Alemanha, e sob o controle estreito do 
quadro de militares soviéticos, criou um importante “M (militar) Apparat”, encarregado da eliminação dos militantes 
contrários (principalmente aqueles de extrema direita) e de espiões infiltrados no Partido, bem como do enquadramento 
de grupos paramilitares, o famoso Rote Front (Fronte Vermelho), com milhares de membros. É verdade que, na 
República de Weimar, a violência política era generalizada; e, se os comunistas combatiam a extrema direita e o 
nazismo nascente, também não hesitavam em atacar os comícios dos socialistasl2 - qualificados como “social- 
traidores” e “social-fascistas” - e as polícias de uma república tida como reacionária, e talvez até fascista. A sequência 
dos fatos mostrou, em 1933, qual era o “verdadeiro fascismo”, isto é, o nacional-socialismo, e que seria mais sensato 
ter feito uma aliança com os socialistas para defender a democracia “burguesa”. Mas os comunistas recusavam 
radicalmente essa democracia. 

Na França, onde o clima político era mais calmo, o Partido Comunista Francês (PCF) também criou seus 
quadros armados, organizados por Albert Treint, um dos secretários do Partido, cuja patente de capitão, obtida durante 
a guerra, lhe conferia alguma competência nessa situação. A primeira aparição desses grupos ocorreu em 11 de janeiro 
de 1924, durante um comício comunista, quando, ao ser contestado por um grupo de anarquistas, Treint chamou o 
serviço de segurança. Cerca de dez homens armados com revólveres surgiram na tribuna disparando à queima-roupa 
sobre os manifestantes, fazendo dois mortos e dezenas de feridos. Por falta de provas, nenhum dos assassinos foi 
condenado. Pouco mais de um ano mais tarde ocorreu um caso semelhante. Na quinta-feira, 23 de abril de 1925, 
algumas semanas antes das eleições municipais, o serviço de segurança do PCF apareceu para tumultuar a saída de uma 
reunião eleitoral dos Jovens Patriotas, organização de extrema direita, no XVIII bairro de Paris, Rua Damrémont. 
Alguns militantes estavam armados e não hesitaram em fazer uso de seus revólveres. Três militantes do JP foram 
mortos, e um ferido faleceu dois dias depois. Jean Taittinger, dirigente dos Jovens Patriotas, foi interrogado, e a polícia 
fez várias buscas em casas de militantes comunistas. 

A despeito dessas dificuldades, o Partido prosseguiu na mesma via. Em 1926, Jacques Duelos, um dos 
deputados recém-eleitos - e portanto com direito à imunidade parlamentar -, foi encarregado de organizar Grupos de 
Defesa Antifascistas (formados por antigos combatentes da guerra de 1914-1918), e de Jovens Guardas Antifascistas 
(recrutados entre a Juventude Comunista); esses grupos paramilitares, constituídos segundo o modelo do Rote Front 
alemão, desfilaram uniformizados em 11 de novembro de 1926. Paralelamente, Duelos ocupava-se da propaganda 
antimilitarista e publicava artigos numa revista, Lê Combattant Rougf, ensinando a arte da guerra civil, descrevendo e 
analisando os combates de rua, etc. 

Em 1931, o Komintern publica, em várias línguas, um livro intitulado Ulnsurrection Arméf, assinando com o 
pseudónimo Neuberg - tratava-se, na realidade, de responsáveis soviéticos'3 -, que abordava as diferentes experiências 
insurrecionais a partir de 1920. Esse livro foi novamente publicado na França no início de 1934. Foi somente com a 
virada política da Frente Popular, entre o verão e o outono de 1934, que essa linha insurrecional foi relegada ao 
segundo plano, o que, no fundo, em nada atenuou o papel da violência na prática comunista. Toda essa justificação para 
a violência, essa prática cotidiana de ódio de classe, essa teorização da guerra civil e do terror encontraram a sua 
aplicação a partir de 1936, na Espanha, para onde o Komintern enviou muitos de seus quadros, que se distinguiram nos 
serviços de repressão comunistas. 


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Todo esse trabalho de seleção, formação e preparação de quadros autóctones da futura insurreição militar era 
feito em estreita colaboração com os serviços secretos soviéticos ou, mais precisamente, com um dos seus serviços 
secretos, o GRU (Glavsnoe Razvedatelnoe Upravlenie, ou seja, Direção Principal de Informação). Fundado sob a égide 
de Trotski, como IV Bureau do Exército Vermelho, o GRU nunca abandonou essa tarefa “educativa”, mesmo quando 
as circunstâncias o forcaram, pouco a pouco, a reduzi-la drasticamente. Por mais surpreendente que possa parecer, 
alguns jovens quadros de confiança do Partido Comunista Francês ainda continuavam, no começo dos anos 70, um 
treinamento na URSS (tiro, montagem e desmontagem de armas, fabricação de armas artesanais, transmissões, técnicas 
de sabotagem) com as Spetsnaz, as tropas soviéticas especiais postas à disposição dos serviços secretos. Inversamente, 
o GRU dispunha de especialistas militares que poderiam ser emprestados aos partidos-irmãos em caso de necessidade. 
Manfred Stern, por exemplo, o austro-húngaro que, colocado no “M- Apparat” do KPD para a insurreição de Hamburgo 
de 1923, operou posteriormente na China e na Mancharia, antes de tornar-se o “general Kleber” da Brigadas 
Internacionais na Espanha. 

Esses aparelhos militares clandestinos não eram propriamente formados por “meninos de coro”. Os seus 
membros estavam por vezes no limite do banditismo, e alguns desses grupos transformaram-se em verdadeiros bandos. 
Um dos exemplos mais impressionantes ocorreu durante a segunda metade dos anos 20, com a “Guarda Vermelha” ou 
os “Esquadrões Vermelhos” do Partido Comunista Chinês. Eles entraram em ação em Xangai, cidade então 
considerada oficialmente como o epicentro das ações do Partido. Liderados por Gu Shunzhang, um antigo gangster 
filiado à sociedade secreta da Faixa Verde, a mais poderosa das duas organizações mafiosas existentes em Xangai, 
esses combatentes fanáticos se confrontaram com os seus equivalentes nacionalistas, nomeadamente os “Camisas 
Azuis”, decalcados do modelo fascista, em combates sórdidos, terror contra terror, emboscada contra emboscada, 
assassinato individual contra assassinato individual. Tudo isso com o apoio particularmente ativo do Consulado da 
URSS em Xangai, que dispunha de especialistas em questões militares, tais como Gorbatiuk, além de alguns executores 
de tarefas infames. 

Em 1928, os homens de Gu Shunzhang eliminaram um casal de militantes aliciados pela polícia: durante o 
sono, He Jiaxing e He Jihua foram crivados de balas em sua própria cama. Para encobrir o barulho dos disparos, outros 
membros do grupo soltaram fogos de artifício no exterior da casa. Esses métodos expeditivos foram pouco depois 
aplicados no interior do próprio Partido, como forma de punição aos opositores. Por vezes, bastava uma simples 
denúncia. Em 17 de janeiro, furiosos por se sentirem manipulados pelo delegado do Komintern, Pavel Mif, e pelos 
dirigentes submissos a Moscou, He Mengxiong e cerca de 20 de seus camaradas da “fração operária” reuniram-se no 
Hotel Oriental de Xangai. Mal haviam começado os debates, policiais e agentes do Diaocha Tongzhi, o Bureau Central 
de Investigações do Kuomintang, irromperam na sala, de armas em punho, e os prenderam. Os nacionalistas haviam 
sido informados “anonimamente” da reunião. 

Após a deserção de Gu Shunzhang, em abril de 1931, seu imediato regresso à Faixa Verde e sua “submissão” 
ao Kuomintang (ele se juntara aos “Camisas Azuis”), uma comissão especial de cinco quadros comunistas o substituiu 
em Xangai. Essa comissão era composta por Kang Sheng, Guang Huian, Pan Hannian, Chen Yun e Ke Qingshi. Em 
1934, data do colapso quase definitivo do aparelho urbano do PCC, os dois últimos chefes dos grupos armados 
comunistas da cidade, Ding Mocun e Li Shiqun, caíram, por sua vez, nas mãos do Kuomintang. Eles também fizeram 
um pacto de submissão, passaram, em seguida, para o serviço dos japoneses e conheceram um destino trágico: o 
primeiro foi fuzilado pelos nacionalistas em 1947, acusado de traição, e o segundo foi envenenado pelos japoneses. 
Quanto a Kang Sheng, ele se tornou, a partir de 1949 e até a sua morte, em 1975, o chefe da polícia secreta maoísta e 
um dos principais algozes do povo chinês sob o poder comunista. 

Por vezes também, membros dos aparelhos de outros partidos comunistas eram utilizados em operações dos 
serviços especiais soviéticos. Parece ter sido o que aconteceu no caso Kutiepov. Em 1924, o general Alexandre Ku- 
tiepov fora chamado a Paris pelo grão-duque Nicolas para dirigir a União Militar Geral (ROVS). Em 1928, a GPU 
decidiu provocar a sua desagregação. Em 26 de janeiro, o general desapareceu. Circularam vários boatos, alguns 
previamente lançados para atenderem aos interesses dos soviéticos. Dois inquéritos independentes permitiram concluir 
quem foram os instigadores desse desaparecimento: um conduzido pelo velho socialista russo Vladimir Burt-zev, 
célebre por ter desmascarado Evno Azev, o agente da Okhrana infiltrado na cúpula da Organização de Combate dos 
Socialistas Revolucionários; e outro por Jean Delage, jornalista de L'Écho de Paris. Delage estabeleceu que o general 
Kutiepov havia sido conduzido a Houlgate e levado a bordo do navio soviético Spartak, que partira do Havre em 19 de 
fevereiro. Ninguém voltou a vê-lo vivo. Em 22 de setembro de 1965, o general soviético Chimanov reivindicou a 
operação no jornal do Exército Vermelho, A Estrela Vermelha, e revelou o nome do responsável: “Serguei Puzitski 
[...], que não só participara da captura do bandido Savinkov [...], como também conduzira magistralmente a operação 
de captura de Kutiepov e de tantos outros chefes dos Guardas Brancos.”? Atualmente, conhecemos melhor as 
circunstâncias exa-tas do desaparecimento do infeliz Kutiepov. Sua organização de emigrantes estava infiltrada pela 
GPU: em 1929, o antigo ministro do governo branco do almirante Koltchak, Serguei Nikolaievitch Tretiakov, havia 


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passado secretamente para o lado soviético, fornecendo informações sob o número UJ/1 e com o nome-código de 
Ivanov. Graças às informações detalhadas transmitidas ao seu contrato, “Vetchinkin”, Moscou sabia de tudo ou quase 
tudo sobre os deslocamentos do general czarista. Um comando “vistoriou” seu carro em plena rua, fazendo-se passar 
por uma barreira policial. Disfarçado de policial de trânsito, um francês chamado Honel, garagista em Levallois-Perret, 
pediu a Kutiepov que o seguisse. Havia um outro francês implicado na operação, Maurice Honel, irmão do primeiro, 
que estava em contato com os serviços soviéticos e que viria a ser eleito deputado comunista em 1936. Ao recusar-se a 
obedecer, Kutiepov foi morto, segundo parece, com uma punhalada. Seu cadáver teria sido sepultado no subsolo da 
garagem de Honel. 16 

O sucessor de Kutiepov, o general Miller, tinha como adjunto o general Nikolai Skoblin, este último, de fato, 
um agente soviético. Ajudado pela mulher, a cantora Nadejda Plevitskaia, Skoblin preparou em Paris o rapto do general 
Miller. Ele foi visto pela última vez em 22 de setembro de 1937, e no dia seguinte o navio soviético Maria Ulianovna 
deixava o Havre. O general Skoblin também desapareceu, e as suspeitas a seu respeito tornaram-se cada vez mais 
concretas. O general Miller estava realmente a bordo do Maria Ulianovna, que o governo francês não quis interceptar. 
Chegando a Moscou, clc foi interrogado e depois abatido. 


Ditadura, incriminação dos opositores e repressão no interior do Komintern 


Se o Komintern, instigado por Moscou, mantinha em cada partido comunista grupos armados e preparava a 
insurreição e a guerra civil contra os poderes instituídos, nem por isso deixou de introduzir em seu interior os métodos 
policiais e de terror postos em prática na própria URSS. Foi durante o X Congresso do Partido Bolchevique, realizado 
de 8 a 16 de março de 1921, quando o poder se viu confrontado pela rebelião de Kronstadt, que foram lançadas as bases 
do regime ditatorial no interior do Partido. No decorrer da preparação do Congresso, foram propostas e discutidas nada 
menos do que oito moções diferentes. Esses debates eram os últimos vestígios de uma democracia que não conseguira 
se impor na Rússia. Só no interior do Partido restava ainda um simulacro de liberdade de discussão, embora não por 
muito tempo. No segundo dia de trabalhos, Lenin deu o tom: “Camaradas, não temos aqui a necessidade de uma 
oposição: não é o momento. Estejam aqui ou lá (em Kronstadt), de fuzis na mão, mas sem oposição. De nada serve me 
censurarem: é o resultado do estado atual da situação. De hoje em diante, nada de oposição. Em minha opinião é 
preciso que o Congresso chegue à conclusão de que é tempo de pôr um fim à oposição, de correr uma cortina sobre ela; 
já estamos fartos da oposição.” Lenin visava principalmente aqueles que, sem constituírem um grupo propriamente dito 
nem possuírem órgãos de comunicação, se agrupavam na plataforma dita Oposição Operária (Alexandre Chliapnikov, 
Alexandra Kollontai, e Lutovinov) e na do chamado Centralismo Democrático (Timothée Sapronov, Gabriel 
Miasnikov). 

Quando o Congresso estava prestes a encerrar seus trabalhos, em 16 de março, Lenin apresentou in extremis 
duas resoluções: a primeira era relativa à “unidade do Partido”, e a segunda a propósito dos “desvios sindicalistas e 
anarquistas em nosso Partido”, na qual ele atacava a Oposição Operária. O primeiro texto exigia a dissolução imediata 
de todos os grupos constituídos em conformidade com plataformas específicas, sob pena de expulsão imediata do 
Partido. Um artigo não publicado dessa resolução, que permaneceu secreto até outubro de 1923, dava ao Comitê 
Central o poder de aplicar essa sanção. A polícia de Feliks Dzerjinski via abrir-se a sua frente um novo campo de 
investigação: todos os grupos de oposição no interior do Partido Comunista seriam, daí em diante, objetos de vigilância 
e, se necessário, de sanção: a exclusão - o que, para os verdadeiros militantes, quase equivalia à morte política. 

Consagrando a proibição da livre discussão - em contradição com os estatutos do Partido -, as duas resoluções 
foram, apesar de tudo, aprovadas. No que se refere à primeira, Radek avançou uma justificativa quase premonitória: 
“Penso que ela poderá virar-se contra nós, mas, mesmo assim, darei minha aprovação. [...] Que em momentos de perigo 
o Comitê Central tome as medidas mais severas contra os seus melhores camaradas, se achar necessário. [...] Que até o 
Comitê Central cometa erros! É menos perigoso do que a flutuação que se verifica neste momento”. Essa escolha, feita 
por força das circunstâncias, mas que correspondia às tendências mais profundas dos bolcheviques, pesou de maneira 
significativa no futuro do Partido Soviético e, con-segiientemente, sobre as seções do Komintern. 

O X Congresso dedicou-se igualmente à reorganização da Comissão de Controle, cujo papel estava assim 
definido: velar pela “consolidação da unidade e da autoridade no Partido”. A partir de então, ela passaria a elaborar e a 
organizar os dossiês pessoais dos militantes, que serviriam, caso necessário, de material de base para os futuros 
processos de acusação: a atitude tomada em relação à polícia política, a participação em grupos de oposição, etc. 
Depois do Congresso, os participantes da Oposição Operária foram submetidos a vexames e perseguições. Mais tarde, 
Alexandre Chliapnikov explicou que “a luta não prosseguia no terreno ideológico, mas através... do afastamento (dos 
interessados) de seus cargos, de transferências sistemáticas de um distrito para o outro e ainda de expulsões do 
Partido”. 


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Em agosto seguinte, iniciou-se um controle que durou vários meses. Quase um quarto dos militantes foram 
excluídos. O recurso à tchistka (depuração) tornou-se parte integrante da vida do Partido. Aino Kuusinen testemunhou 
sobre esse procedimento cíclico: “A reunião da tchistka se desenrolava do seguinte modo: o acusado era chamado pelo 
nome e convidado a subir à tribuna; os membros da comissão de depuração e outras pessoas presentes faziam-lhe 
perguntas. Alguns conseguiam livrar-se facilmente, outros tinham de suportar por mais um tempo essa dura prova. Se 
alguém tivesse inimigos pessoais, esses podiam dar um rumo definitivo ao desenrolar do caso. Contudo, apenas a 
Comissão de Controle podia se pronunciar pela exclusão do Partido. Se o interrogado não era considerado culpado de 
qualquer ato que o levasse a ser expulso do Partido, o processo era suspenso sem votação. Caso contrário, ninguém 
intervinha em favor do 'acusado'. O presidente perguntava simplesmente: 'Kto protiv'; ninguém ousava opor-se, e o 
caso era julgado 'por unanimidade '.”' 

Rapidamente foram sentidas as decisões do X Congresso: em fevereiro de 1922, Gabriel Miasnikov foi 
expulso, pelo período de um ano, por ter defendido, contra a opinião de Lenin, a necessidade da liberdade de imprensa. 
Na impossibilidade de se fazer ouvir, a Oposição Operária apelou naturalmente ao Komintern (“Declaração dos 22”). 
Stalin, Dzerjinski e Zinoviev exigiram então a expulsão de Chliapnikov, Kollontai e Medvediev, que o XI Congresso 
recusou. Cada vez mais submetido à atração do poder soviético, o Komintern se viu logo obrigado a adotar o mesmo 
regime interior do Partido Bolchevique. Uma consequência lógica e, sobretudo, nada surpreendente. 

Em 1923, Dzerjinski exigiu do Politburo uma decisão oficial para obrigar os membros do Partido a 
denunciarem à GPU toda atividade de oposição. Essa proposta deu origem a uma nova crise no interior do Partido 
Bolchevique: em 8 de outubro, Trotski enviou uma carta ao Comitê Central, imediatamente seguida, em 15 de outubro, 
da “Declaração dos 46”. O debate que se iniciou cristalizou-se em volta do “novo rumo” do Partido russo e teve 
consequências em todas as seções do Komintern. 

Simultaneamente, em fins de 1923, a vida dessas seções foi posta sob a palavra de ordem da “bolchevização”: 
todas tiveram de reorganizar as suas estruturas, baseando-as em células de empreendimento, e, ao mesmo tempo, houve 
um reforço da sua obediência ao centro moscovita. As resistências que essas transformações viriam a encontrar tiveram 
como consequência o aumento considerável do papel e do poder das missi dominici da Internacional, cujos temas 
principais de debate diziam respeito à evolução do poder da Rússia Soviética. 

Na Franca, um dos líderes do PCF, Boris Suvarin, opôs-se às novas normas e denunciou os procedimentos 
sujos utilizados pela Troika (Kamenev-Zinoviev-Stalin) contra seu adversário, Leon Trotski. Boris Suvarin foi 
convocado a dar explicações durante o XIII Congresso do PCUS, em 12 de junho de 1924. A sessão tornou-se um 
procedimento de acusação, na linha das sessões de autocríticas obrigatórias. Uma comissão especialmente reunida para 
tratar do “caso Suvarin” pronunciou-se pela sua exclusão temporária. As rea-ções da direção do PCF mostram 
claramente qual era o estado de espírito exigido a partir de então nas fileiras do Partido Mundial: “No nosso Partido [o 
PCF], que a luta revolucionária não expurgou totalmente do velho fundo social-democrata, a influência das 
personalidades desempenha ainda um papel demasiado importante. [...] Será somente a partir da destruição de todas as 
sobrevivências pequeno-burguesas do 'Eu' individualista que se formará a anónima falange de ferro dos bolcheviques 
franceses. [...] Se ele quer ser digno da Internacional Comunista à qual ele pertence, se ele quer seguir os passos 
gloriosos do Partido russo, o Partido Comunista Francês deve romper, sem hesitação, com todos aqueles que, em seu 
interior, se recusarem a submeter-se a sua lei!” (L"Humanité, 19 de julho de 1924.) O redator anónimo ignorava que ele 
acabara de enunciar a lei que regeria a vida do PCF durante décadas. O sindicalista Pierre Monatte resumiu essa 
evolução em uma palavra: a “militarização” do PC. 

Foi no verão de 1924, durante a realização do V Congresso do Komintern, que Zinoviev ameaçou “quebrar os 
ossos” dos opositores, ilustrando assim os costumes políticos que invadiam o movimento comunista. O que ele mal 
sabia era que os “ossos quebrados” seriam os seus, quando Stalin o demitiu de suas funções de presidente do 
Komintern, em 1925. Zinoviev foi substituído por Bukharin, que bem depressa conheceu os mesmos dissabores. Em 11 
de julho de 1928, às vésperas do VI Congresso do Komintern (de 17 de julho a 1º de setembro), Kamenev encontrou-se 
secretamente com Bukharin e redigiu um processo verbal da entrevista. Vítima do “regime policial”, Bukharin 
explicou-lhe que seu telefone estava sob escuta e que ele estava sendo seguido pela GPU; por duas vezes, deixou 
transparecer um terror bem real: “Ele vai nos estrangular... Não queremos intervir como dissidentes, pois ele nos 
estrangularia.” “Ele”, é claro, era Stalin. 

O primeiro que Stalin tentou “estrangular” foi Leon Trotski. A sua luta contra o trotskismo tem de especial o 
fato de ter sido particularmente longa. Tudo começou em 1927. Mas, já anteriormente, avisos sinistros haviam sido 
proferidos durante uma conferência do Partido Bolchevique, em outubro de 1926: “Ou a exclusão e o esmagamento 
legal da Oposição, ou a solução desse caso com tiros de canhão nas ruas, como aconteceu com os socialistas- 
revolucionários de esquerda, em julho de 1918, em Moscou”, eis o que então preconizava Larin no Pravda. A Oposição 
de Esquerda (era essa a sua denominação oficial), isolada e cada vez mais fraca, estava exposta às provocações da 
GPU, que inventou do começo ao fim a existência de uma gráfica clandestina, dirigida por um antigo oficial de 


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Wrangel (na verdade, tratava-se de um de seus agentes), onde teriam sido impressos os documentos da Oposição. 
Durante a comemoração do X aniversário de Outubro de 1917, a Oposição decidiu manifestar-se publicamente com 
suas próprias palavras de ordem. Foi impedida de fazê-lo por uma intervenção brutal da polícia, e, em 14 de novembro, 
Trotski e Zinoviev foram expulsos do Partido Bolchevique. A etapa seguinte começou em janeiro de 1928, com o 
degredo de seus militantes mais conhecidos para regiões afastadas - Christian Rakovski, ex-embaixador soviético na 
França, exilado em Astrakhan, no Volga, e depois em Barnaul, na Sibéria; Victor Serge foi enviado, em 1933, para 
Oremburgo, nos Urais - ou para o exterior do país. Quanto a Trotski, ele foi enviado à força para Alma-Ata, no 
Turquestão, a quatro mil quilómetros de Moscou. Um ano depois, em janeiro de 1929, ele foi expulso para a Turquia, 
escapando da prisão que se fechava sobre seus partidários. Com efeito, era cada vez maior o número de partidários 
presos e enviados para as prisões especiais, os polit-isolators, o que também acontecia com os militantes da antiga 
Oposição Operária e do grupo do Centralismo Democrático. 

Nessa época, os comunistas estrangeiros, membros do aparelho do Komintemn ou vivendo na Rússia, eram 
presos e internados da mesma forma que os militantes do Partido russo; a sua situação era idêntica à dos russos, uma 
vez que todo comunista estrangeiro que permanecesse por muito tempo na URSS era obrigado a aderir ao Partido 
Bolchevique e submeter-se a sua disciplina. Foi o caso, bem-conhecido, do comunista iugoslavo Ante Ciliga, membro 
do “Politburo” do Partido Comunista Iugoslavo (PCI), enviado a Moscou em 1926 como representante do PCI junto ao 
Komintern. Ciliga mantinha alguns contatos com a oposição, reunida por Trotski, afastando-se cada vez mais do 
Komintemn de onde tinham sido banidos os verdadeiros debates de idéias e onde os dirigentes não hesitavam em utilizar 
métodos de intimidação contra seus contraditores, o que Ciliga chamava de “sistema de servilismo” do movimento 
comunista internacional. Em fevereiro de 1929, no decorrer da assembléia-geral dos iugoslavos de Moscou, foi adotada 
uma resolução que condenava a política seguida pela direção do PCI, o que equivalia a uma condenação indireta da 
direção do Komintern. Um grupo ilegal -segundo os cânones da disciplina -, que mantinha relações com alguns 
soviéticos, foi então organizado pelos opositores à linha oficial. Nomeou-se uma comissão para investigar Ciliga, que 
foi excluído por um ano. Porém, ele não cessou suas atividades “ilegais” quando se instalou em Leningrado. Em 1? de 
maio de 1930, ele foi a Moscou para se encontrar com os outros membros de seu grupo russo-iugoslavo que, já bastante 
crítico da maneira pela qual estava sendo conduzida a industrialização, preconizava a criação de um novo partido. 
Ciliga foi preso, juntamente com seus camaradas, em 21 de maio, e enviado ao polit-isolator de Verkhne-Uralsk, de 
acordo com o artigo 59. Durante três anos, preso no isolator, recorrendo a greves de fome, Ciliga não parou de 
reivindicar o direito de deixar a Rússia. Momentaneamente liberado, ele tentou o suicídio. A GPU tentou obrigá-lo a 
renunciar à nacionalidade italiana. Exilado na Sibéria, ele foi finalmente expulso em 3 de dezembro de 1935, o que era 
uma exceção à regra. 

Graças a Ciliga, possuímos hoje um testemunho sobre os isoladores políticos. “Os camaradas nos enviavam os 
jornais que eram publicados na prisão. Quanta diversidade de opinião, quanta liberdade revelada em cada artigo! 
Quanta paixão e franqueza na apresentação dos assuntos, não apenas dos teóricos e abstratos, mas também nos que 
enfocavam os temas mais quentes da atualidade! [...] Mas nossa liberdade não se limitava a isso. Durante o passeio, que 
reunia os detentos de diversas salas, os prisioneiros tinham o hábito de realizar reuniões num canto do pátio, com 
presidente, secretário e oradores que tomavam a palavra cada um por sua vez.” 

As condições materiais eram as seguintes: “A alimentação era constituída pelo menu tradicional do mujique' 
pobre: pão e papa de farinha, de manhã e à noite, durante todo o ano. [...] Além disso, davam-nos para o almoço uma 
sopa de peixe estragado, de conservas e carne meio apodrecida. A mesma sopa, - sem carne nem peixe - era servida à 
hora do jantar. [...] A ração diária de pão era de 700 gramas, a ração mensal de açúcar era de um quilo, e além disso 
havia uma ração de tabaco, de chá e de sabão. Essa alimentação monótona era também insuficiente em quantidade. E 
mesmo assim tivemos de lutar com firmeza para que nada fosse reduzido em nossa magra refeição; e que dizer das 
lutas para conseguirmos alguma pequena melhora! Entretanto, se compararmos esse regime com os das prisões de 
direito comum, onde apodreciam centenas de milhares de prisioneiros, e sobretudo com os milhões amontoados nos 
campos de concentração do Norte, éramos, de certo modo, privilegiados.” 

Em todo caso, esses privilégios eram muito relativos. Em Verkhne-Uralsk, os prisioneiros fizeram três greves 
de fome, em abril e no verão de 1931 e, finalmente, em dezembro de 1933, em defesa de seus direitos, particularmente 
para conseguirem a supressão da renovação de penas. A partir de 1934, e durante a maior parte do tempo, o regime 
político foi suprimido (Verkhne-Uralsk o conservou até 1937), e as condições de detenção se agravaram; alguns 
prisioneiros morreram durante sessões de espancamento, outros foram fuzilados, e outros ainda foram trancafiados na 
solitária, como aconteceu, por exemplo, com Vladimir Smirnov, em 1933. 

Essa incriminação dos opositores, reais ou imaginários, no interior dos partidos comunistas logo estendeu-se 
aos responsáveis dos altos escalões. José Bullejos, dirigente do Partido Comunista Espanhol, e alguns de seus 
camaradas, que tinham sido chamados a Moscou no outono de 1932, tiveram sua política asperamente criticada. Por se 
recusarem a se submeter às regras do Ko-mintern, foram excluídos em bloco no dia 1? de novembro e ficaram em 


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regime de residência vigiada no Hotel Lux, que hospedava os membros do Ko-mintern. O francês Jacques Duelos, ex- 
delegado do Komintern na Espanha, veio relatar-lhes a sua exclusão e preveni-los de que toda tentativa de rebelião 
seria reprimida e punida “com todo o rigor do sistema penal soviético”.? Bullejos e seus camaradas tiveram as maiores 
dificuldades para deixar a Rússia, após dois meses de duras negociações para recuperarem os seus passaportes. 

Esse mesmo ano conhecera o epílogo de um incrível caso passado com o Partido Comunista Francês. No 
começo de 1931, o Komintern enviou ao PCF um representante e instrutores encarregados de assumir o controle do 
Partido. Em julho, o verdadeiro chefe do Komintern, Dimitri Manuilski, desembarcou clandestinamente em Paris e 
revelou diante de um Bureau Político siderado que havia no seu interior um “grupo” que se dedicava ao trabalho de 
fracioná-lo. Tratava-se, na realidade, de uma encenação destinada a provocar uma crise que causaria o enfraquecimento 
da direção do PCF, tornando-o dependente de Moscou e de seus homens. Entre os chefes do famoso “grupo” foi 
apontado Pierre Celor, um dos principais dirigentes do Partido desde 1928, que foi chamado a Moscou sob o pretexto 
de lhe ser confiado o cargo de representante do Partido junto ao Komintern. No entanto, logo ao chegar, Celor foi 
tratado como “provocador”. Totalmente relegado ao ostracismo, sem receber qualquer salário, só conseguiu sobreviver 
ao rude inverno russo graças às cartas de alimentação de sua mulher, que o acompanhara e trabalhava no Komintern. 
Em 8 de março de 1932, foi convocado para assistir a uma reunião da qual participavam membros do NKVD que, 
durante um interrogatório de 12 horas, tentaram fazer com que ele “confessasse” ser um “agente de polícia infiltrado no 
Partido”. Celor não confessou nada e, após inúmeros vexames e pressões, conseguiu voltar à Franca em 8 de outubro de 
1932, para se ver imediatamente denunciado como “pelego”. 

Foi nesse mesmo ano de 1932 que foram criadas em muitos partidos comunistas, segundo o modelo 
bolchevique, seções de quadros, dependentes da seção central de quadros do Komintern; essas seções estavam 
encarregadas de organizar dossiês completos dos militantes e de reunir questionários biográficos e autobiográficos 
detalhados de todos os dirigentes. Só no que diz respeito ao Partido francês, mais de cinco mil desses dossiês 
biográficos foram enviados a Moscou antes da guerra. O questionário biográfico, com mais de 70 perguntas, incluía 
cinco grandes rubricas: 1) Origens e situação social; 2) Função dentro do Partido; 3) Educação e nível intelectual; 4) 
Participação na vida social; e 5) Registro criminal e repressão. Todos esses elementos, destinados a efetuar uma 
triagem dos militantes, estavam centralizados em Moscou, onde eles eram conservados por Anton Krajevski, 
Tchernomordik ou Gevork Alikhanov, os patrões sucessivos do departamento de quadros do Komintern que, por sua 
vez, estava ligado à seção de estrangeiros do NKVD. Em 1935, Meir Trilisser, um dos mais importantes responsáveis 
do NKVD, foi nomeado secretário do Comitê Executivo do Komintern, encarregado do controle dos quadros. Sob o 
pseudónimo de Mikhail Moskvine, ele recolhia as informações e denúncias e decidia sobre a queda em desgraça, 
primeira etapa no caminho de uma próxima liquidação. Esses serviços de quadros foram paralelamente encarregados de 
elaborar “listas negras” de inimigos do comunismo e da URSS. 

Desde muito cedo, se não foi desde a origem, as seções do Komintern serviram como celeiros para o 
recrutamento de agentes de informação a serviço da URSS. Em alguns casos, os militantes que aceitavam esse trabalho 
ilegal, e consegfientemente clandestino, ignoravam que na realidade eles trabalhavam para um dos serviços soviéticos: 
o Serviço de Informações do Exército Vermelho (GRU ou IV Repartição), o departamento de estrangeiros da Tcheka- 
GPU (Inostranny Otdel, INO), o NKVD, etc. Esses diferentes aparelhos constituíam uma trama inextricável e nutriam 
uma rivalidade feroz que os levava a corromper os agentes dos serviços vizinhos. Em suas memórias, Elsa Poretski dá 
inúmeros exemplos desta concorrência. 


As listas negras do PCF 


A partir de 1932, o PCF começou a reunir informações sobre pessoas que, de acordo com seu ponto de vista, 
seriam suspeitas ou perigosas para suas ativida-des. Essas listas nasceram, então, paralelamente à tomada de controle 
do aparelho dos quadros pelos emissários do Komintern. Com a criação da seção de quadros, destinada a selecionar os 
melhores militantes, aconteceu precisamente o inverso: as listas denunciavam aqueles que “falharam” de uma maneira 
ou de outra. De 1932 a junho de 1939, o PCF publicou 12 listas negras sob títulos ao mesmo tempo diferentes e 
similares: Lista negra dos provocadores, traidores, espiões cassados das organizações revolucionárias francesas ou 
Lista negra dos provocadores, ladrões, escroques, trotskistas, traidores cassados das organizações operárias francesas, 
etc. Para justificar essas listas, que até o início da guerra recensearam mais de mil nomes, o PCF utilizou um argumento 
político simples: “A luta da burguesia contra a classe operária e as organizações revolucionárias em nosso país se 
tornam cada vez mais acesas”. 

Os militantes deviam fornecer detalhes físicos (“altura e peso, cabelos e sobrancelhas, testa, olhos, nariz, boca, 
queixo, forma do rosto, cor da pele, sinais particulares” - Lista nº 10, de agosto de 1938), “todas as informações úteis 
que facilitem [a] procura” dos indivíduos denunciados, assim como seus locais de residência. Cada militante era, em 


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maior ou menor grau, obrigado a entrar na pele de agente auxiliar de uma polícia privada e se fazer passar por um 
tchekista. 

Alguns desses “suspeitos” eram verdadeiramente autênticos bandidos, ao passo que outros eram opositores à 
linha do Partido, quer fossem seus membros ou não. Nos anos 30, os primeiros a serem visados foram os militantes 
comunistas seguidores de Jacques Doriot e do seu grupo de Saint-Denis, e depois deles os trotskistas. No que lhes dizia 
respeito, os comunistas franceses aceitaram sem discutir os argumentos dos grandes irmãos soviéticos: os trotskistas 
passaram a ser “um bando selvagem e sem princípios de sabotadores, de agentes diversionistas e assassinos sob as 
ordens de serviços de espionagem estrangeiros” (Relatório nº 1 das Listas Negras la 8, s.d.). 

A guerra, a interdição do PCF, que defendia a aproximação germano-sovié-tica, e a ocupação alemã levaram o 
Partido a reforçar as suas tendências policiais. Foram denunciados os militantes que haviam se recusado a apoiar a 
aliança Hitler-Stalin, incluindo os que se juntaram à resistência, como Adrien Langumier, que tinha como cobertura um 
trabalho de redator no TempsNouveauxat Luchaire (ao contrário, o PCF nunca denunciou Frédéric Joliot-Curie pelo 
artigo bastante comprometedor que ele escreveu em 15 de fevereiro de 1941 no mesmo jornal), ou corno René Nicod, 
antigo deputado comunista d'Oyonnax, cuja atitude para com seus antigos camaradas foi irrepreensível. Sem mencionar 
Jules Fourrier, que a “polícia do Partido” tentou, sem sucesso, liquidar; Fourrier votara a favor da concessão de plenos 
poderes a Pétain e, a partir do fim de 1940, participou da criação de uma rede de resistência; foi deportado para 
Buchenwald e mais tarde para Mauthausen. 

Ao lado desses, houve os que participaram, em 1941, da fundação do Partido Operário e Camponês Francês 
em torno do antigo secretário do PCF, Mareei Gitton, morto nesse mesmo ano por militantes comunistas. O PCF 
arrogou-se o direito de declará-los “traidores do Partido e da Franca”. Por vezes, algumas das notícias de acusação 
eram seguidas desta menção: “Recebeu o castigo que merecia”. Inclusive, houve casos de militantes suspeitos de 
traição que foram assassinados e “reabilitados” depois da guerra, tal como Georges Déziré. 

Em plena caça aos judeus, o PC usava de estranhos métodos para denunciar os seus “inimigos”: “C... Renée, 
dita Tânia, ou dita Thérêse, do XIV bairro de Paris. Judia da Bessarábia”, “De B..., Judeu estrangeiro. Renegado, 
difama o PC e a URSS”. A mão-de-obra de imigrantes (MÓN), organização que reunia os militantes comunistas 
estrangeiros, recorreu a uma linguagem não menos característica: “R. Judeu (não é o seu verdadeiro nome). Trabalha 
com um grupo judeu inimigo”. Porém, o PC nunca se esquecia de seu ódio para com os militantes trotskis-tas: “D... 
Ivone. Praça do Gal.-Beuret, Paris VII. [...] Trotskista, esteve em conta-to com o POUM. Difama a URSS”. É bastante 
provável que, durante as prisões, a polícia de Vichy ou a Gestapo conseguiu pôr as mãos nessas listas. O que aconteceu 
às pessoas então denunciadas? 

Em 1945, o PC publicou uma nova série de listas negras para “mettre au banãelanation”, segundo a expressão 
utilizada na época, os adversários políticos, alguns dos quais haviam escapado por muito pouco de tentativas de 
assassinato. Evidentemente, a institucionalização da lista negra remete à redação de listas de potenciais acusados, 
elaboradas pelos órgãos de segurança soviéticos (Tcheka, GPU, NKVD). É uma prática universal dos comunistas, 
inaugurada no começo da guerra civil na Rússia. Na Polônia, no final da guerra, essas listas compreendiam 48 
categorias de indivíduos a serem vigiados. 

Não tardou que o imbróglio dos serviços fosse suplantado por um fator decisivo: tanto o Komintern quanto os 
serviços especiais responderam ao poder supremo da direção dos PCUS, chegando a prestar contas de suas ações a 
Stalin. Em 1932, Martemiam Riutine, que conduzira cuidadosamente e sem remorsos a repressão aos opositores, 
entrava por sua vez em rota de colisão com Stalin. Ele redigiu uma moção na qual declarava: “Stalin tem hoje, dentro 
do Komintern, o estatuto de um papa infalível. [...] Stalin tem na mão, graças a uma dependência material direta e 
indireta, todos os quadros dirigen tes do Komintern, não apenas em Moscou, mas em toda parte, e é esse o argumento 
decisivo que confirma a sua invencibilidade no domínio teórico”. A partir do final dos anos 20, o Komintern, que 
dependia financeiramente do Estado soviético, perdeu a maior parte de sua autonomia. A essa dependência material, 
que ampliava a dependência política, veio ainda juntar-se a dependência policial. 

A pressão cada vez mais forte dos serviços policiais sobre os militantes do Komintern teve como resultado a 
instauração do medo e da desconfiança entre eles. Ao mesmo tempo que a delação gangrenava as relações, a suspeita 
invadia os cérebros. Delação que era de duas ordens: as denuncias voluntárias e as arrancadas através de torturas físicas 
e mentais. Por vezes, era simplesmente o medo que as desencadeava. Alguns militantes sentiam-se honrados por 
denunciarem os seus camaradas. O caso do comunista francês André Marty é característico dessa raiva paranóica, desse 
zelo frenético de mostrar-se como o mais vigilante dos comunistas; em uma carta “estritamente confidencial”, datada 
de 23 de junho de 1937, dirigida ao primeiro-secretário do Komintern, Georgi Dimitrov, Marty formulava uma longa 
denúncia contra o representante da Internacional na França, Eugen Fried, dizendo-se admirado por ele ainda não ter 
sido preso pela polícia francesa... o que, no mínimo, lhe parecia suspeito! 


Sobre os processos de Moscou 


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Os fenómenos do terror e dos processos suscitaram inevitavelmente interpretações divergentes. 

Eis o que Borís Suvarin escreveu a esse respeito: 

“Com efeito, é demasiado exagerado pretender que os processos de Moscou sejam fenómenos exclusivos e 
específicos dos russos. Sob um cunho nacional inegável podemos, examinando bem a situação, discernir um outro 
aspecto, bastante generalizado. 

“Para começar, é necessário renunciar ao preconceito segundo o qual o que é possível na Rússia não o seria na 
França. Na realidade, as confissões extorquidas dos acusados não deixam os franceses mais perplexos do que os russos. 
E aqueles que, por solidariedade fanática para com o bolchevismo, as acham naturais são seguramente muito mais 
numerosos fora da URSS do que no seu interior. [...] 

“Durante os primeiros anos da Revolução Russa, era costume resolver todas as dificuldades de interpretação 
colocando a responsabilidade na 'alma eslava". No entanto, somos forçados a verificar na Itália, e depois na Alemanha, 
a ocorrência de fatos até então reputados como especificamente russos. Solte-se a besta humana, e as mesmas causas 
produzem os mesmos efeitos, nos latinos, nos alemães ou nos eslavos, a despeito da diferença de formas e de 
aparências. 

“Por outro lado, será que não existem na França e em outros lugares pessoas de todas as espécies que 
enchem de contentamento as maquinações atrozes de Stalin? A redação do L 'Humanité, por exemplo, nada fica a dever 
à do Pravda em matéria de servilismo e baixeza, sem ter, no entanto, a desculpa de estar presa pelas tenazes de uma 
ditadura totalitária. O académico Komarov continua a se desonrar, pedindo por mais cabeças na Praça Vermelha de 
Moscou, mas não poderia se recusar a fazê-lo sem cometer um ato consciente de suicídio. O que dizer então de um 
Romain Rolland, de um Langevin, de um Malraux, que admiram e aprovam o regime dito soviético, a sua 'cultura' e a 
sua Justiça”, sem ser obrigado a isso pela fome ou pela tortura” 

(Lê Figuro Littéraire, 1º. de julho de 1937.) 


Nesse mesmo género, eis um extrato de uma dessas cartas enviadas “ao camarada L. P. Beria” (o comissário 
interior da URSS) pela búlgara Stella Blagoieva, obscura funcionária da seção de quadros do Comitê executivo do 
Komintern: “O Comitê Executivo da Internacional Comunista dispõe de informações redigidas por toda uma série de 
camaradas, militantes de parti-dos-irmãos, que julgamos necessário enviar-lhes para que se possa confirmar e tomar as 
medidas que forem necessárias. [...] Um dos secretários do Comitê Central do Partido Comunista da Hungria, 
Karakach, tem mantido conversas que testemunham a sua insuficiente devoção ao Partido de Lenin e de Stalin. [...] Os 
camaradas colocam também uma questão muito séria: por que, em 1932, o tribunal húngaro não lhe aplicou uma pena 
superior a três anos de prisão, quando em plena ditadura do proletariado, na Hungria, Karakach executou penas de 
morte decididas pelo Tribunal Revolucionário? [...] As múltiplas alocuções dos camaradas alemães, austríacos, letões, 
polacos e outros demonstram que a emigração política está particularmente suja. É preciso extirpar essa erva daninha 
com toda a determinação.” 

Arkadi Vaksberg afirma que os arquivos do Komintern contêm dezenas (e mesmo centenas) de denúncias, 
fenómeno que testemunha a decadência moral a que chegaram os membros do Komintemn ou os funcionários do Partido 
Comunista da União Soviética. Essa decadência tornou-se gritante durante os grandes processos da “velha guarda” 
bolchevique, que havia cooperado na edificação de um poder apoiado na “mentira absoluta”. 


O grande terror atinge o Komintern 


O assassinato de Kirov, em 19 de dezembro de 1934, deu a Stalin um excelente pretexto para passar de uma 
repressão severa para a instauração de um verdadeiro terror, tanto no Komintern quanto no Partido russo. A história dos 
PCUS e a do Komintern entraram numa nova fase. O terror até então exercido contra a sociedade voltava-se contra os 
atores do poder sem partilha que o PCUS e seu onipotente primeiro-secretário exerciam. 

As primeiras vítimas foram os membros da oposição russa já aprisionados. Em fins de 1935, os detidos, 
libertados no final das respectivas penas, foram novamente encarcerados. Vários milhares de militantes trotskistas 
foram reunidos na região de Vorkuta. Eram cerca de 500 nas minas, mil no campo de Ukhto-Pechora e, ao todo, vários 
milhares na área de Pechora. Em 27 de outubro de 1936, mil desses prisioneiros”2 iniciaram uma greve de fome de 132 
dias. Reivindicavam a sua separação dos presos de direito comum e de viverem com a família. Ao fim de quatro 
semanas, um dos prisioneiros faleceu. Muitos outros sofreram a mesma sorte até que a administração anunciou que 
seriam atendidas as reivindicações. No outono seguinte, 1.200 prisioneiros (metade dos quais trotskistas) foram 
reunidos nas proximidades de uma antiga fábrica de tijolos. No fim de março, a administração elaborou uma lista de 25 
prisioneiros, que receberam um quilo de pão e ordens para se prepararem para partir. Momentos depois, escutava-se o 
estrondo de um fuzilamento. Admitiu-se o pior quando, pouco tempo depois, os prisioneiros viram regressar a escolta 


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do grupo. Dias depois, nova chamada e novo estrondo de fuzilamento. E assim continuou até o fim de maio. Os guardas 
regavam os cadáveres com gasolina, a fim de queimá-los e fazer com que desaparecessem. O NKVD difundia, via 
rádio, o nome dos fuzilados “por agitação contra-revolucionária, sabotagem, banditismo, recusa ao trabalho, tentativa 
de fuga, etc.”. As mulheres não foram poupadas. A mulher de um militante executado era automaticamente passível da 
pena capital, e os filhos de um oposicionista, desde que tivessem mais de 12 anos, estavam sujeitos ao mesmo 
procedimento. 

Cerca de 200 trotskistas de Magadan, “capital” de Kolyma, recorreram também à greve de fome para obter o 
estatuto de preso político. Em sua proclamação, denunciavam os “carrascos-“awgr/m” e afirmavam que o “fascismo de 
Stalin era bem pior que o de Hitler”. Em 11 de outubro de 1937, eles foram condenados à morte, sendo que 74 deles 
foram fuzilados em 26 e 27 de outubro e 4 de novembro. Essas execuções continuaram entre 1937 e 1938. 

Em todos os países onde os comunistas estavam presentes, foram-lhes dadas ordens para combaterem a 
influência de uma minoria de militantes que se juntava a León Trotski. A partir da guerra espanhola, a operação tomou 
um novo rumo, que consistia em associar, da maneira mais mentirosa, trotskismo e nazismo, no mesmo momento em 
que Stalin preparava sua aproximação de Hitler. 

O Grande Terror desencadeado por Stalin logo atingiu o aparelho central do Komintern. Em 1965, Branko 
Lazitch tentou uma primeira abordagem da liquidação dos membros do Komintern sob o título evocador de 
Martirológio do Komintern. Boris Suvarin concluía seus “Comentários sobre o 'Martirológio”, que se seguiam ao 
artigo de B. Lazitch, com uma observação a respeito dos modestos colaboradores do Komintern, vítimas anónimas do 
Grande Expurgo. Guardá-lo na memória não é inútil quando se aborda esse capítulo especial da história do comunismo 
soviético: “A maior parte desapareceu nessa chacina do Komintern, que foi apenas uma ínfima parte de um massacre 
incomensurável, o de milhões de operários e camponeses lavradores, imolados sem causa nem razão por uma 
monstruosa tirania que se rotulava como proletária”. 

Os funcionários do aparelho central assim como os das seções nacionais foram ceifados pela máquina 
repressiva do mesmo modo que o mais humilde dos cidadãos. Com o Grande Expurgo (1937-1938), não foram apenas 
os opositores que caíram vítimas dos órgãos de repressão, mas também os funcionários do Komintemn e dos aparelhos 
anexos: a Internacional Comunista da Juventude (KIM), a Internacional Sindical Vermelha (Profintern), o Socorro 
Vermelho (MOPR), a Escola Leninista Internacional, a Universidade Comunista das Minorias Nacionais do Ocidente 
(KUMNZ), etc. Wanda Pampuch-Bronska, filha do velho companheiro de Lenin, relatou, sob pseudónimo, que, em 
1936, a KUMNZ foi dissolvida, e todo o seu pessoal foi preso, assim como a maioria de seus alunos. 

Ao examinar os documentos dos diversos serviços e seções do Komintern, o historiador Mikhail Panteleiev 
recenseou 133 vítimas em um efetivo total de 492 pessoas (ou seja, 27%). Entre 1º de janeiro e 17 de setembro de 
1937, foram decididas 256 demissões pela Comissão do Secretariado do Comitê Executivo, composta por Mikhail 
Moskvin (Meir Trilisser), Wilhelm Florin e Jan Anvelt e em seguida pela Comissão Especial de Controle, criada em 
maio de 1937 e formada por Georgi Dimitrov, M. Moskvin e Dimitri Manuilski. Em geral, a demissão precedia à 
prisão, com uma demora variável: Elena Walter, demitida do secretariado de Dimitrov em 16 de outubro de 1938, foi 
presa dois dias mais tarde, ao passo que Jan Borowski (Ludwik Ko-morowski), despedido em 17 de julho do Comitê 
Executivo do Komintern, foi preso no dia 7 de outubro seguinte. Em 1937 foram presos 88 empregados do Komintern, 
e 19 em 1938. Outros tantos eram presos “na própria mesa de trabalho”, como foi o caso de Anton Krajewski 
(Wladyslaw Stein), então responsável pelos serviços de imprensa e propaganda, que foi preso em 26 de maio de 1937. 
Muitos foram presos logo após o seu regresso de missões no exterior do país. 

Todos os serviços foram atingidos, do secretariado aos representantes dos partidos comunistas. De 1937 a 
1938, foram presas 41 pessoas do secretariado do Comitê Executivo. No interior do seu Serviço de Ligação (OMS até 
1936), foram presas 34 pessoas. O próprio Moskvin foi apanhado pela máquina repressiva em 23 de novembro de 1938 
e condenado à morte por fuzilamento no dia 19 de fevereiro de 1940. Jan Anvelt morreu sob tortura, e o dinamarquês 
A. Munch-Petersen morreu no hospital da prisão em consequência de uma tuberculose crónica. Cinquenta funcionários, 
nove dos quais mulheres, foram fuzilados. A suíça Lydia Díibi, responsável por uma rede clandestina do Komintern em 
Paris, foi chamada a Moscou no começo do mês de agosto de 1937. Mal chegou, foi presa juntamente com seus 
colaboradores, Brichman e Wolf. Acusada de participar da “organização trotskista anti-soviética” e de espionagem em 
favor da Alemanha, da Franca, do Japão e da... Suíça, ela foi condenada à morte pelo Colégio Militar do Tribunal 
Supremo da URSS, em 3 de novembro, e fuzilada alguns dias depois; a sua cidadania suíça não lhe deu qualquer 
proteção, e sua família foi brutalmente alertada sobre o veredicto, sem nenhuma explicação complementar. A polonesa 
L. Jankovskaia foi condenada a oito anos de reclusão na qualidade de “membro da família de um traidor da pátria”: seu 
marido, Stanislaw Skulski (Mertens), que havia sido preso em agosto de 1937 e fuzilado em 21 de setembro. O 
princípio da responsabilidade familiar, já aplicado contra o simples cidadão, foi assim estendido aos membros do 
aparelho. 


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Ossip Piatnitski (Tarchis) havia sido, até 1934, o número dois do Komintern, logo após Manuilski, 
encarregado de toda a organização (especialmente do funcionamento dos partidos comunistas estrangeiros e das 
ligações clandestinas do Komintern no mundo inteiro) e também do setor político e administrativo do Comitê Central 
dos PCUS. Em 24 de junho de 1937, 


ele interveio no Plenário do Comitê Central para criticar o reforço da repressão e a atribuição de poderes 
extraordinários ao chefe do NKVD, lejov. Furioso, Stalin foi obrigado a interromper a sessão e exerceu as maiores 
pressões para que Piatnitski se confessasse arrependido. Em vão. No dia seguinte, no recomeço da sessão, lejov acusou 
Piatnitski de ser um antigo agente da polícia czarista e, em 7 de julho, ordenou a sua prisão. Em seguida, forçou Boris 
Miiller (Melnikov) a testemunhar contra Piatnitski e, no dia seguinte à execução de Miiller, em 29 de julho de 1938, o 
Colégio Militar da Corte Suprema julgou Piatnitski, que se recusou a reconhecer-se como culpado de espionagem em 
favor do Japão. Condenado à morte, foi fuzilado na noite de 29 para 30 de julho. 

Muitos membros do Komintern foram acusados de pertencer à “Organização anti-Komintern liderada por 
Piatnitski, Knorin (Wilhelm Hugo) e Bela Kun”. Outros foram apenas considerados trotskistas e contra-revolu- 
cionários. Bela Kun, antigo chefe da Comuna húngara, que no começo de 1937 havia feito oposição a Manuilski, foi 
acusado por este último (provavelmente cumprindo ordens de Stalin), que afirmou que as críticas de Kun eram feitas 
diretamente a Stalin. Kun alegou inocência e novamente apontou Manuilski e Moskvin como responsáveis pela má 
representação do PCUS, que, segundo ele, estava na origem da ineficácia do Komintern. Entre os presentes - Palmiro 
Togliatti, Otto Kuusinen, Wilhelm Pieck, Klement Gottwald e Arvo Tuominen - ninguém saiu em sua defesa. No final 
da reunião, Georgi Dimitrov fez com que fosse adotada uma resolução na qual se estipulava que o “caso Kun” fosse 
examinado por uma comissão especial. Em matéria de comissão especial, tudo a que Kun teve direito foi ser preso à 
saída da sala de reuniões. Ele foi executado nos porões de Lubianka em data desconhecida. 

Segundo Panteleiev, o objetivo final desse expurgo era a erradicação total da oposição à ditadura stalinista. 
Aqueles que no passado haviam sido simpatizantes da Oposição ou que haviam mantido relações com militantes 
outrora próximos a Trotski foram o alvo principal das repressões. O mesmo aconteceu com os militantes alemães que 
pertenceram à fração dirigida por Heinz Neumann (ele próprio liquidado em 1937) e com os antigos militantes do 
Grupo do Centralismo Democrático. Na época, segundo o testemunho de Jakov Matusov, chefe-adjunto do primeiro 
departamento da Seção Política Secreta do GUGB-NKVD, cada dirigente de alto escalão no aparelho de Estado era 
objeto, sem o saber, de um dossiê que reunia o material suscetível de ser utilizado contra ele no momento oportuno. 
Kliment Vorochilov, Andrei Vychinski, Mikhail Kalinin, Lazar Kaganovitch e Nikita Kruschev também tinham os 
seus. É mais do que provável que os dirigentes do Komintern estivessem sujeitos às mesmas suspeitas. 

Acrescentemos que os mais altos responsáveis russos do Komintern participavam ativamente da repressão. 
Um dos casos mais sintomáticos foi o do italiano Palmiro Togliatti, um dos secretários do Komintern, apresentado após 
a morte de Stalin como um homem aberto, contrário aos métodos terroristas. Ora, Togliatti acusou Hermann Schubert, 
um funcionário do Socorro Vermelho Internacional, impedindo-o de se explicar no decorrer da reunião; preso logo 
após a saída, Schubert foi fuzilado. Um casal de comunistas alemães, os Petermanns, que vieram para a Rússia depois 
de 1933, foram acusados por Togliatti, durante uma reunião, de serem “agentes de Hitler”, pelo fato de manterem 
correspondência com a família que vivia na Alemanha; eles foram presos algumas semanas mais tarde. Togliatti 
participou da perseguição a Bela Kun e assinou a resolução que o enviaria à morte. Ele também esteve ativamente 
envolvido na liquidação do Partido Comunista Polonês, em 1938. Nessa ocasião, aprovou o terceiro dos processos de 
Moscou, e concluiu: “Morte aos promotores da guerra, aos espiões e aos agentes do fascismo! Viva o Partido de Lenin 
e de Stalin, guardião vigilante das conquistas da Revolução de Outubro, garantia segura do triunfo da revolução 
mundial! Viva aquele que continua a obra de Dzerjinski, Nikolai Iejov!” 


Terror no interior dos partidos comunistas 


Após ter feito a “limpeza” do aparelho central do Komintern, Stalin voltou-se para as diferentes seções da 
Internacional Comunista. A primeira a sentir os efeitos foi a seção alemã. A comunidade alemã na Rússia Soviética era 
composta, sem contar os descendentes dos colonos do Volga, por militantes do Partido Comunista Alemão (KPD), por 
antifascistas refugiados e por operários que haviam deixado a República de Weimar para participarem da “construção 
do socialismo”. Nenhuma dessas qualidades lhes proporcionou qualquer ajuda quando, em 1933, começaram as 
detenções. No total, dois terços dos antifascistas alemães exilados na URSS foram atingidos pela repressão. 

No que concerne à sorte dos militantes comunistas, ela é hoje conhecida graças à existência de listas, as 
“kaderlistens”, elaboradas sob a responsabilidade dos dirigentes do KPD, Wilhelm Pieck, Wilhelm Florin e Herbert 
Welhner, que se serviram delas para excluir os comunistas sancionados e/ou vítimas da repressão. A primeira lista data 
de 3 de setembro de 1936, e a última de 21 de junho de 1938. Um outro documento, datado do final dos anos 50 e 


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elaborado pela Comissão de Controle do SED (foi com o nome do Partido Socialista Unificado que, depois da guerra, 
se reconstituiu o Partido Comunista da antiga RDA), registra 1.136 pessoas. As detenções atingem o seu ápice em 1937 
(619) e prosseguem até 1941 (21). O destino de metade dessas pessoas (666) é desconhecido: supõe-se que tenham 
morrido na prisão. Em contrapartida, sabe-se de fonte segura que 82 pessoas foram executadas, 197 morreram na prisão 
ou em campos de concentração e 132 foram entregues aos nazistas. Os cerca de 150 indivíduos gravemente condenados 
e que sobreviveram conseguiram sair da URSS, depois de cumpridas as suas penas. Um dos motivos ideológicos 
invocados para justificar a detenção desses militantes foi que eles não haviam sido capazes de derrubar Hitler, como se 
Moscou não tivesse grande responsabilidade na subida dos nazistas ao poder. 

Mas o episódio mais trágico, no qual Stalin demonstrou a medida exa-ta do seu cinismo, foi a entrega dos 
antifascistas alemães a Hitler. Foi em 1937 que as autoridades soviéticas decidiram expulsar os refugiados alemães. Em 
16 de fevereiro, dez deles foram condenados a expulsão pelo OSO. Alguns são conhecidos: Emil Larisch, técnico, que 
vivia na Rússia desde 1921; Arthur Thilo, engenheiro, vindo em 1931; Wilhelm Pfeiffer, comunista de Hamburgo; Kurt 
Nixdorf, universitário, empregado do Instituto Marx-Engels. Todos eles foram presos no decorrer de 1936, sob a 
acusação de espionagem ou de “atividades fascistas”, e o embaixador alemão von Schulenburg interviera junto a 
Maxim Litvinov, ministro soviético das relações exteriores, a respeito deles. Pfeiffer tentou fazer com que ele próprio 
fosse expulso para a Inglaterra, sabendo que, por ser comunista, seria preso tão logo regressasse à Alemanha. Ao cabo 
de 18 meses, em 18 de agosto de 1938, ele foi levado à fronteira da Polônia; a partir daí, perdeu-se o seu rastro. Arthur 
Thilo conseguiu chegar à embaixada britânica em Varsóvia. Muitos não tiveram essa sorte. Otto Walther, litografo em 
Leningrado e que vivia na Rússia desde 1908, chegou a Berlim em 4 de março de 1937; cometeu o suicídio atirando-se 
da janela da pensão onde estava hospedado. 

No final de maio de 1937, von Schulenburg entregou duas listas de alemães presos cuja expulsão era desejada. 
Entre os 67 nomes, encontram-se os de vários antifascistas, como, por exemplo, o de Kurt Nixdorf. No outono de 1937, 
as negociações tomaram um novo rumo: os soviéticos aceitaram acelerar as expulsões, como lhes fora solicitado pelos 
nazistas (cerca de 30 já tinham sido efetuadas). De novembro a dezembro de 1937,148 alemães foram expulsos; ao 
longo de 1938, mais 445. Conduzidos até as fronteiras da Polônia e da Letónia, às vezes da Finlândia, os expulsos - 
entre eles os Schutzbundler austríacos - passavam de imediato para o controle dos representantes das autoridades 
alemãs. Em alguns casos, como o do comunista austríaco Paul Meisel, o deportado foi conduzido em maio de 1938 até 
a fronteira austríaca, via Polônia, para ser entregue à Gestapo. Paul Meisel, que era judeu, desapareceu em Auschwitz. 

O excelente entendimento entre a Alemanha nazista e a Rússia Soviética prefigurava os pactos sovieto- 
nazistas de 1939, “onde se exprime a verdadeira natureza convergente dos regimes totalitários” (Jorge Semprun). Após 
a assinatura desses pactos, as expulsões continuaram em condições cada vez mais dramáticas. Depois de a Polônia ser 
esmagada por Hitler e Stalin, as duas potências ficaram com uma fronteira comum, o que lhes permitia transferir 
diretamente os expulsos das prisões soviéticas para as alemãs. De 1939 a 1941, de 200 a 300 comunistas alemães foram 
entregues à Gestapo, como prova da boa vontade soviética em relação a seu novo aliado. Em 27 de novembro de 1939, 
foi assinado um acordo entre as duas partes. Como consequência, foram expulsas 350 pessoas, de novembro de 1939 a 
maio de 1941, 85 das quais eram austríacas. Entre os deportados, aparecia Franz Koritschoner, um dos fundadores do 
Partido Comunista Austríaco, que se tornou funcionário da Internacional Sindical Vermelha; depois de ter sido exilado 
para o Grande Norte, ele foi entregue à Gestapo de Lublin, transferido para Viena, torturado e executado no dia 77 de 
junho de 1941, em Auschwitz. 

As autoridades soviéticas não levavam em conta a origem judaica de muitos desses deportados: maestro e 
compositor, Hans Walter David, judeu e membro do KPD, ele foi entregue à Gestapo e executado em câmara de gás 
em 1942, no campo de Majdanek. Há muitos outros casos: o físico Alexandre Weissberg, que sobreviveu e escreveu 
suas memórias. Margarete Buber-Neumamn, a companheira de Heinz Neumann - que, afastado da direção do KPD, 
havia emigrado para a URSS -, foi também testemunha do incrível entendimento entre os nazistas e os soviéticos. 
Deportada para Karaganda, na Sibéria, ela foi entregue à Gestapo, junto a muitas companheiras de infortúnio em 
fevereiro de 1940. Essa “troca” lhe custou ser internada em Ravensbríick. 


Na ponte de Brest-Litovsk 


“No dia 31 de dezembro de 1939, fomos acordados às seis da manhã [...]. Vestidos e devidamente 
barbeados, tivemos de aguardar algumas horas na sala de espera. Um judeu comunista húngaro, chamado Bloch, que 
havia fugido para a Alemanha após o insucesso da Comuna de 1919, vivia ali com documentos falsos, continuando a 
sua militância em favor do Partido. Mais tarde, utilizando-se dos mesmos documentos falsos, ele havia emigrado. 
Igualmente preso, a despeito dos protestos, ele também foi entregue à Gestapo alemã. [...] Perto da meia-noite, 
chegaram os ônibus que nos transportaram à estação. [...] Durante a noite de 31 de dezembro de 1939 para 1º. de janeiro 
de 1940, o trem pôs-se em marcha. Levava para casa 70 seres humanos vencidos. [...] Através de uma Polônia 


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devastada, continuávamos a nossa viagem até Brest-Litovsk. Na ponte do rio Bug, estávamos sendo esperados pelo 
aparelho do outro regime totalitário da Europa, a Gestapo alemã.” 

Alexandre Weissberg, L'Accusé, Fasquelle, 1953. A. Weissberg conseguiu fugir da prisão nazista; juntou-se 
aos rebeldes poloneses e combateu a seu lado. No fim da guerra, foi para a Suécia e depois para a Inglaterra. 

“Três pessoas se recusaram a atravessar essa ponte, a saber: um judeu húngaro chamado Bloch, um operário 
comunista condenado pelos nazistas e um professor alemão de cujo nome não consigo me lembrar. Eles foram levados 
à força para a ponte. A raiva dos nazistas, dos SS, abateu-se imediatamente sobre o judeu. Eles nos puseram num trem 
e nos levaram para Lublin [...]. Em Lublin, fomos entregues à Gestapo. Verificamos então que não somente o NKVD 
nos entregara à Gestapo, como haviam sido entregues os documentos que nos diziam respeito. Foi assim que eles 
souberam, entre outras coisas, através do meu dossiê, que eu era a mulher de Neumann e que ele era um dos alemães 
mais odiados pelos nazistas...” 

Margarete Buber-Neumann, “Deposição no Processo Kravchenko contra Lês Lettres Françaises, 141 audiência, 
23 de fevereiro de 1949. Resumo estenogra-fado”, La Jeune Parque, 1949. Presa em 1937, deportada para a Sibéria e 
entregue aos nazistas, Margarete Buber-Neumann foi internada no campo de concentração de Ravensbriick até a sua 
libertação, em abril de 1945. 


Ao mesmo tempo que os comunistas alemães, os quadros do Partido Comunista da Palestina, muitos dos quais 
haviam emigrado da Polônia, foram apanhados pela máquina do terror. Joseph Berger (1904-1978), antigo secretário do 
PCP, de 1929 a 1931, preso em 27 de fevereiro de 1935, só veio a ser libertado depois da realização do XX Congresso, 
em 1956. A sua sobrevivência representa uma exceção. Muitos outros militantes foram executados em diversos 
momentos e outros desapareceram em campos de concentração. Wolf Averbuch, que fora diretor de uma fábrica de 
tratores em Rostov-sobre-o-Don, foi preso em 1936 e executado em 1941. A política sistemática de destruição dos 
membros do PCP ou de grupos sionistas-socialistas vindos para a Rússia deve ser diretamente ligada à política 
soviética relativa à minoria judaica e à constituição do Birobidjan, cujos responsáveis foram perseguidos. O professor 
Josif Liberberg, presidente do Comitê Executivo do Birobidjan, foi denunciado como “inimigo do povo”. Depois dele, 
os outros quadros da região autónoma que chefiavam instituições foram sujeitos a perseguições. Samuel Augurskij 
(1884-1947) foi acusado de pertencer a um pretenso Centro Judaico-Fascista. Toda a seção judaica do Partido russo (a 
“Jewsekija”) foi desmantelada. O objetivo era a destruição das instituições judaicas, ao mesmo tempo em que o Estado 
soviético procurava obter o apoio de personalidades judaicas fora da URSS. 

Um dos grupos mais atingidos pelo terror foi o dos comunistas poloneses. Nas estatísticas existentes sobre a 
repressão, eles vêm em segundo lugar, logo depois dos russos. É verdade que, muito excepcionalmente, o Partido 
Comunista Polonês (KPP) havia sido oficialmente dissolvido, através do voto expresso do Comitê Executivo do 
Komintern, em 16 de agosto de 1938. Stalin sempre suspeitara de que o KPP estava infestado por muitos e diferentes 
desvios. Muitos dirigentes comunistas poloneses haviam pertencido aos círculos próximos de Lenin antes de 1917 e 
viviam na URSS sem qualquer proteção jurídica. Em 1923, o KPP tomou posição ao lado de Trotski. Às vésperas da 
morte de Lenin, a sua direção havia adotado uma resolução em favor da Oposição. Em seguida, o seu 
“Juxemburguismo” foi criticado. Por ocasião do V Congresso do Komintern, em junho-julho de 1924, Stalin afastou a 
direção histórica do KPP - Adolf Warski, Maximilian Walecki e Wera Kostrewa-Kochtchva -, primeiro passo para a 
tomada do controle por parte do Komintern. Depois, o KPP foi denunciado como um foco de trotskismo. O que não 
explica, por si só, o expurgo radical que atingiu o partido, cujos dirigentes eram, em grande parte, de origem judaica. 
Houve ainda o caso da Organização Militar Polonesa (POW), ocorrido em 1933 (ver a contribuição de Andrzej 
Paczkowski). É preciso igualmente ter em mente o seguinte fator: a política do Komintern tendia a impor a sua seção 
polonesa uma ação inteiramente voltada para o enfraquecimento do Estado polonês em benefício da URSS e da 
Alemanha. A hipótese segundo a qual a liquidação do KPP foi sobretudo motivada pela necessidade de preparar a 
assinatura dos acordos germano-soviéticos merece ser considerada seriamente. A forma como Stalin empenhou-se é do 
mesmo modo reveladora: ele exerceu uma pressão de modo que - com a ajuda dos aparelhos do Komintern - todas as 
suas futuras vítimas fossem obrigadas a retornar a Moscou e cuidou para que nenhuma pudesse escapar. Sobreviveram 
somente os que estavam presos na Polônia, como foi o caso de Wladyslaw Gomulka. 

Em fevereiro de 1938, A Correspondência Internacional, publicação bis-semanal oficial do Komintern, num 
artigo assinado por J. Swiecicki, acusou todo o conjunto do KPP. No decurso do expurgo iniciado em junho de 1937 - 
convocado a Moscou, o primeiro-secretário Julian Lenski desapareceu poucos dias depois -,12 membros do Comitê 
Central, numerosos dirigentes de segundo escalão e várias centenas de militantes foram liquidados. O expurgo 
estendeu-se aos poloneses alistados nas Brigadas Internacionais: os responsáveis políticos da Brigada Dombrowski, 
Kazimerz Cichowski e Gustav Reicher, foram presos quando regressavam a Moscou. Foi somente em 1942 que Stalin 
se deu conta da necessidade de reerguer um partido comunista polonês, sob o nome de Partido Operário Polonês (PRP), 
a fim de fazer dele o núcleo de um futuro governo a seu serviço, opositor do governo legal refugiado em Londres. 


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Os comunistas iugoslavos sofreram muito com o terror stalinista. Proibido em 1921, o Partido Comunista 
lugoslavo foi obrigado a refugiar-se no exterior, primeiro em Viena, de 1921 a 1936, e depois em Paris, de 1936 a 
1939; mas foi sobretudo em Moscou, a partir de 1925, que se constituiu seu principal centro. Um primeiro núcleo de 
emigrantes iugoslavos - rapidamente reforçados por uma nova onda de emigração resultante da instauração da ditadura 
do rei Alexandre, em 1929 - formou-se em torno dos alunos da Universidade Comunista das Minorias Nacionais 
(KUNMZ), da Universidade Comunista de Serdlov e da Escola Leninista Internacional. Nos anos 30, viviam na 
URSS43 entre 200 e 300 comunistas iugoslavos, todos bem integrados, principalmente nas administrações 
internacionais do Komintern e da Internacional Comunista da Juventude. Por essa razão, eles estavam evidentemente 
ligados ao PCUS. 

As lutas constantes que opunham as diversas facções que disputavam a liderança do PCI deram-lhes uma má 
reputação. Nessas circunstâncias, a intervenção da direção do Komintern tornou-se cada vez mais frequente e intensa. 
Em meados de 1925, foi feita uma “tchistka”, uma averiguação-depuração, na KUNMZ; os estudantes iugoslavos, 
favoráveis à Oposição, resistiram à reitora, Maria J. Frukina. Alguns foram expulsos e censurados, e quatro deles (Ante 
Ciliga, Dedic, Dragic e Eberling) foram presos e enviados à Sibéria. Em 1932, houve uma nova depuração no PCI, 
promovendo a exclusão de 16 militantes. 

Depois do assassinato de Kirov, o controle sobre os emigrantes políticos foi reforçado e, no outono de 1936, 
todos os militantes do PCI foram sujeitos a averiguações, antes que o terror os atingisse. Mais bem conhecido do que a 
sorte dos trabalhadores anónimos, o destino dos emigrantes políticos revela que oito secretários e 15 outros membros 
do Comitê Central do PCI, além de 21 secretários de direções regionais ou locais foram presos e desapareceram. Um 
dos secretários do PCI, Sima Markovitch, forcado a refugiar-se na URSS, trabalhou na Academia de Ciências antes de 
ser preso, em julho de 1939; condenado a dez anos de trabalhos forçados, sem direito a manter correspondência com a 
família, morreu na prisão. Outros foram imediatamente executados, tais como os irmãos Vujovic, Radomir (membro do 
Comitê Central do PCI) e Gregor (membro do Comitê Central da Juventude); um terceiro irmão, Voja, antigo 
responsável da Internacional Comunista da Juventude, que permanecera solidário a Trotski em 1927, desapareceu, e, de 
fato, a sua prisão acarretou a dos outros irmãos. Secretário do Comitê Central do Partido Comunista lugoslavo de 1932 
a 1937, Milan Gorkic foi acusado de ter criado uma “organização anti-soviética dentro da Internacional e de ter 
comandado um grupo terrorista infiltrado no Komintern, organização liderada por Knorin e Piatnitski”. 

Em meados dos anos 60, o PCI reabilitou uma centena de vítimas da repressão, mas nunca foi feita uma 
investigação sistemática sobre o assunto. É verdade que a abertura de um inquérito desse tipo colocaria indiretamente a 
questão das vítimas da repressão exercida contra os partidários da URSS na Jugoslávia, após a cisão de 1948. Ela teria, 
sobretudo, destacado que a ascensão de Tito (Josip Broz) à liderança do Partido, em 1938, havia sido consecutiva a 
uma depuração particularmente sangrenta. O fato de Tito, em 1948, ter se revoltado contra Stalin em nada diminuiu as 
suas responsabilidades na depuração dos anos 30. 


A caça aos “trotskistas” 


Depois de ter dizimado as fileiras dos comunistas estrangeiros que viviam na URSS, Stalin voltou-se para os 
“dissidentes” que viviam no exterior. Foi assim que o NKVD teve a oportunidade de demonstrar o seu poderio 
mundial. 

Um dos casos mais espetaculares foi o de Ignaz Reiss, cujo verdadeiro nome era Nathan Poretski. Reiss era 
um dos jovens judeus revolucionários oriundos da guerra de 1914/1918, como tantos outros que a Europa Central 
conheceu e que o Komintern recrutou. Agitador profissional, ele trabalhava numa rede clandestina internacional, 
chegando a ser condecorado com a Ordem da Bandeira Vermelha, por excelente desempenho em suas funções. Em 
1935 ele foi “recuperado” pelo NKVD, que passava a assumir o controle de todas as redes que funcionavam no 
exterior, tendo sido encarregado de espionagem na Alemanha. O primeiro grande processo de Moscou perturbou 
profundamente Reiss, que decidiu romper com Stalin. Conhecendo os costumes da “casa”, preparou cuidadosamente a 
sua deserção e, no dia 17 de julho de 1937, tornou pública uma carta dirigida ao Comitê Central do PCUS, na qual ele 
se explicava e atacava abertamente Stalin e o stalinismo, “essa mistura do pior oportunismo - um oportunismo sem 
moral -, de sangue e de mentiras, que ameaçava envenenar o mundo inteiro e aniquilar o que restava do movimento 
operário”. Ao mesmo tempo, Reiss anunciava a sua aliança com León Trotski. Ele acabava, assim, de assinar a sua 
sentença de morte. O NKVD acionou imediatamente a sua rede na Franca, que conseguiu localizá-lo na Suíça e 
preparou-lhe uma armadilha. Na noite de 4 de setembro, em Lausanne, Reiss foi crivado de balas por dois comunistas 
franceses, enquanto uma agente feminina do NKVD tentava assassinar a mulher e o filho do “traidor” com uma caixa 
de chocolates envenenados. A despeito das investigações conduzidas na Suíça e na Franca, os assassinos e seus 
cúmplices nunca foram encontrados e condenados. Trotski imediatamente levantou suspeitas sobre Jacques Duelos, um 
dos secretários do PCF, e encarregou o seu secretário, Jan Van Heijenoort, de enviar o seguinte telegrama ao chefe de 


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governo francês: “Chautemps Presidente do Conselho Paris / Sobre caso assassinato Ignaz Reiss / Roubo de meus 
arquivos e crimes análogos / Permita-me insistir necessidade submeter interrogatório pelo menos como testemunha, 
Jacques Duelos vice-presidente Câmara Deputados, velho agente GPU.” 

Duelos era vice-presidente da Câmara dos Deputados desde junho de 1936 e não foi dado qualquer 
seguimento ao telegrama. 

O assassinato de Reiss foi, sem dúvida, espetacular, mas integrava-se num grande plano de liquidação dos 
seguidores de Trotski. Ninguém pode se espantar com o fato de, na URSS, os trotskistas terem sido chacinados como 
tantos outros. Em contrapartida, o que pode nos surpreender é a cólera com que os serviços especiais liquidavam 
fisicamente os opositores em todo o mundo, ou ainda os grupos trotskistas organizados em diferentes países. Na base 
desse “empreendimento” havia um paciente trabalho de infiltração. 

Em julho de 1937, o responsável do Secretariado Internacional da Oposição Trotskista, Rudolf Klement, 
desapareceu. Em 26 de agosto, um corpo decapitado e sem pernas foi pescado no rio Sena e pouco depois identificado 
como sendo o de Klement. O próprio filho de Trotski, León Sedov, morreu em Paris no dia 16 de fevereiro de 1938, 
como resultado de uma operação; as condições altamente suspeitas que rodearam a sua morte levaram seus parentes a 
suspeitarem de um assassinato organizado pelos serviços soviéticos. Ao contrário, em suas memórias,47 Pavel 
Sudoplatov assegurava que nada disso realmente aconteceu. Em todo caso, não restam dúvidas de que León Sedov 
encontrava-se em estreita vigilância do NKVD. Um de seus amigos, Mark Zborowski, era um agente infiltrado no 
movimento trotskista. 


Louis Aragon, Prelúdio ao Tempo das Cerejas 


Eu canto a GPU que se forma 

na França agora mesmo 

Eu canto a GPU necessária da França 

Eu canto as GPUs de todos os lugares e de lugar nenhum 

Eu exijo uma GPU para preparar o fim de um mundo 

Exijam uma GPU para preparar o fim de um mundo 

para defender os que são traídos 

para defender os que são sempre traídos 

Exija a GPU vocês que são dobrados e vocês que são monos 

Exijam uma GPU 

Precisamos de uma GPU 

Viva a GPU figura dialética do heroísmo 

para opor essa imagem imbecil dos aviadores 

que os imbecis consideram heróis quando eles arrebentam 

a cara no chão 

Viva a GPU verdadeira imagem da grandeza materialista 

Viva a GPU contra o deus Chiappe e a “Marselhesa” 

Viva a GPU contra o papa e os piolhos 

Viva a GPU contra a resignação dos bancos 

Viva a GPU contra as manobras do Leste 

Viva a GPU contra a família 

Viva a GPU contra as leis infames 

Viva a GPU contra o socialismo dos assassinos do tipo 

Caballero Boncour MacDonald Zoergibel 

Viva a GPU contra todos os inimigos do Proletariado 

VIVA A GPU. 

(1931) 

(Citado por Jean Malaquais, Lê nommé Louis Aragon ou lê patriote profes-sionnel, suplemento a Masses, 
fevereiro de 1947.) 





Em contrapartida, Sudoplatov reconhece ter sido encarregado por Beria e por Stalin, em março de 1939, de 
assassinar Trotski. Stalin lhe disse: “É preciso acabar com Trotski no prazo de um ano, antes do começo da guerra, que 
é inevitável [...]”, acrescentando: “Você fará seus relatórios diretamente ao camarada Beria e a mais ninguém, mas é 
você quem tem plena responsabilidade pela missão.” Iniciou-se, então, uma perseguição implacável, que se estendeu ao 
México, onde residia o chefe da IV Internacional, passando por Paris, Bruxelas e pelos Estados Unidos. Com a 


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cumplicidade do Partido Comunista Mexicano, os agentes de Sudoplatov prepararam um primeiro atentado, em 24 de 
maio, ao qual Trotski escapou por milagre. Foi graças à infiltração de Ramón Mercader, sob um falso nome, que 
Sudoplatov encontrou um meio de livrar-se de Trotski. Mercader, que conquistara a confiança de um militante 
trotskista, conseguiu entrar em contato com o “Velho”. Um pouco desconfiado, Trotski aceitou recebê-lo para dar-lhe a 
sua opinião sobre um artigo escrito em sua defesa, o revolucionário. Mercader então desferiu-lhe um golpe de picareta 
na cabeça. Gravemente ferido, Trotski deu um grito dilacerante. Sua mulher e seus guarda-costas se precipitaram sobre 
Mercader, que permaneceu petrificado após ter cometido o crime. Trotski morreu no dia seguinte. 

A interpenetração entre os partidos comunistas, as seções do Komintemn e os serviços do NKVD havia sido 
denunciada por León Trotski, que estava plenamente consciente de que o Komintern era dominado pela GPU e, depois, 
pelo NKVD Numa carta de 27 de maio de 1940, dirigida ao procurador geral do México, três dias depois da primeira 
tentativa de assassinato de que fora vítima, Trotski escrevia: “A organização da GPU tem tradições e métodos bem 
estabelecidos fora da União Soviética. A GPU necessita de uma cobertura legal ou semilegal para o desenvolvimento 
de suas atividades, assim como de um ambiente favorável para o recrutamento dos seus agentes; ela encontra esse 
ambiente e essa proteção nos pretensos 'partidos comunistas'.”' No seu último texto, ainda sobre o atentado sofrido em 
24 de maio, ele voltou aos pormenores da operação que quase o vitimara. Para ele, a GPU (Trotski continuava a utilizar 
o nome adotado em 1922, enquanto ainda estava no poder) era “o órgão principal do poder de Stalin”, era o 
“instrumento da dominação totalitária” na URSS, sendo essa a razão do “espírito de servilismo e de cinismo [que] se 
espalhou por todo o Komintern e que envenenou o movimento operário até a medula”. Ele insiste longamente sobre 
essa dimensão particular que determina bem as coisas que dizem respeito aos partidos comunistas: “Enquanto 
organizações, a GPU e o Komintern não são semelhantes, mas estão indissoluvelmente ligados. Estão subordinados um 
ao outro, e não é o Komintern que dará ordens à GPU; muito pelo contrário, é a GPU que domina completamente o 
Komintern.” 

Essa análise, apoiada por inúmeros elementos, era fruto da dupla experiência de Trotski: a adquirida na 
ocasião em que ele fora um dos dirigentes do então nascente Estado Soviético, e a do proscrito, perseguido em todo o 
mundo pelos agentes do NKVD, cujos nomes são hoje conhecidos com relativa certeza. Trata-se de dirigentes do 
departamento das “Missões Especiais”, criado em dezembro de 1936 por Nikolai lejov: Serguei Spiegelglass, que 
fracassou, Pavel Sudoplatov (falecido em 1996) e Naum Eitingon (falecido em 1981), que foram bem-sucedidos graças 
a seus numerosos cúmplices.i 

Sabemos o essencial sobre o assassinato de Trotski, no México, em 20 de agosto de 1940, graças às 
investigações conduzidas imediatamente no próprio local, e em várias ocasiões posteriores, por Julian Gorkin. Quanto 
ao mandante do homicídio, nunca houve a menor dúvida: os responsáveis diretos eram conhecidos, informações 
recentemente confirmadas pelo próprio Sudoplatov. Jaime Ramón Mercader dei Rio era filho de Caridad Mercader, 
uma comunista que há muito tempo trabalhava para os Serviços e que se tornara amante de N. Eitingon. Mercader 
aproximou-se de Trotski usando o nome de Jacques Mornard, que não era uma personagem fictícia, pois existia 
realmente; faleceu na Bélgica em 1967. Mornard havia lutado na Espanha, onde é provável que seu passaporte tenha 
sido “tomado emprestado” pelos serviços soviéticos. Mercader também usou o nome de Jacson, utilizando um outro 
passaporte, pertencente a um canadense alistado nas Brigadas Internacionais e morto em combate. Ramón Mercader, 
convidado por Fidel Castro para trabalhar como conselheiro do Ministério da Administração Interna, morreu em 
Havana, em 1978. O homem que havia sido condecorado com a ordem de Lenin foi discretamente enterrado em 
Moscou. 


Stalin, livre de seu último adversário político, nem por isso desistiu da caça aos trotskistas. O exemplo francês 
é muito revelador do reflexo mental adquirido pelos militantes comunistas relativamente aos militantes das pequenas 
organizações trotskistas. Durante a ocupação, na França, não está excluída a possibilidade de alguns trotskistas terem 
sido denunciados por comunistas às polícias francesa e alemã. 

Nas prisões e nos campos franceses de Vichy, os trotskistas foram sistematicamente postos em quarentena. Em 
Nontron (na região francesa de Dor-dogne), Gérard Bloch foi relegado ao ostracismo pelo grupo comunista liderado 
por Michel Bloch, filho do escritor Jean-Richard Bloch. Encarcerado em Eysses, Gérard Bloch foi avisado por um 
professor católico de que o grupo comunista da prisão decidira executá-lo, estrangulando-o durante a noite. 

Nesse clima de raiva cega, o caso do “desaparecimento” de quatro trotskistas, entre os quais Pierre Tresso, 
fundador do Partido Comunista Italiano, em poder do maquis FTP “Wodli”, instalado na região francesa do Alto Loire, 
adquire todo o seu significado. Evadidos da prisão de Puy-en-Velay, em 1? de outubro de 1943, ao mesmo tempo que 
seus camaradas comunistas, cinco militantes trotskistas foram “protegidos” por esse grupo de resistentes comunistas. 
Um deles, Albert Demaziêre, separou-se acidentalmente de seus camaradas. Foi o único sobrevivente dos cinco:54 
Tresso, Pierre Salini, Jean Reboul e Abraham Sadek foram executados no final de outubro, após um julgamento 
simulado e muito significativo. As “testemunhas” e protagonistas ainda vivos relatam que esses militantes haviam, com 


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efeito, planejado o “envenenamento da água do campo”, acusação medieval que nos remete às origens judaicas de 
Trotski (cujo filho, Serguei, também foi acusado na URSS de ter as mesmas intenções) e de pelo menos um dos 
membros do grupo (Abraham Sadek). Dessa forma, o movimento comunista demonstrava que não estava isento da 
mais grosseira regressão anti-semita. Antes de serem mortos, os quatro trotskistas foram fotografados, provavelmente 
para serem identificados pelas instâncias superiores do PCF, e obrigados a escrever as suas biografias. 

Até mesmo dentro dos próprios campos de concentração os comunistas procuravam eliminar fisicamente os 
seus adversários mais próximos, aproveitando-se das posições conseguidas na hierarquia da prisão. Mareei Beaufrêre, 
responsável pela região bretã do Partido Operário Internacional, que fora preso em outubro de 1943 e deportado para 
Buchenwald em janeiro de 1944, tornou-se suspeito de ser trotskista aos olhos do chefe interblocos (um comunista). 
Dez dias mais tarde, alguém avisou-lhe de que a célula comunista do bloco 39 - o dele - o condenara à morte e queria 
enviá-lo para o bloco das cobaias, onde as vítimas eram inoculadas com o vírus do tifo. Beaufrêre foi salvo in extremis 
graças à intervenção dos militantes alemães. Bastava utilizar o sistema concentracionário nazista para se livrar dos 
adversários políticos - vítimas, porém, dos mesmos carrascos da Gestapo ou da SS -, enviando-os para as missões mais 
perigosas. Mareei Hic e Roland Filiátre, ambos deportados para Buchenwald, foram enviados ao terrível campo de 
Dora, “com a concordância dos quadros do KPD, que se ocupavam das funções administrativas do campo”, escreveu 
Rodolphe Prager. Mareei Hic morreu ali mesmo. Em 1948, Roland Filiâtre escapou de uma tentativa de assassinato em 
seu local de trabalho. 

Outras “liquidações” de militantes trotskistas ocorreram com o auxílio da chegada Libertação. Um jovem 
operário parisiense pertencente ao grupo “A Luta de Classes”, Mathieu Buchholz, desapareceu no dia 11 de setembro 
de 1944. Em maio de 1947, o jornal publicado pelo seu grupo levantou suspeitas sobre os “stalinistas”. 

Na Grécia, o movimento trotskista era considerável. Um secretário do Partido Comunista Grego (KKE), 
Pandelis Pouliopoulos - que foi mais tarde fuzilado pelos italianos - manteve relação com o movimento antes da guerra. 
Durante o conflito, os trotskistas aderiram individualmente às fileiras da Frente de Libertação Nacional (EAM), 
fundada em junho de 1941 pelos comunistas. Aris Velouchiotis, general do Exército Popular de Libertação Nacional 
(ELAS), mandou executar cerca de 20 dirigentes trotskistas. Depois da libertação, multiplicou-se o número de 
sequestros de militantes trotskistas. Muitos foram torturados, para que revelassem o endereço de camaradas. Em seu 
relatório ao Comitê Central do PC, datado de 1946, Vassilis Bartziotas menciona um total de 600 trotskistas executados 
pela OPLA (Organização de Proteção das Lutas Populares), número que deve incluir, provavelmente, os anarquistas e 
socialistas dissidentes. Os “arqueo-marxistas”, militantes organizados fora do Partido Comunista Grego em 1924, 
também foram perseguidos e assassinados. 

Os comunistas albaneses não ficaram para trás. Após a unificação, em novembro de 1941, dos grupos de 
esquerda, entre os quais os trotskistas reunidos em torno de Anastaste Loula, ressurgiram as divergências entre 
trotskistas e ortodoxos (Enver Hoxha, Memet Chehu), aconselhados pelos iugosla-vos. Loula foi sumariamente 
executado. Após várias tentativas de morte, Sadik Premtaj, outro líder trotskista extremamente popular, conseguiu 
chegar à França; em maio de 1951, ele foi vítima de uma nova tentativa de assassinato, perpetrado por Djemal Chami, 
antigo membro das Brigadas Internacionais, homem de ação da legação albanesa em Paris. 

Em 1928, na China, havia sido formado um embrião de movimento, sob a autoridade de Chen Duxiu, fundador 
e antigo secretário do PCC. Em 1935, contava-se apenas uma centena de membros. Durante a guerra contra o Japão, 
uma parte deles conseguiu integrar-se ao oitavo exército da APL. Eles foram executados por Mão Tsé-tung, que 
também mandou liquidar os batalhões que eles comandavam. No final da guerra civil, muitos dos primeiros foram 
sistematicamente perseguidos e executados. O destino de muitos deles permanece desconhecido. 

A situação da Indochina foi diferente, pelo menos nos primeiros tempos. Os trotskistas do grupo Tranh Dau (A 
Luta) e os comunistas juntaram-se em causa comum a partir de 1933. A influência dos trotskistas era particularmente 
forte no sul da península. Em 1937, uma diretiva de Jacques Duelos proibiu o Partido Comunista Indochinês de 
continuar a colaborar com os militantes de A Luta. Nos meses que se seguiram à derrota japonesa, um outro ramo 
trotskista - a Liga Comunista Internacional - adquiriu influência suficiente para inquietar os dirigentes comunistas. Em 
setembro de 1945, por ocasião da chegada das tropas inglesas, a LCI repreendeu severamente o acolhimento pacífico 
que o Vietminh (ou Frente Democrática pela Independência), criado em maio de 1941 por Ho Chi Minh, lhes 
proporcionou. Em 14 de setembro, o Vietminh lançou uma vasta operação contra os quadros trots-kistas, que não 
ofereceram resistência. Capturados, a maioria foi executada de imediato. Em seguida, depois de terem combatido as 
tropas anglo-francesas entrincheiradas na Planície dos Juncos, foram esmagados pela tropas do Vietminh. Segunda 
etapa da operação: o Vietminh voltou-se a seguir contra os militantes de A Luta. Aprisionados em Ben Sue, foram 
executados com a aproximação das tropas francesas. Ta Tu Thau, líder histórico do movimento, preso mais tarde, foi 
executado em fevereiro de 1946. Afinal de contas, não foi o próprio Ho Chi Minh quem afirmou que os trotskistas “são 
mais infames do que os traidores e os espiões” 


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Na Tchecoslováquia, o destino de Zavis Kalandra simboliza por si só o de todos os seus companheiros. Em 
1936, Kalandra fora expulso do PCC por ter escrito um livro no qual ele denunciava os processos de Moscou. 
Resistente, ele foi deportado pelos alemães para Oraniemburg. Preso em novembro de 1949 e acusado de ter liderado 
uma “conspiração contra a República”, ele foi torturado. O julgamento teve início em junho de 1950. Kalandra se 
retratou. No dia 8 de junho, ele foi condenado à morte. Em Combat (14 de junho de 1950), André Breton pediu a Paul 
Éluard que intercedesse em favor de um homem que ambos conheciam desde antes da guerra. Éluard respondeu-lhe: 
“Estou por demasiado ocupado com os inocentes que proclamam a sua inocência para perder tempo com culpados que 
proclamam a sua culpa.” Zavis Kalandra foi executado em 27 de junho, juntamente com três outros companheiros. 

Antifascistas e revolucionários estrangeiros vítimas do terror na URSS 

O fato de ter dizimado membros do Komintern, trotskistas e outros dissidentes constituiu um importante 
episódio do terror comunista; ele não foi, porém, o único desses episódios. Com efeito, em meados dos anos 30, vivia 
na Rússia um grande número de estrangeiros que, mesmo sem ser comunistas, haviam sido atraídos pela miragem 
soviética. Muitos deles pagaram com a liberdade, e por vezes com a vida, o preço dessa paixão pelo país dos sovietes. 

No início dos anos 30, os soviéticos conduziram uma campanha de propaganda sobre a Carélia, jogando 
simultaneamente com as possibilidades oferecidas por essa região fronteiriça entre a URSS e a Finlândia e a atração 
que a “construção do socialismo” exercia. Quase 12 mil pessoas deixaram a Finlândia, acrescidos de cerca de cinco mil 
finlandeses vindos dos Estados Unidos, principalmente os membros da Associação (norte-americana) dos 
Trabalhadores Finlandeses, que naquele momento enfrentavam grandes dificuldades devido ao desemprego que se 
seguiu à crise de 1929. A “febre da Carélia” foi tão forte, que os agentes da Amtorg (agência comercial soviética) lhes 
prometiam trabalho, bons salários, alojamento e viagem gratuita de Nova York a Leningrado. Recomendava-se aos 
interessados que levassem tudo o que possuíssem. 

A “corrida para a utopia”, segundo a expressão de Aino Kuusinen, transformou-se em pesadelo. Desde a sua 
chegada, as máquinas, as ferramentas e as economias desses imigrantes foram confiscadas. Obrigados a entregar os 
passaportes, eles se viram como prisioneiros em uma região subdesenvolvida, onde predominava a floresta, em 
condições de subsistência particularmente duras. Segundo Arvo Tuominen, que liderava o Partido Comunista Finlandês 
e ocupava a função de membro suplente do Presidium do Comitê do Komintern até o fim de 1939, condenado à morte 
para depois ver a sua pena comutada em dez anos de prisão, pelo menos 20 mil finlandeses foram encarcerados em 
campos de concentração. 

Forçado a se instalar em Kirovakan, Aino Kuusinen presenciou a chegada, depois da Segunda Guerra 
Mundial, dos arménios que, também vítimas de uma hábil propaganda, haviam decidido se estabelecer na República 
Soviética da Arménia. Respondendo à convocação de Stalin, para que as pessoas de origem russa que viviam no 
estrangeiro retornassem à URSS, esses arménios, apesar de serem na realidade muito mais turcos exilados do que 
russos propriamente ditos, se mobilizaram para se instalarem na República da Arménia, que, em sua imaginação, 
substituía a terra de seus antepassados. Em setembro de 1947, vários milhares deles se reuniram no porto de Marselha. 
Três mil e quinhentos embarcaram no Rossio, que os transportou para a URSS. Assim que o navio transpôs a linha 
imaginária que demarcava as águas territoriais soviéticas no Mar Negro, a atitude das autoridades soviéticas mudou 
repentinamente. Muitos então compreenderam a armadilha odiosa em que tinham caído. Em 1948, duas centenas de 
arménios chegaram dos Estados Unidos. Acolhidos em clima de festa, eles tiveram a mesma sorte: os seus passaportes 
foram confiscados logo na chegada. Em maio de 1956, várias centenas de arménios oriundos da Franca fizeram uma 
manifestação por ocasião da visita a Erevan do ministro das Relações Exteriores, Christian Pineau. Apenas 60 famílias 
foram autorizadas a deixar a URSS, enquanto a repressão se abatia sobre os outros. 

O terror não atingia unicamente os que tinham chegado à URSS de sua livre vontade, mas também os que 
foram obrigados a fazê-lo pela repressão de regimes ditatoriais. De acordo com o artigo 129 da Constituição Soviética 
de 1936, “a URSS concede o direito de asilo aos cidadãos estrangeiros perseguidos por defenderem os direitos dos 
trabalhadores ou em razão de sua ativida-de científica ou por sua luta pela liberdade nacional”. Em seu romance Víe et 
Destin, Vassili Grossman descreve a confrontação entre um SS e um velho militante bolchevique, seu prisioneiro. No 
decorrer de um longo monólogo, o SS diz uma frase que ilustra perfeitamente o destino de milhares de homens, 
mulheres e crianças que procuraram refugio na URSS. É a seguinte: “Quem encontramos em nossos campos de 
concentração em tempos de paz, quando não há prisioneiros de guerra? Encontram-se os inimigos do Partido, os 
inimigos do povo. São uma espécie que vocês conhecem, são os que também se encontram em seus campos. E se, em 
tempo de paz, os seus campos entrassem para o sistema da SS, nós não deixaríamos sair os prisioneiros que lá se 
encontrassem. Seus prisioneiros são os nossos prisioneiros.”” 

Quer tenham vindo do estrangeiro em resposta à convocação dos soviéticos ou em busca de uma segurança 
que não tinham nos países de origem, devido às suas posições políticas, todos esses emigrantes foram considerados 
potenciais espiões. Era, pelo menos, o motivo que figurava com mais frequência em sua notificação de condenação. 


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Uma das emigrações mais precoces foi a dos antifascistas italianos, a partir de meados dos anos 20. Muitos 
deles, que acreditavam encontrar no “país do socialismo” o refugio de seus sonhos, ficaram cruelmente decepcionados 
e foram vítimas do terror. Na URSS, em meados dos anos 30, viviam cerca de 600 comunistas e simpatizantes 
italianos: perto de 250 quadros políticos emigrantes e 350 alunos que frequentavam cursos nas três escolas de formação 
política. Como muitos desses alunos deixaram a URSS após o término de seus estudos e uma centena de militantes 
partiram para lutar na Espanha, em 1936 e 1937, o Grande Terror abateu-se sobre os que ficaram. Cerca de 200 
italianos foram presos, geralmente “por espionagem”: 40 foram fuzilados - dos quais 25 foram identificados; os 
restantes foram enviados ao Gulag, tanto para as minas de ouro de Kolyma quanto para o Cazaquistão. Romolo 
Caccavale publicou um comovente livro no qual ele retraça o itinerário e o destino trágico de várias dezenas desses 
militantes. 

Um exemplo entre outros: Nazareno Scarioli, um antifascista que fugiu da Itália em 1925, chegando a Berlim e 
depois a Moscou. Acolhido pela seção italiana do Socorro Vermelho, ele trabalhou numa colônia agrícola dos arredores 
de Moscou durante um ano e depois foi transferido para Yalta, para uma colônia onde trabalhavam duas dezenas de 
anarquistas italianos sob a direção de Tito Scarselli. A colônia foi dissolvida em 1933, e Scarioli voltou a Moscou e foi 
contratado por uma fabrica de biscoitos. Ele participava regularmente das atividades da comunidade italiana. 

Vieram os anos do Grande Expurgo. O medo e o terror desagregaram a comunidade italiana; todos poderiam 
ser vítimas da suspeita de um de seus compatriotas. O responsável comunista Paolo Robotti anunciou ao Clube Italiano 
a detenção de 36 emigrantes como “inimigos do povo”, todos trabalhadores em uma fabrica de rolamentos de esferas. 
Robotti obrigou a assistência a apoiar a detenção desses operários que ele conhecia muito bem. Durante a votação por 
braços erguidos, Scarioli votou contra, tendo sido preso na manhã seguinte. Torturado em Lubianka, assinou uma 
confissão. Deportado para Kolyma, trabalhou numa mina de ouro. Vários foram os italianos que tiveram a mesma 
sorte, e muitos deles morreram: o escultor Arnaldo Silva, o engenheiro Cerquetti, o dirigente comunista Aldo Gorelli, 
cuja irmã se casara com o futuro deputado comunista Siloto, o antigo secretário da seção romana do PCI, Vincenzo 
Baccala, o toscano Otello Gaggi, que trabalhava como porteiro em Moscou, Luigi Calligaris, operário em Moscou, o 
sindicalista veneziano Cario Costa, operário em Odessa, Edmundo Peluso, que convivera com Lenin em Zurique. Em 
1950, Scarioli, que pesava apenas 36 quilos, deixou Kolyma, mas permaneceu na Sibéria, obrigado a trabalhar como 
um escravo soviético. Ele só foi anistiado e reabilitado em 1954. Após seis anos de espera, ele obteve um visto que lhe 
permitiu retornar à Itália, com uma magra pensão. 

Esses refugiados não foram somente comunistas, membros do PCI ou simpatizantes. Havia também os 
anarquistas que, perseguidos, escolheram ir para a URSS. O caso mais conhecido é o de Francesco Ghezzi, militante 
sindical e libertário, que chegou à Rússia em junho de 1921 para representar a União Sindical Italiana junto à 
Internacional Sindical Vermelha. Em 1922, ele dirigiu-se para a Alemanha, onde foi preso. O governo italiano, que o 
acusava de terrorismo, decidira pedir sua extradição. Uma campanha ativa evitou que ele fosse enviado para as prisões 
italianas, mas ele teve de regressar à URSS. No outono de 1924, Ghezzi, que se ligara principalmente a Pierre Pascal e 
Nikolai Lazarevitch, teve os seus primeiros atritos com a GPU. Ele foi detido em 1929, condenado a três anos de prisão 
e internado em Souzdal, em condições criminosas para um tuberculoso. Seus amigos e correspondentes organizaram, 
na Franca e na Suíça, uma campanha a seu favor. Romain Rolland (num primeiro momento) e depois outros assinaram 
a petição. As autoridades soviéticas responderam fazendo correr o boato de que Ghezzi era um “agente da embaixada 
fascista”. Libertado em 1931, Ghezzi retomou o seu trabalho na fábrica. No fim de 1937, ele foi novamente preso. Mas, 
dessa vez, foi impossível para seus amigos no exterior obter qualquer tipo de informação sobre seu destino. Ele foi 
dado como morto em Vorkuta, no fim de agosto de 1941. 

Quando, em 11 de fevereiro de 1934, em Linz, os responsáveis do Schutzbunã, a Liga de Proteção 
Republicana do Partido Socialista Austríaco, decidiram resistir a todos os ataques vindos dos Heimwehren (a Guarda 
Patriótica) que visavam à interdição do Partido Socialista, poderiam eles imaginar o destino de seus camaradas? 

O ataque dos Heimwehren em Linz obrigou os social-democratas a desencadearem uma greve geral em Viena 
e, depois, uma insurreição. Após quatro dias de violentos combates, com Dollfuss vitorioso, os militantes socialistas 
que escaparam da prisão ou do campo de concentração preferiram cair na clandestinidade ou fugir para a 
Tchecoslováquia a continuarem a lutar na Espanha. Muitos deles decidiram procurar refúgio na União Soviética, 
convidados a fazer essa escolha pela intensa propaganda que já conseguira insuflá-los contra a direção social- 
democrata. Em 23 de abril de 1934, 300 homens chegaram a Moscou, seguidos até o mês de dezembro por outros 
grupos menos importantes. A embaixada alemã recenseou 807 Schutzbiindler emigrados para a URSS.? Contando as 
famílias, cerca de 1.400 pessoas encontraram refugio na União Soviética. 

O primeiro grupo que chegou a Moscou foi acolhido pelos responsáveis do Partido Comunista Austríaco 
(KPO), e esses combatentes desfilaram pelas ruas da capital. Eles ficaram a cargo do Conselho dos Sindicatos. Cento e 
vinte crianças, cujos pais haviam caído nas barricadas ou sido condenados à morte, foram recolhidas e enviadas por 


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algum tempo para a Criméia e, mais tarde, instaladas em Moscou, 68 no lar das crianças nº 6, especialmente aberto com 
essa intenção. 

Após algumas semanas de repouso, os operários austríacos foram distribuídos pelas fábricas de Moscou, 
Kharkov, Leningrado, Gorki e Rostov. Eles logo se decepcionaram com as condições de vida que lhes eram impostas, 
obrigando os dirigentes comunistas austríacos a intervir. As autoridades exerciam pressão para que adotassem a 
nacionalidade soviética; em 1938, cerca de 300 o fizeram. Em contrapartida, grupos inteiros de Schutzbiindlereraií-ram 
em contato com a embaixada austríaca, pedindo a sua repatriação. Em 1936, 77 conseguiram regressar à Áustria. 
Segundo a embaixada alemã, um total de 400 teria feito a viagem de retorno até a primavera de 1938 (depois do 
Anschluss, em março de 1938, os austríacos tornaram-se súditos do Reich alemão). Cento e sessenta haviam ido à 
Espanha combater ao lado dos republicanos. 

Muitos nunca conseguiram sair da URSS. Contam-se hoje 278 austríacos presos desde o fim de 1934 até 1938. 
Em 1939, Karlo Stajner encontrou em Norilsk um vienense, Fritz Koppensteiner, mas ignora o que lhe aconteceu. 
Alguns foram executados, como Gustl Deutch, antigo responsável do bairro de Floridsdorf e ex-combatente do 
regimento “Karl Marx”, sobre o qual os soviéticos publicaram um livro intitulado Os Combates de Fevereiro em 
Floridsdorf (Moscou, Prometheus-Verlag, 1934). 

Quanto ao lar para crianças nº 6, ele também não foi poupado. No outono de 1936, começaram as prisões entre 
os pais que haviam sobrevivido; os filhos ficaram sob a autoridade do NK VD, que os internou em seus orfanatos. A 
mãe do escritor Wolfgang Leonhard foi presa e desapareceu em outubro de 1936; somente no verão de 1937 foi que o 
filho recebeu um postal dela, proveniente da República dos Komis. Ela havia sido condenada a cinco anos em campo 
de concentração por “atividades contra-revolucionárias trotskistas”. 


A trágica odisseia da família Skdek 


Em 10 de fevereiro de 1963, o jornal socialista Arbeiter Zeitung relatou a história da família Sladek. Em 
meados de setembro de 1934, a Senhora Sladek e seus dois filhos juntaram-se, em Kharkov, a Josef Sladek, marido e 
pai, antigo Schutzbundlere antigo funcionário de Semmering refugiado na URSS. Em 1937, o NKVD iniciou as prisões 
na comunidade austríaca de Kharkov, bem mais tarde do que em Moscou e em Leningrado. A vez de Josef Sladek 
chegou em 15 de fevereiro de 1938. Em 1941, antes do ataque alemão, a Senhora Sladek pediu para deixar a Rússia e 
dirigiu-se à embaixada alemã. No dia 26 de julho, o NKVD prendeu-a, assim como a seu filho Alfred, de 16 anos, 
enquanto Victor, de 8 anos, foi enviado a um orfanato do NKVD. Os funcionários do NKVD quiseram a todo custo 
arrancar uma “confissão” de Alfred: bateram-lhe, dizendo que a mãe havia sido fuzilada. Devido ao avanço das tropas 
alemãs, mãe e filho foram evacuados e se reencontraram por acaso no campo de Ivdel, nos Urais. A Senhora Sladek 
havia sido condenada a cinco anos num campo de concentração por espionagem, e Alfred Sladek a dez anos por 
espionagem e agitação anti-soviética. Transferidos para o campo de Sarma, lá encontraram Josef Sladek, que havia sido 
condenado, em Kharkov, a cinco anos de prisão. Mas foram novamente separados. Libertada em outubro de 1946, a 
Senhora Sladek teve designada como sua residência a cidade de Solikansk, nos Urais, local onde o marido veio se 
juntar a ela um ano mais tarde. Tuberculoso e com problemas cardíacos, Josef Sladek estava incapacitado para o 
trabalho. Foi mendigando que o antigo ferroviário de Semmering desapareceu, no dia 31 de maio de 1948. Em 1951, 
Alfred foi por sua vez libertado e pôde reunir-se à mãe. Em 1954, depois de árduas negociações, puderam voltar à 
Áustria e a Semmering. Eles haviam visto Victor pela última vez sete anos antes. As últimas notícias dele datavam de 
1946. 


Os iugoslavos presentes na Rússia em 1917 e que lá ficaram por livre vontade somavam, em 1924, de 2.600 a 
3.750 pessoas. A esses juntavam-se os operários das indústrias e especialistas vindos da América e do Canadá, com o 
respectivo material, para participar da “edificação do socialismo”. Suas colônias encontravam-se espalhadas por todo o 
território, de Leninsk a Mag-nitogorsk, passando por Saratov. Entre 50 e cem deles participaram da construção do 
metro de Moscou. Tal como as outras, a emigração iugoslava foi reprimida. Bozidar Maslarítch afirmou que eles 
sofreram “o destino mais cruel”, acrescentando: “Na sua grande maioria, foram presos em 1937-1938, e o seu destino é 
totalmente desconhecido...”. Apreciação subjetiva, alimentada pelo fato de várias centenas de emigrantes terem 
desaparecido. Atualmente, continua a não haver dados definitivos sobre os iugoslavos que trabalharam na URSS, 
especialmente sobre os que participaram da construção do metro de Moscou e que foram duramente reprimidos por 
terem protestado contra suas condições de trabalho. 

No fim de setembro de 1939, a partilha da Polônia entre a Alemanha nazista e a Rússia Soviética, decidida 
secretamente em 23 de agosto de 1939, tornou-se efetiva. Os dois invasores coordenaram as suas ações de modo a 
assegurarem o controle da situação e da população: a Gestapo e o NKVD colaboraram. As comunidades judaicas 
estavam separadas: de um total de 3,3 milhões de pessoas, cerca de dois milhões viviam sob domínio alemão; depois 


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das perseguições (sinagogas incendiadas) e das matanças, veio o confinamen-to nos guetos: o de Lodz foi criado em 30 
de abril de 1940; o de Varsóvia, organizado em outubro, foi fechado em 15 de novembro. 

Diante do avanço do exército alemão, vários judeus poloneses haviam rugido para o leste. Durante o inverno 
de 1939-1940, os alemães não tentaram interditar a passagem pela nova fronteira. Mas os que tentavam a sua sorte 
tinham de enfrentar um obstáculo inesperado: “Os guardiães soviéticos do 'mito de classe', envergando longos 
sobretudos e barretes de peles, de baioneta erguida, recebiam os nómades que procuravam a Terra Prometida com cães 
policiais e rajadas de metralhadora. “ De dezembro de 1939 a março de 1940, os judeus permaneceram encurralados 
numa terra de ninguém, de um quilómetro e meio de largura, na margem oriental do rio Bug, obrigados a acampar a céu 
aberto. A maioria regressou à zona alemã. 

L. C. (matrícula 15.5), soldado do exército polonês do general Anders, testemunhou essa incrível situação: “O 
território era um setor com 600-700 metros, onde estavam amontoadas cerca de 700-800 pessoas, havia já algumas 
semanas; 90% eram judeus que tinham escapado à vigilância alemã. [...] Estávamos doentes, completamente 
ensopados, naquele terreno encharcado pelas chuvas do outono, apertando-nos uns contra os outros sem que os 
humanitários! soviéticos se dignassem a nos dar um pouco de pão ou de água quente. Eles nem sequer deixavam passar 
os camponeses das redondezas, que queriam fazer alguma coisa para que permanecêssemos vivos. Como resultado, 
deixamos muitas sepulturas naquele pedaço de terra. [***] Posso afirmar que as pessoas que regressavam a suas casas 
no lado alemão tinham razão para o fazer, pois o NKVD não era, de nenhum ponto de vista, melhor do que 

73 Gustaw Herling, Un monde àfart, Denoel, 1985. 


a Gestapo alemã, com a diferença de que a Gestapo matava as pessoas mais depressa, enquanto o NKVD matava e 
torturava de uma forma mais terrível do que a própria morte, de maneira que aqueles que conseguiam, por milagre, 
fugir às suas garras ficavam inválidos até ao fim de suas vidas...” Simbolicamente, o escritor Israel Joshua Singer fez 
com que seu herói - que, por ter se tornado um “inimigo do povo”, havia fugido da URSS - morresse nessa terra de 
ninguém. 

Em março de 1940, várias centenas de milhares de refugiados - há quem avance o número de 600 mil - viram 
lhes ser imposto um passaporte soviético. Os acordos sovieto-nazistas previam uma troca de refugiados. Com as 
famílias separadas, a penúria e o terror policial exercido pelo NKVD se agravando a cada dia, alguns decidiram 
regressar ao lado alemão da antiga Polônia. Jules Margoline, que se encontrava em Lvov, na Ucrânia Ocidental, relata 
que na primavera de 1940 os “judeus preferiam o gueto alemão à igualdade soviética”. Naquele momento, parecia-lhes 
mais fácil deixar o Governo Geral para atingir um país neutro do que tentar a fuga via União Soviética. 

No começo de 1940, as deportações começaram a atingir os cidadãos poloneses (ver a contribuição de Andrzej 
Paczkowski) e prosseguiram até junho. Poloneses de todas as religiões foram deportados, em trens, para o Grande 
Norte ou para o Cazaquistão. O trem em que viajava Jules Margoline levou dez dias para chegar a Murmansk. 
Excelente observador da sociedade dos campos de concentração, Margoline escreveu: “O que distingue os campos 
soviéticos de todos os outros locais de detenção existentes no mundo não são apenas as suas extensões imensas, 
inimagináveis, nem as suas mortíferas condições de vida. É a necessidade de mentir incessantemente para salvar a vida, 
mentir sempre, usar uma máscara durante anos e nunca poder dizer o que se pensa. Na Rússia soviética, os cidadãos 
Tivres' são igualmente obrigados a mentir. [...] Assim, os únicos meios de autodefesa são a dissimulação e a mentira. Os 
comícios, as reuniões, os encontros, as conversas, os jornais em murais são envolvidos por uma fraseologia oficial que 
não contém uma só palavra verdadeira. O homem do Ocidente muito dificilmente compreenderá o que significa a 
privação do direito e a impossibilidade, durante cinco ou dez anos, de se exprimir livremente, a obrigação de reprimir o 
menor pensamento 'ilegal' e de ficar mudo como um túmulo. Sob essa incrível pressão, toda a substância interior de um 
indivíduo se deforma e desagrega.” 


A morte dos prisioneiros 41 e 42 


Membro do Bureau da Internacional Operária Socialista, Victor Alter (nascido em 1890) era funcionário 
municipal em Varsóvia; ocupava a presidência da Federação dos Sindicatos Judaicos. Henryk Erlich foi membro de 
Conselho Comunal de Varsóvia e redator do jornal diário iídiche Folkstaytung. Ambos pertenciam ao Bund, o Partido 
Socialista Judeu da Polônia. Em 1939, eles se refugiaram na zona soviética. Alter foi preso em 20 de setembro, em 
Kowel, e Erlich em 4 de outubro, em Brest-Litovsk. Transferido para a Lubianka, Alter foi condenado à morte em 20 
de julho de 1941, por “atividades anti-soviéticas” (ele era acusado de ter liderado uma ação ilegal do Bund na URSS, 
em ligação com a polícia polonesa). Essa condenação, pronunciada pelo Colégio Militar do Supremo Tribunal da 
URSS, foi comutada em dez anos de internamento num campo de concentração. No dia 2 de agosto, Erlich foi também 


condenado à morte pelo Tribunal Militar das Forcas Armadas do NKVD de Saratov; no dia 27, a sua pena foi 
igualmente comutada em dez anos de prisão num campo. Libertados em setembro de 1941, na sequência dos acordos 


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Sikorski-Maiski, Alter e Erlich foram convocados por Beria, que lhes propôs a organização de um Comitê Judeu contra 
os nazistas, o que eles aceitaram. Retirados em Kuibychev, eles foram mais uma vez presos, em 4 de dezembro, e 
acusados de terem mantido relações com os nazistas! Beria ordenou que fossem postos em total segredo: a partir desse 
momento, eles passaram a ser os prisioneiros nº 41 (Alter) e nº 42 (Erlich), dos quais ninguém devia conhecer os 
verdadeiros nomes. Em 23 de dezembro de 1941, considerados cidadãos soviéticos, foram novamente condenados à 
morte (artigo 58, parágrafo 17), por traição. Nas semanas que se seguiram, eles enviaram, em vão, diversas petições às 
autoridades; provavelmente ignorando a condenação que lhes fora aplicada. Em 15 de maio de 1942, Henryk Erlich 
enforcou-se na sua cela. Até a abertura dos arquivos, acreditou-se que tinha sido executado. 

Victor Alter ameaçou suicidar-se. Beria ordenou então que a vigilância fosse redobrada. Victor Alter foi 
executado no dia 17 de fevereiro de 1943. A sentença de 23 de dezembro de 1941 foi pessoalmente aprovada por 
Stalin. Muito significativamente, a sua execução aconteceu pouco depois da vitóri